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Da Seca à Violência de Gênero: Consequências da Produção de Eucalipto no Vale do Jequitinhonha

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  • Juliana Afonso
  • Nina Rocha
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Victória Lobo

16 min. tempo de leitura
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Prática esgota as nascentes da região, comprometendo o cotidiano das comunidades e a biodiversidade local deixando terras, rios e vidas secas.

Na língua maxakali, indígenas que ocupavam originalmente diversas partes de Minas Gerais, Jequitinhonha é um topônimo que descreve um rio largo e cheio de peixes. Diferente do que traz na denominação, parte do Vale do Jequitinhonha, na região Nordeste do estado, hoje agoniza diante de uma realidade bem distinta do anunciado pelo seu nome. 

As nascentes, antes abundantes e extensas, foram secando ao longo dos anos e as consequências da extinção dos cursos de água repercutem na qualidade de vida da população e na preservação ambiental da região. Por trás disso está a exploração predatória de eucalipto, uma das principais causas da escassez hídrica no semiárido mineiro do Alto Jequitinhonha.

A seca vem, pouco a pouco, tornando-se mais presente no cotidiano das moradoras e moradores de cidades como Turmalina, Capelinha, Minas Novas e Veredinha, alguns dos municípios que compõem a região conhecida como ‘Vale da Miséria’ devido aos baixos índices históricos de desenvolvimento social.

Com a premissa – e a promessa – de fomentar a economia e o ‘progresso’, as plantações de eucalipto chegaram ali na década de 1970, mas a monocultura não trouxe nem prosperidade nem avanço: o cenário que moradores e agricultores familiares possuem hoje é o de grotas secas, um solo desgastado e uma população adoecida devido ao uso indiscriminado de agrotóxicos nas plantações. 

A agricultora rural Maria José Pereira dos Santos, de 50 anos, mora na comunidade de Poço D’Água, em Turmalina e é uma das habitantes que relata a disparidade entre como a região era antes e como a situação está agora. “Tinha muita água, muita chapada, onde hoje é eucalipto. Depois que essa firma chegou com eucalipto, estragou tudo, tomou as terras todas. Hoje as veredas não têm mais nada, mas tinha peixe, muito peixe, passarinho, pequi, muita fruta e muita mata. A gente tinha até medo de passar. Hoje, infelizmente, tá muito diferente. A água diminuiu bastante, os córregos, as grotas e as nascentes secaram”.

Discurso de desenvolvimento, prática de destruição

A ‘firma’ a que Maria José se refere é uma siderúrgica que integrou o conglomerado multinacional da ArcelorMittal até 2011. A empresa, que chegou ao Vale do Jequitinhonha com o nome de Acesita, passou a ser Aperam Bioenergia quando separou-se da ArcelorMittal e tornou-se um dos braços da Aperam, que tem sede em Luxemburgo e opera em mais de 40 países. No relatório mais recente, a multinacional  declarou um lucro líquido de 329 milhões de euros entre janeiro e junho de 2021. O valor corresponde a cerca de 1 bilhão e 957 milhões de reais.

A produção de eucalipto nas cidades de Capelinha, Itamarandiba, Veredinha, Turmalina e Minas Novas alimenta a demanda de carvão da Usina Siderúrgica da Aperam South America em Timóteo, na região do Vale do Aço mineiro. De acordo com a página institucional da empresa, as florestas de eucalipto do Vale do Jequitinhonha possuem uma capacidade de produzir 400 mil toneladas de carvão vegetal e 30 milhões de mudas de eucalipto a cada ano.

Para tamanha produção, a Aperam Bioenergia afirma que “incrementa ações orientadas para a saúde […], meio ambiente e desenvolvimento sustentável”. Ainda segundo o site, a instalação da companhia na região, na década de 1970, seguiu a “legislação ambiental vigente na época”, mas essas informações divergem dos relatos da comunidade. 

