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No Escuro e Sem Água: Em Bailique, Erosão, Falta de Luz e Salinização do Amazonas Se Tornaram Desafios Permanentes

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  • Rayane Penha
  • Juliana Aguilera
Imagens

Ilustração: Victória Lobo

Fotos: Ianca Moreira

26 min. tempo de leitura
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Há 180 quilômetros de Macapá, o arquipélago do Bailique, maior colégio eleitoral do Amapá, corre risco de desaparecer devido à crise climática, danos ambientais e abandono do poder público.

Eram quase 6h da manhã, os primeiros raios de sol tocavam as águas cor de sépia do Amazonas. Olhei o horizonte distante, do lado direito da pequena embarcação que viajamos há quase 10h, uma vila, Itamatatuba, a primeira comunidade a ser avistada quando vamos de Macapá à Bailique. A beleza do banzeiro dos rios não denunciam as enxurradas de violações que se vive a partir dali, onde começa o arquipélago amapaense, com aproximadamente 8 ilhas e cerca de 57 comunidades habitadas por ribeirinhos da região. 

Atualmente, existem aproximadamente 13 mil habitantes em Bailique, de acordo com os levantamentos da Prefeitura de Macapá e dos próprios moradores. O número é quase o dobro do que foi registrado no último censo de 2010. A população é composta por pescadores e extrativistas que ocupam há mais de um século a região do arquipélago, a maioria descendentes de povos indígenas da Amazônia. 

Bailique é o maior colégio eleitoral do Amapá. Geralmente, as eleições majoritárias, tanto para o governo do estado quanto para a prefeitura de Macapá, são definidas a partir dos votos do arquipélago. No entanto, a relação atual do poder público com as comunidades é de total abandono. Quando chegamos à região, a maioria das comunidades estavam há mais de três meses sem energia elétrica. Antes disso, a luz chegava esporadicamente, mas não durava nem uma hora. 

Enquanto o barco seguia rio adentro, observava perplexa como lugares localizados dentro da floresta, em minhas últimas visitas, já estavam na beira do rio. Metade da estrutura de residências e comércios da Vila de Itamatatuba adentrou o território de mata para escapar do aumento do nível das águas e da erosão das margens do Amazonas. Há dois anos não voltava à ilha, lugar que sempre me fez sentir em casa desde a primeira vez que a conheci. Naquela época, as terras já caiam, mas a intensidade dos eventos está se acelerando de forma rápida e visível. 

Meu pensamento foi interrompido pelo barulho da catraia que encostava no barco para pegar um carregamento de água destinado aos comerciantes da Vila. Uma mulher encosta ao meu lado na beira do barco e começa a lamentar sobre a situação da água no Bailique ao ver a catraia levando o carregamento de água mineral. 

Ela é Geovana Marques, de 34 anos, moradora da Vila Macedônia, a segunda maior vila do arquipélago. “Bailique já foi muito melhor… Em questão de saúde, de energia, já foi muito melhor. Hoje tá caído, abandonado o nosso arquipélago. Já foi muito bem cuidado pelo poder público, hoje em dia a gente se sente abandonado. É essa a nossa realidade, nos sentimos abandonados por todos”, relata. 

Até 2014, o arquipélago tinha acesso à energia elétrica através de geradores mantidos pelo governo do Estado do Amapá. Com a implementação do Linhão do Tucuruí, algumas comunidades passaram a ser atendidas somente por ele, como a do Limão do Curuá. No Bailique, a implementação do linhão nunca teve sucesso e ao longo desses anos a comunidade vive no escuro. O único acesso à energia elétrica é de quem pode ter um gerador ou instalar placas solares nas residências. 

A interligação de energia elétrica que passa pelo rio Amazonas liga a região do Tucuruí no Pará, Amapá, Amazonas e Roraima (ainda não finalizado). O projeto foi licitado em 2011 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), ainda no governo de Dilma Rousseff (PT). A Equatorial Energia é a empresa responsável pelo fornecimento de eletricidade à Bailique. 

Na Macedônia, comunidade onde Geovana mora com a família, é ainda mais difícil de se ver algum resquício de energia. Quase nenhum dos moradores tem gerador nem placa solar: “aqui a nossa energia era de geradores. Aí vieram com esse projeto de linhão e a gente pensava que ia melhorar a situação, né? E veio a piorar mais e mais. Nós estamos sofrendo com isso há uns seis, sete, oito anos. Desde quando foi implantado esse linhão, nunca mais a gente soube o que é ter energia”, relembra a moradora. 

