Agricultura Regenerativa Quer Ser Alternativa para América Latina

A agricultura tradicional se desenvolveu nos solos da América Latina em grandes latifúndios, regados a agrotóxicos e maquinários pesados. Mas sua aplicação apresenta diversos efeitos colaterais, como a erosão do solo, poluição de rios e degradação ambiental. É por isso que, ao longo das últimas décadas, alternativas sustentáveis têm se apresentado como a única opção possível para nosso futuro, como a agricultura regenerativa. Com o objetivo de entender as possibilidades e desafios de impulsionar a prática na região, a ONG Mustardseed Trust conduziu uma pesquisa de três meses com diversas pessoas e organizações das Américas Central e do Sul.

Um contexto sobre as características locais e suas práticas reforçam a importância de entender e difundir a agricultura regenerativa: solos tropicais contêm pouca matéria orgânica e, quando alterados por petroquímicos ou máquinas, seus nutrientes ficam expostos e são levados pelas chuvas. Para interromper sua degradação, a abordagem regenerativa é uma forma de trabalhar tais problemas, enquanto melhora a estrutura do solo, matéria orgânica e fertilidade. E, por incrível que pareça, o Brasil se destaca como pioneiro no direcionamento da agricultura em larga escala para regeneração.

A agricultura regenerativa aborda aspectos ambientais e socioeconômicos, redesenhando sistemas para irem da escassez à abundância. Outra definição dada à prática é de “atuar com a Natureza, ao invés de sobre a Natureza”. Apesar das práticas variarem, elas convergem em quatro pilares principais: a mínima perturbação do solo, construindo um ambiente rico, aproveitando a capacidade fotossintética das plantas para captura de dióxido de carbono na atmosfera. Essa prática aumenta tanto a matéria orgânica do solo quanto sua saúde biológica geral.

Outro pilar é o fomento à diversidade biológica, que é garantido por rotação de culturas, com foco nas plantas perenes. O terceiro pilar é sobre manter o solo constantemente coberto, utilizando culturas de coberturas – plantas cultivadas com a finalidade de criar uma proteção e melhorar a infiltração de água no local. Por fim, o quarto pilar fala sobre a importância de integrar a pecuária e a produção, adotando uma abordagem de gestão de estoque que leva em consideração as necessidades fisiológicas das plantas, animais e fazendas como um todo. Esse tópico, em especial, será abordado mais à frente.

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As Américas Central e do Sul são regiões de grandes oportunidades e, ao mesmo tempo, de grandes obstáculos quando falamos de agricultura regenerativa. Países como Brasil e Argentina ainda têm extensões significativas de terras agrícolas subutilizados e possuem um papel crucial no sistema alimentar global, principalmente quando pensamos em futuro. No entanto, estas grandes fazendas exportadoras operam à base de insumos sintéticos e maquinário pesado e possuem resistência à mudança de sistemas. Ao mesmo tempo, a região também é caracterizada pela agricultura de subsistência em pequena escala, mais receptiva à prática.

 

Possibilidades e dificuldades

O relatório divide os fatores potenciadores e inibidores da agricultura regenerativa em políticos, socioeconômicos, tecnológicos e ambientais. A começar pelos potenciadores, a atual narrativa global sobre os impactos no meio ambiente pode servir de propulsor da prática, que é tida como uma solução para enfrentar as mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação ambiental.

A instabilidade econômica nos continentes também é uma oportunidade de reconstruir economias locais com base nos princípios da agricultura regenerativa. Como produtores latino-americanos estão lutando para permanecer competitivos no mercado e manter a saúde de suas terras, eles têm buscado alternativas. A prática também é atrativa a populações vulneráveis e/ou pequenos agricultores que procuram novos modelos de subsistência.

Na América Latina, a agricultura em pequena escala e a agroecologia estão enraizadas e difundidas e são terreno fértil para o desenvolvimento da agricultura regenerativa. A região tem conhecimentos ancestrais de populações indígenas e quilombolas responsáveis por tratar da terra com a mesma lógica que a agricultura regenerativa. Assim sendo, a prática pode se fundir a contextos ecoculturais e a realidades latino-americanas. A cereja do bolo é a biodiversidade de fauna e flora, que abre um universo de possibilidades para troca de conhecimento e pesquisa.

No entanto, olhando para cada fator, também vemos suas desvantagens, como o contexto político atual da América Latina, considerado desfavorável para a adoção e expansão da agricultura regenerativa. O relatório afirma que “os governos (principalmente no Brasil) negam resolutamente a emergência ambiental global ou se sentem à vontade com a inércia e a manutenção do status quo (por exemplo, Argentina e Chile)”. Embora vários governos e atores do agronegócio declarem seu apoio a iniciativas “verdes” e/ou “sustentáveis”, o “agronegócio como de costume” é uma regra na América Latina, muito bem sustentada por subsídios para os maiores atores do setor.

