Carta Da Editora: Por Que A Moda ‘Sustentável’ Não É Realmente Possível Hoje

Quem acompanha o Modefica já deve ter notado sobre algumas coisas as quais dificilmente falamos por aqui quando o tema é moda “sustentável”. Em uma das primeiras Cartas da Editora que escrevi, posicionei o Modefica [que apesar de contar com a colaboração de várias outras mulheres e pontos de vista, tem uma linha editorial bastante clara] sobre o fato de nós não acreditarmos na moda sustentável. Esse termo por aqui não passa porque, dentro do nosso sistema econômico atual, sustentabilidade ainda é praticamente inviável [1]. É necessário lembrarmos disso sempre para não cairmos num vácuo de estagnação.

Por isso, nós nunca falamos sobre coisas como: “tecidos que prometem revolucionar a indústria da moda”, “H&M lança Semana Mundial da Reciclagem”, “nova tecnologia verde vai transformar a moda” e outras manchetes parecidas. Nós não queremos dar a impressão de que as coisas vão bem e passar a mensagem, mesmo que de maneira inconsciente, que as empresas, sozinhas e com essas atitudes, estão resolvendo os problemas sociais e ambientais causados pelo sistema econômico vigente. Não está nada bem e não há nenhuma iniciativa capaz de, isoladamente, transformar o sistema da moda e torná-lo sustentável sem ações que foquem na raiz do problema, ou seja, no imperativo capitalista de crescimento contínuo, e não em seus sintomas.

Não entenda errado. Nós acreditamos e apoiamos diversas marcas e iniciativas por fazerem diferente, mostramos muitas delas por aqui e pelos mais variados motivos. Tentamos, inclusive, nos engajar para que novas marcas e iniciativas surjam com uma mentalidade diferente e pensem em novas maneiras de fazer negócios. Sabemos não ser algo simples, pelo contrário, é muito complicado e desafiador. Vez ou outra há quem não enxerga outro caminho a não ser se colocar lado a lado de uma mega empresa ou conglomerado para ter força (muitas vezes financeira) para começar a agir.

Também sabemos existir algumas iniciativas ótimas dentro da indústria de moda, inclusive em grande escala, algumas das quais eu pessoalmente tive a chance de conhecer. Uma delas é a empresa espanhola Jeanologia, pioneira no beneficiamento de jeans à laser e ozônio na cadeia de produção, responsável por possibilitar a diminuição drástica, quase eliminar, a quantidade de água, químicos e energia necessários para transformar o jeans cru no jeans que vemos nas lojas. Isso poupa não só recursos ambientais, como também a saúde de vários trabalhadores que lidavam com técnicas arcaicas de beneficiamento todos os dias.

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Mas mesmo que iniciativas como essa busquem agir nas causas do problema, nesse caso propondo tecnologia como solução, a sustentabilidade não depende só de uma empresa ou de uma ação. No caso da Jeanologia depende, por exemplo, de governos liberarem importações das máquinas a custos menores e aprovarem leis que proíbam as empresas de beneficiamento a usarem excesso de recursos no tratamento do jeans. Depende também de donos de lavanderias industrias acreditarem e abraçarem a ideia, e se abrirem pro novo, coisa que sabemos nunca ser tão fácil mesmo quando as mudanças gerem benefícios financeiros.

 

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Imagens via satélite do Mar de Aral, no Uzbequistão. Suas águas praticamente secaram depois de irrigar plantações de algodão entre 2000 e 2013.
 

Por mais que os produtos da Jeanologia sejam incríveis, e hoje tenham se popularizado com outras empresas produzindo equipamentos similares, eles são incapazes de transformar o jeans em um produto sustentável. Antes do beneficiamento o algodão foi plantado, regado, colhido, transportado, transformado em fio, depois em tecido, depois costurado e só depois beneficiado. Antes de serem tratados com lazer e ozônio, as calças jeans exigiram muito do planeta e das pessoas. Quando olhamos para a demanda de um bilhão de calças jeans e de algodão produzidas só em Bangladesh por ano, percebemos que o beneficiamento eco-friendly é incapaz, sozinho, de mudar qualquer coisa em uma cadeia de produção de mais de 100 etapas.

Não importa quantas iniciativas bacanas nós avaliarmos – tecidos incríveis, fibras ‘revolucionárias’, tecnologias mil -, nós sempre vamos esbarrar em três problemas e que são apoiados pela atual lógica de mercado: demanda, produção globalizada e legislação. A demanda por produtos de moda – caros ou baratos – é astronômica. Faz parte do funcionamento do sistema atual: quanto mais comprarmos, melhor será a economia. Entretanto, produzir bilhões de peças por ano nunca será sustentável – economicamente, ambientalmente e humanamente falando – a longo prazo. Por outro lado, as legislações frouxas fazem com que as empresas tenham cada vez mais liberdade e poder sobre os subcontratados, sobre os recursos do meio ambiente e sobre os trabalhadores em vários países. Em última análise, se não repensarmos demanda e produção e criarmos legislações melhores, é difícil acreditar numa mudança real.

