Lições Climáticas da Pandemia: a Economia Não Está Preparada Para a Crise Ambiental

Os números de casos de suspeitas, de infectados e de mortes do Coronavírus (Covid-19) não param de subir todos os dias, sejam na Europa, atual epicentro da pandemia, Oriente Médio ou Américas. A China já atravessou o pico da contaminação e os números na região estão decrescendo, mas isso está longe de significar qualquer tipo de equilíbrio. Um grupo de cientistas alerta que a pane pode se estender até 2021 – afetando desde a saúde mental das pessoas até a economia global. O que a pandemia de Coronavírus está nos ensinando é que não estamos preparados para lidar com um desastre de proporção mundial – como as mudanças climáticas.

Muitos questionaram por que o Coronavírus conseguiu mobilizar, tanto a mídia quanto líderes mundiais, de forma mais efetiva e mais rápida do que as alterações no clima e seus consequentes desastres. Frente à realidade inegável de que existem relações latentes entre a pandemia e as alterações climáticas, a dúvida que se soma é por que grandes veículos e líderes políticos não estão fazendo as correlações necessárias de forma mais intensa num momento tão oportuno. A resposta, para além do medo atrelado à propagação da nova doença, se encontra em razões econômicas de ordem global.

Apesar do vírus ter surgido em 2019, ninguém previu que sua disseminação atingisse a economia de tal forma. De 9 a 16 de março, ou seja, em apenas uma semana, 3 mil pessoas morreram, o dólar passou a margem dos R$ 5 e as bolsas de valores do mundo todo despencaram em números históricos – apenas a Ibovespa interrompeu suas negociações cinco vezes na última semana.

Enquanto o vírus estava contido na região de Wuhan, o mundo apenas assistia de camarote o que se passava na China: o hospital que foi construído em dez dias, o isolamento, os vídeos propagados na internet das alas emergenciais lotadas e médicos exaustos. Quando os primeiros casos foram notificados na porção ocidental, já tínhamos noção de algumas características do vírus, como os sintomas decorrentes, a transmissão, a faixa-etária com maior chance de mortalidade. Mas foi apenas quando os números passaram a crescer diariamente na casa das dezenas e as exportações e importações chinesas pararam, que as lideranças políticas acordaram. Mas acordaram tardiamente. Como sempre. Na última quarta-feira (11), a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou estágio de pandemia. O Coronavírus, que passou a ser tratado como crise iminente, mostrou que não estamos preparados para lidar com os efeitos do colapso climático.

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Crise em todas as esferas

O governo chinês não teve muitas escolhas a não ser isolar a população de Wuhan (cidade considerada o polo da construção civil mundial), aplicar medidas de quarentenas e, com isso, fechar espaços com aglomerações, como empresas, fábricas e áreas públicas. A cidade, que em 2018-2019 tinha uma área total dedicada aos canteiros de obras equivalente ao tamanho da ilha de Hong Kong, ficou deserta e a produção cessou. A medida de contenção foi seguida em outras regiões do país e, como consequência, a Nasa detectou que, em um mês, as fortes manchas de dióxido de nitrogênio que pendiam entre Wuhan, Shanghai e Pequim desapareceram.

A poluição do ar é um velho e sério problema enfrentado no país, que chegou a registrar níveis 45 vezes mais altos do que o limite aceitável pela OMS. As complicações com a qualidade do ar já chegaram a tanto que a China se tornou a principal compradora de oxigênio em garrafa, vendido pela empresa canadense Vitality Air. Em 2019, a OMS elegeu a poluição do ar junto com as mudanças climáticas como uma das dez maiores ameaças à saúde global, contabilizando 9 entre 10 pessoas que já respiram ar poluído no mundo. Segundo a ONU, a poluição do ar mata de 6 a 7 milhões de pessoas anualmente.

Mas a pergunta que não calar é de ordem “prática”: quando a produção chinesa voltará a ativa?

A aflição dos economistas não é à toa. Com a propagação do vírus na Europa, o presidente americano Donald Trump suspendeu, no último dia 12, viagens do continente para o país. A decisão abalou o mercado econômico e a bolsa de valores americana fechou o dia com o pior resultado desde 1987. No mesmo dia, a Ibovespa teve as negociações paralisadas duas vezes. Em entrevista à Uol, analistas acreditam que a recuperação econômica deve demorar pelo menos quatro meses. Outros setores também foram afetados: a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) divulgou, no último dia 9, que a paralisação das exportações chinesas já afetaram 70% da indústria brasileira. A China é responsável por quase 50% de todos os componentes utilizados no setor, como chips, circuitos integrados, peças de máquinas de lavar, televisores, entre outros.

Focar todos os esforços para a contenção da doença com objetivo único de assegurar estabilidade econômica é desperdiçar a chance de investir e testar desenhos e modelos socioeconômicos alternativos

Já a aviação, que representa 2,5% de todas as emissões de carbono na atmosfera, viu empresas de pequeno porte falirem em várias partes do mundo. No Brasil, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) apresentou um pacote de propostas a para reduzir as perdas causadas pela diminuição de passageiros por conta do Coronavírus. Redução de tributos sobre o querosene de aviação, sobre o leasing de aeronaves, sobre a folha de pagamento de funcionários e sobre as tarifas de aeronavegação e pouso estão entre os pedidos. O que o rápido e preventivo movimento da Abear sinaliza é que o setor não está nem preparado nem disposto para lidar com uma queda – necessária – na demanda se quisermos contar a emissão dos gases de efeito estufa. Muito pelo contrário, ele prevê dobrar para 8,2 bilhões o número de passageiros em 2037.

