Fortalecimento de Redes de Mulheres é Essencial Para a Equidade de Gênero na Moda

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A mulher está ligada à indústria da moda e aos têxteis há décadas. Hoje, as trabalhadoras representam cerca de 75% da mão de obra na indústria da moda brasileira. Elas são suprimidas por um sistema produtivo pulverizado, com alto índice de informalidade e baseado na desigualdade de gênero, como salários inferiores aos dos homens, sujeitas a cenários de discriminação ou violência, como aponta a pesquisa Promover os Direitos Humanos e Fortalecer a Ação Sindical e a Igualdade de Gênero no Ramo Vestuário do Brasil.

O relatório contabilizou 71 tipos e subtipos de violência dentro e fora do local de trabalho, relatados por 246 mulheres ao longo das entrevistas e rodas de conversa realizadas em 2019. Buscando diminuir essas diferenças e opressões, iniciativas nacionais e internacionais têm buscado fortalecer coletivos e redes de mulheres na indústria da moda, desde seu início – do algodão no campo – ao produto final.

Em 2015, o Instituto C&A desenvolveu os guias da Teoria da Mudança da Justiça de Gênero e começou a utilizá-lo como fundamento para aplicar a lente de gênero em todos os programas apoiados. “Muitas vezes, as pessoas enfrentam várias exclusões sociais, não só de gênero, mas também de raça, deficiência, religião e status LGBT+. A teoria foi um grande passo para nós realmente nos aprofundarmos e vermos como queremos entender a justiça de gênero”, explica Bama Athreya, responsável por Justiça de Gênero e Inclusão Social do Instituto C&A.

É também com essa lente de igualdade de gênero que o Fundo Elas se dedica, há quase 20 anos, a defender toda possibilidade de apoio às mulheres de diferentes níveis sociais, etnias, sexualidade. “O Fundo Elas é um fundo de ativistas que ajudam pessoas para o seu desenvolvimento e crescimento pessoal, profissional, social, buscando a melhoria de ser e estar no mundo, com os demais”, afirma Helena Theodora, conselheira do fundo. Criado em homenagem à feminista Angela Borba, o grupo promove uma série de campanhas, buscando verbas nacionais e internacionais para fortalecer mulheres, organizações e movimentos de mulheres.

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O edital Elas na Moda, apoiado pelo Instituto C&A, foi criado pensando em todos os elos da rede produtiva da moda, desde a produção – as mulheres que plantam, bordam e costuram – ao varejo. Para entender as problemáticas do setor, o grupo reuniu desde trabalhadoras do campo, de tecelagens, a produtoras de desfiles de moda, microempreendedoras, ativistas e jornalistas para discutir e entender a realidade de cada uma delas e como o fundo poderia ajudá-las. Helena explica o intuito da ação: “a gente funciona como uma espécie de gengibre, que tem vários caminhos e que se irradia em várias direções. A gente entra numa visão de como se organizar, programar o seu negócio, pensar na valorização de todo esse processo, dando condições melhores de ganho e de vida para todos os elementos que participam dele”.

O fundo não só auxilia iniciativas, mas as conecta entre si para fortalecer elos que podem melhorar as condições sociais das mulheres deste meio, criando uma rede que ajuda uma a outra e orienta o crescimento pessoal, social e cultura do grupo. Bama elenca esse tipo de iniciativa – de fortalecer grupos e formar redes – como uma ferramenta efetiva na luta de igualdade de gênero. “Acredito que ainda temos um longo caminho a percorrer, mas alguns dos ganhos que obtivemos foram por causa da ação coletiva”, reflete.

