Organização de mídia, pesquisa e educação sem fins lucrativos que atua por justiça socioambiental e climática por meio de uma perspectiva ecofeminista.

pesquise nos temas abaixo

ou acesse as áreas

apoie o modefica

Somos uma organização de mídia independente sem fins lucrativos. Fortaleça o jornalismo ecofeminista e leve a pauta mais longe.

Maternidade, Assédio, Preconceito: Estudo Investiga Ausência de Mulheres na Ecologia

Publicada em:
Atualizada em:
Texto
  • Juliana Aguilera
Imagens

Victória Lobo

4 min. tempo de leitura
Share on twitter
Share on pinterest
Share on facebook
Share on linkedin
Share on email

Embora sejam maioria como alunas, a hierarquia sexual se revela na academia por meio de menores financiamentos, baixa concessão de bolsas e dificuldade de acesso a cargos de liderança. Ausência de benefícios para mães e assédio sexual também marcam a vida das pesquisadoras ecologistas.

Um artigo publicado recentemente na revista Perspectives in ecology and conservation se propõe a fazer um estudo sobre a presença das mulheres ecólogas no meio acadêmico e descobriu diversos motivos para que elas estejam em maioria como alunas, mas em minoria como docentes e em cargos mais prestigiados. Intitulada “Ecólogas femininas estão caindo da escada acadêmica: um apelo à ação”, a pesquisa revela menor acesso a financiamento de projetos, maternidade, preconceito implícito, assédio e falta de modelos como motivos para que as mulheres deixem a academia. 

Foram investigados o preconceito de gênero nos programas brasileiros de pós-graduação em ecologia em diferentes níveis hierárquicos, bem como no financiamento de projetos e no sucesso de candidaturas a bolsas. O estudo utilizou dados de todos os tipos de bolsas da área “Ecologia e Limnologia1 Especialidade da biologia que estuda águas interiores – lagos (tanto de água doce quanto salina), reservatórios, rios, córregos, pântanos e águas subterrâneas – e sistemas ecológicos interagindo com suas bacias de drenagem e a atmosfera.” do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) que terminaram em 2015; do número de pesquisas de mulheres e homens na mesma área, no site do CNPq, em 2016 e dados sobre gênero de professores e alunos de 29 programas de pós-graduação em diferentes áreas de ecologia e conservação no Brasil, usando o banco de dados Sucupira, gerenciado pelo CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). 

O artigo afirma que foi usado apenas a classificação de sexo, pois a identificação de gênero não está inclusa no banco de dados Sucupira – a autora, portanto, sugere a criação de um sistema que inclua também a classificação de gênero. Para a pesquisa, foi proposto investigar a existência do Efeito Tesoura, no qual a presença de mulheres diminui de acordo com o aumento da posição acadêmica. Estudos sobre preconceito de gênero são essenciais para tornar a conservação ecológica no Brasil um campo mais inclusivo. 

As mulheres ainda são sub-representadas em várias áreas científicas, incluindo ecologia e conservação. Elas são a maioria dos alunos, 59%, e a minoria dos professores, 36%. O estudo enumera diversas razões por trás da perda de mulheres cientistas, que dificultam sua persistência no meio acadêmico. Apenas 29% dos projetos propostos são financiados e, mesmo quando conseguem a bolsa, embolsam quase metade do valor oferecido aos seus pares masculinos. Em relação às bolsas do CNPq, o total concedido para a área da ecologia foi de R$ 6.9 milhões, e as mulheres receberam apenas 40% dos recursos. Enquanto o valor médio de financiamento por bolsa para ecologistas homens foi de R$ 103 mil (62,3%), para as mulheres foi de R$ 63 mil (37,7%). Eles também foram maioria como coordenadores de bolsas – 71,1%.

A presença masculina nas bolsas aceitas foi predominante em 2016: eram 126 homens e 73 mulheres. Em 2017, apenas um terço dos candidatos às bolsas do programa eram do sexo feminino. É importante ressaltar que o CNPq é um dos principais centros de apoio à pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Quando olhamos para a presença delas em relação a categorização de estudos mais prestigiados, elas também estão em menor número nas mais conceituadas. 

As mulheres ainda são sub-representadas em várias áreas científicas, incluindo ecologia e conservação. Elas são a maioria dos alunos, 59%, e a minoria dos professores, 36%. O estudo enumera diversas razões por trás da perda de mulheres cientistas, que dificultam sua persistência no meio acadêmico. Apenas 29% dos projetos propostos são financiados e, mesmo quando conseguem a bolsa, embolsam quase metade do valor oferecido aos seus pares masculinos.

