Identidade e Memória: Arte Como Forma de Ativismo de Migrantes na Europa

O sentimento de pertencer ou não a um lugar é fundamental para vivermos de maneira mais feliz e comunitária. Quando percebemos que somos parte integrante de um grupo, passamos a enxergar com mais clareza nossas raízes históricas, valorizamos nossa cultura local e entendemos que nossos lugares de pertencimento são responsáveis diretamente por nossas identidades e memórias individuais e coletivas. Nos conectamos com o passado pelas nossas lembranças, com o presente por meio de nossas vivências e com o futuro pela expectativa do que ele pode nos trazer. Dessa forma, buscamos na arquitetura, em objetos, monumentos, museus, livros, filmes, música e nas artes em geral lugares para ancorar nossas memórias e para descobrir e lembrar quem somos.

Para refletir sobre esse assunto, primeiro, precisamos entender que a identidade de uma pessoa, ou de um coletivo, define-se por inúmeros fatores e condições que envolvem: raça, gênero, consciência de classes, assim como questões políticas, econômicas e sociais distintas. Todos esses elementos, incluindo o território onde habitamos, desempenham papeis importantes em nossas formações, mas que, de certo, mudam ao longo do tempo – já que as noções de identidade e de memória se constroem de maneiras sociais e históricas.

Como citamos, a arte pode ser uma importante aliada na discussão sobre como indivíduos em situações de deslocamento (migrantes) entendem suas próprias identidades e memórias e sobre como o resto do mundo percebe a realidade dessas pessoas. Na obra The Mapping Journey Project (2008- 2011), criada pela francesa-marroquina Bouchra Khalili, nascida em Casablanca, no Marrocos, assistimos aos vídeos que narram histórias de oito indivíduos forçados, por condições políticas e econômicas, a viajarem ilegalmente pela bacia do Mediterrâneo.

O trabalho é um retrato da migração em contraste com narrativas apresentadas por sistemas de vigilância, controle internacional de fronteiras e da mídia que nem sempre representam as vozes e as experiências dessas pessoas como elas esperam. Logo, as histórias contadas por meio do projeto são uma produção estética contra-hegemônica da vida desses participantes.

Publicidade

Abrangendo as regiões de Marselha, Ramallah, Bari, Roma, Barcelona, Istambul, o trabalho foi feito com base em oito viagens clandestinas, passando também por países do Oriente Médio e do norte da África. Os vídeos mostram as mãos dos participantes mapeando suas rotas com canetas permanentes em mapas físicos.

Além dos mapas desenhados, Khalili desenvolveu o trabalho The Constellations Series (2011), com oito desenhos de constelações que reproduzem os desenhos feitos nos mapas pelos participantes. A artista comenta que o trabalho reproduz pontos no céu onde marcações territoriais são inexistentes.

No texto Documenting Migration in Contemporary Art: Bouchra Khalili’s The Mapping Journey Project (2019), Argyro Nicolaou comenta sobre o trabalho de Khalili para aumentar a conscientização sobre a crise de refugiados no Mediterrâneo de maneira a não espetacularizar o sofrimento humano. De acordo com a autora, ao não mostrar os rostos dos participantes na obra, Khalili opta por não auxiliar tecnologias de policiamento de reconhecimento facial a saber quem são essas pessoas. A escolha da artista também serviu para criticar o abuso de imagens carregadas de emoção por comunidades internacionais que usam de certos recursos visuais para aumentar a conscientização sobre a situação de populações vulneráveis, como os refugiados.

 

The Mapping Journey Project de Bouchra Khalili (2008- 2011) // MoMa

 

Não apenas o trabalho de Khalili, mas de artistas como Mona Hatoum, moldam a sensação de falta de raízes e de liberdade sobre a própria construção da identidade de pessoas em situação de deslocamento. No caso de Hatoum, filha de pais palestinos e nascida em Beirute, a artista viajava por Londres, em 1975, quando a Guerra Civil Libanesa começou, tornando a artista moradora/exilada em Londres. Desde 1996, Hatoum trabalha com mapas, dos quais compôs a obra Rotas II, criada em 2002. O trabalho consiste em cópias de mapas retirados de folhetos de companhias aéreas. Usando tinta e guache, Hatoum desenhou linhas coloridas nos mapas, adicionando seus próprios desenhos nas cartografias. “A existência nômade me convém bem porque não espero me identificar completamente com nenhum lugar”, [1]comenta a artista, que considera os desenhos “caminhos para os que não têm raízes”. [2]

