A Crítica e o Bom Jornalismo de Moda Garantem Relevância e Incentivo à Mudança

“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify ou iTunes.

 

Para os saudosos da Elle Brasil e de um jornalismo de moda afiado, capaz de cumprir seu papel e realmente provocar mudanças e renovações constantes na indústria, uma conversa com Susana Barbosa é prato cheio. Com uma trajetória de 24 anos na moda, 18 deles dedicados à extinta publicação de moda, Susana sentou conosco para compartilhar suas experiências na revista Manequim, a passagem para Elle, os tempos áureos da São Paulo Fashion Week (SPFW), como foi presenciar as mudanças nas redações com a revolução digital e o repentino cancelamento da revista pelo Grupo Abril. Em uma aula de jornalismo de moda, ela esclarece qual sua visão para a comunicação de moda e o papel do jornalismo como agente de mudanças de comportamento.

 

 

Seus passos na moda começaram na revista Manequim logo depois de sair do mercado publicitário.“Foi uma grande escola, porque tinha a questão dos moldes. As marcas não queriam emprestar a roupa para fotografar porque tinha essa coisa de sair o molde da peça”, relembra. Susana conta que precisava se aventurar na rua para encontrar roupas legais, já que as marcas mais badaladas da época não queriam apresentar seus moldes. Para ela, esse trabalhou de ir a campo e descobrir outras marcas, aguçou sua visão e conhecimento jornalístico. “Não acho que eu tenha sido uma stylist como a gente vê hoje”, explica, “eu acho que fui uma editora com uma visão jornalística da moda”. Trabalhando porta a porta com a redação da Elle, não durou muito até que ela mudasse para a outra publicação e, assim, começou uma relação duradoura de 18 anos.

Ela também pôde presenciar uma época onde jornalismo tinha muitos recursos para sustentar estruturas que hoje não são mais possíveis, como o extinto Estúdio Abril, um conglomerado enorme de estúdios onde circulavam os mais diferentes profissionais para fotografar e produzir para todos os títulos da editora, de carros à culinária, passando pela moda.  “Tudo acontecia e a gente estava ali vendo o backstage”, relembra ela sem saudosismo, mas ressaltando o quanto isso foi importante para a formação de muitos profissionais, inclusive ela. 

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As Críticas e o Pioneirismo 

Em um mercado que, com o passar dos anos e preocupado com a própria fragilidade, optou por abrir mão das críticas e ficou no conforto dos elogios e das meras descrições, a revista Elle tomou a dianteira em reviver a força do jornalismo crítico de moda. Foi com essa missão que Vivian Whiteman foi para Elle, “não para ser maledicente, mas para fazer críticas construtivas e com embasamento”. Para Susana, a crítica melhora o mercado e aumenta sua relevância, além de entregar um conteúdo capaz de ressoar e fazer sentido para quem lê. Com as informações da colega de redação, a equipe passou a entoar comentários mais avaliativos sobre as coleções e estilistas. A mudança foi positiva para a audiência, que chegava a mandar mensagens como “obrigada por ressuscitar o jornalismo de moda”, mas, por parte das assessorias, as reclamações eram constantes. 

O fechamento inesperado da revista também é posto na roda e Susana refuta a fala de muitos influenciadores digitais de que a revista não soube se adequar ao digital. “A Abril ficou refém do meio revista, que era da onde vinha a maior receita. A Elle estava nos canais digitais antes dos influenciadores. Ela foi a primeira revista de moda a ter um site, gravar vídeo. Mas é como os grandes grupos operam”, explicou. Segundo a ex-editora, a Elle foi a primeira revista de moda feminina brasileira a trazer uma mulher trans na capa, em 2011, com Lea T. Em 2015, veio a famosa capa espelhada, que virou um caso famoso da publicação.Susana conta como a capa foi concebida e o que essa mudança significou para o mindset da equipe da Elle.

A partir daí, a busca de conteúdo e a produção foram feitas de modo a incluir novas narrativas, novas belezas. “A coisa é tão estruturada que ela já vem de um jeito. Se a gente não parar e repensar isso e não fazer o esforço de incluir, essa inclusão nunca vai se dar”. A Elle fechou em 2018, mas Susana não ficou parada nesse meio tempo. Ela nos conta o que anda produzindo e promete novidades em breve. E determina: se for pra fazer um trabalho que seja aquém do que toda a pluralidade que explorou na Elle, nem conte com ela.

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