… aqui a nossa energia era de geradores. Aí vieram com esse projeto de linhão e a gente pensava que ia melhorar a situação, né? E veio a piorar mais e mais. Nós estamos sofrendo com isso há uns seis, sete, oito anos. Desde quando foi implantado esse linhão, nunca mais a gente soube o que é ter energia…

Geovana Marques

Geovana não vê muitas possibilidades de funcionamento do projeto do linhão no arquipélago. A realidade da fiação dentro do rio, os postes sendo derrubados com os processos de erosão e a ausência de reparos faz com que a população siga desacreditada que um dia Bailique possa ter acesso à energia elétrica. Para eles, a única solução viável seria o retorno dos geradores para as comunidades.  

Terras caídas, ilhas que bailam 

Fator essencial para o não funcionamento do projeto do Linhão do Tucuruí é a erosão das margens que as ilhas vêm sofrendo. As “terras caídas”, como os moradores chamam esse acontecimento, impossibilitam que os postes de energia se mantenham de pé. Sobretudo no inverno amazônico, onde há intensificação das chuvas, os postes caem, os fios se rebentam e a companhia de eletricidade não consegue restabelecer o fornecimento de energia. O processo de erosão intensificado já fez ilhas inteiras do arquipélago desaparecerem. Especialistas apontam que nas comunidades Vila Progresso e Macedônia, a erosão avança em uma média de 10 metros por ano, o equivalente a um prédio de mais de 3 andares.

A erosão avança em uma média de 10 metros por ano

Nas comunidades Vila Progresso e Macedônia, a erosão avança em uma média de 10 metros por ano, o equivalente a um prédio de mais de 3 andares.

Orleno Marques, 34 anos, engenheiro ambiental e pesquisador do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do estado do Amapá (IEPA), desenvolve há mais de 20 anos pesquisas na região do Bailique e pontua que as erosões causam um impacto direto na vida das pessoas. O que se observa nas comunidades é que há graves prejuízos provocados pela erosão, como a perda de infraestruturas como linhas de transmissão de energia, assim como casas, escolas e estações de tratamento de água”, explica. 

Já para o pesquisador e Pró-Reitor de Pesquisa e Pós Graduação da Universidade Estadual do Amapá (UEAP),  Gabriel Araújo, 33 anos, que trabalha desde 2016 com o arquipélago através do Núcleo de Desenvolvimento Territorial Sustentável, o termo “terras caídas” não é o correto para se referir ao fenômeno que ocorre no arquipélago. De acordo com os estudos realizados pelo Núcleo de Pesquisa, o que ocorre é um processo natural de erosão, porém a intensificação desta ação é o fator estranho ao ambiente. “‘Terras caídas’ é um processo que acontece no baixo e médio Amazonas. No Bailique, não é um fenômeno de terra caída pensando nos termos técnicos, é um processo de erosão natural. Essas Ilhas são erodidas 1 que sofreram erosão da região atual e reconstituídas em outra região (do arquipélago)”. 

De acordo com os estudos realizados pelo Núcleo de Pesquisa, o que ocorre é um processo natural de erosão, porém a intensificação desta ação é o fator estranho ao ambiente.

Gabriel salienta que a aceleração da erosão pode estar sofrendo influência antrópica, mais especificamente das usinas construídas na região, que alteraram a hidrodinâmica do rio, principalmente pela mudança na foz do rio Araguari. “Logo, a água em Bailique se comporta de uma forma diferente do que a séculos atrás”, esclarece, “isso faz com que essa erosão seja mais acentuada nas ilhas”. O professor ainda explica que a própria construção do arquipélago nasce desse processo de erosão e reconstituição das ilhas. Tanto os pesquisadores quanto os comunitários pontuam que o nome “Bailique” nasce do termo “ilhas que bailam, ilhas que dançam”. 

Orleno ressalta que, desde os primeiros registros da região nos anos de 1970, os satélites já captavam essa dinâmica. “Desde essa década, as imagens nos dão conta de como o arquipélago é dinâmico nas modificações da paisagem”, afirma. Ele explica que só é possível fazer esse levantamento a partir da pesquisa e ressalta a importância de continuar o monitoramento contínuo dos fenômenos que ocorrem na região. E, para isso, é necessário recursos financeiros. 

