Microplásticos na Moda: Um Ponto Contra o Poliéster e Outras Fibras Sintéticas

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Artigo elaborado a partir da pesquisa Synthetic Fibers as Microplastics in the Marine Environment: A Review from Textile Perspective with a Focus on Domestic Washings (“Fibras Sintéticas Como Microplásticos no Ambiente Marinho: Uma Revisão da Perspectiva Têxtil com Foco em Lavagens Domésticas”, em tradução livre) da engenheira têxtil Flávia Cesa. Com permissão da autora, desenvolvemos uma síntese do seu estudo dividida em duas partes. Você pode conferir a primeira parte aqui

 

2. Da produção ao uso das roupas, os microplásticos de origem têxtil são um problema urgente e complexo

 

Embora a indústria da moda seja reconhecida como uma das principais indústrias poluidoras da atualidade, os impactos dos microplásticos e a relação destes com a moda só começaram a ser discutidos após alguns cientistas ambientais jogarem luz ao assunto. No geral, os impactos dos microplásticos extrapolam a moda e englobam diversos formatos (e fontes) de detritos plásticos. Neste debate, ainda é escassa a participação da indústria têxtil e de confecção.

Porém, a importância de dar destaque às fibras presentes no meio marinho se mostra em estudos que apontam para sua capacidade de se espalhar e alcançar os lugares mais inóspitos. Fibras têxteis já foram registradas em diversos habitats, como praias, zonas de entremarés [1], manguezais e geleiras polares. Há também registros de ingestão por espécies marinhas como peixes de diferentes profundidades, camarões, lagostas de água doce e mexilhões.

As fibras sintéticas são, atualmente, responsáveis ​​por mais de 60% do consumo mundial de fibras, sendo poliéster, poliamida, acrílico e poliolefina os tipos mais comuns (FAO-ICAC, 2013). Após sua formação, o material pode se transformar em fios, malhas e tecidos ou, alternativamente, TNT (nãotecidos). Pode assumir várias características, adequando-se a uma variedade de aplicações têxteis que incluem não só os itens de moda que compramos quotidianamente, como também roupas de alto desempenho, como as esportivas, produtos médicos e para agricultura, apenas para citar alguns exemplos.

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Características das fibras e necessidade de consenso para entender o problema

No contexto dos microplásticos, as fibras podem ser catalogadas como materiais finos ou fibrosos, com espessura relativamente uniforme ao longo de sua extensão. Assim como na classificação dos outros tipos de materiais sintéticos, não há consenso sobre o tamanho mínimo para considerá-las como microplásticos, nem qual dimensão será escolhida (se comprimento ou seção transversal).

Outra particularidade em relação a esta definição está no fato de que parte das fibras encontradas em campo são de origem artificial ou natural e aí pode haver uma confusão no sentido de chama-las de microplásticos. Na definição têxtil, que é amplamente utilizada e bastante antiga, materiais sintéticos e artificiais são ambos de origem manufaturada, mas com classificações diferentes. Enquanto as fibras artificiais são regeneradas a partir de polímero existentes na natureza, como é o caso da celulose (exemplo: viscose), fibras sintéticas são formadas pela síntese de substâncias geralmente provenientes do petróleo. Assim sendo, é melhor considerar apenas as fibras manufaturadas sintéticas como microplásticos.

Enfrentando os aspectos plurais que as fibras podem assumir e estando cientes que existem lacunas não resolvidas em relação à sua definição como microplásticos, a ciência ainda precisa admitir um termo exclusivo que conceitualize esse tipo de resíduo. Essa solução lidaria com uma perspectiva padrão capaz de funcionar tanto para a indústria têxtil quando para as ciências ambientais, permitindo não apenas resultados mais claros, mas comparações entre estudos mais assertivas.

 

Imagem de uma amostra de água retirada do Estreito de Georgia, em Vancouver. Estudo do grupo de proteção oceânica Ocean Wise descobriu liberação de partículas têxteis nas águas locais.