O roteiro não diverge muito de relatos de outras comunidades assediadas e invadidas por grandes projetos agroindustriais e de mineração. Quando a Aperam iniciou as operações em Turmalina, o avô de Maria José era proprietário de um dos terrenos onde foi plantado o eucalipto. Na época, a empresa afirmou que o local serviria também para o cultivo de café e outros tipos de frutas e que a plantação iria gerar emprego para os moradores, mas esse projeto nunca se concretizou. “O pessoal não tinha entendimento, pegou e vendeu, a preço de nada. Quando eles desmataram, chegaram com eucalipto e só plantaram isso… não deram serviço e emprego para ninguém. Foram chegando com aquelas máquinas pesadas e ninguém teve acesso mais às terras”, relata ela. 

Hoje as veredas não têm mais nada, mas tinha peixe, muito peixe, passarinho, pequi, muita fruta e muita mata. A gente tinha até medo de passar. Hoje, infelizmente, tá muito diferente. A água diminuiu bastante, os córregos, as grotas e as nascentes secaram.

Maria José Pereira dos Santos

O professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e integrante do Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV), Clebson Souza de Almeida, direcionou seus estudos para entender com profundidade a monocultura do eucalipto desde sua chegada até as suas consequências no ecossistema local. Nascido e criado em Turmalina, Clebson hoje trabalha diretamente com comunidades rurais e investiga a chegada da monocultura no Vale do Jequitinhonha: “o discurso desenvolvimentista, de que o eucalipto iria desenvolver a região, sempre foi usado para implementar projetos no Vale”. 

A flora foi a primeira a sofrer danos durante o processo de implantação da monocultura, como destaca Clebson. “Eles destruíram toda a vegetação para plantar o eucalipto”. Ele aponta a semelhança do processo com o desmatamento na Amazônia: para substituir o bioma nativo pelo eucalipto, grandes áreas eram incendiadas de uma só vez. “Tem muitos relatos do pessoal da época que dizem que a quantidade de animais que morria era impressionante. Tinha muito animal morto, queimada de árvores centenárias”, conta o professor. 

Além das queimadas, outra prática comum foi o uso de correntões para desmatar as áreas. Utilizado principalmente para criar pastos para o agronegócio, o método derruba toda a cobertura vegetal de um terreno a partir de correntes fixadas em tratores. “Depois que fez isso, que deitou todo o mato, muita fruta silvestre, pequizeiro, jaca, gravatá, jatobá, gabiroba, mangaba… tudo isso foi tombado. Depois veio o fogo, limpou o terreno, e onde era mata nativa ficou um deserto”, explica a agricultora familiar Faustina Lopes da Silva, 67 anos, moradora da comunidade Campo do Buriti.

A fauna também não passa ilesa: por ser um processo que dura segundos, os animais não conseguem escapar a tempo e morrem durante o desflorestamento. Proibido desde 2020 pela Lei nº 5.268 do Código Florestal, existem registros de correntões sendo operados no Alto do Jequitinhonha. O Modefica tentou contato com a Aperam, mas a empresa não deu retorno até a publicação desta reportagem.

Deserto verde

A ocupação do Alto Jequitinhonha por migrantes acompanhou os movimentos extrativistas em Minas Gerais. Para as moradias, a população priorizava as grotas, que estão nos fundos de vales e são valorizadas por terem fontes de água e terras mais favoráveis para o plantio de alimentos. Para as atividades agropecuárias, eram utilizadas as chapadas, caracterizadas por grandes extensões de terras planas e onduladas, cortadas por fontes de águas e cuja vegetação é mais rasteira.

As grotas são partes mais baixas e as nascentes acabam sendo abastecidas pelas águas que escoam das chapadas, onde estão hoje as plantações de eucalipto. Depois do plantio, esse fluxo natural foi se alterando. “Quando a gente tinha anos bons de chuva, as nascentes conseguiam se manter por um bom período. Com a dinâmica industrial da produção, a chapada, que é a área de recarga, estava ocupada pelo eucalipto”, ressalta Clebson

De forma didática, ele explica que as chapadas funcionam como uma ‘caixa d’água’ para quem precisa abastecer-se de água nas grotas: “a caixa d’água está lá em cima e as famílias têm a autonomia de lidar com a torneira, que é a nascente lá embaixo. Mas com o eucalipto, que tirou toda a vegetação e a cobertura vegetal, cai o volume de água”. Entre os motivos estão a construção de estradas para escoamento das toras de madeiras, responsáveis por compactar a terra e impedir a absorção da água pelo solo, e o teto criado pela folhagem dos eucaliptos que bloqueia a passagem da água da chuva.