Sem luz, mas com conta

Hoje, na Comunidade do Arraiol, a energia é boa, afirma a professora e integrante do Movimento das Mulheres do Bailique Diana Araújo, de 46 anos. Antes, a comunidade dispunha de apenas 4h de energia por dia – das 18h às 20h. Hoje, a população desfruta da luz das 15h às 23h. “Alguns dias temos energia das 9h até o meio dia e das 15h às 23h de novo”, relata, “aumentou bastante, dá pra fazer um bom trabalho já. Eu não sei te dizer se é uma situação que vem com a política, como é de governo, aí você já imagina”. 

Os homens da comunidade foram pro mato, roçaram, colocaram poste e teve a energia. Quando dá chuva forte, as árvores caem em cima dos fios e eles rebentam. [Uma vez] os homens foram arrumar o fio, disseram que a chave estava desligada e não estava”, relata, “um deles foi pegar o fio e morreu na hora mesmo. A comunidade sentiu muito com a morte dele, foi uma falta de atenção do governo. Ele viveu e morreu por essa energia.

Josicléia Soares

Já na Comunidade do Limão do Curuá, a precariedade da energia chegou até a causar uma morte. Josicléia Soares, 20 anos, é integrante da Associação das Mulheres Extrativistas do Limão do Curuá e conta que a comunidade só teve energia por ter se organizado e demandado da prefeitura. Ainda sim, essa história não teve final feliz. “Os homens da comunidade foram pro mato, roçaram, colocaram poste e teve a energia. Quando dá chuva forte, as árvores caem em cima dos fios e eles rebentam. [Uma vez] os homens foram arrumar o fio, disseram que a chave estava desligada e não estava”, relata, “um deles foi pegar o fio e morreu na hora mesmo. A comunidade sentiu muito com a morte dele, foi uma falta de atenção do governo. Ele viveu e morreu por essa energia”. 

A situação energética varia entre as mais de 50 comunidades da região, mas muitas passam por uma mesma questão: a cobrança de energia elétrica mesmo sem o serviço prestado. O resultado disso é que muitas pessoas da comunidade relatam ter o nome inserido nos serviços de proteção de crédito, como o SERASA, por contas de luz não pagas, mesmo sem nunca haver energia elétrica em suas casas. Muitas descobrem essas dívidas ao irem à Macapá fazer compras. Na hora do pagamento, o crédito não era aprovado devido a dívidas com a então companhia de eletricidade do Amapá. 

Postes de distribuição de energia elétrica não fica em pé por muito tempo. Chuva e erosão derrubam postes e rebentam os cabos.
A infra-estrutura de fornecimento de eletricidade não é adaptada para a realidade ambiental do Bailique.

É o caso de Elsa Gomes, também da Vila Macedônia, uma senhora de 55 anos, nascida e criada no Bailique. Arrimo de uma família de 10 filhos, a pescadora que sustentou todos eles com a pesca e açaí, nos conta indignada que “o nome do pessoal do Bailique tá quase tudo no Serasa, por causa dessa energia que não existe. Eles querem que a gente pague energia que nós não usamos e não estamos usando. A gente vai pagar uma coisa que a gente não está usando? A gente já não tem condições de comprar água para tomar, para tomar um banho, uma água doce. A gente vai pagar, cinco, seis mil reais de uma energia que a gente não usou, não tá usando?”.  

Embora seja possível encontrar alguns postes de energia que quando anoitece iluminam as palafitas, graças à captação de energia solar localizada, para os moradores não faz diferença. Elsa continua: “o prefeito mandou colocar uma energia aqui nesse poste. Quando é a boca da noite, chega uma energiazinha que alumia só o pé do poste lá. Será que o prefeito pensa que o povo vai comer lá debaixo do pé do poste? Que nós vamos fazer a comida no escuro dentro da nossa casa, e vamos comer lá no pé do poste? Eu acho que é isso que o prefeito está pensando!”.

