Veganismo Pelas Margens: Outras Vozes Mostram o Movimento Para Além da Elite

Quando o veganismo é posto na mesa para ser discutido, uma das respostas mais comuns para se negar o movimento é a dificuldade financeira em criar uma dieta sem produtos de origem animal. Há quem até tenha tentado trocar a carne por uma alternativa “equivalente”, normalmente produtos processados como salsicha de soja, mas viu como resultado o encarecimento nas compras. Mas a verdade é que esses produtos não são necessários (pelo contrário) para uma alimentação saudável e livre de crueldade animal. Para quebrar esse paradigma de uma vez por todas, vamos falar de veganismo, consumo e hábitos alimentares pelo olhar das margens.

Por que pensamos que o veganismo é caro? Existe toda uma construção social para essa ideia, que parte, inicialmente, de como o movimento chegou ao Brasil. Apesar de haver registros de textos já propagando a ideia do vegetarianismo na década de 20, como o livro “Proteção aos Animais”, do jornalista Carlos Dias Fernandes, foi quando a contracultura punk bateu nas portas brasileiras que o conceito começou a ser mais difundido por aqui. Segundo o artigo Difusão do Vegetarianismo e Veganismo no Brasil a Partir de uma Perspectiva de Transnacionalização, em meados dos anos 80 e anos 90, o movimento punk e straight edge [1] começaram a perpetuar o veganismo entre os jovens ligados na cena musical britânica.

Esses jovens, majoritariamente (porém não só) integrantes das classes A e B, traziam a concepção do velho mundo da não crueldade aos animais e a aplicavam no seu dia a dia, na sua vivência e difundiam as ideias por meio de zines e “verduradas”. Em contrapartida, as classes D e C viam o crescimento em suas rendas como oportunidade para comprar mais proteína de origem animal. De 1986 a 2005, o consumo per capita de carne bovina no Brasil cresceu cerca de 23,2% e, a partir de 1999, ele se apresentou constante. Nesse sentido, a proteína de origem animal, especificamente a carne bovina, pode ser entendida como um elemento de demarcação de classe.

Um outro fator importante e responsável por contribuir com essa ideia de veganismo como movimento de elite é a lógica da necessidade de trocar a proteína animal por algo similar. Isso porque fomos ensinados a enxergar a carne como o alimento principal de um prato. A famosa “mistura” só falta no prato de quem não tem como comprá-la. No país onde tem mais gado do que gente, a publicidade ajudou a construir essa ideia de necessidade e importância dada à carne. E isso segue acontecendo. Recentemente, um estudo americano que liga depressão a uma alimentação sem carnes foi, na verdade, financiado pela indústria pecuária.

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Mas não existe uma real necessidade de trocar a proteína de origem animal por um produto industrializado que “simule” sua presença no prato. Linguiças de soja com sabor de carne, hambúrgueres e demais condimentos vão, de fato, encarecer o valor final das compras no mercado, além de serem alimentos ultraprocessados, que devem ser consumidos com parcimônia. O Guia Alimentar População Brasileira, de 2014, do Ministério da Saúde, aponta que tal tendência tem como consequência o desequilíbrio na oferta de nutrientes e ingestão excessiva de calorias.

O guia recomenda uma alimentação baseada em uma variedade de alimentos in natura, ou minimamente processados, pois possuem mais energia e nutrientes por grama e dá dicas de combinações de alimentos de origem vegetal que se completam no ponto de vista nutricional, como: cereais e leguminosas (arroz e feijão), cereais com legumes e verduras (arroz com Jambu), tubérculos com leguminosas (tutu de feijão) e cereais ou tubérculos com frutas (arroz com pequi ou farinha de mandioca e açaí). As indicações do Guia Alimentar são tão claras e diretas sobre a necessidade de uma alimentação baseada em frutas, legumes, leguminosas, olegienosas e vegetais que a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) tem vontade de alterá-lo para fazer caber seus produtos.