Porém, o que mais impacta no fluxo hídrico é o alto consumo de água do eucalipto: diferente das árvores típicas do cerrado – bioma que predomina nas chapadas – o eucalipto possui uma necessidade de água quatro vezes maior do que a de plantas nativas. Enquanto as árvores originárias precisam de 2,6 litros/m2 de água por dia, o eucalipto exige 6,1 litros/m2 para o mesmo período. 

De acordo com os estudos do pesquisador Clebson de Souza Almeida, “o déficit hídrico gerado pela monocultura de eucalipto em apenas um ano, daria para abastecer toda a população rural e urbana do Vale do Jequitinhonha durante um período de aproximadamente 19 anos”.

O déficit hídrico gerado pela monocultura de eucalipto em apenas um ano, daria para abastecer toda a população rural e urbana do Vale do Jequitinhonha durante um período de aproximadamente 19 anos.

Clebson de Souza Almeida

O cenário fica mais complexo quando ao desequilíbrio hídrico causado pela monocultura do eucalipto adicionamos as consequências da crise climática na região. Segundo o Índice Mineiro de Vulnerabilidade Climática (IMVC) do Estado de Minas Gerais, lançado em 2015 pela Fundação Estadual do Meio Ambiente, a região apresenta alta vulnerabilidade. O documento destaca os territórios mais suscetíveis aos efeitos das mudanças climáticas, ou seja, “medida na qual um município está suscetível aos – ou é incapaz de lidar com – efeitos adversos das mudanças climáticas”. 

Os extremos climáticos já são vivenciados no Vale do Jequitinhonha: a população enfrenta de seca drástica a enchentes ao longo das estações. Os principais impactos estão na zona rural, onde mais de um terço da população da região vive e sofre com as consequências da eucaliptocultura, bem como está mais vulnerável aos extremos do clima. 

Legenda
Perfil do solo Infiltração de água Pontos mais comuns ao afloramento do lençol freático
Elaborado por: Clebson Souza de Almeida, 2018
Fonte: Pesquisa de campo, 2017-2018

Para além da falta d’água, as interferências da presença do eucalipto incluem ainda o uso abusivo de agrotóxicos para lidar com insetos e plantas indesejadas. Segundo a Auditoria de Certificação de Manejo Florestal sobre as atividades da Aperam Bioenergia, foram 55.160 kg/ano de agrotóxicos com glifosato, composto usado para eliminar ervas daninhas, e 76.284 kg/ano de defensivos com sulfluramida, para controle de formigas.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o glifosato está associado à produção de células cancerígenas. Já a sulfluramida pode causar uma série de problemas como distúrbios hepáticos e transtorno genético dos ossos, de acordo com dados do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares.

Apesar das implicações, a Aperam Bioenergia recebeu a renovação do selo FSC (Forest Stewardship Council), mas não fornece mais detalhes abertos sobre seu desempenho ambiental.

Seca de oportunidade 

As terras da família de Maria José estão à beira do Rio Fanado, subafluente do Rio Jequitinhonha. Mesmo com a propriedade distante das chapadas onde estão os eucaliptos, a seca ecoa na vida de toda a comunidade. “Acabou com a água dos córregos, das nascentes todas. Tinham muitas aqui onde eu moro”, conta ao falar da Comunidade do Poço D’água. 

A falta de água desencadeia uma série de consequências, entre elas a dificuldade de geração de renda, a falta de emprego e a consequente migração da população para grandes centros urbanos. A agricultora destaca a escassez de oportunidades para os jovens da comunidade na região. “Eu trabalho, planto minhas coisas, colho, mas tem muita gente que não tem uma terrinha para plantar nada. Aí fica sem serviço. A gente sente que ela [a Aperam] podia dar um serviço, um emprego pelo menos ao jovem”. 

A dissertação “Reflorestamento, terra e trabalho: análise da ocupação fundiária e da força de trabalho no Alto Jequitinhonha”, apresentada pela pesquisadora Juliana Sena Calixto, realiza uma comparação entre a área ocupada por cada atividade produtiva no município de Capelinha e a mão de obra empregada em cada uma delas. Os dados destacam que, enquanto a agricultura familiar ocupa 30% do espaço e absorve 87,5% da mão de obra, a monocultura de eucalipto ocupa 23,9% do espaço (de forma declarada) e absorve apenas 3,7% da força de trabalho.

