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Em Meio à Soja e Cana, Agricultura Agroecológica no Paraná Luta Para Sobreviver

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  • Juliana Aguilera
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Victória Lobo

10 min. tempo de leitura
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Janete, Bernadete e Vera são três agricultoras agroecológicas em cidades diferentes do Paraná prejudicadas pelas monoculturas de soja e cana - e pela quantidade obscena de agrotóxicos despejadas nelas. Suas histórias mostram as dificuldades para quem quer plantar sem veneno e o que poderia ser feito para garantir seus direitos

Quando o vizinho de Janete Beltrão aplica inseticida na sua monocultura de soja, os insetos correm todos para a horta agroecológica da produtora. Bernadete Olesczuk tenta criar noz-pecã sem agrotóxicos, mas o vizinho não respeita a barreira verde de sua propriedade. Já Vera Gonçalves viu um esforço de dois anos ir para o ralo quando a propriedade vizinha passou com a roçadeira em cima de sua barreira e prejudicou seus produtos orgânicos. Esses relatos aconteceram com pessoas diferentes, em cidades diferentes do Paraná, mas todos falam da dificuldade de ser uma agricultora agroecológica numa terra de monocultura de soja, cana-de-açúcar e muito, mas muito agrotóxico. 

O Brasil plantou, em 2015, 71,2 milhões de hectares de lavouras em 21 cultivos e utilizou 899 milhões de litros de agrotóxicos. A extensão territorial equivale a aproximadamente 591 cidades do Rio de Janeiro, com a soja ocupando quase metade de toda área plantada, com 42%, seguida do milho, 21%, e da cana-de-açúcar, 13%. No Paraná, tais culturas estão entre as cinco primeiras na produção da safra 2018/2019 – o estado representa 20% da produção nacional de grãos, ocupando uma posição de destaque no mercado agrícola nacional. A tendência, nesse cenário de commodities e concentração de renda é o aumento de intoxicações e diminuição de oferta de produtos agroecológicos. 

A tese Agrotóxicos, transgênicos na agricultura e saúde humana no estado do Paraná-Brasil aponta que, em 2016, a OMS (Organização Mundial de Saúde) estimava que nos chamados “países em desenvolvimento” ocorrem mais de três milhões de intoxicações agudas causadas por agrotóxicos, resultando em mais de 220 mil mortes por ano. Apesar das subnotificações, algumas pesquisas dão uma dimensão mais próxima da realidade brasileira. Em 2019, o Brasil contabilizava 16.249 propriedades certificadas de orgânicos – sendo 2.402 no Paraná, estado com o maior número de propriedades no país. 

Em 2016, a OMS estimava que nos chamados “países em desenvolvimento” ocorrem mais de três milhões de intoxicações agudas causadas por agrotóxicos, resultando em mais de 220 mil mortes por ano.

No entanto, nos falta um senso agroecológico para ter a dimensão real desta outra forma de produção. Algumas teses chegam a defender, inclusive, que embora já exista eficiência produtiva com níveis satisfatórios de manejo e produção, ainda existe “carência em ações de ensino, pesquisa e extensão que sejam associados às particularidades presentes no sistema orgânico”. A não disseminação do conhecimento agroecológico gera desinteresse, desinformação e prejudica os produtores e produtoras que atuam no ramo, como veremos nos relatos abaixo. Ao mesmo tempo, garante a hegemonia da agricultura industrial em todas as esferas – do ensino à economia. 

De acordo com o art. 2º da Lei nº 10.831/2003, “considera-se produto da agricultura orgânica ou produto orgânico, seja ele in natura ou processado, aquele obtido em sistema orgânico de produção agropecuário ou oriundo de processo extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local”. Já Júlio Bittencourt, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), define orgânico como “orgânico convencionalizado”. “Quando a gente trabalha a transição agroecológica, a gente vai trabalhando esse olhar diferenciado para a biodiversidade”, explica. O agricultor que transita para o orgânico funciona, muitas vezes, ainda na estrutura da monocultura e, ao substituir os insumos convencionais como agrotóxicos e adubos sintéticos, ele vai encontrar desafios aos quais precisa se ajustar de outras formas agora, como as pragas. 

O orgânico é descrito por Júlio como uma fase intermediária ao agroecológico, que olha também para a segurança alimentar, biodiversidade local, preservação de córregos d’água. Um diagnóstico feito pelo especialista é de que, no Paraná, existem muitos produtores orgânicos especializados em um único cultivo, o que os compromete também na alimentação. “Hoje, o produtor compra 98% da sua necessidade de alimentos no mercado. E, infelizmente, compra um alimento péssimo, industrializado. Isso está muito difundido, não é só no meio urbano que as pessoas se alimentam mal”, afirma. Ao ter um quintal agroflorestal na sua propriedade, com diversidade para consumo próprio, o produtor melhora a alimentação da família e a biodiversidade local. 