Mapas do projeto Rotas II de Mona Hatoum // MoMA

“Me fazem a mesma pergunta: ‘o que no seu trabalho vem da sua própria cultura?’, como se eu tivesse uma ‘receita’ para isolar elementos árabes, femininos e palestinos da minha identidade. As pessoas esperam muitas vezes uma definição clara de alteridade, como se a identidade fosse algo fixo e facilmente definível”, afirma Hatoum. [3]

O ato de narrar, seja por meio da linguagem verbal ou artística, é importante para significação do mundo pois, para Paul Ricoeur, fílósofo francês, o que configura a experiência humana é transformar histórias invisíveis em memórias que merecem ser narradas e na preservação da tradição e da herança na reivindicação de identidades. Os relatos do The Mapping Journey Project mostram como o passado está no presente da narrativa de cada participante pela lembrança de seus trajetos, da mesma forma que o futuro está presente pela antecipação e expectativa de construir um futuro melhor.

Khalili, com sua produção artística, propõe outro enquadramento de memória em suas representações estéticas em relação aos conflitos de migração no Mediterrâneo. Para o sociólogo austríaco Michael Pollack [4], uma vez que as memórias subterrâneas emergem no espaço público, “reinvindicações múltiplas e dificilmente previsíveis” se acoplam a disputa da memória, o que implica na revisão autocrítica do passado. O trabalho dá voz aos próprios protagonistas por meio de seus relatos pessoais, o que reafirma a importância da história oral na construção da identidade e da memória.

As obras de Khalili criticam os mecanismos oficiais de representação e trazem à tona questões sociais ligadas aos migrantes e refugiados. Sua arte não é meramente política, mas sim ativista, pois transforma o objeto artístico em uma intervenção social, que ao invés de somente representar a realidade, a crítica, a reivindica e propõe imagens que a estruturam. A artista transforma a estética da vida dos migrantes e refugiados em criação política para reagir às condições precárias enfrentadas durante seus trajetos. Dessa forma, o trabalho de Khalili não é sobre política, mas sim política em si mesma.

Quando os participantes desenham seus trajetos pelos mapas, relembram e ressignificam ou optam por esquecer suas memórias – ao não comentá-las durante o vídeo. Vale reforçar que o esquecimento é um mecanismo da memória. Esse processo talvez ajude os participantes a refletirem sobre quem são ou o que desejam ser quando chegam em seus novos destinos. O que o seu “novo” lar pode lhes oferecer? Como uma outra nação e cultura irão recebê-los? Eles esquecerão a própria identidade e cultura? Para a jornalista e professora brasileira Luciana Amormino, isso significa “reconhecer que ao reivindicá-la [a memória] nós a reconstruímos”[5], além da identidade também ser construída de forma estratégica. Nesse sentido, a antopóloga portuguesa Elsa Peralta aponta para a importância de reconstituirmos o passado, valorizarmos a memória em um contexto contemporâneo e buscarmos por políticas de identidade.

A arte está presente no cotidiano e na construção de identidade e de memória. Além disso, a memória é algo negociado e politicamente construído que influência na autodeterminação de um povo. No entanto, em certas narrativas preponderantes, nota-se a desigualdade ao construir ordens culturais dominantes, atribuindo suas classificações de mundo social, cultural e político que são totalmente diferentes de outras culturas e histórias.

O trabalho The Mapping Journey Project é um exemplo de como a arte ativista luta para produzir oposição a partir de mecanismos não oficiais de representação. Trabalhos como o de Khalili e Hatoum endossam a importância do sujeito ou de um coletivo serem donos e autores de suas próprias narrativas de resistência, ao mostrarem, por meio de suas trajetórias, como se entendem de forma política e social.

 

Amanda J. Zanco é Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Graduada em Publicidade e Propaganda pela mesma Universidade (2017). Possui experiência na área de Comunicação com ênfase em Comunicação, Mídia e Cultura. Atualmente, é estudante de Pós-Graduação em Communication and Media Studies na University of Calgary, no Canadá. Andressa C. Monteiro é graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (2010) com especialização em Jornalismo Cultural pela FAAP (2016). Possui experiência na área de Comunicação com ênfase em Comunicação, Arte e Espaço. Atualmente, é mestranda em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

Publicidade

Conheça e faça parte do Clube Modefica!
O Modefica é uma mídia independente que pensa moda, arte, alimentação e política para resiliência social e ecológica. Para manter nosso conteúdo aberto e acessível para todas as pessoas, nós precisamos da sua colaboração.
Gostou desse texto? Clique aqui e contribua com o Clube Modefica e ajude nosso conteúdo ir mais longe para amplificar a transformação positiva.
Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags

. . .