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Tarcísio Brandão: O Slow-Fashion Brasileiro Com Muita Ginga, Técnica E Responsabilidade Social

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  • Marina Colerato
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Marcelo Soubhia - Agência Fotosite

5 min. tempo de leitura

Na última edição da Casa de Criadores nós fomos conferir de perto o trabalho de Tarcísio Brandão, que já é conhecido entre quem acompanha os desfiles do Projeto Lab, line-up dedicado aos jovens estilistas dentro da Casa, por ter um trabalho extremamente artesanal, desenvolvido através de muita pesquisa e em ritmo slow.

Quando chegamos no backstage para conferir as novidades para o inverno 2015, as modelos estavam quase prontas e logo deu para ter uma ideia do que veríamos no desfile: uma vibe tribo, cores sóbrias e muito técnica manual. Na passarela, o preto e o nude serviram de base para destacar o trabalho com as miçangas e as modelos desfilaram um balance suave de franjas macramê.

O desfile foi um dos mais aplaudidos do dia, em parte porque o trabalho de Tarcísio é muito cuidadoso e encanta, e em parte porque seu manifesto “Fast Fashion Kills”, além de ter sido escrito em tinta nas costas de um modelo totalmente nu, conversa muito bem com uma geração que está repensado o jeito que consome marcas, moda e estilo de vida.

Logo depois de se apresentar na Casa, durante a SPFW, o jovem estilista mostrou suas peças no Salão +B, evento promovido pela ABEST (Associação Brasileira De Estilistas) que visa mostrar o trabalho de brasileiros talentosos na moda, pela primeira vez.

A Modefica entrou em contato com ele, bateu um papo sobre a coleção que vimos na Casa dos Criadores, o manifesto “Fast Fashion Kills” e sua paixão pela moda artesanal.

Mas antes de entrar na parte de perguntas e respostas, quero destacar três projetos do Tarcísio que são ótimos exemplos da moda como forma de ativismo social: O projeto Museu do Labirinto, seu trabalho na Casa Geração Vidigal; e a grade moldável, desenvolvida com materiais reciclados, fácil de montar e desmontar, facilitando o trabalho das rendeiras Labirinteiras. A grade foi feita por um artesão da mesma comunidade das Labirinteiras, no Cumbe do Aracati, Ceará.

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A moda luxuosa e artesanal de Tarcísio Brandão // Reprodução

Conta um pouco sobre sua formação.

Me formei em Desenho de Moda em 2012 na Santa Marcelina. No trabalho de formação foquei na renda labirinto, um trabalho totalmente artesanal e brasileiro.

E quando foi que você começou a se interessar por slow fashion e sustentabilidade na moda?

Sempre me interessei por moda artesanal, por produtos únicos e trabalhos manuais com tecido, adoro todos os tipos de trabalho manual e tenho fascínio sobre pesquisa de matérias têxteis artesanais.

Gosto tanto dessa vertente da moda que tenho um projeto de pesquisa de digitalização têxtil, exatamente para “mapear” todas essas ténicas artesanais e que estão se perdendo com o tempo. É um projeto de pesquisa e catalogação de todo o material têxtil artesanal brasileiro.

No seu último desfile, você focou no macramê. Conte um pouco mais sobre essa técnica e porque você decidiu utilizá-la.

Macramê é uma das primeiras técnicas artesanais criadas, pois não é utilizado nenhum tipo de ferramenta, você forma o tecido entrelaçando e dando nós nos fios. E o macramê foi escolhido justamente pelo entrelace de fios que remetem à miscigenação, o tema da coleção.

Cada coleção eu foco em uma matéria-prima, a primeira foi a renda labirinto e o tricô manual, a segunda o capim dourado, na mais recente trabalhei com as miçangas indígenas e o macramê.

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O desfile anual na Casa de Criadores // Marcelo Soubhia – Agência Fotosite

Como você descobre tecidos e técnicas diferentes?

Pesquisando muito, cada tema eu tento procurar uma nova matéria-prima, estudá-la e entender o processo de produção, para conseguir desconstruir e trabalhar de maneira diferente esse material.

Quem faz os trabalhos manuais das peças?

Vários artesãos, em vários lugares do Brasil. O capim dourado no Jalapão, no Centro-Oeste; as rendeiras labirinteiras no Ceará, Nordeste; o tricô em São Paulo; o macramê no Rio e Brasília; e as miçangas no Xingu, no Pará.

Sempre faço pesquisa de campo estudando diversas técnicas, mas cada vez mais é difícil encontrar artesãos que façam esse tipo de trabalho.

Você tem algum estilista que te inspira?

Não me inspiro em estilista nenhum, me inspiro em artistas plásticos brasileiros, movimentos artísticos, cultura, história, política social, nunca uso de referência de trabalhos de moda, apenas de técnicas artesanais.

Desde quando você se apresenta na Casa de Criadores?

Comecei a desfilar na Casa de Criadores desde do Inverno 2013 com a coleção “The Golden Age Of Brasil”, mas já havia exposto alguns looks em uma exposição em 2012 com a Coleção Labirinto.

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Campanha mostra os acessórios em palha de ouro // Reprodução

E como funciona a venda das peças?

Vendo peças únicas, os acessórios de capim dourado na Gato Bravo e Caligrafia em SP, algumas peças na Casa Soma no Rio, na OS/ON online. O meu calçado em parceria com a Cravo e Canela na Choix em SP e online. E faço peças sob medida, dai é só falar diretamente comigo.

No último desfile, você colocou um modelo nu com os dizermos “fast-fashion kills”. Conta pra gente mais sobre essa ideia, o que você queria que as pessoas pensassem/sentissem?

O manifesto “Fast Fashion Kills” fala sobre o resgate das culturas de origem, sobre educar os compradores e à própria indústria sobre uma moda mais consciente, onde o processo de produção respeita os valores sociais e ambientais, além de ser um questionamento sobre a falta de investimento do governo em relação aos artesãos e trabalhos manuais e a novos criadores.

“Fast Fashion Kills” questiona também o funcionamento das indústrias para obter preços cada vez mais baixos (por exemplo, a questão do trabalho escravo e dos produtos importados de baixo custo), o que acaba resultando na desvalorização da moda nacional e dos trabalhos manuais. O fato de ser impossível competir com empresas internacionais força a moda brasileira a procurar alternativas, a falta de incentivo fiscal para novos criadores e fomento na cultura têxtil brasileira faz com que artesãos desistam de seu principal subsídio de renda. A mão de obra qualificada, como costureiras, alfaiates, bordadeiras, rendeiras, está cada dia mais difícil de encontrar.

Quero fazer as pessoas pensarem sobre se despir para se vestir consciente. O naturalismo como uma grande influência no mundo contemporâneo, o corpo nu como primeira base de manifestação artística. Antes do homem pintar as cavernas ele pintou a si mesmo. O primeiro indício de moda foi a pintura corporal para diferenciação de tribos.

O que você imagina para o futuro? Quais os planos?

Continuar trabalhando com pesquisa, desenvolver uma “indústria” artesanal, que consiga ser exportada e valorizada. Fazer moda social, desenvolver projetos culturais relacionados à cultura têxtil brasileira e propagar essa cultura para o mercado nacional e internacional, além de resgatar técnicas manuais que estão em declínio no momento. Creio que, em suma, ajudar a construir uma identidade de moda brasileira mais forte e feita no Brasil.

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Para o futuro, Tarcísio imagina uma “indústria” artesanal // Reprodução

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