Em nota, a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), a partir da sua privatização gerida pelo grupo Equatorial Energia disse: “A CEA informa que tem atuado, desde a chegada do Grupo Equatorial, na melhoria do fornecimento de energia nas comunidades do Arquipélago do Bailique. Inicialmente, tem sido feito um trabalho de manutenção corretiva e preventiva na rede”. A empresa ainda ressaltou que a partir de março irá executar um plano de ação que consiste na execução dos seguintes serviços: remanejamento da rede elétrica da área das margens do rio para a terra firme nas comunidades da Vila Progresso e Vila Macedônia, substituição de postes de concreto por fibra de vidro, retirada de vegetação em pontos críticos da rede, entre outras atividades.

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A CEA não comentou sobre o fato de diversos moradores do arquipélago estarem com o nome no SERASA com dívidas de uma energia elétrica que não existe no Bailique. A assessoria apenas pontuou sobre um caso específico que foi apresentado e disse que a dívida do morador é relacionada a um parcelamento de conta de 2019 a 2020 e que a empresa já entrou em contato com o morador para negociação da dívida e regularização da situação. 

A assessoria do Ministério Público Estadual (MP-AP) informou que o MP realiza “ações pontuais” através do “MP Comunitário” e Justiça Itinerante no arquipélago. A assessoria acrescentou ainda que: “a situação é acompanhada pela Justiça Itinerante, quando o promotor é designado a acompanhar a viagem”. Porém, no quadro do MP não consta nenhum Promotor responsável pela Justiça Itinerante. A assessoria não soube informar se existe um acompanhamento específico sobre as problemáticas da água e da energia no Bailique e afirmou estarem trabalhando em regime de redução de pessoal devido a pandemia. 

A prefeitura de Macapá não respondeu às tentativas de contato. 

Ilhadas e sem água 

A conversa com Elsa foi interrompida pela chuva forte. Ela corre para abrir a tampa de uma pequena caixa d’água localizada estrategicamente embaixo do cano de escoamento da calha. Quando a caixa enche, é a vez de aparar o que ainda for possível em baldes e bacias. Essa é a forma que ela e a família encontraram para ter água doce depois que água do rio Amazonas ficou salgada. “Todos esses dias eu estava pedindo pra Deus que chovesse, que desse uma chuvada”, diz, enquanto corre para aparar a água da chuva que usam para beber e fazer a comida. 

Nos dias em que não chove, a forma dos moradores terem água potável é indo de “catraia”, pequena embarcação motorizada, ou remando em busca de igarapés, braços do rio Amazonas onde a água ainda está doce. Nós acompanhamos algumas famílias que saem todos os dias na enchente da maré em busca de água doce. De catraia, levamos cerca de 30 a 45 minutos para chegar em um local onde o rio ainda está doce. Mas muitas famílias mais pobres vão a remo e demoram muito mais tempo para chegar, como é o caso de Ane do Carmo, 25 anos, que encontramos buscando água junto de suas vizinhas e crianças. Elas são um grupo de mulheres que todos os dias se ajudam na busca de água doce para beber. 

Uma enche a água da outra, só numa maré. Tudo no balde, que não tem energia também, né? Tem que ser tudo no balde. Tem que ter a união no meio de nós, para ajudar uma a outra como mulher.

Ane do Carmo

Ane é mãe de 3 filhos e moradora da Vila Progresso, a principal vila do arquipélago do Bailique. Encontramos o grupo a bordo de uma canoa. Na pequena embarcação, levava alguns baldes de água e várias garrafas PET. “Uma enche a água da outra, só numa maré. Tudo no balde, que não tem energia também, né? Tem que ser tudo no balde”, conta. Para ela,  a relação com as vizinhas é de irmandade, pois todos os dias elas apoiam uma à outra nesta atividade. Durante a maré cheia, com os igarapés mais fundos, elas fazem várias viagens por dia para conseguir abastecer a casa de todas. “Tem que ter a união no meio de nós, para ajudar uma a outra como mulher”, explica.

Mais acima no igarapé avistamos Francisco Barros de Almeida, conhecido como “Chicão”, um pescador de 48 anos, morador da Vila Macedônia. Ele estava dentro do rio, com uma canoa cheia de galões vazios para serem enchidos e retornados para casa com água doce, prática que, segundo ele, já virou rotina. “Já são dois anos assim. Pra gente que tem família, tenho que deixar outros trabalhos pra vir atrás de uma água melhor, principalmente pra gente tomar, porque a gente não tem condições de estar comprando, a água se tornou cara também”, relata.