Como a agricultura regenerativa é um conceito relativamente novo no discurso de desenvolvimento internacional global, não existem muitas histórias de sucesso para servirem de vitrine. O relatório reconhece que há uma necessidade de projetos-pilotos para mostrar o potencial da prática e angariar apoio político. Há também um obstáculo linguístico e pedagógico para a agricultura regenerativa: a prática é comunicada, principalmente, em inglês.

O estudo aponta que deve-se superar as barreiras de idioma e se comunicar em espanhol, português e línguas indígenas – como o Quechua e Guarani – para envolver populações locais e se conectar ainda mais com movimentos sociais de base. Quanto à questão pedagógica, é importante aumentar a alfabetização ecológica dos agricultores e tornar as técnicas mais inclusivas e acessíveis.

 

O café e o cacau

Existe um destaque maior para as culturas do café e do cacau. O relatório explica que “o mercado latino-americano de produtos orgânicos certificados é pequeno e predominantemente voltado para a exportação, e os de produtos regenerativos certificados é ainda menor”. Um dos fatores que contribuem para esse cenário é o custo das certificações, que são caras e elevam os valores para o consumidor final. Nesse sentido, é difícil agregar valores regional aos alimentos produzidos localmente, principalmente porque quando o produto é uma commodity de baixo valor, como o café e chocolate, elas são avaliadas pelo quesito quantidade, não qualidade.

Assim, torna-se mais difícil valorizá-las no mercado, apesar de seus atributos regenerativos. Ainda que o café e cacau possuam um mercado de nicho para as qualidades especiais e de fino sabor, que permitem essa “descomodificação” da rede produtiva, eles ficam limitados à demanda de consumidores específicos.

 

Na prática

Falamos bastante sobre teoria, mas como esse sistema acontece na prática? O relatório apresenta diversas iniciativas: da Nicarágua ao Equador, Chile a Argentina. Focando no Brasil, o primeiro exemplo é do agricultor suiço Ernest Götsch, que migrou para o país em 1984 e transformou uma pastagem degradada na Fazenda Olhos d’Água, em Piraí do Norte, na Bahia. Ernest é o criador da agricultura sintrópica, um prática baseada em uma abordagem rica, complexa e filosófica de sistemas vivos, no qual inovações técnicas são utilizadas para reduzir trabalho e tempo. Dessa forma, o plantio agrícola é concomitante à regeneração de ecossistemas.

O trabalho de Ernest se ramificou e hoje podemos ver outras propriedades privadas utilizando a mesma forma de produção e regeneração, sendo citados no documento a Fazenda Ourofino (BA), Sítio Semente (Brasília), Epicentro Dalva e CooperaFloresta (SP). A Cooperativa CooperaFloresta é formada por comunidades tradicionais e famílias quilombolas. O coletivo foi criado em 1998, com a participação de trinta famílias, e hoje já se expandiu para oitenta.

O relatório conta que “segundo a cooperativa, a regeneração vai além da agricultura para englobar o redesenho de uma cultura local baseada em cadeias curtas de suprimento de alimento, resiliência e relacionamento pessoal”. Organizada de forma horizontal, a cooperativa possui uma escola agroflorestal e comercializa seus produtos por meio da certificação participativa Rede de Agroecologia Ecovida, reconhecida pelo Ministério da Agricultura.

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O educador sintrópico Namastê Messerchmidt, ligado à cooperativa, se destaca no estudo através da fala: “somos todos a favor da agricultura em grande escala! Mas precisamos revisar o que é essa ‘grande escala’. Um assentamento com 500 famílias produzindo em sistemas agroflorestais é uma grande escala”. O educador enfatiza o poder de conexão da abordagem sintrópica com a produção de alimentos e movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

Namastê também está envolvido com o assentamento Mario Lago, ligado a um pioneiro da agrossilvicultura regenerativa brasileira, Nelson Neto. No local, ambos trabalham em um estudo piloto para demonstrar os altos retornos dos sistemas sintrópicos de pequena escala, mesmo sem o aporte de capital e investimentos. A ideia é que tais resultados possam ser aplicados a outras famílias brasileiras que façam parte de assentamentos.

Um vetor importante para a agricultura regenerativa são os centros de demonstração, que muitas vezes são fazendas híbridas que incorporam outras atividades, como educação, incubação de empresas, ecoturismo. Devido à visitação frequente e visibilidade, eles atuam como vitrines importantes para práticas regenerativas – como agroecologia, permacultura, sintrópica e restauração de paisagens. Um exemplo de fazenda híbrida é o Instituto Sinal do Vale (RJ), que possui a metodologia de “aterramento no local, criando conhecimento e catalisando redes”. A fazenda recebe grupos de outros países latinos.

O instituto aplica uma ampla gama de técnicas de regeneração do solo, bem como técnicas de conservação da Mata Atlântica circundante. O local também incuba negócios regenerativos, como o empreendimento “Mosuo Bamboo”, que cria oportunidades de emprego para jovens de comunidades carentes locais, com base em produtos de bambu.

