Por Que Nosso Feminismo Precisa Ser Interseccional

Texto escrito por Jarune Uwujaren, publicado originalmente no Everyday Feminism e traduzido com autorização para o Modefica.

Um equívoco sobre interseccionalidade é acreditar que ela encoraja divisão e exclusão no movimento feminista. Ao incluir raça, classe, sexualidade e outros marcadores sociais da diferença nas análises feministas, algumas pessoas afirmam que o feminismo interseccional está espalhando as ações e minando a unidade do movimento feminista.

O problema com essa linha de pensamento é que um feminismo único para todas as pessoas, capaz de olhar apenas para o terreno comum entre mulheres, gera apagamento ao invés de inclusão. Mesmo que todas as mulheres lidem com sexismo, nem todas as mulheres lidam com sexismo racializado ou transmisoginia, por exemplos.

Passar por cima das questões enfrentadas por grupos específicos de mulheres pelo bem da unidade acaba por centrar o movimento feminista em quem tem mais privilégios e visibilidade. Permite a quem já tem um espaço desproporcional no movimento aparentar que está cedendo espaço para outras pessoas, mas sem abrir mão de um pouco de espaço elas próprias.

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Um feminismo único para todas é para o feminismo intersecicional o que o #AllLivesMatter (#TodasAsVidasImportam) é para o #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam). A tentativa de inclusão do primeiro pode apagar o reconhecimento de um problema único que afeta desproporcionalmente um grupo específico de pessoas.

 

3 Maneiras de Praticar Interseccionalidade no Feminismo

A interseccionalidade deve ser mais do que trabalho intelectual. Deve ser fundamentada em uma ética da prática feminista que combina teoria crítica, como a de Kimberlé Crenshaw, com o trabalho individual e o ativismo.

As seguintes sugestões mostram formas de incorporar uma ética interseccional em nossa prática diária do feminismo.

1. Auto-reflexão

A interseccionalidade exige que procuremos deliberadamente dentro de nós mesmas – nos lugares onde não entendemos e onde nos sentimos desafiadas. Devemos assumir o desejo de aprender sobre questões e identidades que não nos afetam pessoalmente.

Assim, assumir o difícil trabalho de investigar nosso próprio privilégio é fundamental para o feminismo interseccional.

Temos que ir além de uma compreensão teórica do feminismo e realmente considerar como tratamos as pessoas em nossas vidas diárias. Se não fizermos o trabalho de compreender a nós mesmas e às nossas próprias deficiências, nosso feminismo certamente não será interseccional e responsável.

 

2. Decentrar sua perspectiva

Como feministas, é importante prestarmos atenção ao fato de que o feminismo é mais do que acabar com o sexismo – é também acabar com todos os sistemas de opressão interconectados que afetam diferentes mulheres de maneiras diferentes.

Como alguém de classe média, por exemplo, é fácil não conseguir entender os problemas da pobreza na comunidade negra, apesar de ter conhecimento sobre questões de raça. Da mesma forma, pessoas fisicamente capazes não percebem facilmente as questões em torno do capacitismo, os brancos não notam facilmente o racismo, e as pessoas cis não percebem facilmente a transfobia.

As coisas que nossos privilégios nos permitem dar como certo são as razões pelas quais precisamos de uma análise interseccional para fazer um trabalho feminista verdadeiramente inclusivo. Sem isso, é fácil centralizar o feminismo em torno de nossas próprias experiências ou das experiências daqueles que já são os mais privilegiados na sociedade.

Se não fizermos o trabalho de compreender a nós mesmas e às nossas próprias deficiências, nosso feminismo certamente não será interseccional e responsável.

Portanto, faça um esforço para evitar centrar o feminismo em torno de si mesma ou de pessoas privilegiadas. Como a sociedade é mais propensa a ouvir uma mulher branca falar sobre racismo do que uma pessoa não-branca, por exemplo, as feministas brancas precisam estar conscientes que elas não estão passando por cima de mulheres não-brancas

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Não importa o trabalho que você faz ou quais são seus privilégios, tome cuidado para dar um passo atrás quando as coisas não são sobre você, informe-se sobre coisas que não afetam você e preste atenção quando as pessoas falam sobre as experiências delas.

 

3. Esteja disposta a errar

Não há espaço para o perfeccionismo no feminismo. Isso quer dizer que devemos estar dispostas a errar e aprender com nossos erros no processo do ativismo e do trabalho feminista.

Adotar uma abordagem interseccional não é um processo fácil. Envolve tentar compreender as coisas que são difíceis de entender, ter empatia com pessoas que não são como você, recuar em vez de falar sobre os outros e se abrir para um nível elevado de responsabilidade.

Mas é melhor fazer tudo isso e falhar do que evitar qualquer esforço. Quando as pessoas não se esforçam para ser interseccionais, elas são rápidas em ignorar as experiências vividas por outras pessoas em favor de suas próprias crenças, ficar na defensiva quando chamadas atenção e reclamar que outras pessoas são politicamente corretas ou sensíveis.

É menos construtivo evitar erros e se arrepiar com críticas do que estar aberto a aprender, crescer e se corrigir como parte de um processo contínuo. Então, quando você inevitavelmente se atrapalha ou é chamada atenção por algo, a forma como você responde também importa.

Quando as pessoas chamam atençãos umas das outras no trabalho de justiça social, isso pode ser um ato de amor. É sobre responsabilizar as pessoas e ajudar a garantir que o trabalho realizado por elas seja realmente valioso para quem elas buscam servir.

Não há espaço para o perfeccionismo no feminismo. Isso quer dizer que devemos estar dispostas a errar e aprender com nossos erros no processo do ativismo e do trabalho feminista.

Em vez de levar pro lado pessoal ou ficar na defensiva, reconheça que ser chamada atenção para interseccionalidade não é realmente sobre você ou sobre seu valor como pessoa. Você pode ser uma pessoa perfeitamente boa com boas intenções e ainda fazer algo que sustente estruturas opressivas, então se concentre em ajustar seu comportamento ao invés de isentar-se da opressão sistêmica.

 

O feminismo não está aqui para o seu conforto.

O feminismo interseccional é difícil. Se você está fazendo isso certo, ele deve estar te desafiando, empurrando os seus limites e deixando você desconfortável. Feminismo não é para deixar ninguém confortável.

Muito pelo contrário, o feminismo interseccional deve deixar todo mundo desconfortável porque nunca crescemos ou progredimos quando estamos confortáveis. Nós crescemos quando estamos sofrendo ou lutando ou nos esforçando para entender algo novo.

A dificuldade do feminismo interseccional é uma dificuldade e desconforto capazes de inspirar a mudança. Assim, temos que estar dispostas a assumir o pensamento crítico e o auto-trabalho necessários para empurrar de volta os nossos privilégios e criar uma ética interseccional e uma lente através da qual o nosso feminismo é trabalhado.

A jornada em direção à interseccionalidade é difícil. Você cometerá erros; todos nós vamos cometê-los. Mas se queremos relacionamentos, comunidades ou sociedades construídas sobre a justiça, temos que continuar fazendo esse trabalho.

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