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Dona Maria José afirma que quem mais sente os impactos são as mulheres. “Só da roça a gente não sobrevive. Tá dando muito pouco, cada ano a chuva é mais pouca, as roças diminuem mais, então a gente tem que ter outra renda e não temos”. Uma das alternativas encontradas pelas moradoras da região é o artesanato em cerâmica conhecido pelo país afora. 

É com a arte que Anisia Lima de Souza, 50 anos, consegue tirar o sustento da sua casa. “Nós já estamos na quinta geração no artesanato, porque minha avó ainda é viva e a minha netinha de quatro anos já fica brincando com o barro quando a gente senta pra trabalhar”, conta rindo. Ela faz parte da Associação dos Lavradores e Artesãos de Campo Alegre, criada em 1985. Hoje, o grupo conta com 46 integrantes que realizam diversos trabalhos, entre eles as famosas peças em argila. 

A família de Anisia sempre trabalhou com lavoura, mas devido a falta de chuvas, as mulheres buscaram outra atividade para complementar a renda. Hoje, o que planta é para subsistência e o dinheiro do artesanato é para comprar o que não produz. Nem sempre foi assim. “A gente até plantava mais. Quando eu era pequena a gente plantava até arroz. Quando casei, há 29 anos, eu ia na casa da minha mãe de pé e passava por uns cinco córregos. Hoje eu vou daqui lá sem achar uma gota de água”, lamenta. Para ela, é difícil não associar a mudança desse cenário ao plantio de eucalipto.

Existe ainda uma série de impactos vividos pelas mulheres que são invisibilizados. Ao longo da sua pesquisa, Clebson ouviu relatos de artesãs sobre temas como violência e segurança. “As comunidades [rurais] ficam em torno de 8 a 10 quilômetros das cidades e essas mulheres normalmente iam com os filhos pequenos para a feira vender o artesanato. Na época não tinha praticamente nenhum veículo e a maioria das mulheres ia a cavalo ou a pé”, explicou ele. Depois da chegada das empresas de eucalipto, o número de homens na região cresceu, aumentando a sensação de insegurança. 

A gente até plantava mais. Quando eu era pequena a gente plantava até arroz. Quando casei, há 29 anos, eu ia na casa da minha mãe de pé e passava por uns cinco córregos. Hoje eu vou daqui lá sem achar uma gota de água.

Anisia Lima de Souza

Além disso, as trilhas que a população construiu foram destruídas e as pessoas passaram a se perder nos caminhos. As mulheres, que muitas vezes saíam sozinha ou com os filhos, pararam de ir a cidade ou mesmo de acessar a chapada para colher flores, frutos ornamentais e plantas medicinais com medo de serem violentadas sexualmente. “Passa despercebido essa violência, mas pensa só, essa pessoa perdeu sua liberdade. Essa violência simbólica foi muito forte”, reforça Clebson. Nos últimos dez anos, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais registrou 348 casos de estupro nos munícipios de Capelinha, Itamarandiba, Veredinha, Turmalina e Minas Novas, inlcuindo estupro de vulnerável. 

Clebson destaca que todo o modo de vida das comunidades tradicionais precisou ser reorganizado. “[A chegada do eucalipto] Desestruturou toda uma base ancestral e hereditária de conhecimento. A retirada e a expropriação do território e da água foi desencadeando muita coisa depois”, destaca ele.

Ferramentas para a resistência

O território segue em disputa. Enquanto os eucaliptos se multiplicam, forçando a população a conviver com a falta d’água e se afastar dos seus modos de vida tradicionais, grupos organizados buscam fazer frente ao avanço da monocultura. Uma das maiores referências na região é o Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV), fundado em 1994 por agricultores e agricultoras organizadas através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Turmalina. O CAV pesquisa e implementa tecnologias sustentáveis de produção rural aliadas à regeneração do meio ambiente.

