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Além da Cultura do Estupro: Violência Sistêmica e a Importância de Fortalecer as Mulheres

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  • Marina Colerato
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Falar sobre abuso sexual e estupro no Brasil, e no mundo, não é tarefa fácil. Não porque nós não temos informações sobre o assunto, nós temos. E muita. Uma pesquisa rápida mostra números alarmantes sobre violência sexual contra a criança, adolescentes e mulheres, principalmente idosas. Está em todos os cantos, mas, ao mesmo tempo, parece não estar em lugar nenhum. Essa omissão e silenciamento, esse desviar o olhar, essa transferência de culpa, e até mesmo a falta do entendimento da complexidade do problema, é o que torna a conversa difícil.

O caso da menina do Rio de Janeiro estuprada por 33 homens é a prova de que falamos menos sobre estupro do que deveríamos. Por isso, o crime até pode parecer uma “aberração”, algo totalmente “anormal” e “fora do padrão”, principalmente para quem tem na ponta da língua julgamentos que servem de desculpa. Será que esquecemos, ou realmente não sabemos nada sobre, as facetas da violência sexual?

Porque não importa termos dados provando que o acontecido no Rio não é uma aberração, não é anormal, não é fora do padrão, que o Rio teve 15 mulheres violentadas por dia em 2014, crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos; que o SUS atendeu 20 casos por dia de crianças vítimas de violência sexual em 2012, um número assustador, mas que, na realidade, é muito maior, porque menos da metade dos atendimentos são reportados para o banco de dados; e, mais importante de tudo, que 70% da violência sexual no Brasil acontece dentro de casa e é cometida por parentes e amigos, o estupro, quando escancarado, ainda é tratado com espanto, como caso isolado e relativo às circunstâncias.

Mesmo que o espanto nesse caso resida no fato de 33 homens estarem juntos fazendo isso contra uma menina, e nenhum entre os 33 “se salvar’, configurando estupro coletivo, parecemos esquecer que estupro coletivo de mulheres não é raridade. Estupro coletivo é vias de regra em países em guerra ou dominados, por exemplo, sendo direta e indiretamente protegido pelo Estado. No Uncovering Collective Rape: A Comparative Study of Political Sexual Violence, escrito por Jennifer L. Green e publicado no International Journal of Sociology, a autora nos lembra que “estupro coletivo é um assunto internacional importante, mas tem sido alvo de pouquíssimas pesquisas acadêmicas”. Em um Google rápido, em português e inglês, constatamos esse fato: é difícil achar estudos, pesquisas e livros sobre o assunto.

Precisamos encarar: A violência sexual não está na favela, na noite, na escola, na periferia, no Acre, ou em qualquer lugar alheio a nós. A violência sexual está impregnada no Estado e dentro de casa, e prospera no silêncio e na negação, tendo assim esse poder imensurável de permear a sociedade e agir em looping. A violação de corpos, ou o incentivo a ela, está em todos os lugares, está no nosso dia a dia e nas nossas mesas, nos programas de televisão e seriados, na publicidade, na Internet, nas cantadas de rua, nas capas de revista, na mídia, na história e, acima de tudo, na família e na política. É ingênuo, ou hipócrita, tratar a violência sexual como relativa e pontual quando, na verdade, a violência baseada em poder é modus operandi do mundo e a violência sexual talvez seja uma das formas mais expressivas de demarcação desse poder.

Quem sabe esse olhar amplificado, e menos ‘machocentrado’, que nos faz pedir pelo amor de Deus para os homens entrarem na nossa luta quando, na verdade, isso é importante mas não fundamental, possa nos ajudar a encontrar as raízes do problema e propor soluções para minar a violência e fortalecer não só as mulheres estupradas e violentadas, mas as mulheres que permitem os estupros da própria filha dentro de casa, as tias e avós que fingem que não viram, as mães que incentivam as filhas a permanecerem em casamentos abusivos, mulheres em situação de poder (olha ele de novo) que subestimam a vítima, e todas mulheres que perpetuam o discurso violento contra as mulheres e justificam os abusos. Não porque essas mulheres são culpadas, mas porque elas também são vítimas e ajudam a manter o abuso e a cultura do estupro.

Somos mais da metade da população e temos muito poder de reversão. Imagine então quando encorajarmos essas mulheres a serem líderes, na política e na sociedade, garantindo maior poder de mudança de pensamento e comportamento, além de melhores leis e punições?

Não precisamos convencer homens machistas e que desmerecem o feminismo o tempo todo a postarem fotos de “homens contra a cultura do estupro” nas mídias sociais. Precisamos entender o funcionamento (ou os funcionamentos) da violência e da dominação para conseguirmos agir, na micro e na macro política, para a solução do problema. O acontecido com a menina do Rio de Janeiro, no mesmo dia em que Alexandre Frota faz propostas ao Ministério da Educação, é só mais uma prova de que o problema é estrutural e sistêmico, logo são essas bases que devemos, com urgência, corroer.

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