A água doce também é usada para as mulheres tomarem banho. Nesse caso, elas são a prioridade já que a água salgada deixa a pele cheia de feridas. Há outro fato que nos chamou atenção em seu relato: Chicão é hipertenso e diz sempre se sentir mal ao entrar na água salgada. Já Diana narra um episódio sobre ver crianças tomando água salgada quando, durante a pandemia, visitava as casas mais humildes para entregar as lições de casa. “Chegar na casa do aluno e ver que ele estava tomando água salgada doía tanto”, relata, “a gente é usado pelo poder público pra dizer que aqui está um estado de calamidade. Vem repasse federal que some e não aparece, dói bastante”.

Chegar na casa do aluno e ver que ele estava tomando água salgada doía tanto, a gente é usado pelo poder público pra dizer que aqui está um estado de calamidade. Vem repasse federal que some e não aparece, dói bastante.

Diana Araújo

A prefeitura de Macapá e o governo do Estado fazem ações recorrentes para levar água potável para o Bailique, mas nenhuma delas é, de fato, efetiva. No site do governo, é comum ver as notícias sobre as doações de água para os moradores do Bailique. Já em outubro, o mesmo destinou uma estação de tratamento de água para a região. Instalada na capital, a estação tem capacidade de produzir 10 mil litros de água potável por hora – que será captado por 12h, completando os reservatórios da balsa destinada às comunidades. 

Ainda sim, as medidas não abastecem toda a população. Diana explica que “a prefeitura quando vinha pra Zona Norte, a Zona Sul já tinha recebido. Quando terminavam as entregas na Zona Norte, a Sul já tinha acabado há muito tempo”. 

O que seria resolutivo para os moradores? Diana sugere a doação de caixas de 10 mil litros para as comunidades se organizarem, e também a perfuração de poços. “De repente, a gente tem água doce bem pertinho e não sabe. Ninguém faz nada ƒedisso, essas ações concretas”, reforça.  O agente distrital do arquipélago, Marlon Teixeira, 41 anos, afirma que a prefeitura contratou um pesquisador para realizar um estudo sobre a água e que a solução encontrada é a construção de cisternas. Mas como ficam as comunidades enquanto o projeto de cisternas não sai do papel? Por ora, seguem os envios esporádicos de água potável. Segundo o representante, que chama o fornecimento de água de “doação”, a atual gestão forneceu mais de três mil fardos de água para Bailique. 

Chicão é um dos exemplos desse caso – ele recebeu fardos, mas eles não duraram muito tempo. “Deram quinze pacotes de água, mas quinze pacotes de água para uma pessoa que tem a família grande não resolve o problema. Aí agora a gente tem que vir pegar, tem dias que a gente vem pegar uma água, dá uma água boa, mas tem dias que dá uma água meia salubre, aí os intestinos das crianças esbandalham e a gente corre pro posto de saúde”, lamenta.

A salinização da água do rio Amazonas também afeta diretamente a alimentação dos moradores da região. “O peixe da água doce vai embora e nem da água salgada está tendo quase, parte da alimentação, né? Tudo isso prejudica nós aqui” , explica o pescador.  Apesar de novas espécies de peixes de água salgada aparecerem no Bailique, a quantidade para suprir a população é insuficiente. 

Para além da necessidade biológica do consumo de água doce, e da mesma para os afazeres cotidianos, as pessoas estão vivendo uma mudança drástica e brusca na forma de viver e de se relacionar com o rio. Não é mais possível utilizar a água para banho, para consumo e não tem peixe suficiente para comer, quem dirá para vender. 

Chicão se diz muito abalado ao ver o rio em que nasceu e foi criado em tal situação. Hoje, a realidade é de voltar para casa, muitas vezes, sem ter nada para oferecer à família com fome. “Às vezes, a gente não tem dinheiro. Eu sou pescador, em casa a minha renda só é disso. A gente não tem outro tipo de ganho se não sair pra pescar, mas nessa situação, que tá difícil o pescado, fica complicado”, explica. 

Antes, era possível pegar cerca de 100 quilos de peixe por dia e o dinheiro da venda era destinado para comprar os mantimentos básicos para a família. Hoje, a pesca não é suficiente nem mais para alimentar diretamente a ele, a esposa e os onze filhos. Uma das alternativas que muitos pescadores e pescadoras encontraram foi rumar a alto mar mas, para muitos, os gastos não compensam, pois é preciso passar ao menos um mês no oceano para fazer uma boa pescaria. 