Toxicidade das fibras e os impactos no meio marinho 

Uma das questões envolvidas não apenas com as fibras sintéticas, que são microplásticos propriamente ditos, está na extensa lista de produtos químicos utilizados durante a manufatura e processamento das fibras têxteis e que abarca outras origens, inclusive as naturais. Estes produtos incluem pesticidas, monômeros – como hidrocarbonetos, que são derivados do petróleo – , aditivos, solventes e corantes. De acordo com a Agência Sueca de Produtos Químicos (1997), estima-se que apenas para tingimento e estamparia têxteis, existam mais de 10 mil componentes químicos disponíveis, embora nem todos possam ser considerados tóxicos. Esses produtos químicos são aplicados para preservação, acabamento e coloração e, apesar de serem liberados nas fases de produção, podem ser perdidos durante o uso e desgaste ou mesmo durante a lavagem da peça.

Estudos com peças de vestuário de poliéster, por exemplo, detectaram concentrações de benzotiazol, benzotriazol e seus derivados. Com funções como biocidas, fungicidas e estabilizantes para prevenir o amarelamento, essas substâncias são conhecidas por causarem dermatites em humanos e toxicidade aguda de grau baixo em mamíferos. O composto nonilfenol etoxilado, utilizado durante processos têxteis como surfactante e detergente, é quebrado ao entrar em contato com água, tornando-se apenas nonilfenol, uma substância tóxica, com forte tendência de bioacumulação. [2]

Uma pesquisa realizada em 2012 avaliou 78 artigos têxteis adquiridos em 27 países e descobriu que dois terços apresentaram resultado positivo para a presença de nonilfenol etoxilado, onde, após a lavagem padrão, todas as amostras positivas tiveram uma diminuição na concentração de substâncias, sugerindo liberação durante a lavagem. Isso significa que não apenas o tecido propriamente dito é uma questão a ser olhada, como também os produtos químicos utilizados em todo o processo produtivo da roupa precisam ser considerados quando falamos de poluição por microplásticos.

 

A máquina de lavar é uma peça fundamental na equação

Os estudos que exploram as lavagens domésticas como uma possível fonte de microplásticos foram, até pouco tempo, elaborados majoritariamente por cientistas ambientais, sem a participação de especialistas têxteis. Isso traz à tona a latente necessidade de interconectar áreas, incluindo conhecedores que de alguma forma estejam envolvidos com o problema, a fim de entender pontos críticos que possam contribuir com possíveis soluções. A nível global, as lavagens têxteis são parte importante das atividades domésticas diárias e fortemente influenciadas por questões sociais, culturais e morais.

Em países como Brasil, Índia e China, a lavagem manual é mais comum e está presente em pelo menos 30% das residências. Em países do Norte Global, em geral, mais de 95% das residências são equipadas com máquinas automáticas, chegando a 100% em lugares como a Coréia do Sul. Os estudos sobre o eletrodoméstico e seus impactos tendem a focar em economia de recursos, mas esquecem da sua potencialidade em gerar fibras.

O desempenho de limpeza, no processo de lavagem, é resultado de múltiplas escalas e fases, envolvendo fenômenos físicos e ações químicas que permitem a liberação de sujeira e sua suspensão no líquido de lavagem. Um têxtil comum pode ser considerado como uma estrutura tridimensional, com poros maiores entre fios e menores entre fibras. A ação de limpeza gera deformação, expansão e compressão neste material, permitindo a difusão da água e remoção da sujeira. Quanto maior for esta interação, maior a possibilidade de degradação do têxtil – e liberação de microplásticos.