Por mais que dezenas de textos e análises tenham mostrado como uma pandemia como a que estamos vivendo pode ser uma oportunidade para repensar tudo, fica claro que a prioridade das lideranças globais é a recuperação econômica a curto prazo sem pensar muito em construir outras possibilidades. Apesar da OMS já ter sentenciado que, até 2030, as mudanças climáticas provocarão gastos com saúde de até US$ 4 bilhões (R$ 20 bilhões) por ano, vemos movimentações como as do Sistema de Bancos Centrais americano, o Fed, injetando US$ 1,5 trilhão (R$ 7,5 trilhões) no mercado de empréstimos para estabilizar os investidores e bancos. O senador Bernie Sanders, cotado como possível candidato do partido democrata para eleição presidencial dos EUA, elucidou as prioridades políticas no Twitter: “quando dizemos que é hora de prestar assistência médica a todas as pessoas, somos informados de que não podemos pagar. Mas se o mercado de ações estiver com dificuldades, sem problemas! O governo pode distribuir US$ 1,5 trilhão para acalmar os banqueiros em Wall Street”.

 

A ponta do iceberg

As alterações feitas pelo homem no mundo natural são datadas e analisadas há mais de um século. Em 1965, uma comissão de aconselhamento comunicou à presidência dos Estados Unidos que o efeito estufa era uma preocupação real. Em 1988, foi criado o IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas), que avalia as evidências causadas pela crise ambiental. E, ainda sim, em 2020, o homem continua a levar sua poluição para todos os cantos da terra, como o plástico visto na neve do Ártico e no corpo de um animal marinho recém-descoberto, que vive há 7km de profundidade na Fossa das Marianas, entre o Japão e as Filipinas.

Em 2020, a poluição do ar é responsável por 1 a cada 4 mortes prematuras no mundo, o aumento das temperaturas não só causam ondas de calor que prejudicam a agricultura, elevam o número de mortes, principalmente em idosos, mas também colaboram para a disseminação de doenças em novas regiões, como o caso da dengue. Em 2019, a doença matou, por dia, 2 mil pessoas no mundo. No Paraná, são contabilizados 52.652 casos somente em 2020, com 30% dos municípios em estado de epidemia. O boletim de março apresenta aumento de 1000% em relação ao de 7 de janeiro.

Esforços municipais têm sido aplicados, como mutirões, mas segundo o coordenador do programa de dengue do Ministério da Saúde, Rodrigo Said, em entrevista à Folha, as altas temperaturas e chuvas no verão contribuíram para a ocorrência da epidemia, além da mudança no sorotipo. O infectologista Rivaldo Venâncio, coordenador de vigilância em saúde da Fiocruz e professor da Faculdade de Medicina da UFMS vai um pouco além, apontando que a morte por dengue é evitável, mas o que se tem observado são erros que colaboram com a piora dos quadros, como as deficiências na rede pública ou demora em procurar auxílio médico. Ainda sim, a atenção dada aos casos é mínima e espaçada. Não há nenhum estudo sobre como a doença tem impacto na vida de quem a pegou, tanto socialmente quanto economicamente. Foi somente após bater a meta dos 50 mil casos, que pecuaristas e agricultores demonstraram preocupação com sua produção e começaram a monitorar locais que retém água nas propriedades.

Quanto ao Coronavírus, há quem seja mais poeta e diga que a paralisação econômica significa férias para a Natureza; o canal de Veneza está limpo como nunca esteve e deverá haver uma queda significativa nas emissões de gases de efeito estufa. Para o filósofo Slavoj Zikek, a pandemia é “um sinal de que não podemos seguir pelo mesmo caminho que viemos até agora, de que precisamos de uma mudança radical”. Focar todos os esforços para a contenção da doença com objetivo único de assegurar estabilidade econômica é desperdiçar a chance de investir e testar desenhos e modelos socioeconômicos alternativos, realmente sustentáveis e que sejam capazes de proteger a vida das pessoas em todas as esferas, econômica inclusive.

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A diretora executiva da ONG 350.org, May Boeve, reflete sobre a urgência com que o Coronavírus foi tratado: “vimos que os governos podem agir e as pessoas podem mudar seu comportamento, em um período muito curto. E é exatamente isso que o movimento climático pede que governos e pessoas façam há anos e não vemos ações proporcionais”. É claro, ninguém acha que vai ser simples e fácil. A solução não é estagnar a economia de um dia para outro, igual o coronavírus fez, pois isso vai custar o emprego de muitas pessoas, a quebra de pequenos e médios negócios e, como sempre, acometerá com mais força os grupos de maior vulnerabilidade social: os mais pobres e as mulheres. Mas um movimento transitório é possível e há uma gama de soluções das quais podemos lançar mão para traçar novos caminhos de desenvolvimento que evitarão o avanço do quadro climático.

Vimos que os governos podem agir e as pessoas podem mudar seu comportamento, em um período muito curto. E é exatamente isso que o movimento climático pede que governos e pessoas façam há anos e não vemos ações proporcionais

Segundo Joyeeta Gupta e Paul Ekins, que co-presidiram o processo do 6º relatório Global Environment Outlook, da ONU, divulgado em 2019, o que falta é a vontade política de implantar políticas e tecnologias em uma velocidade e escala suficiente. O Colapso Climático deve ser tratado como pandemia. Ele já nos atinge em todos os continentes do mundo, já é responsável pela morte de milhares anualmente e já influi drasticamente na economia dos países. O que mais falta? Quando a necessidade realmente nos obrigar a parar tudo, como o Coronavírus obrigou, não haverá vacina, quarentena ou circuit breaker que amenize, salve ou contenha seus efeitos.

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