Falar de Moda Antirracista Exige Reconhecer e Incluir as Pessoas Indígenas

“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify, iTunes ou Deezer.

Quem veio conversar conosco no episódio #21 do Backstage foi a stylist e ativista Dayana Molina. Por trás da sua marca minimalista Nalimo, Molina divide um pouco de sua história, seus processos criativos, como ela começou a trazer seu ativismo para dentro do seu trabalho e a luta constante para ocupar esse espaço na moda sendo mulher indígena. Ela compartilhou conosco o que a motivou a entrar na moda, o racismo que sofreu nessa indústria e o que a tem mantido firme nessa trajetória. A história da stylist começa com sua bisavó, costureira no sertão Pernambucano, mas poderia também começar há 520 anos atrás, com a subjugação do corpo indígena.

  

Para Molina, a moda é um ambiente familiar. Quando adolescente, ela criava e modificava suas próprias roupas, escolhia tecidos de vestido, costurava roupas para outras pessoas apenas olhando para os corpos delas. Apesar disso, ela não se imaginou trabalhando no setor quando decidiu cursar comunicação social. Mas, para se manter na faculdade, ela aceitou o convite de um amigo em trabalhar com figurino em um ateliê. E, ali, descobriu que amava brincar com criações, produzir a história das roupas, contar algo através de seu olhar.

Em 2010, Molina teve a oportunidade de ir estudar na Argentina e trabalhou como stylist para algumas revistas de moda no país. Dali em diante, começou a desenvolver editoriais, campanhas e retornou ao Brasil. Há 4 anos, fundou a Nalimo, marca minimalista com proposta sustentável, que traz consigo visibilidade para pauta antirracista e outras problemáticas do setor da moda. “Antes de criar a Nalimo, eu me questionei muito se precisava, de fato, colocar mais uma marca no mundo, porque eu acho que já tem muitas. Mas eu entendi que nenhuma delas contemplava aquilo que eu acredito e defendo”, explica.

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Racismo, exclusão e luta pelo pertencimento

Molina ressalta que seu olhar sobre a moda passa pela esfera criativa e está longe da relação de consumo tradicional. Estar nesse meio trouxe pequenos choques com profissionais que trabalharam com ela, como as cobranças para que ela publicasse seus “looks do dia”, ou o racismo posto de forma cômica ao chamá-la de “indiazinha” ou “Potira”. “Eu não quero falar do look do dia”, afirma, “eu quero falar sobre problemas reais. As pessoas ainda têm uma ideia muito fantasiosa que indígenas são iguais, que estão na floresta. ‘Indiazinha’ não existe, existem indígenas”.

Apesar de estar neste meio há 15 anos, Molina só começou a se sentir confiante em dar voz aos seus questionamentos publicamente a 5 anos atrás. Ela conta que não se sentia confortável em falar sobre sua etnia no início e que falar destas questões hoje em dia também é uma forma de se libertar e se curar. Marina pergunta como ela vê a necessidade de inclusão na moda e as forças que isso deve ser feito.

Para a estilista, existem várias questões como, por exemplo, olhar e reconhecer que existem indígenas que querem trabalhar neste mercado criativo e que não podem. “Essa exclusão é um reflexo de um Brasil colonial que odeia nossa face, nossa presença e que repudia que a gente esteja nesses lugares”, discorre, “esse mesmo Brasil colonial enxerga a gente nas terras indígenas, mas não na cidade, nos bastidores, muito menos nas revistas”.

 

Visibilidade indígena para um mundo ideal

Molina considera sua atuação na moda como uma atuação política: “eu não tenho mais esse desejo de ser uma grande profissional reconhecida no mundo todo. Esse desejo é muito bobo. Hoje, o meu único grande desejo é que haja igualdade social”. Marina reforça como o espaço da moda é um setor excludente e hostil e pergunta à Molina se ela sente, após tantos anos, uma presença maior de pessoas indígenas na indústria? Ela nos responde que não.

A luta para pertencer a este local é diária, ao ponto que Molina não consegue criar uma coleção apenas por criar. Ela nos conta como é difícil não pensar no genocídio constante sofrido pelos povos indígenas apenas por estes desejarem continuar em suas terras. Para ela, embora muitas vezes ela desejasse, não é possível só ser criativa ou pensar apenas na estética das roupas quando se é mulher indígena no Brasil. “Quando falo em pauta antirracista, falo sobre criar visibilidade para essas causas”, afirma.

Com a Nalimo, ela cria outras provocações, como a contraposição ao estereótipo de que, para que as peças sejam associadas aos povos indígenas, elas precisam ter certos padrões de referência, como grafismos. A marca minimalista também vai de encontro com o formato de produção por temporada: as roupas são feitas de acordo com seu processo particular, seu tempo, pensando em armário cápsula, em diminuição de consumo. Molina adiciona que, ao empreender desta forma, ela também pratica sua militância.

Para encerrar a conversa, a estilista explica que sempre se permite se emocionar ao falar destas questões tão importantes, mas tão doidas. Ao carregar tantas memórias, convivendo diariamente com uma política genocida, e falar delas, ela trabalhar seu processo de cura, de desintoxicação por todo os anos que esteve dentro da indústria calada. “É chegado o tempo que a gente não pode mais silenciar, compactuar com tudo isso”, reflete.

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