Politicamente Incorreto #7: Os Povos do Campo, das Florestas e das Águas em Meio à Pandemia da Covid-19

O Politicamente Incorreto… E Ambientalmente Também é o podcast mensal sobre política e meio ambiente do Modefica. Marina Colerato, editora do site, conversa com pessoas convidadas sobre as  convergências entre Brasília e sustentabilidade, levantando o que está acontecendo em termos de governo e legislação, como entender as manobras e como podemos atuar para interferir nesse lugar, que parece tão distante, mas na verdade está tão perto de nós. Ele vai ao ar na última semana de cada mês. Ouça no SpotifyiTunes ou no seu player preferido.


O novo episódio do Politicamente Incorreto e Ambientalmente Também é e não é sobre o novo coronavírus. Isso porque falamos sobre questões socioambientais relacionadas à pandemia, mas que extrapolam esta crise, como as marisqueiras da Baía de Maracaípe, em Pernambuco, e as fragilidades que elas vêm sofrendo desde o derramamento do petróleo no litoral nordestino em 2019. Outro ponto de debate foi as comunidades indígenas, que estão se articulando por is só para manter o vírus longe de seus territórios – uma luta com invasores que, como bem sabemos, acontece há 500 anos. No momento áudio, falamos sobre como a paralisação das fiscalizações no campo neste momento pode expor trabalhadores rurais à Covid-19 e ao aumento do regime de trabalho análogo à escravidão.

As marisqueiras de Maracaípe

No primeiro bloco, vamos até a Baía de Maracaípe, em Ipojuca, no estado de Pernambuco. Você talvez não conheça a cidade, mas certamente já ouviu falar de Porto de Galinhas, cidade turística vizinha de Maracaípe. A região abriga diversas gerações de mulheres que tiram seu sustento em meio aos manguezais, pescando por horas a fio um tipo de crustáceo chamado Aratu. O Aratu é vendido para bares e restaurantes da região e muitas vezes esta é a única forma de sustento das famílias, muitas vezes lideradas por mães solo. Nesse contexto, já podemos entender a importância dos manguezais para a comunidade. Eles foram atingidos pelo vazamento de óleo em agosto do ano passado e, depois, pela Covid-19.

A vulnerabilidade destas mulheres (não contempladas pela ajuda do governo ano passado à comunidade pesqueira e que ainda enfrentam dificuldade para conseguir o auxílio emergencial), é acompanhado de perto pelas lentes de Bruna Veloso, fotógrafa especializada em direitos das mulheres e meio ambiente. Através do seu instagram, Bruna expõe, aos poucos, o trabalho de mais de seis meses no qual defende que “ser marisqueira é algo que extrapola o ofício”. Ela nos conta o que viu e aprendeu da realidade do grupo, que soma 150 famílias, com média de 4 filhos ou mais: “foram várias surpresas, negativas e positivas. A situação é pior do que a gente imagina. Você acha que elas pescam o aratu e conseguem vender pra rede hoteleira e, na verdade, existe um sistema que elas têm que ser associadas e pagar mensalidade… e a renda dela já é baixíssima”, explica.

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Para estas mulheres, pegar ônibus e ir à associação já se torna uma dificuldade, pelo valor da condução. Elas acabam, então, se tornando trabalhadoras informais que vendem a carne do animal para os bares da região. Em um cenário comum, o fim do verão significa menos vendas. Com a Covid-19, elas estão proibidas de pescar. “A fome já chegou por lá”, nos conta. Bruna se reuniu ao grupo TPM (Todas Para o Mar) para criar um financiamento coletivo, cujo valor das doações é revertido para a compra de cestas básicas para as marisqueiras e suas famílias.

Bruna avalia que o governo falha em distribuir a renda na região: Porto de Galinhas é uma região riquíssima, mas o dinheiro não vai para as comunidades, que têm alto percentual de analfabetismo e pobreza. “Como é uma coisa atrás da outra, pra quem depende muito do governo, qualquer ventinho que bate é um furacão”, reitera. Mesmo com o projeto parado e à distância – Bruna é de Santos-, ela se comunica com as marisqueiras semanalmente para saber como estão e afirma que já percebe que o grupo está tendo efeitos de depressão e ansiedade. “Estas pessoas, além de ficarem isoladas da sociedade, também não têm dinheiro para comer”, explica. Marina completa que a dúvida de não saber quando tudo vai acabar aumenta a ansiedade.