Quando passam pela transição agroecológica, as culturas, agora diversas, se tornam mais estáveis. Na monocultura orgânica, o aparecimento de pragas, insetos e doenças sempre deixa os produtores reféns de produtos permitidos na produção orgânica – é a mesma lógica da convencional. Logo, no cultivo agroecológico existe a melhora no ponto de vista da saúde, da sociedade e do meio ambiente. “Tem um pessoal até interessado em produzir, mas aí vai demorar um pouco para ter retorno, e eles já têm dívidas, já têm outros custos”, expõe a agricultora Deisi Kerkhoff. Para ela, é importante disseminar o conhecimento sobre o não uso de agrotóxicos nas lavouras, para que mais produtores conheçam a prática e entendam que ela é viável. 

Invasões

Deisi possui uma área de sua propriedade certificada organicamente e ela até gostaria de certificar outra área, mas não consegue por conta dos vizinhos que aplicam agrotóxicos em suas lavouras. “Quando a gente comprou, há sete anos, os vizinhos eram aqueles agricultores mais antigos”, comenta, “era mais o pessoal do cultivo frutífero para consumo. Com o avanço da produção de soja, começamos a ter sérios problemas na questão de barreiras”. Quando o vizinho passa agroquímicos na soja, Deisi vê as folhas da sua parreira de uvas caírem. Como as propriedades vizinhas estão geograficamente localizadas em regiões mais altas, o veneno aplicado acaba contaminando sua área. 

A agricultora encontra mais do que resistência dos agricultores convencionais; ela precisa lidar com violações explícitas como o fato deles desrespeitarem a divisão da terra. Num caso específico, adentraram 2m em seu terreno. Na ocasião, ela havia plantado árvores nativas específicas para a barreira orgânica, que foram removidas pelo trator do vizinho. A saída, além de refazer a barreira, foi colocar uma cerca: “a gente teve que ir lá e fazer uma cerca dizendo ‘ó, aqui é a divisa, você está plantando na nossa terra’”. 

Deisi tem vontade de aumentar sua produção. Ela também tem a demanda – que inclusive, cresceu na pandemia – mas não consegue por conta das dificuldades da contaminação. “Eu tenho demanda por mais produto, teria mão-de-obra para isso, mas provavelmente não vou conseguir certificar uma parte do talião. Minhas uvas hoje estão praticamente abandonadas. Faz dois anos que começaram a morrer”. Na parte que consegue manter a produção orgânica, aproximadamente 1 hectare e meio, a agricultora cultiva maçã, cenoura, beterraba, brócolis, couve-flor, repolho, alface, feijão, mandioca, temperos e chás. 

Já Janete Beltrão sente o impacto do veneno alheio de outra forma: quando os vizinhos aplicam o agrotóxico na plantação de soja, os insetos migram massivamente para sua horta, que é agroecológica e certificada. “O impacto não é direto, mas se dá na redução da biodiversidade e no desequilíbrio. Eles simplesmente dizimam nossas hortas”, explica. Outro ponto levantado pela agricultora é a eliminação da vegetação local, que retira abrigo de pássaros e de insetos de controle biológico. Ela não vê mais pela região os pássaros que comem insetos, enquanto a cigarrinha do milho tem causado “um ataque imenso”. 

Muitas vezes, as terras de monocultura são arrendadas. Janete explica que, quando alguém da comunidade tem algum maquinário, um trator, pulverizador, plantadeira, ele arrenda terra e máquina. Dessa forma, não é necessário mais ter a posse para concentrar a renda e a terra. “Hoje está acontecendo igual acontece com o capital financeiro: não se compra mais as estruturas dos bancos, arrenda, aluga, sabe? É uma outra modalidade do avanço do capitalismo que a gente vem vivenciando, o neoliberalismo”, afirma.

Muitas vezes, as terras de monocultura são arrendadas. Janete explica que, quando alguém da comunidade tem algum maquinário, um trator, pulverizador, plantadeira, ele arrenda terra e máquina. Dessa forma, não é necessário mais ter a posse para concentrar a renda e a terra. 

Sem o proprietário nem o arrendatário presente no dia a dia da fazenda de monocultura, o convívio com os produtores orgânicos se torna difícil. Esse é o caso de Vera Gonçalves e da sua relação com o vizinho que impossibilitou seu esforço de dois anos para conseguir o selo orgânico. “Chamei o pessoal para certificar e no dia anterior meu vizinho havia passado a roçadeira e roçou toda minha barreira”, comenta, “foi bem triste, o pessoal não concordou em certificar e eu concordo com eles, porque é perigoso”. Agora, Vera conta que está fazendo novamente a barreira, com capim-elefante e árvores, para tentar certificar em 2023. 

