Documentário “The True Cost” Questiona os Custos Reais da Indústria da Moda Atual

Aos trinta minutos do The True Cost eu já não via a hora que o documentário acabasse. Eu não estava vendo nada particularmente novo, nada que eu ainda não tinha lido sobre em livros ou em matérias de revistas especializadas, mas Andrew Morgan, o diretor por trás do documentário sobre a indústria global da moda que estreia amanhã, 29/05, e que teve a realização possível por conta de uma campanha bem sucedida no Kickstarter, conseguiu fazer isso de uma maneira extremamente tocante e elucidante (e sim, nauseante) com filmagens e depoimentos ótimos.

O longa aborda, basicamente, um assunto recorrente aqui do Modefica: o impacto do consumo exagerado de produtos de moda na vida das pessoas e no planeta. Qual o verdadeiro custo de camisetas sendo vendidas a USD 5? Qual o verdadeiro custo da moda descartável? O que está por trás de um consumo de moda que cresceu 500% nos últimos 20 anos com produtos cada vez mais baratos, ano após ano? As pessoas em países em desenvolvimento realmente precisam trabalhar sob condições tão precárias? O jeito que se faz moda hoje é o único jeito? Comprar peças por USD 20 é realmente democrático?

Morgan nunca tinha dado muita atenção para essas questões e para as roupas que comprava. Até 2013, quando em uma manhã qualquer viu uma foto na capa do The New York Times. “A imagem era de dois meninos que andavam na frente de uma parede gigante com anúncios de pessoas desaparecidas. Pegando (o jornal), li a história do colapso da fábrica de roupas em Dhaka, Bangladesh, que tirou a vida de mais de 1.000 pessoas e feriu gravemente mais de milhares”, afirmou o diretor em carta aberta. “Instantaneamente aquilo partiu meu coração”.

O acidente em questão era o colapso do Rana Plaza, que aconteceu em 2013, logo depois de um incêndio em outra fábrica que produzia roupas para grandes varejistas de fast-fashion. Dois acidentes marcantes que ganharam as manchetes do mundo todo em meio a vários outros eventos isolados que nós geralmente não ouvimos sobre. De fato, o Rana Plaza foi uma espécie de wake-up call (ou um momento de virada, um chacoalhão) onde muita gente começou a prestar atenção nos problemas da indústria da moda que aconteciam desde 1980, mas até então passavam despercebidos a maior parte do tempo.

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“A indústria do vestuário é a indústria mais dependente do trabalho humano no mundo, empregando milhões de trabalhadores que são os mais pobres de todo o sistema, muitos dos quais são mulheres. Muitas destas mulheres recebem menos do que um salário mínimo, trabalham em condições inseguras, e são privadas de direitos humanos básicos. Além do impacto humano, a moda se tornou a segunda indústria mais poluente do mundo – perdendo apenas para a indústria do petróleo”.

Mas a indústria da moda não é apenas uma indústria milionária em número de pessoas ou em danos ao meio ambiente, ela é também uma indústria altamente lucrativa, que chegou à margem de 3 trilhões de dólares em 2014, tendo 2012 como o ano mais lucrativo de sua história, apenas um ano antes do colapso do Rana Plaza.

Diante de tantas perguntas, com o colapso do Rana Plaza sendo seu despertar, o diretor resolveu visitar e conversar com pessoas diferentes da indústria global da moda, desde os trabalhadores que ganham USD 2 por dia, aos donos das fábricas têxteis, aos produtores de algodão, aos ativistas pelos direitos humanos nesses países em desenvolvimento, aos economistas que são a favor ou contra o sistema. Só não conseguiu conversar com as grandes varejistas, que recusaram ceder entrevistas.

 

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Trabalhadoras têxteis na Ásia // Reprodução

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Montanhas de lixo têxtil // Reprodução

 

Eu não darei muito SPOILER (além de admitir ter ficado particularmente chocada com a única responsável por uma rede de fast fashion, que topou falar para o filme, ter dito, da maneira mais fria e indiferente possível, que ela não se importava com as condições das pessoas que estavam fazendo as roupas para a sua empresa, e sinceramente tocada quando uma mulher trabalhadora pediu “não comprem essas roupas, elas são feitas com o nosso sangue”), apenas direi que é muito importante vê-lo na íntegra, por mais difícil que seja.

Mas eu posso dizer que foi feito um excelente trabalho em não apenas focar em problemas e apontar dedos para as marcas esperando que delas venham a grande solução, mas mostrando iniciativas como as de Stella McCartney, Patagonia, da Fair Trade International, de jornalistas e ativistas como Livia Firth e Orsola de Castro, além de endossar a sociedade como um todo que vem aceitando (e incentivando), ano após ano, seja por causa do marketing, seja por causa da falsa sensação de poder, uma indústria extremamente cruel com as pessoas, especialmente mulheres, e com o planeta.

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