Grande parte das ações do Centro tem como objetivo diminuir a dificuldade dos moradores e moradoras locais com relação ao acesso à água, como caixas de contenção de água da chuva, cercamento de nascentes, barraginhas, bacia de contenção, produção agroecológica. As iniciativas são fundamentais para melhorar a vida da população, mas segundo o engenheiro agrônomo do CAV, Renato Alves de Souza, não são suficientes para resolver os problemas enfrentados. “Vai ser um paliativo, vai diminuir um pouco a dificuldade das famílias, mas a questão da água está totalmente ligada à chapada. A chapada é um solo profundo, que tem a característica de reter a água, e que está totalmente comprometido pelo eucalipto”.

As mulheres, que muitas vezes saíam sozinha ou com os filhos, pararam de ir a cidade ou mesmo de acessar a chapada para colher flores, frutos ornamentais e plantas medicinais com medo de serem violentadas sexualmente.

Ao chegarem nesta conclusão, o CAV passou a dar mais ênfase em ações de mobilização e comunicação. “É importante a gente ter uma narrativa. E para essa narrativa se sustentar tem que ter embasamento. Então pra entrar nessa briga, desde os anos 2000, a gente passou a fazer pesquisas e buscar informações para contrapor a empresa”, explica Renato.

O incentivo tem reverberado. Algumas comunidades se movimentam para participar de reuniões, seminários, audiências públicas e outros tipos de evento para fazer denúncias e exigir direitos. Faustina Lopes da Silva, agricultora familiar e moradora da comunidade Campo do Buriti, lembra que após a chegada de um grupo de estudantes da Universidade de Lavras os próprios moradores começaram a se questionar sobre os impactos da monocultura do eucalipto na região. “Depois disso a gente criou forças e começou a fazer reunião. Juntamos lideranças, duas a três de cada comunidade, para fazer um levantamento do que poderia ser feito”, relata ela. 

Uma das decisões tomadas coletivamente é de não buscar contrapartida junto a Aperam “Eles estão aqui há mais de trinta anos. Tudo que a gente procura é ‘nós vamos tentar resolver’, mas não resolve nada”. Quando a comunidade pede ajuda para os eventos realizados na região, a empresa costuma responder oferecendo brindes, como bonés com a logo da corporação. “Por isso a gente vai perdendo a graça de procurar, sabe? E eu acho que é até melhor, porque não queremos retorno de uma coisa irreparável com pequeninas coisas”, afirma Faustina.

Outra ferramenta tem sido a comunicação. Um exemplo é o documentário Por trás da cortina verde, dos diretores Caio Silva Ferraz e Paulo Plá, que traz depoimentos e imagens sobre as consequências do plantio de eucalipto no Alto Jequitinhonha. “A empresa não quer ceder nada. Eles estão fazendo um dinheiro fácil, com uma terra que eles não compraram, causando um impacto gigante ao secar as nascentes do local. É uma exploração absurda, colonialismo barato. O Jequitinhonha é uma terra que expulsou gente porque ninguém tem acesso às terras mais, só tem acesso às grotas”, afirma Caio. O documentário, gravado de forma independente com o apoio de associações e moradores locais, já participou de mostras de cinema e soma quase 15 mil visualizações no Youtube.

De fato é necessário olhar por trás da cortina verde: a paisagem aparentemente saudável dos eucaliptos, com suas árvores altas e a estética de uma floresta abundante, esconde uma série de problemas e escancara a luta por regeneração. “Eu ficaria muito feliz se daqui trinta ou quarenta anos as pessoas que vivem no lugar voltassem a ter água.  Sou uma pessoa com muita vontade de ver as coisas mudarem. A gente vai reunindo e buscando forças”, diz Faustina, que anseia que as comunidades consigam ter a mesma resistência das raízes profundas do cerrado. 

Ainda que pareça utópico, as áreas onde o eucalipto deixou de ser plantado mostram que o desejo de Faustina pode se tornar realidade para os moradores do Alto Jequitinhonha. “Onde eles abandonaram o eucalipto, a chapada voltou toda com as mesmas plantas que tinha. Os pequizeiros, tudo nativo. Demora um pouco, mas volta. Então a esperança é que isso aconteça para o futuro, né? Para as pessoas que estão nascendo agora nascerem num espaço mais agradável”, finaliza, sonhando alto, a agricultora.

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