Recentemente, uma das maiores redes de fast-fashion do mundo, a H&M, lançou uma nova campanha que promete arrecadar 1 milhão de toneladas em peças de pós-consumo durante sua “World Recycle Week”. Parece ótimo: “vamos reciclar tudo”. Mas em uma entrevista ao EcoCult, o gerente de desenvolvimento sustável da empresa, Henrik Lampa, foi bem claro:

“Agora é super escasso, menos de 0.1% dos tecidos são reciclados em novos tecidos. E esse é o ponto. Nós queremos fertilizar, por meio de nossa iniciativa, que todos as roupas sejam reusadas, claro.”

Quando a jornalista questiona: “Não parece uma simplificação dizer: ‘Traga sua roupa, elas serão recicladas em roupas novas’, quando a maioria será downcycled [2] ou enviada para o exterior para ser reutilizada?”, Lampa responde que realmente, a iniciativa está longe de ser perfeita, mas com isso a empresa quer incentivar a tecnologia de reciclagem.

Por mais que o desenvolvimento de tecnologias de reciclagem de têxteis de pós-consumo seja algo urgente e capaz de transformar a logística reversa das roupas, além de sabermos a exigência de altos investimentos em pesquisas os quais só grandes empresas podem fazer, esse marketing que busca dizer que “tudo bem, nós estamos cuidando do problema, não se preocupe” deve ser lido com atenção, pois passa a impressão de que não somos nós, como cidadãos, que podemos fazer alguma coisa, mas sim as marcas de maneira soberana. Contanto que nós continuemos comprando delas, está tudo certo – e voltamos nós ao papel exclusivo de ‘consumidores’.

Para os mais céticos [ou diríamos, matemáticos], mesmo que houvesse uma tecnologia de reciclagem eficiente disponível e a H&M fosse capaz de reciclar um milhão de toneladas de tecidos, isso mal se compararia a quantidade de roupas que eles estão colocando no mundo em 48 horas. É realmente uma conta difícil de fechar. Já os mais entusiasmados acreditam ser uma atitude promissora e capaz de, finalmente, causar uma ruptura importante no sistema de moda atual. A verdade é que nem sempre é tão fácil desenhar os limites entre o “bem” e o “mal” e o “bom” e o “mau”.

 

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Nos EUA, apenas 15% dos tecidos e roupas são reaproveitados. O resto acaba em aterros sanitários ou enviados para países mais pobres.
 

O que parece ser o maior problema de todos é o fato dos defensores do sistema atual, as grandes corporações e marcas de moda incluídas, dizerem que esse é o único jeito de fazer negócios. Eles tentam nos convencer de que não há alternativas além de tratar os sintomas, pois os trabalhadores dependem do hiper consumo do ocidente, dependem das empresas e dos empresários. No discurso, eles até parecem esquecer que o ocidente nem é mais o centro de consumo do mundo e que esse tipo de modelo de economia mais aprofunda desigualdades do que distribui riquezas [3]. A essa altura, já sabemos haver outras maneiras de fazer negócio e que toda a riqueza acumulada na mão de poucos só é interessante para esses poucos.

Veja bem como isso não é sobre a H&M, ou sobre não comprar da marca X ou Y, muito menos sobre comprar de segunda mão ou absolutamente não comprar. Essas iniciativas individuais, mesmo que elas gerem algum impacto e devam ser tomadas, precisam ser analisadas por diversos ângulos e terem seus limites reconhecidos. Essas reflexões todas são sobre reconhecer os obstáculos, dificuldades e problemas da indústria da moda (ou praticamente qualquer indústria) de forma integrada, com toda sua complexidade, para só assim encontrarmos soluções à altura.

Por exemplo, dentro do capitalismo operante, qualquer escassez significativa de demanda impacta drasticamente na vida dos trabalhadores braçais. Perdas de emprego e do mínimo de estabilidade financeira são consequências automáticas e inegáveis. Sendo assim, isso acaba sendo sobre repensar o sistema desde sua base e não apenas na ponta final, ou seja, na loja ou no pós-consumo. Em uma maneira tangível de como alcançar essas condições ideais, a jornalista e escritora, Tansy Hoskins, explica:

“Existe a necessidade de satisfazer exigências comuns em escala global. Satisfazer essas exigências significa que uma abundância de comida, moradia, educação, acesso à saúde, ar e água limpos, educação e transporte não privado prevaleça sobre a produção de roupas. Num país como Haiti isso significaria fechar fábricas de moda e voltar a crescer alimentos.” [4]

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Não estamos falando aqui de socialismo, Marx, comunismo ou sobre qualquer outra alternativa as quais já conhecemos. Esse pensamento está alinhado a um novo sistema, ainda sem nome e sem precedentes, que deve ser construído desde já para suprir as demandas contemporâneas, com o envolvimento dos cidadãos como cidadão e não como compradores apenas. Um novo sistema menos baseado em consumo e privilégios de classe, e mais focado em sustentabilidade integrada para todas as pessoas em todos os países.