Ela define seu trabalho como um trabalho investigativo. “Você vai para ver um camada maior de uma problemática grande e acaba adentrando outras camadas, mais profundas”, afirma. Bruna encerra conosco lembrando que a função da fotografia não é apenas fotografar e mostrar o que acontece, mas ir além, manter o assunto vivo e trazer soluções que minimizem ou acabem com as crises.

 

Trabalho escravo no campo

No momento áudio, temos o jornalista Fabio Teixeira, correspondente da Reuters no Brasil e especialista em cobertura de tráfico humano e trabalho escravo. Fabio explica como, apesar de necessário, os cortes nas operações de combate ao trabalho escravo no campo pode contribuir para o aumento das explorações dos trabalhadores rurais. Ele conta como são as condições de moradias de trabalhadores que migram do interior da Bahia para trabalhar em fazendas cafeeiras em Minas Gerais e no interior de São Paulo e porquê tais condições tornam impossíveis as medidas de saúde exigidas para evitar a contaminação do coronavírus.

 

O projeto de extermínio da cultura milenar

No segundo bloco, conversamos com Marcia Oliveira, doutora em Sociedade e Cultura da Amazônia; pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia; pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia e assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica e da Cáritas, sobre o processo de desmatamento histórico da Amazônia e como tais atividades causaram – e ainda causam- alterações nas relações socioambientais das comunidades indígenas e da floresta. Marcia volta alguns séculos de história, passando pelas ações cometidas pela ditadura militar, que deixaram raízes drásticas no nosso entendimento e convívio predatório com a fauna e flora local. “A Amazônia é colocada ainda em um patamar, como se fosse um quintal do Brasil e este quintal é olhado como depósito de recursos naturais”, afirma.

Ela sintetiza essa explicação com exemplos de ações predatórias como a pesca, que chegou a exaurir o pescado de algumas regiões. As monoculturas de soja e as pastagens de gado, que invadem o espaço da floresta sem pensar no solo e bioma e toda a relação que esse espaço exerce com a região. “A região vem sendo acionada no campo político com essa finalidade de um projeto economicista”, relata, “não de um projeto de desenvolvimento social e sustentável”. Marcia explica que a Amazônia é o 2º bioma mais frágil do mundo, perdendo apenas para o Ártico. A floresta é forte quando está na forma natural, qualquer intervenção tem resultados drásticos, como territórios que se tornam savana em menos de trinta anos.

Quando acontece o processo de savanização, da retirada da floresta para a criação de pastos de gado, campos de monocultura, o impacto vai além do território desmatado, pois tais atividades não produzem chuvas. A intervenção do ciclo natural da temperatura desregula o clima: “quando você tira a floresta, segue a linha do Equador, sem uma floresta para proteger”, explica. Seus colegas botânicos e ecologistas fazem previsões terríveis: a região, sem as chuvas, pode chegar a 50ºc facilmente. Com isso, a vida torna-se impossível.

A política e discurso que vem do Planalto tem que mudar. Marcia expõe que no campo político não há planejamento para os povos indígenas, ribeirinhos e seringueiros que chegam na cidade, mas há para a ocupação de seus territórios responsável por causar a migração. Ela também aponta a injustiça que acontece com regiões ocupadas, algumas há 20, 25 anos, que estão em processos de desapropriação. O resultado disso, Marcia conclui, é a escandalização das desigualdades sociais, o aumento de conflitos, o aumento da impunidade para os detentores de poder na região e a dificuldade dos povos realocados nas periferias da cidade de se inserir socialmente.

Marina ressalta a fala de Marcia que dentro das comunidades indígenas, elas não só sobrevivem, mas vivem e se organizam entre si, em harmonia com a Natureza. Deslocados, elas se tornam pessoas impossibilitadas disso tudo. Marcia finaliza que, como sociedade, devemos rever o discurso sobre a construção coletiva e o significado dos povos indígenas que, ao longo dos séculos, foi construído de forma negativa. Os conhecimentos dos povos indígenas “são construções históricas de milênios de anos”, reforça.

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