O papel do governo e as divergências

O financiamento tem um papel fundamental para a integração e disseminação da agricultura regenerativa na América Latina. Tal fonte pode ser usada para financiar as primeiras fases de um projeto regenerativo, para aumentar as operações ou como auxílio para a transição de métodos agrícolas convencionais para métodos regenerativos. Esses organismos de financiamento podem incluir fundos comunitários ou cooperativos, investidores institucionais, bem como mecanismos de financiamento multilateral em grande escala.

A participação do governo é de suma importância não só para fortalecer as iniciativas, mas para criar um ambiente que instigue o apoio de mais capital privado. No nível de política internacional e financiamento, o relatório afirma que conectar a agenda global de restauração dos ecossistemas com a agricultura regenerativa é uma oportunidade chave para que ela deslanche na América Latina. Entre um dos exemplos está a Iniciativa 20×20: um esforço de grande escala com o objetivo de restaurar 20 milhões de hectares de terra degradada na América Latina e Caribe.

Lançada na COP 20, em Lima, em 2014, a iniciativa é apoiada por mais de 70 organizações e instituições, que empregam US$ 2,5 bilhões (R$ 13,9 bilhões) em investimento. Até agora, 17 países latino-americanos e caribenhos e três programas regionais se comprometeram a proteger e restaurar mais de 50 milhões de hectares, uma área aproximadamente do tamanho da França. Você pode conferir aqui alguns exemplos de projetos de restauração no Brasil.

O relatório cumpre com sua proposta: entender as possibilidades e desafios para a expansão da agricultura regenerativa nas américas Central e do Sul, explorando exemplos que apontam para – estejamos falando de um microprodutor ou um produtor exportador -, a possibilidade de utilizar técnicas de recuperação de ecossistemas e, ao mesmo tempo, produzir em tais locais. O estudo destaca, logo no seu início, que “enquanto a agricultura regenerativa e a agroecologia têm inúmeras práticas agrícolas em comum, elas estão imersas em tradições diferentes. Em comparação à agroecologia, a agricultura regenerativa é mais inclusiva pela simples razão de ser mais recente e menos associada a políticas”. Ou seja, o relatório tenta correr por uma via apolítica (ou despolitizada). No Brasil, será que isso é sequer possível?

A agricultura regenerativa se coloca entre os grandes produtores do agronegócio e os pequenos produtores da agroecologia, acatando a ideia de grandes propriedades trabalharem suas monoculturas com pouco ou nenhum insumo químico e com a criação de animais – o capítulo 3, aliás, é voltado apenas para o assunto. O relatório traz análises pertinentes, mas discorre em uma linha um pouco branda e mitigadora. Ainda que seja possível trabalhar a agricultura tradicional em formatos menos agressivos ao meio ambiente, não há meios de fugir dos danos causados pelo uso de agrotóxico, tanto na Natureza quanto nos seres humanos. Ademais, é o próprio monocultivo que deve ser colocado sob escrutínio.

Já a indústria da carne possui diversas problemáticas, desde os malefícios físico-emocionais causados nos trabalhadores, quanto a crueldade animal, o desmatamento e grilagem de terras, o assoreamento de rios, a diminuição de espaços para produção de alimentos. A lista poderia continuar, mas o ponto é: até que ponto é possível pensar em sistemas regenerativos, em bem-estar social e seguir a proposta de trabalhar junto com a Natureza, ao invés de sobre a Natureza, e defender a manutenção da pecuária a ponto de termos mais gado do que gente no Brasil?

Quando falamos também das grandes propriedades de terra do agronegócio, devemos sempre nos lembrar de dois pontos: primeiro, esses espaços recebem aporte de programas de associações e/ou subsídios do governo e operam com o mínimo de pessoas possível. Logo, tais propriedades não empregam tantas pessoas quanto deveriam, criando, assim, uma concentração de renda característica da oligarquia brasileira. Outro ponto é que a América Latina é um território tomado por europeus, tendo assim, na sua raiz, os conflitos de terra. A propriedade privada se instaura em um Brasil ainda regido pela escravidão – logo, a existência de grandes propriedades não deve ser encarada com naturalidade.

É por isso que a agroecologia incomoda tanto o agronegócio. Essa questão é, inclusive, apontada pelo relatório. O documento salienta: “a agroecologia latino-americana enfatiza a autonomia dos agricultores, a justiça social e ambiental e a sustentabilidade. A natureza política explica por que a maioria dos grandes produtores, agronegócio e legisladores latino-americanos não se sentem à vontade com essa corrente”. Resta a dúvida, então: se lutar por justiça social e ambiental incomoda os tomadores de decisão, a quem devemos agradar? Abrandar a voz frente ao desmatamento e crise climática – que, aliás, não é citada diretamente no relatório – ou adotar ações mitigatórias, como já sabemos, não tem se mostrado uma estratégia eficiente.

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