Amazonas de águas salgadas 

Há dois anos, a salinização das águas do rio Amazonas na região do arquipélago do Bailique vem se tornando cada vez mais forte. Inicialmente, era apenas em comunidades próximas ao oceano Atlântico, no litoral do Amapá, onde esse processo acontecia. Atualmente, as águas salgadas do rio Amazonas atingem milhares de pessoas que moram no arquipélago, embora não aconteça na mesma intensidade em todas as ilhas. A maioria dos moradores relata que esse fenômeno acontecia de vez em quando e mais na época do verão amazônico, onde diminuem as chuvas e aumenta o volume de água do oceano no rio. 

Outros relatam que esse era um fenômeno da época dos “antigos”, algo que foi presenciado por outras gerações. Elsa nos conta que quando tinha 13 anos a água ficou salgada, mas nada comparado ao que acontece nos dias atuais. “A água salgada é a maior tristeza! É assim que a gente tá, sentindo muito”. Diana, que coordena o setor norte da associação de mulheres, composto por oito comunidades, conta que, apesar da tentativa de se organizarem no período do verão, nem todo mundo conseguiu fazer isso. “Antes, o período (de salinização) era menor, vinha uma semana e passavam duas sem vir água salgada. Esse ano ficou direto e muitas famílias não conseguiram se adequar a essa situação”, explica.

… a hipótese mais aceitável é o aumento do nível do mar, do oceano Atlântico. Porém, não há dados confiáveis para essa região [em específico], então não temos como comprovar essa hipótese. A segunda é a mudança na foz do rio Araguari, mudando a dinâmica do rio e fazendo com que o mar ‘entre’ mais facilmente. 

Gabriel Araújo

Gabriel atualmente desenvolve uma pesquisa sobre qualidade de água e de alimentos das comunidades e o processo de salinização das águas do rio Amazonas na região. O professor diz que, atualmente, há duas suspeitas para o acontecimento: “a hipótese mais aceitável é o aumento do nível do mar, do oceano Atlântico. Porém, não há dados confiáveis para essa região [em específico], então não temos como comprovar essa hipótese. A segunda é a mudança na foz do rio Araguari, mudando a dinâmica do rio e fazendo com que o mar ‘entre’ mais facilmente”. 

O estudo, que deve ser finalizado em 2023, busca como resultado a criação de filtros de baixo custo que possibilitem a dessalinização da água já que, segundo o pesquisador, a atual situação na região é irreversível. A pesquisa e o protótipo do filtro serão apresentados à prefeitura de Macapá e ao governo do estado, como alternativa para comunidades do arquipélago acessarem água potável.

Os estudos realizados pelo professor na UEAP coincidem com os relatos de moradores, que coincidem com a construção das hidrelétricas. “Essa trajetória relatada pelos comunitários coincide com a construção das hidrelétricas do rio Araguari e a diminuição do fluxo do mesmo. Com a consequente alteração da sua foz, o rio Araguari, hoje, deságua no rio Amazonas e pode ter mudado a hidrodinâmica, fazendo com que a água do rio Amazonas se torne salinizada por mais tempo”, detalha. 

Gabriely e Isabele ainda tentam pescar e nadar no Amazonas, mas já não se sentem tão seguras conforme a alga salgada altera o ecossistema local.

Para as netas de Elsa, as primas Isabele, 11 anos, e Gabriely, de 9 anos, o rio é tudo. “O rio é bacana, dá para gente pescar, dá para fazer qualquer coisa”, afirma Gabriele. Hoje os maiores medos das meninas, que já se dizem pescadoras, é a possibilidade do Bailique inteiro ir para o fundo, devido às erosões e a água continuar salgada. “Eu cresci aqui… Eu não queria ir embora também. Se continuar caindo, aí a gente vai embora. Eu pensei que ia cair até aqui só e ia parar”, diz Isabele enquanto aponta para o quintal da casa onde as caídas de terra já estão próximas. 

As crianças contam que é difícil a adaptação de pescar na água salgada e que têm medo das novas espécies de animais que podem aparecer no rio. “Eu fico com medo desses peixe que aparece novo aqui na água salgada. De repente aparece alguma coisa grave na água”, diz Gabriely. “Porque já encalhou uma baleia alí, numa praia”, Isabele complementa a prima. As primas se referem ao episódio que ocorreu em 2018, quando moradores encontraram uma baleia Jubarte morta encalhada na Ilha Vitória.  

