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Minimalismo Também é Estética Para Corpos Gordos e Pretos com Lais Roberta

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“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify, iTunes ou Deezer.

 

 

No episódio 26 do Backstage, nossa editora-chefe, Marina Colerato, recebe Lais Roberta, historiadora e modelo, para um papo sobre romper padrões branco e magros, adentrar espaços elitizados pela moda, as microviolências vividas no backstage e a importância de fortalecer a diversidade de corpos na moda.

Marina inicia o papo com a clássica pergunta: “como você chegou na moda?”. Lais nos conta que o sonho de ser modelo não veio quando criança, até porque, naquela época, não haviam corpos gordos e negros nesse espaço. “Eu nem sou tão velha assim, mas em uma curta linha do tempo, nós não tínhamos essa representatividade (atual)”, explica. A sua maior referência foi sua mãe, que se utilizava do que tinha guardado no armário para criar várias possibilidades. Tudo veio e foi se construindo de forma natural e orgânica, inclusive adentrar ao mundo plus size.

Na escola, por incentivo dos professores, Lais se dedicou aos estudos e, em especial, à história – sua matéria favorita. Foi ali que a raiz começou a ser nutrida. “Fui crescendo e tendo noção do peso disso na minha ancestralidade, história, representação em sociedade”, explica, “no que a minha imagem significa e quem veio antes de mim”. Marina comenta sobre a questão da imagem como fator fundamental para a construção de personalidade e para conseguir imaginar possibilidades para nós mesmas.

Lais retoma a fala endereçando suas experiências no mercado plus size, que vão desde o padrão da gorda sem barriga, que muitos lhe disseram que “é o que vende”, à falta de preparo dos profissionais de beleza para lidar com peles negras e cabelo black power. Ela conta que muitas vezes isso aconteceu com ela e questiona: “cadê esse cuidado do mercado? Cadê esse cuidado para fazer com que essa modelo trabalhe, porque ali ela representa algo. Isso é micro violência”.

A modelo divide sua percepção sobre o movimento de enegrecer os espaços da moda, compartilhando que sente ainda muita necessidade de forçarem ações. “Não vejo que seja de uma vontade voluntária”, explica. Lais vê essa mudança mais como uma preocupação dos consumidores em cobrar a falta de modelos negros nas campanhas, do que realmente um entendimento da importância da representatividade. Elas aproveitam o momento para refletir sobre as cotas no SPFW (São Paulo Fashion Week) e em outros espaços como ferramenta para forçar, em um primeiro momento, a entrada de corpos negros em espaços brancos.

Entra nesse mix a ideia de “intolerância positiva”, quando as pessoas e consumidores não aceitam mais erros como a falta de representatividade em campanhas publicitárias e produtos. O espaço de tempo das empresas se retratarem está menor também – a onda do “cancelamento” explicita isso. Marina adiciona: “a crise vem mais rápida e geri-la dá muito problema”. Para Lais, o movimento de questionamento, de trazer assuntos, pessoas e minorias sociais para o centro é uma sensação de aumentar o “questionamento às estruturas, que são de ferro”. Ela brinca: “a gente vem quase como ferrugem”.

 

Construção imagética e novos pertencimentos

Marina não pode deixar de comentar sobre o senso estético da modelo, visível pelo seu feed no Instagram, que ora dá a impressão que ela é stylist, diretora criativa, ora designer de moda. Mas Lais não tem uma trajetória formal na moda, então de onde vêm esse senso? Ela reforça como sua mãe a influenciou em diversas coisas e como seu senso estético era “um absurdo, muito transgressora”.

Lais gosta de falar sobre o cuidado que tem com a paleta, composições e o minimalismo na sua rede. “Esse é um espaço que eu me vejo. Um espaço de elegância, que tem alfaiataria, cortes, texturas, movimento”, expressa, “faço uma construção imagética com as pessoas. É um lugar muito branco, muito padrão e eu posso pertencer a esse espaço, sou capaz de pertencer a esse espaço”.

O acesso à internet por mais pessoas fora da bolha da elite certamente proporciona que mulheres de todos os corpos, padrões e realidades, estejam presentes em todos esses espaços da moda. Marina pontua que, até pouco tempo, a moda estava junto com a “alta cultura”, com a arte. “Você vai subindo [na pirâmide social], embranquecendo e encarecendo”, afirma. Com a internet, elas concluem, as pessoas criativas tiveram espaço para criarem referências de muitas formas.

O papo se encerra com uma conclusão mais do que necessária: a representatividade, que marca gerações do ‘tombamento’, ‘empoderamento’, não pode ser esvaziada. Marina e Lais discorrem sobre estar nesse papel, na linha de frente, as conquistas e dificuldades de terem “um alvo nas costas”, serem centro das críticas. Lais reflete como a moda está interligada com todo esse movimento de expressão e conquista de espaços. “Minha narrativa faz muito sentido. Às vezes tô no look, look, look, foco na construção daquela imagem, mas também trago as pessoas para aquele lugar de reflexão, de questionamento”, comenta.

Por fim, a modelo convida a todos a irem a seu perfil, verem suas imagens, que se tornam um álbum com texturas e sensações. “Estou feliz de estar nesse lugar hoje, representando e construindo essa identidade imagética que eu sei que é revolucionária”, afirma.

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