Duas Figurinistas Falam Sobre Moda e Sustentabilidade no Cinema e TV

Cena da série Girlfriends’ Guide to Divorce com figurino de Cynthia Summers // Paul Drinkwater – Bravo
 

Antes de criar minha marca Bead & Reel, passei muitos anos trabalhando em cinema e televisão como figurinista para produções tanto de filmes indie como de séries populares como Castle. Foi essa carreira em figurinos que me ensinou sobre a narrativa por meio das roupas e acendeu minha paixão por ajudar os outros a aproveitar o que vestimos todos os dias para transmitir nossa personalidade e nos fazer sentir confiantes, um tema que trago muito para o meu trabalho com moda e sustentabilidade.

O figurino usa roupas e acessórios para criar personagens – essas escolhas visuais cuidadas ajudam você instantaneamente a identificar um determinado lugar no tempo e espaço, bem como dá pistas sobre a personalidade do personagem, sejam essas pistas literais ou sutis. Apesar de estarmos acostumados a ver essa maneira de contar histórias através de roupas em palcos e telas, também podemos trazê-la para nossas vidas todos os dias, com nossas próprias escolhas de moda, principalmente com relação às escolhas e histórias em torno da nossa relação e tratamento dos outros.

Eu não estou sozinha ao perceber a necessidade de novas histórias sobre o que usamos, por isso fiquei emocionada ao conhecer e entrevistar a estimada figurinista Cynthia Summers, que está liderando o caminho para uma moda mais ética em nossos programas de tv favoritos por meio de seus figurinos. O seu extenso trabalho inclui Bones, Smallville, The L Word, UnREAL, Girlfriends ‘Guide to Divorce e Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events com Neil Patrick Harris, entre (muitas) outras, e seu talento é compatível apenas com a sua compaixão.

Cynthia sentou-se comigo para conversar sobre figurinos, sustentabilidade e algumas de suas marcas favoritas.

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Sica Schmitz: Vamos começar do começo. Qual a diferença entre design de figurino e design de moda?

Cynthia Summers: Há uma enorme diferença. O design de moda está relacionado com roupas para o ready to wear ou alta costura. São roupas criadas para que as pessoas da vida real se expressem através da moda no seu dia a dia. O design de figurino é “moda” para contar uma história, escrita por um grande grupo de pessoas com um objetivo. O roteiro dita na página quem é o personagem e isso informa o que ele veste. Geralmente na câmera, a primeira vez que você vê um personagem, você é imediatamente informado pelo que ele está vestindo: quem é, onde está e o que ele está fazendo ali.

É super importante para todos os envolvidos no filme que o figurino cumpra esse papel. Então, os produtores, diretores, designers de produção e elenco têm uma opinião. O ponto de vista de todos deve ser levado em consideração. Às vezes, meu conceito é aceito logo de cara, às vezes não é e devemos voltar para o ponto zero e começar de novo.

SS: Como todo mundo vê a moda sustentável por um ponto de vista diferente, defina para nós o que é sustentabilidade na moda para você?

CS: Para mim, “moda sustentável” é um termo guarda-chuva que abrange muito território, mas para chegar em uma definição paupável, penso que são “produtos cultivados e produzidos eticamente”. Isso funciona para mim – produção responsável de materiais que são regulados e ambientalmente saudáveis ​​(para humanos, animais e planeta), reciclagem, upcycling, comércio justo, tratamento justo dos trabalhadores e salários justos especialmente para as mulheres e, como um indivíduo, ser responsável pelo seu próprio consumo de moda. Saiba onde, como e quem fez seus produtos.

SS: Há tantos aspectos diferentes a serem considerados sobre sustentabilidade na moda. Tem algum que você considera mais importante para você?

CS: Com o inimaginável dano ambiental e a maneira desanimadora, desagradável e horripilante como os animais são tratados durante e depois de serem criados para uso na indústria da moda e da alimentação é o que eu considero o item número um de “precisa mudar” no movimento sustentável.

SS: Não há muitos designers de figurinos falando sobre moda sustentável. O que provocou seu interesse nessa pauta?

CS: Bem, eu sempre fui uma grande fã de coisas vintage, que eu entendo como sustentável. O reciclar e o upcycling é, como sabemos, uma maneira importante de manter as roupas fora dos aterros e andar de bicicleta com roupas elegantes (risos). Depois disso, me tornar vegana e estar envolvida com um elenco vegano, onde eu poderia usar materiais determinados, realmente me fez ver o que eu estava comprado para minhas criações de figurino e pessoalmente na minha vida também. Então, é claro, aprendi também o quão poluente é a indústria da moda. Como você pode saber tudo isso e NÃO fazer alguma coisa?

SS: Como você leva a moda sustentável para seus figurinos?

CS: Há muitas maneiras de pensar de maneira mais sustentável na criação de figurinos. Eu não diria que é fácil. Seja para uma série contemporânea, que grande parte das roupas do figurino são compradas prontas, ou um filme de época/fantasia, que requer a confecção de todas as peças, tudo o que você vê na tela passa por um grupo maior de pessoas para aprovação. O traje deve caber no script. Portanto, há muitas limitações na hora de tomar decisões. Mas, dito isso, se posso encontrar couro ou pele falsa que satisfaça as necessidades do figurino, geralmente, todos saem felizes.

