4 Marcas Comandadas Por Mulheres Que Estão Usando a Moda Para Transformar Vidas

A moda tem um potencial incrível de transformação por meio da criatividade e do fazer. Seja na criação, confecção, estamparia, tingimento e nos saberes manuais como um todo. É fato que muito foi perdido desde o início do processo de industrialização, mas a moda sempre guardou uma relação com o manual, afinal, toda peça é, de um jeito ou de outro, feita a mão.

Algumas marcas e criadores buscam não só resgatar saberes ancestrais ligados à criação e à moda, mas também fazer com que eles funcionem em pró da sociedade ao capacitar pessoas em vulnerabilidade social para que elas cresçam pessoal e profissionalmente, tenham estabilidade financeira e consigam dar suporte aos seus filhos e famílias.

Nós já falamos aqui sobre o ITC Ethical Fashion Initiative, um programa da ONU que busca, por meio do trabalho na moda, dar suporte a homens e mulheres em países como Haiti, Quénia, Camboja e Gana. Entretanto, esse não é o único programa e há marcas fazendo isso de maneira independente com projetos cuidadosos e que têm tido ótimos resultados. Não são muitas se compararmos com o todo, porque é realmente um desafio e exige tempo e comprometimento. Mas elas existem e podem inspirar outras a seguir por esse caminho também.

Nós já demos a letra para você saber diferenciar uma marca que está fazendo esse tipo de trabalho de uma marca que respeita legislações trabalhistas, afinal são duas coisas bem diferentes. Mas sempre que tiver dúvidas do discurso da marca não hesite: pergunte. Entenda o que ela faz de bacana, como está capacitando pessoas e o que ela quer dizer quando usa termos como Fair Trade e comércio justo caso a empresa não seja certificada por nenhum selo e não participe de nenhum programa do tipo.

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Outra coisa que vale à pena destacar é que algumas marcas produzem alguns produtos e algumas coleções em parceria com organizações Fair Trade, como é o caso da Stella McCartney, Vivienne Westwood, e da brasileira Osklen. Mas na nossa lista, quisemos mostrar marcas que produzem totalmente sobre essas guias. Também não podemos deixar passar que ações como essas aqui destacadas são diferentes de ações “compre um doe outro” das quais já falamos por aqui.

Abaixo, nossas dicas para você começar a se jogar e conhecer esse universo.

 

People Tree


A People Tree atua no continente africano e na Índia com parcerias focadas em melhorias em toda a indústria da moda; da plantação à peça final

A People Tree é pioneira quando o assunto é usar a moda para gerar transformação social. Safia Minney começou em 1991 trabalhando com artesãos em países como Índia e Nepal. Foi a primeira marca de moda a receber um certificado Fair Trade em 2013. O trabalho de Safia é bastante abrangente e compreende questões sociais e ambientais – desde produção de algodão orgânico até empoderamento feminino.

Foi a marca responsável por desenvolver a primeira cadeia de suprimentos integrada de algodão orgânico da fazenda ao produto final e a primeira organização a ganhar a certificação GOTS (Global Organic Textile Standard) com uma cadeia de suprimentos localizada inteiramente em um país em desenvolvimento.

De 2 em 2 anos, a People Tree lança um report dos seus impactos e ações. É bastante completo e cheio de detalhes. Hoje, a marca trabalha com 5 grupos de Fair Trade, suporta mais de 3.700 alfaiates e modelistas, bordadeiras, tricoteiras, fazendeiros e gerentes em grupos de produção e confecção da Índia, Nepal e Bangladesh. O trabalho da People Tree junto aos grupos locais garante que mais pessoas sejam capacitadas e aprendam a costurar, bordar, tricotar, modelar, tendo assim um ofício e renda. Para a maioria das mulheres isso significa também independência financeira.

 


As peças da marca são atemporais com um pé no clássico, assim elas se mantêm relevantes no armário por anos

Recomendamos que você tire um tempinho para ler sobre todas as ações da marca (são muitas!) no site e acompanhe pelo Facebook e Instagram.