 

 

Para onde as roupas doadas realmente vão? O documentário Unrevel mostra uma parte da história.
 

Entretanto, esse olhar crítico e atento às ‘inovações’ deve ser direcionado não só às marcas. Iniciativas também precisam ser questionadas e convidadas a repensarem seu papel como agente transformador sempre, assim como nós como consumidores e cidadãos. Como nós, como consumidores, podemos fazer mais do que apenas “comprar melhor” ou “não comprar”? Como nós, como iniciativas, podemos agir ao invés de só pregar? Como nós, como cidadãos, podemos nos envolver e pressionar por melhores legislações e na criação de economias paralelas? Como nós, como iniciativa privada, podemos começar a investir na transformação do sistema?

Não, não são perguntas fáceis de responder, mas são perguntas que precisam ser feitas ao invés de ignoradas ou substituídas por ‘marketing verde’ ou boicote. Não há mudanças sem entendermos o problema. Não há mudanças se não agirmos por mudanças. Não há mudanças se esperarmos que a mudança seja iniciada por quem perderá seus privilégios quando a mudança acontecer.

Notas de rodapé:

[1] What Every Environmentalist Needs to Know About Capitalism (2011) – Fred Magdoff e John Bellamy Foster
[2] Downcycling é o processo de recuperação de um material para reuso em um produto com menor valor, ou seja, a integridade do material é de certa forma comprometida com o processo de recuperação.
[3] Entre os 25 países com maiores populações analisados pelo índice, a desigualdade de renda da China só perde para o Brasil e para a África do Sul – Hurun’s 2015 China Rich List.
[4] Sitched Up (2014), Revolutionising Fashion, pág 197 – Tansy Hoskins

Imagem Capa: M.I.A para a nova campanha da H&M // Reprodução

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  • Excelente texto Marina, como sempre :). Como você sabe, eu acredito fortemente que a solução para esses resíduos todos é a técnica do UpCycled e isso depende de novos estilistas. Todos esses impactos ambientais e sociais que nós conhecemos da industria da moda precisa ser disseminado nas faculdades, para que a ficha caia nos estudantes “futuros designers” e que daqui ha algum tempo tenhamos mais pessoas trabalhando nesse movimento. Reciclagem como você disse é uma técnica muito cara e nada acessível para quem esta começando, mas o UpCycled não é, e além disso proporciona mais criatividade ao designer na hora de elaborar suas criações, o que eu acredito que seja algo que incentive mais pessoas a adotarem a técnica e fugir desses padrões atuais de produção de moda, que esta acabando com o planeta.
    Então uma das soluções talvez seja, informar cada vez mais todos esses impactos entre estudantes e consumidores para que todos se conscientizem e façam escolhas mais limpas. Tanto o cliente na hora de comprar como o designer na hora de criar.
    Bjos azuis
    <3
    Mirella Rodrigues

  • Esse é apenas um dos melhores textos que li sobre o assunto! Pra quem quer saber mais, recomendo fortemente o documentário “The True Cost”.

  • Pingback: PRECISAMOS FALAR SOBRE PRODUÇÃO DE JEANS - Bureau de Estilo Renata Abranchs()

  • Bernadete Brandão

    parabéns pelo excelente texto, compartilhamos desta visão e buscamos, através de um Programa de Ecodesign realizar projeto para mudar este cenário…fiquem de olho, está saindo um e-book mostrando como um grupo de Ecodesigners se dispôs a estudar profundamente um assunto e propor soluções na moda e em outras áreas
    http://www.designaovivo.com.br e https://www.facebook.com/programadeecodesign/?fref=ts

  • bianca

    eu compro roupas de brechó e customizo , a mão mesmo… rapidinho bordo miçangas, apliques rendas de outras roupas… faço bijuterias novas de outras enfim, acho que a saida é enaltecer o diy e a criatividade como valor de moda… curioso que todo mundo pergunta , nossa onde foi que comprou ? pinto até mandala em bolsa … e aprendi tudo sozinha, como hobbie desde a adolescência por necessidade (herdava as roupas da irmã mais velha), hoje por escolha só compro roupa de brechó e mudo tudo … refashion é sustentável…

    • Marina Colerato

      Olá Bianca. Do ponto de vista ambiental é sustentável. Do ponto de vista social não é porque exclui a cadeia de produção da solução. Para algo ser considerado realmente sustentável, é preciso pensar não só em meio ambiente, mas também nas questões sociais e econômicas, englobando todas. Abraços!