Sempre que posso eu faço as perguntas. Onde foi feito isso? Podemos usar uma versão sintética? Podemos usar corantes de tecido sustentáveis? Etc, etc. No final do dia, geralmente é mais barato e melhor para todos, incluindo os atores que precisam vestir as roupas.

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SS: Trabalhando com figurino, você interage com muitas pessoas todos os dias. Algum de seus atores e atrizes já se interessou pela moda sustentável por causa de você?

CS: Você sabe que atualmente existe um movimento visível de moda anti-pele/couro/sustentável que eu sinto que está adentrando a indústria cinematográfica. Mais de nós estão se conectando com essas pautas diariamente, especialmente os atores e atrizes que, por causa de seus empregos, precisam se manter saudáveis, o que inclui questionar o que colocam dentro e fora de seus corpos. Além disso, esse movimento de “traga o seu cão para o trabalho”, que eu pratico plenamente, tem nos permitido pensar mais na nossa relação com os animais e como eles podem ser picados para serem transformados em comida ou peças de roupa. Com a alta visibilidade pública entre fãs e nas redes sociais, os atores e atrizes possuem uma ampla plataforma para promover essa ética, aumentando e aproveitando cada vez mais o apoio a todos os tipos de movimentos de moda sustentáveis.

Eu divaguei … desculpa – no que diz respeito à sua pergunta, eu espero sim ter influenciado pessoas. Posso dizer com confiança que os olhos foram abertos e eu também vejo isso na minha equipe e eu trabalho com amigos e familiares. Mais pessoas estão ativamente “olhando”. E isso, eu acredito, é o início de um movimento mais positivo e direto. Quando está ao seu redor, é mais fácil de absorver.

SS: No que você está trabalhando no momento?

CS: Atualmente, estou trabalhando nas temporadas dois e três da Lemony Snicket. Muito diferente dos meus trabalhos em produções atuais. Construímos praticamente tudo! Até o calçado!

SS: Existem alguns trajes em sua produção atual para ficarmos de olho quando o assunto é moda e sustentabilidade?

CS: Bem, sim, mas é difícil de identificar, pois fazemos em casa quase todos os nossos figurinos. Vou dizer que usamos muitas peças vintage.

Em outra série, Girlfriens’ Guide to Divorce, a temporada 4 está prestes a lançar em 17 de agosto no Bravo, um destaque que você verá (principalmente na nossa personagem Phoebe interpretada pelo ser humano mais notável que eu conheço, Beau Garrett) são as peças da GoldDust de Roxana Zal. Além de reutilizar suas descobertas vintage, ela cria os mais incríveis vestidos, todos feitos a mão em Los Angeles a partir de tecidos indianos antigos. São tecidos feitos em teares manuais e com estamparia artesanal dos anos sessenta ou setenta. Todos são um tipo de obra de arte.

SS: Pode ser desgastante quando alguém está aprendendo sobre a necessidade de uma moda sustentável, então qual é a dica mais fácil que você recomenda para quem está interessado em descobrir mais ou fazer mais?

CS: É muito mais fácil agora com redes sociais e compras on-line. Olhar nos rótulos das roupas é o primeiro passo. Use a internet para descobrir mais sobre tecidos e materiais, sobre os símbolos nos rótulos, quais países produzem de maneira mais responsável. Basta educar-se. E seja gentil com você mesmo. Como tudo, leva tempo para mudar sua maneira de ver as coisas. Existe um lugar para todos quando o assunto é tornar ética a norma. Esta revolução é global, levará todos nós a fazer grandes mudanças acontecerem.

SS: Eu tenho que perguntar: quais são suas marcas favoritas?

CS: Acho que Stella McCartney, Vivienne Westwood, Laura Strambi, Marimekko, Reformation e para bolsas Matt & Nat e Gunas New York são minhas favoritas.

SS: Você passa o dia inteiro criando uma grande variedade de estilos para outras pessoas, mas como você define seu próprio estilo pessoal?

CS: Meu próprio estilo pessoal mudou muito na última década e quero dizer que foi totalmente influenciado pela minha mudança de estilo de vida. Sou vegana e apaixonada pelos direitos dos animais. Então, para mim, as coisas definitivamente se mostraram nas escolhas de moda mais confortáveis ​​e éticas. O uso fácil durante longos dias de filme de 12 a 14 horas é agora o topo da minha lista. E, para os eventos, vou recorrer a designers que são produtores veganos ou sustentáveis.

SS: Qual é o item favorito do seu armário?

CS: Bem, algumas coisas! Eu tenho uma jaqueta e um vestido plissada da Black Crane e estou obcecada com o meu novo maxi da Raquel Allegra. Ah, e minha sacola de algodão da Gunas NY. Todas essas peças são em preto – eu acho que elas falam muito sobre meu estado de espírito atual!

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Texto escrito originalmente por Sica Schmitz para a Vilda Magazine e traduzido com autorização para o Modefica. Sica é ativista, estilista, figurinista e empreendedora. É fundadora da boutique de moda ética Bead And Reel, se dedica a ajudar mulheres se amarem por meio do que vestem e amar o mundo por meio do que compra. Ela vive em Los Angeles e passa seu (raro) tempo livro em busca de sobremesas veganas, se voluntariando em casas que lhe são caras e tentando limitar sua adoção de gatos.

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