Desde a primeira Revolução Industrial, mulheres enfrentam violências sistemáticas nas linhas de produção, tanto nas fábricas quanto nas oficinas. Quem acompanha esse cenário de perto já presenciou machismo, sexismo, misoginia. “Algumas das coisas que ouvimos ao longo dos anos é uma narrativa semelhante entre muitos gerentes de fábricas masculinos… eles dizem ‘queremos mulheres nas fábricas porque são mais fáceis de controlar’”, relata. Segundo Bama, agora, muitas mulheres estão rompendo com estes padrões e, pela primeira vez, trabalhando e vivendo juntas e administrando seu dinheiro, sendo independentes ou parcialmente independentes. “Elas realmente começaram a ter uma noção coletiva da sua própria situação como o fato de que elas podem receber salários injustos ou serem forçadas a trabalhar horas extras, em outras palavras, que seus direitos estão sendo violados”, afirma, “é interessante vê-las começando a se organizar, tomando as rédeas da situação e demandando mudanças nos termos e condições de trabalho”.

 

Criação de Espaços Seguros

A Plataforma UNA, fundada em 2017, pela ONU Mulheres e Fundação Womanity, com apoio do Instituto C&A, é um espaço criado para conectar diferentes organizações e iniciativas que visam a equidade de gênero e o empoderamento da mulher. Neste ano, a plataforma precisou passar por um trabalho interno, focando na segurança dos dados. Adalgisa Soares, gerente de projetos da ONU Mulheres explicou que “tem sido um momento de olhar para a segurança, os códigos, e o que a gente pode fazer para garantir que a plataforma possa ser um espaço seguro na internet”. O movimento de divulgação e expansão deve ser fortalecido em 2020. Mas as ações já começaram em 2019: a plataforma fez um evento offline para engajar as organizações participantes e não participantes – que foram convidadas a conhecê-la -, propondo um espaço de discussão, já mirando na revisão de Pequim +25 [1].

Outro braço de atuação promovido pela ONU mulheres é a iniciativa Os Princípios do Empoderamento das Mulheres, no qual o fortalecimento do grupo em diversos setores da economia é trabalhado com sete princípios que tratam de como empresas e organizações podem promover o empoderamento das mulheres em suas cadeias produtivas, comunidades e no relacionamentos com outras entidades. A partir de janeiro, a estratégia terá uma mobilização mais ampla, impulsionando projetos que trazem este conteúdo. “A gente tem olhado e procurado pensar no impacto destes princípios em setores específicos da economia e o setor da moda chama muita atenção, porque é um setor muito intensivo de trabalho, tradicionalmente visto como feminino”, explica Adalgisa.

É interessante vê-las começando a se organizar, tomando as rédeas da situação e demandando mudanças nos termos e condições de trabalho

Em 2020, a ONU Mulheres começa uma parceria com o Ministério Público do Trabalho para trabalhar com ações em três pilares : cotonicultura, confecção e varejo, com o objetivo de promover empoderamento econômico e melhoria da qualidade de vida de mulheres vulneráveis no setor. Para Adalgisa, trabalhar com a produção de algodão das mulheres no campo possui tanto um potencial de impacto em se tratando do desenvolvimento local, e no fortalecimento da economia do município em si, quanto no combate à vulnerabilidade social enfrentada pelas famílias campesinas. O segundo pilar, a confecção, talvez seja o mais conhecido pelo destaque que tem ganhado na mídia nos últimos anos. É na confecção que uma série de problemas se sobrepõe: jornadas exaustivas, informalidade sem nenhum tipo de seguridade e jornadas extras para cuidar dos filhos e da casa.

Normalmente esquecido, o varejo se mostra fundamental para os centros urbanos. É tido como a primeira colocação de jovens mulheres negras no mercado e, a priori, parece ser o pilar mais protegido pelas relações formais de trabalho, mas a realidade se mostra outra. “É uma ocupação muito sujeita a violações de direitos do trabalho. A gente propõe uma série de atividades e queremos compactuar com o setor objetivos de promoção da igualdade de gênero. Esperamos que 2020 seja um ano para colocarmos essa ação na rua, pegar comentários, validar e começar a implementar uma estratégia que é ampla, ambiciosa, porque ela precisa ser ambiciosa”, finaliza Adalgisa.

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