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O enfraquecimento e emissão de fibras depende de fatores relacionados ao modelo de máquina de lavar roupa, operação do consumidor ou ambos. Essas variáveis atuam diretamente na estrutura têxtil e formam fibras que serão liberadas para o meio ambiente. Em um estudo precursor, utilizando três peças de poliéster – camisa, manta e fleece [3] – foi detectado que, uma única lavagem libera mais de 1.9 mil microplásticos inferiores a 1 mm. Estudos posteriores, como aquele divulgado no programa LIFE, patrocinado pela União Européia, sugeriram emissões de fibras sintéticas entre centenas de milhares a milhões por ciclo.

Fatores mecânicos, como rotação, duração do ciclo, temperatura e quantidade de água utilizada, e químicos, como uso de detergente, amaciante, quantidade dos mesmos e tipo de peça, podem estar diretamente relacionadas a quantidade de fibra emitida no meio ambiente.

 

Desdobramentos pós lavagem

Ao serem liberadas na lavagem, as fibras seguem pelo esgoto doméstico até estações de tratamento (ETAR), quando existentes. Dados de 2016 apontam que menos de 30% da população mundial possui acesso a este tipo de serviço, com piores índices em países economicamente menos desenvolvidos. Estes últimos, por sua vez, consomem mais material sintético em comparação aos primeiros. De fato, mesmo quando os efluentes são direcionados a ETAR, microplásticos não são totalmente retidos.

Em termos de tratamentos de esgoto disponíveis, há um consenso geral de que boa parte das tecnologias existentes retém a maior parte dos microplásticos. No caso das fibras, a maioria permanece na etapa de sedimentação. Por esta condição, os materiais retidos tornam-se potenciais poluentes ambientais, uma vez que não é incomum usar essa sedimentação como produtos fertilizantes de solo na prática agrária. Neste sentido, pesquisas apontam que mesmo após longos períodos de plantio no solo, junto a estes produtos, as fibras permanecem com características praticamente inalteradas. Ainda assim, o que não é retido, também é liberado em cursos d’água.

Em um estudo precursor, utilizando três peças de poliéster foi detectado que, uma única lavagem libera mais de 1.9 mil microplásticos inferiores a 1 mm. Estudos posteriores sugeriram emissões de fibras sintéticas entre centenas de milhares a milhões por ciclo

Embora os dados apresentados até o momento tenham que ser considerados de forma conservadora, devido às diferenças nas metodologias (por exemplo, tamanho dos filtros de malha, análises químicas) e variação sazonal dos fluxos de água, é possível concluir que as ETAR atuam como rotas de entrada de microplásticos no meio ambiente. Nesse sentido, depender apenas desse tratamento como uma medida de mitigação não é suficiente, tendo em vista os números pouco promissores do tratamento de águas residuais em países do Sul Global. Essa condição traz a necessidade de explorar esse tipo de poluição a partir da fonte, incluindo seus desdobramentos.

 

Pontos finais

A falta de padronização de definição, tamanho e origem de fibras e microplásticos dificultam a análise e comparação de métodos e resultados dos estudos. A relevância dos polímeros sintéticos, como matéria-prima primordial para a vida moderna, ou como componente alóctone [4] dos ecossistemas, possui um lugar comum em publicações recentes relacionadas às ciências ambientais. Ainda assim, especialmente para a área têxtil, é importante trabalhar em conjunto com a área ambiental para entender com maior profundidade os fatores que influenciam esta poluição – e atuar para saná-la ao invés de ignorá-la.

Para além da necessidade urgente de uma redução na emissão de fibras, as fontes têxteis em geral não são conhecidas ou são pouco exploradas. Este também é o caso da origem que é alvo do maior número de estudos: lavagens domésticas. Em ambos os casos o que se defende é: somente a partir de múltiplas perspectivas, entidades públicas e privadas poderão ser propostas opções efetivas a serem consideradas. É também importante salientar a importância de avaliar os hábitos de consumo de roupas, mesmo os com tendência mais ecológica, como as compras de segunda mão. Elas podem soar mais sustentáveis, mas se consumidas e descartadas na mesma proporção do fast fashion, implicam da mesma forma no impacto ecológico.

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