O problema se intensificou. As prováveis causas são a bubalinocultura extensiva sem controle, barragens em sequência no rio Araguari, uso e ocupação da terra e elevação do nível do mar.

Alan Cavalcanti

O professor e pesquisador Alan Cavalcanti,  do curso de Engenharia Civil da UNIFAP (Universidade Federal do Amapá), trabalha há alguns anos com pesquisas relacionadas à qualidade da água na região do Bailique e afirma que o episódio da morte da Baleia Jubarte possa sim ter haver com a mudança na hidrodinâmica do rio. Ele pontua alguns danos que essa mudança causa: alteração da qualidade da água, mudança das populações de peixes e outros componentes da biota local; salinização das águas; problemas de abastecimento de água potável; erosão; acreção;  mudanças no padrão das correntes e das marés. “O problema se intensificou. As prováveis causas são a bubalinocultura 2criação de Búfalos extensiva sem controle, barragens em sequência no rio Araguari, uso e ocupação da terra e elevação do nível do mar”, finaliza. 

Para os pesquisadores, a crise climática pode atuar no avanço do nível do mar, que influi na salinização das águas do rio Amazonas, porém poucas pesquisas estão sendo desenvolvidas na região do Bailique. Atualmente, o grupo de pesquisa da UNIFAP é financiado com recursos privados e de instituições sem fins lucrativos. Já os pesquisadores do IEPA (Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá) realizam pesquisas há mais de 20 anos no Bailique, mas também enfrentam dificuldades. Devido à ausência de investimentos, eles não conseguem realizar as pesquisas de forma mais aprofundada. Orleno ressalta a importância do investimento em pesquisas para que sejam realizados estudos sobre os fenômenos climáticos  no arquipélago.

Outro fator de influência antrópica apontado pelos pesquisadores é a construção de três usinas hidrelétricas na região do rio Araguari, localizado na parte sudeste do estado do Amapá. Uma delas, Coaracy Nunes, foi construída em 1976 e é a mais antiga usina hidrelétrica da Amazônia. Nos últimos anos, foram construídas Ferreira Gomes Energia, em 2014, e a Cachoeira Caldeirão, em 2017. Somente a Usina de Coaracy Nunes fornece energia para o estado do Amapá, as demais geram energia para o restante do país.  A da Cachoeira Caldeirão, inclusive, foi apontada pela população como “inviável”, pois seria mais uma intervenção no rio já enfraquecido. Mas sua voz foi ignorada.

O imperativo da migração

Migrar para a cidade em busca do mínimo de dignidade se apresenta como solução para os habitantes do arquipélago, mas não é o que a maioria deseja. As tantas dificuldades hoje estabelecidas no Bailique parecem pequenas quando perguntamos às pessoas que ali vivem se escolheriam ir embora. Para eles, o que dói mesmo é ficar longe do rio e abrir mão das práticas de subsistência de quem vive na Amazônia. 

Para quem já tentou a vida na cidade, como no caso de Ane, não foi fácil. “Eu já saí, mas me arrependi muito. Eu não durei um ano. Não quis mais, tive que vir embora. A dificuldade é muito grande em Macapá”, relembra. Ane ainda conta que o marido, pescador, nunca conseguiu trabalho na capital enquanto, no arquipélago, ela e a família conseguem se organizar para sobreviver mesmo com todas as dificuldades. “Aqui a gente ainda se vira, tudo a gente faz junto com elas [as vizinhas]. A gente sai pra gapoiar 3expressão local referente a ir pescar, mas em uma quantidade pequena , pra pescar”, explica, “tudo a gente faz, só mulher. É assim que é a vida da gente, e lá não tinha como fazer isso”. Na época em que a extração do açaí está em alta, ela diz que a renda da família cresce, pois uma saca de açaí custa cerca de R$ 120. O lucro da venda do fruto amazônico possibilitou à família comprar a pequena casa de madeira onde moram. 