Esse entendimento coletivo da necessidade de proteínas de origem animais colocou tão bem que “muita gente acha que você vai precisar suplementar várias vitaminas, ter uma alimentação cheia de vários produtos industrializados”, como conta a comunicadora social e vegana Carla Candace. “As pessoas vão no mercado e encontram maionese sem ovos por R$ 15, leites vegetais chegando a R$ 30”. O status da carne também provoca um sinal de escassez quando a mesma falta no prato. “Quem é pobre sempre soube que comer sem carne não é caro. Mas estamos dentro de uma estrutura nos dizendo que precisamos comer carne o tempo todo, caso contrário ficará doente”, reflete ela. Mas tanto médicas como também nutricionistas estão ajudando a quebrar este tabu.

Para Carla, outro ponto que favorece essa percepção de veganismo enquanto movimento de elite está relacionado às pessoas consideradas vozes do movimento até pouco tempo atrás: normalmente pessoas brancas e de classe média ou alta. “Eu acreditei nisso durante muito tempo. Quando era ovo-lacto-vegetariana[2], eu dizia que não seria vegana, porque era muito caro. Foi chocante quando descobri que gastava mais comendo carne, queijo, leite e ovo, se comparado às opções de origem vegetal”, afirmou ela.

A oceanógrafa, cantora e adepta do veganismo Priscilla Karen percebeu que também enxergava o veganismo dentro de uma “bolha” da elite brasileira. “Eu só via pessoas majoritariamente brancas consumindo esses produtos. Era difícil ter esse diálogo com pessoas de outras classes sociais”, explica. Com o tempo, Priscilla percebeu que eram justamente os produtos industrializados os responsáveis por tornar : “as grandes indústrias acabam dominando o mercado, criando produtos similares ao da carne, colocando preços altíssimos, quando, na verdade, deveria ser uma ressignificação dessa forma de consumo”.

Ellen Monielle é outro nome debatendo veganismo acessível nas redes e provando na prática. “Quando me tornei vegetariana, em 2015, eu só tinha como referência alguns canais no Youtube, a maioria sendo gringos”, relata, “o começo do meu vegetarianismo foi basicamente sobre comer alimentos industriliazados ou coisas difíceis de encontrar por aqui como mirtilos e outros ingredientes pouco comuns no Brasil porque eu achava que era isso que tinha que comer”. Quando adotou o veganismo, Ellen aprendeu a pensar na acessibilidade de produtos, a buscá-los em feiras, na agricultura familiar. Hoje, ela acredita que tudo é questão de criatividade e se arriscar na cozinha, com os alimentos disponíveis na geladeira.

Criar essa relação de proximidade com a cozinha é um dos fatores essenciais para aprender a diversificar a alimentação e explorar novas combinações. Priscilla conta que não teve dificuldade para fazer a transição porque passou a cozinhar e, a Vegamar, sua empresa, lhe deu mais motivação para criar pratos. “Eu sempre falo que ser vegano não é sinônimo de ter saúde. Você pode ser o vegano que busca se alimentar o mais natural possível ou ser o vegano que continua consumindo produtos industrializados, similares aos que você consumia antes”, afirma, “por isso que se cria um pouco essa coisa de dizer que ser vegano é caro. Não é caro se você produzir seu alimento ou for na feira comprá-lo e cozinhá-lo”.

Além de buscar alimento nas feiras, conheça também a CSA – Comunidade Que Sustenta Agricultura e espaços como o Armazém do Campo, que comercializa produtos diretamente do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Busque também zonas cerealistas ou lojas que vendam a granel. Alguns exemplos são: a zona cerealista de São Paulo, localizada no Brás, a pouco mais de 300m do Mercado Municipal; as Casas Pedro, espalhadas por diversos bairros no Rio de Janeiro; o Mercado Municipal de Curitiba; e as lojas do centro de Fortaleza. Muitas dessas lojas inclusive já contam com serviços de entrega. Em fevereiro de 2019, a Veja SP comparou preços da zona cerealista de São Paulo: um pacote de 1kg de arroz integral tipo 1 estava em torno de R$ 4,50 em um rede de supermercados, enquanto na zona, o produto a granel saia por R$ 2,90.

Confira as dicas da Priscilla, Ellen e Carla para uma refeição completa. E acompanhe elas no Instagram para ver mais.

 

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