Como o proprietário não permanece no local, após o ocorrido, ela conversou apenas com outros vizinhos. A propriedade ao lado é produtora de soja e usa maquinário grande e, por não serem obrigados a fazerem barreira verde, acabam invadindo o terreno da produtora. “Eles vão passando até o último lugar, daí a terra vai caindo para a estrada e vai tirando a propriedade do outro, sabe?”, explica. 

Sem o resguardo da lei

Quando Bernadete Olesczuk comprou um terreno que foi utilizado para soja convencional,  ele estava degradado pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes. Ela decidiu, inicialmente, plantar noz-pecã no local, mas após fazer cursos de manejo orgânico básico no IDR, ela percebeu que poderia implantar outras culturas no meio. “A gente tem uma área de mata ciliar e decidimos colocar limão-rosa, que vai muito bem embaixo de árvores”, conta. A ideia é colocar um mix de plantas, tendo a noz-pecã como carro-chefe. Nesse mix, Bernadete enumera: café, açafrão, gengibre, inhame, abacate, ingá, gabiroba, erva-mate e araucárias. Tudo que pode ser beneficiado em geleias, patês e que podem ser uma forma de preservar a fauna da região, como abelhas e aves. 

Mas o empecilho vem do vizinho, que arrenda a propriedade para a monocultura de soja. Bernadete já sofreu com o passar do trator em cima de sua barreira verde e também com a pulverização aérea. Ela já chegou a levar o assunto para um advogado, mas não tem muito o que fazer. “Por exemplo, a pessoa pulveriza com o drone. Você não tem evidência que está indo no teu espaço. A não ser que você filme, mas não tem nada que te proteja”, relata. 

Bernadete afirma que a noz-pecã sente quando o agrotóxico é passado na plantação vizinha: “quando ela está em fase de floração e eles passam o veneno chamado 4B, ela aborta todas as frutas”. Outros companheiros agricultores também sofrem com a pulverização com drone. “É uma falta de respeito. A gente fica amarrado porque não existe uma legislação que defenda esse pequeno agricultor que está tentando fazer do jeito mais correto possível”, salienta. 

Para Júlio, o retrocesso ambiental dos últimos quatros anos, tanto a nível federal, quanto nas demais instâncias, tem tornado a legislação cada vez mais rígida para o agricultor orgânico, enquanto libera diversas moléculas para o agricultor convencional. “Muita gente vê a produção orgânica como uma forma de negócio interessante, mas tem vários dificultadores que inibem a entrada de novos agricultores”, ressalta. Ele exemplifica com a questão do milho transgênico e a contaminação de milhos crioulos, cujo pólen do primeiro viaja uma média de 150 a 500 metros, dependendo da condição do terreno. Segundo a Lei nº 9.985/2000, conhecida como Lei da Zona de Amortecimento, se você tem outro produto agrícola que não é transgênico, tem que respeitar, no mínimo, esses 100m. Mas, na prática, isso não acontece. 

É uma falta de respeito. A gente fica amarrado porque não existe uma legislação que defenda esse pequeno agricultor que está tentando fazer do jeito mais correto possível.

Bernadete Olesczuk

A coordenadora da rede de certificação participativa Ecovida, Daniela Calza, conta que quando conversa com agricultores orgânicos, a primeira questão colocada é a dificuldade de produzir com o agrotóxico sendo despejado nas redondezas. “Em Colorado tem uma única família certificada com produção orgânica. É afastada das áreas de monocultura, então eles têm menos dificuldade. Mas tinha outra em processo no Alto Paraná que o avião fazia curva na propriedade e eles não continuaram o processo de certificação”, relata. 

É nessa região, forte na monocultura de cana-de-açúcar, que a COPAVI (Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória) produz mais de 80 tipos de plantas certificadas, entre elas a cana-de-açúcar, em manejo agroecológico. A diferença aparece no fortalecimento da biodiversidade: “o controle biológico é feito com a vespinha e como a gente não queima a cana, não precisamos aplicá-la todo ano, como é feito no canavial convencional”, explica. A cooperativa também cria corredores ecológicos, que atrai uma maior diversidade de pássaros – Daniela chega a comentar, rindo, que certo dia seu cachorro acabou perseguindo um porco espinho perto de sua casa. 

Daniela conta que, em 2019, fez um curso com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e lá foi apresentado um debate sobre pulverização aérea e políticas públicas, mas o assunto não conseguiu avançar em Paranacity – havia poucas pessoas e pouca força política. Para Júlio, a produção orgânica e agroecológica não interessa o sistema econômico hegemônico, por isso, a atividade é pouco estimulada – no Brasil, chegamos a apenas 1% de produção orgânica. “O orgânico vai fazer com que o agricultor fique cada vez mais autônomo e menos dependente de comprar insumos. E existe muito lobby das bancadas ruralistas – os adubos químicos, a parte de mecanização, estão muito ligados ao sistema industrial”, finaliza ela. 

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