A Economia Compartilhada é Realmente uma Alternativa Sustentável?

O escopo e a escala da chamada “economia compartilhada” aumentaram exponencialmente ao longo da última década, a ponto de afetar quase todos os aspectos de nossas vidas.

O compartilhamento de corridas de carro mudou a forma como nos locomovemos. Aplicativos de entrega de comida mudaram nossos hábitos alimentares. O Airbnb mudou a forma como passamos as férias. Os aplicativos de namoro mudaram a maneira como encontramos nossos parceiros. E alguns desses aplicativos podem ter influenciado a forma como trabalhamos e se podemos ou não pagar nosso aluguel.

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Essa mudança para transações peer-to-peer é frequentemente retratada como um antídoto para a cultura de consumo da sociedade moderna, porque apóia o compartilhamento em vez da propriedade. Mas será que as plataformas de compartilhamento simplesmente criaram uma nova forma de capitalismo? As pesquisas sugerem que, em vez de nos transformar, a economia compartilhada simplesmente remonta os mesmos velhos impulsos consumistas em uma mensagem mais atraente.

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Avaliamos os serviços comerciais e compartilhados da mesma forma

A economia compartilhada molda e é moldada pelos provedores e consumidores de serviços compartilhados.

Estudos mostram que as pessoas percebem, selecionam e avaliam experiências compartilhadas de maneira similar às ofertas comerciais. Por exemplo, os critérios que usamos para selecionar acomodações do Airbnb ou motoristas do Uber são similares aos critérios de avaliação para um hotel e ou serviços de transporte. Ou seja: preço, localização, qualidade de serviço e reputação. Estudos também confirmam que os fatores que influenciam a satisfação e a probabilidade de fidelização são os mesmos.

Isso afeta como os fornecedores desenvolvem serviços. As plataformas de compartilhamento usam comentários e classificações peer-to-peer para calcular as pontuações dos provedores de serviços, reconhecendo aqueles de maior qualidade. Semelhante aos comentários de hotéis do TripAdvisor, as pontuações nesse sistema de avaliação do Airbnb influenciam o quanto as pessoas vão cobrar por um quarto no Airbnb.

 

A comercialização da autenticidade

O número de pessoas que abandonaram seus empregos em tempo integral para se tornarem empreendedoras da economia compartilhada aumentou. Dados de 36 países mostram que 43% da geração millennial e 61% da geração Z imaginam deixar seus empregos dentro de dois anos. Entre os millennials que deixam seus empregos, 62% consideram a economia compartilhada (ou gig economy) como uma alternativa viável.

Esses empreendedores investem em ativos, como imóveis ou carros, e contratam outros microempreendedores para gerenciá-los. Os tipos de serviços de gerenciamento que podem ser terceirizados incluem limpeza, preços, marketing e reservas, manutenção de livros e serviços de reuniões e meet and greet.

Nesses casos, os proprietários do recurso “compartilhado” raramente interagem com seus convidados. Então, em vez de experimentar sentimentos genuínos de hospitalidade e interações sociais íntimas, os clientes experimentam interações passageiras e encontros profissionais.

Ao adaptar e transferir serviços profissionais tradicionais da economia comercial para a economia compartilhada, esses empreendedores contribuem para a comercialização de experiências “autênticas”.

E é difícil para os empreendedores da economia compartilhada evitarem usar esses tipos de serviços se quiserem que sua oferta seja competitiva entre muitas outras alternativas. Estudos mostram que os anfitriões não profissionais enfrentam ineficiências operacionais, como ocupações e preços mais baixos em comparação com os seus colegas profissionais.

Plataformas de compartilhamento contribuem para isso. O Airbnb oferece uma ferramenta de precificação, semelhante àquelas usadas por hotéis profissionais, para que os anfitriões possam monitorar as tendências do mercado e os preços de seus concorrentes. Os serviços de fotografia ajudam os anfitriões a se apresentarem profissionalmente, pois as pesquisas mostram que uma apresentação profissional da sua personalidade e identidade on-line influenciam diretamente na sua competitividade.

O sucesso na Airbnb é determinado pela medida em que os prestadores de serviços podem convencer os clientes a consumirem suas experiências “autênticas” com curadoria profissional. Para prosperar, os microempreendedores precisam adotar uma mentalidade operacional profissional e práticas de gestão comercial.

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Não é realmente comunal ou sustentável

A economia compartilhada é frequentemente romantizada como uma mudança dos males do capitalismo para um modo de vida mais comunitário e socialmente consciente.

Alguns estudos sugerem que os microempreendedores e os clientes não discriminam com base em raça, sexo ou orientação sexual quando decidem como e com quem irão “compartilhar” recursos. Mas se isso é verdade, então por que as pessoas de grupos minoritários ganham menos com as plataformas de compartilhamento? E por que as plataformas voltadas para nichos de mercado – como o noirbnb.com para pessoas negras e misterbandb.com para viajantes gays – prosperam?

Se a economia compartilhada deve aumentar a sustentabilidade ambiental ao reduzir a propriedade e a produção de bicicletas e carros, como explicamos o desperdício visível nos cemitérios de bicicletas compartilhadas da China?

Os mercados peer-to-peer que redistribuem e reciclam alimentos, resíduos industriais e outros recursos sobrecarregam o setor de logística e transporte a ponto de compensar qualquer outro benefício socioeconômico do compartilhamento de alimentos. Mais pesquisas são necessárias antes de sabermos se os aspectos positivos superam os negativos em toda a cadeia de suprimentos.

 

O consumo não foi embora

As pessoas que participam da economia de compartilhamento são motivadas principalmente por recompensas financeiras. Os prestadores de serviços usam a renda do “compartilhamento” dos seus ativos para comprar casas maiores ou carros melhores, enquanto os clientes buscam ofertas mais baratas do que os fornecedores tradicionais podem oferecer.

A economia compartilhada permite que as pessoas consumam durante a crise econômica, satisfazendo necessidades materialistas, valores, prioridades e estilos de vida de diferentes maneiras – através de “compartilhamento” e “acesso”, ao invés de “propriedade”.

As pessoas vêem a prática de compartilhar recursos como uma maneira de melhorar a autoimagem, fazer autopromoção, e ampliar a valorização e reconhecimento social. Mesmo as pessoas que vivem em culturas mais coletivistas veem a economia compartilhada como uma forma de expressar valores comunitários e sociais.

Por exemplo, as plataformas de namoro e “aluguel de parceiros” prosperaram na China, uma cultura em que é um tabu para os jovens serem gays ou permanecer solteiros. As pessoas não estão usando essas plataformas para procurar e encontrar novos amigos, mas procuram satisfazer uma necessidade social de apresentar um certo estilo de vida.

A economia compartilhada não mudou a mentalidade, os valores, os estilos de vida ou os comportamentos das pessoas. As pessoas ainda desejam consumir nos mesmos níveis e consomem pelas mesmas razões, mas de uma maneira diferente. A economia compartilhada causou uma ruptura na economia tradicional, mas não a transformou.

 

Esse artigo foi escrito por Marianna Sigala e publicado em The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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