Um pouco mais para dentro da ilha de Vila Progresso, a principal ilha do arquipélago, mora dona Neidina Barbosa, mais conhecida como “dona Gata”, uma senhora que não sabe exatamente quantos anos tem. Originalmente, sua casa ficava distante da beira do rio porque Neidina vivia fugindo das áreas de queda, mas o processo de erosão intensificado trouxe sua casa para o meio da vila. Chegamos e logo avistei dona Gata na rede, balançando. Pergunto como ela está. Sempre nessa peleja, né gatinha? Sempre nessa peleja”, responde. 

Ao conversar com dona Gata sobre a situação do Bailique, sinto que ela representa bem o sentimento de todos os moradores. Quando pergunto sobre água, ela desabafa sobre um todo: “a água salgada me deu até uma cara branca, lá sei. Fiquei amodo triste, né? Que o pessoal estava se mudando, indo embora, caindo as quedas, né? Iam-se embora…. Aí ainda tinha um pouco de energia, né, mana, depois acabou a energia, pronto. Eu não tenho motor. Peço a água do vizinho aqui. Vizinho ainda tem uma placa solar, motorzinho… E eu não tenho nada. Aí eu vou lá, peço uma garrafa de água, ele me dá, eu coloco uma lá, pronto. A minha vida é essa”. 

A senhora afirma que mesmo se cair todo o arquipélago, ela encontraria outra ilha para viver, mas não iria para a cidade. “Eu gosto do interior, eu gosto de plantar, eu já comi muita banana. Quando você veio, essa bananeira aqui quase não tinha cacho, encheu de cacho. Só banana daí eu já poupei bem uns dez cachos. Aí fora o açaí que deu, minha filha, deu açaí, açaí, que se estragou açaí aqui, estragou. Agora eu já tô derrubando as altas (açaízeiras), pra ficar só a baixa. Porque eu sou papa açaí, minha filha, papa açaí. Se não tiver açaí pra mim, eu não encho minha barriga, não encho, não”, afirma.

Organização coletiva

Apesar da precariedade, o arquipélago do Bailique é referência para outras comunidades ribeirinhas da região amazônica por ter se organizado e criado um próprio protocolo comunitário de gestão sustentável, em 2013. O documento tem o intuito de gerar emprego e renda a partir da proteção e manejo sustentável do território e dos saberes ancestrais dos povos que habitam o local desde o século XIX (ou até antes, como os próprios moradores contam).  

O açaí, identificado por Amiraldo como “principal economia da região”, é uma alternativa para fortalecer a renda dos moradores que encontram dificuldade na pesca, por conta da salinização.

De acordo com Amiraldo Picanço, presidente da Cooperativa Amazonbai e integrante da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB), esse foi o primeiro processo de organização das comunidades. Através de diversas oficinas, o grupo encontrou demandas, como uma vontade de trabalhar a rede produtiva de açaí, pescado, plantas medicinais, óleos vegetais e legalização fundiária. Foram criados grupos de trabalho, como das mulheres e de jovens. 

O açaí, identificado por Amiraldo como “principal economia da região”, é uma alternativa para fortalecer a renda dos moradores que encontram dificuldade na pesca, por conta da salinização. O documento final trata de temas como “como definir quem é e quem não é da comunidade?”, “valores” e “uso de recursos naturais”, além de mencionar áreas que necessitam de novas regras, como controle do lixo desordenado, controle de venda de terrenos para fazendeiros e proteção de peixes que estão sofrendo degradação. 

Amiraldo afirma que, em 2022, o protocolo será atualizado – novamente possuindo um ano de consulta das comunidades para reorganizar suas principais demandas. Atualmente, as mulheres da Associação Das Mulheres Extrativistas do Limão do Curuá buscam firmar formalmente sua organização. “É muita burocracia”, desabafa Josicléia, “(mas) precisamos para emitir notas e vender o óleo de abacaxi para as empresas”. Diana conta que o grupo é grande e faz um elogio: “o trabalho é feito na prensa e o abacaxi sai sem nenhum cheiro, sai um óleo bem limpo”.

Apesar das dificuldades instaladas em Bailique nas últimas décadas, Diana pontua como a organização social das comunidades favoreceu a resistência das mulheres locais: “a gente trabalha com os homens na coleta do açaí. O IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil), junto com a Amazonbai, estão fazendo um plano de ação com nós mulheres, para que a gente saia desse anonimato e mostre nosso potencial com trabalho”. Segundo ela, com essa contrapartida, as mulheres conseguem “ter um novo olhar, ver que são capazes de fazer um diferencial na vida das famílias”. 

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