As bolsas são categorizadas como 1A, 1B, 1C, 1D e 2, sendo 2 a mais baixa e 1A a mais alta. Enquanto, no período investigado, nenhuma pessoa conseguiu bolsa em nível 1A, nas categorias 1B, 1C E 1D, as mulheres representavam apenas um quarto ou menos dos beneficiados. Na 1B, por exemplo, foram entregues duas bolsas para mulheres e dez para homens. Essa diferença só diminui no nível 2, no qual mulheres receberam 12 bolsas, enquanto homens, 15. É interessante constatar também que elas não são o maior número quando vemos o total de pessoas que buscaram a bolsa CNPq: foram 40, para 72 dos pares masculinos. 

Sexismo

Outro item elencado pela autora é a baixa representatividade de mulheres em posições mais prestigiadas no meio acadêmico, o que acaba diminuindo sua confiança de estar nesse meio – conhecido por ser o segundo maior em nível de assédio sexual, precedido apenas pelo setor militar. Nos programas de pós-graduação, a média de professoras, tanto no quadro permanente quanto de colaboradores, foi de 34,4%. O estudo aponta que a média de professoras na categoria permanente foi de 35,5%, mas nenhum dos programas teve presença acima de 50%. Para o subcampo da ecologia, eram apenas quatro em 32 docentes. Já a média de alunas de mestrado e doutorado foi de 55,7%.

Quanto ao CAPES, a autora afirma não ter encontrado diferenças significativas no percentual de professoras nas regiões geográficas. Porém, o mesmo não acontece em relação às alunas, pois o programa apresenta diferença entre as regiões, sendo a Norte a com menor percentual no meio ecológico. O assédio sexual de homens mais velhos a mulheres mais jovens e agressões foram relatados durante trabalhos de campo, componente fundamental da pesquisa ecológica e da conservação. 

Nesse ambiente de hierarquia sexual, a maternidade também representa um obstáculo para as ecólogas, pois o trabalho de campo requer que o pesquisador passe longos períodos fora. A autora avalia que a maternidade deve ser considerada nas avaliações de projetos de forma a evitar uma penalidade, que é ainda mais forte entre mulheres no início da carreira. 

Sub-representação de mulheres ecólogas na academia no Brasil

 Clique aqui para ver maior
Fonte: Ecologistas femininas estão caindo da escada acadêmica: um apelo à ação (2022)

Inclusiva e segura

Para tornar a academia um local mais seguro e inclusivo para as mulheres, o estudo recomenda práticas já testadas em alguns locais, como, por exemplo, chamadas de bolsas que incluem avaliações diferenciadas para pesquisadoras que são mães. Nesse caso, são dados períodos mais longos de avaliações de currículos, aumentando um ano para cada filho. Ela sugere também a criação de bolsas específicas para mães e mulheres em início de carreira, criando assim formas de subsídios para mulheres em uma base maior, estendida ao país inteiro.

O financiamento é crucial para que pesquisadores realizem seus estudos e mantenham atividades de laboratório. Outra sugestão é empregar processos da “revisão duplo-cego”, no qual tanto a identidade do autor quanto do revisor não são reveladas, para que não haja nenhuma preferência baseada em preconceitos ou achismos. Assim, se dá mais importância ao projeto avaliado do que ao currículo do pesquisador. 

O preconceito implícito contra as mulheres cientistas também parte da falta de modelos para as alunas. O estudo aponta que a concepção percebida, ou não, de que as mulheres são menos capazes que os homens pode ser um dos principais fatores que afetam a permanência das mulheres na academia e no meio ecológico. Logo, as sociedades científicas devem aumentar palestrantes mulheres durante suas conferências, principalmente nas plenárias. 

Cotas para mulheres em cargos mais altos ou outras formas de política de incentivo institucional, como celebrar publicamente as conquistas de mulheres cientistas, aumentará a liderança e financiamento das mulheres no campo. Por fim, o estudo salienta que uma comunidade científica com equilíbrio de gênero em todos os níveis hierárquicos, em especial na ecologia e conservação, pode levar a uma ciência mais inovadora, eficaz e com melhores resultados nas práticas aplicadas na academia e em campo. 

* * *

Jornalismo ecofeminista a favor da justiça socioambiental e climática

Para continuar fazendo nosso trabalho de forma independente e sem amarras, precisamos do apoio financeiro da nossa comunidade. Se junte a esse movimento de transformação.