 

The Wearable Library


A The Wearable Library atua na África do Sul e seu foco é a capacitação de mulheres

Sediada em Durban, terceira maior cidade da África do Sul e criada por uma brasileira, a The Wearable Libray usa tecidos típicos, mão de obra local e a Internet para ter alcance global. As peças da The Wearable Libray são feitas por mulheres em condições de vulnerabilidade social acolhidas por três grupos distintos: The Association for the Aged (TAFTA), que dá assistência para pessoas idosas; The Denis Hurley Centre, que apoia comunidades imigrantes e as pessoas em situação de rua de Durban; e o Project Hope, responsável por dar suporte a mulheres que saíram de relações abusivas e estão aprendendo ofícios para acessar o mercado de trabalho.

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A brasileira Julia Pinheiro foi para a África do Sul por conta de uma paixão, mas antes ela já tinha experiência prévia na moda junto a empresas como Roberto Cavalli e WGSN em Milão. Seu histórico na indústria somado à vivência em Durban a fez entender e enxergar o potencial que a moda poderia ter ali naquela cidade. Ela estruturou tudo, começou do zero e colocou o projeto no ar no fim de 2015. Depois de começar a criar e produzir as peças com essas mulheres, convenceu a Universidade de Durban a criar um curso específico para capacitá-las, onde, junto aos alunos, aprendem não só a costurar, mas a gerir um negócio.

Foram dois módulos de 14 mulheres (a maioria refugiadas, mas também com presença de pessoas da comunidade local) totalizando 28 mulheres em um ano. Julia está vendo as meninas entrarem agora no terceiro módulo, que conta com 10 alunas de 2016 mais 5 novas. A ideia da Julia é realmente que essas formadas criem seus próprios negócios e não fiquem para sempre com ela. É assim também que o projeto consegue capacitar outras pessoas criando um fluxo para auxiliar na transformação social.


As roupas coloridas e estampadas feitas a partir de tecidos típicos africanos atrai olhares e se destaca da maioria das peças que vemos por ai 

Você pode conhecer mais sobre a Julia e a The Wearable Library no site da marca, Instagram e também nessa matéria.

 

Mayamiko

Um dos espaços de atuação da Mayamiko é entre as mulheres afetadas pela pandemia do HIV
A marca fundada por Paola Masperi está localizada em Maláui, um país da África Oriental. As coleções são produzidas em Lilongwe, próximo à capital do país, no chamado Mayamiko Lab, criado pela Mayamiko Trust – uma instituição de caridade criada em 2008 pela própria Paola. Após uma extensa viagem pelo continente africano, Paola entendeu que apoiar os talentos criativos do país e transforma-los em atividades sustentáveis financeiramente era um caminhado para ajudar pessoas a saírem da zona de risco social.

O Mayamiko Lab fornece treinamento de ofícios, educação, nutrição, saneamento e promove práticas de comércio mais justas. Atualmente, o projeto oferece treinamento em costura e alfaiataria para mulheres locais que foram afetadas pela pandemia de HIV ou que cuidam de órfãos de HIV. Outro braço do projeto é fomentar o empreendedorismo fornecendo microcrédito e ensinando habilidades básicas de planejamento financeiro e de negócios, em cooperação com parceiros locais, como Opportunity Bank International.

Peças alegres, estampadas e jovens são o diferencial estético da marca
Eles têm um vídeo sobre o trabalho da marca bastante interessante que você pode ver aqui, além de mais informações no site oficial. E para acompanhar as novidades, siga no Instagram.

 

Mata Traders

A Mata Trades atua com mulheres na Índia e no Nepal
Três amigas se juntaram e encontraram na moda uma maneira de fazer a diferença e gerar empoderamento social. Foi assim que surgiu a Mata Traders, marca com um pé em Chicago, outro na Índia e outro no Nepal. Por meio do treinamento de ofícios como corte, costura e técnicas manuais, a Mata gera renda para pessoas de áreas rurais, vilarejos tribais e pessoas residentes de favelas urbanas no Nepal e na Índia.

Ao gerar renda para mulheres, a Mata consegue garantir que seus filhos frequentem a escola ao invés de trabalharem, combatendo assim o trabalho infantil. Além disso, a marca visa preservar saberes artesanais ancestrais, que vão se perdendo ao passo que a industrialização e a desvalorização desse tipo de ofício aumentam. Por aqui, dá para conhecer algumas histórias das mulheres por trás da produção das marcas.

Com um ar de retrô, as peças da Mata vai conquistar quem tem aquele amor platônico pelos anos 50
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