Microplásticos: Entenda o Que São e de Onde Eles Vêm

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Artigo elaborado a partir da pesquisa Synthetic Fibers as Microplastics in the Marine Environment: A Review from Textile Perspective with a Focus on Domestic Washings (“Fibras Sintéticas Como Microplásticos no Ambiente Marinho: Uma Revisão da Perspectiva Têxtil com Foco em Lavagens Domésticas”, em tradução livre) da engenheira têxtil Flávia Cesa. Com permissão da autora, desenvolvemos uma síntese do seu estudo dividida em duas partes.

 

1. Poluição marinha e o caso contra os microplásticos 

Viver sem plástico é quase impossível hoje. Dificilmente você se safará de comprar um produto que não venha embalado pelo material ou seja feito dele. Inventado no final do século XIX, a produção em massa do plástico só ocorreu a partir da década de 50, chegando a marca de 300 milhões de toneladas produzidas em 2014. Enquanto a escalada da produção por plástico segue, o mesmo acontece com a noção dos impactos negativos dessa produção e descarte. Diversos países têm tentado passar leis para proibir o uso excessivo do plástico como forma de conter os danos, com destaque para a União Europeia e as leis que acenam para proibição de todos os plásticos de uso único, além dos próprios microplásticos. Pesquisas, estudos e reportagens apontam a poluição por plástico no limite de uma catástrofe irrerversível; o material já está em todos os lugares – da água que bebemos às profundezas dos oceanos.

Plástico nos oceanos, inclusive, se tornou um tema frequente na mídia, na academia e nos campos de atuação para proteção ambiental – você provavelmente já ouviu falar que teremos mais plástico do que peixes nos oceanos até 2050. O que você talvez não saiba é que numericamente falando, diferente do que costumamos imaginar, os microplásticos – partículas muito pequenas, até microscópicas, que têm origens diversas e causam impactos de dimensões ainda pouco conhecidas – são grandes responsáveis por esse desbalanço.

Com o objetivo de esclarecer o cenário atual, e tentar entender os próximos passos, o estudo de Cesa busca apresentar e avaliar os dados encontrados a respeito do plástico e microplástico no meio ambiente – e destaca o problema crescente da liberação de microplásticos de têxteis sintéticos oriundos do uso intensivo do plástico na moda.

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O Caso Contra o Microplástico 

Fabricado a partir de polímeros sintéticos, derivados principalmente de combustíveis fósseis, o plástico se tornou popular pelas suas propriedades e os baixos custos de produção. Atualmente, ele consome aproximadamente 8% de todo o petróleo do mundo, sendo 4% utilizado como matéria-prima e os outros 4% gastos como energia no processo. Durante essa transformação, a maioria dos polímeros sintéticos são misturados com aditivos que podem ser tóxicos e causar efeitos colaterais quando inalados, ingeridos ou em contato com a pele.

Com a atenção voltada para o esgotamento dos reservatórios de combustíveis fósseis e os riscos relacionados à saúde por causa dos componentes químicos encontrados nos plásticos, não é novidade a crescente inquietação em torno da presença do plástico em todos os lugares, inclusive aqueles sem presença humana. Os números falam por si só: materiais sintéticos representam até 95% dos detritos encontrados nas costas, superfície do mar e fundo do oceano. Sua durabilidade é incerta e, acredita-se que, com exceção dos plásticos que foram incinerados, a maioria dos itens plásticos produzidos ainda se encontram em sua forma integral ou como fragmentos em algum lugar da Terra.

No ambiente marinho, os detritos plásticos podem ter diversas origens – desde lixos jogados nas praias a materiais descartados em aterros não controlados. Além disso, no caso do microplástico, esses detritos podem vir por meio de estações de tratamento de esgoto (ETAR) que não foram projetadas para retê-los – é o que acontece com as fibras têxteis e produtos de higiene e limpeza. Resíduos de origem terrestre representam 80% dos microplásticos no ambiente marinho, enquanto o restante é composto, principalmente, por equipamentos de aquicultura e pesca. Estudos relacionados apenas ao lixo mal manejado mostraram que, em 2010, 192 países costeiros foram responsáveis por valores entre 4,8 a 12,7 milhões de toneladas que entraram nos oceanos. Ao considerarmos apenas o valor 4,8 milhões, essa quantidade seria equivalente a 26,7 mil prédios de 10 andares ou a 26,7 mil baleias-azuis.

O comportamento do plástico no meio marinho pode ser influenciado pelas suas características e interação com o sistema natural. O polietileno e o polipropileno, por exemplo, têm gravidade específica menor do que a da água, por isso tendem a flutuar. Mas quando em contato com organismos marinhos podem sofrer alteração de densidade e afundar. De acordo com um relatório da UNEP (United Nations Environmental Programme) de 2005, 70% do lixo marinho permanece no relevo oceânico (o fundo do mar), enquanto o restante é encontrado em praias (15%) e flutuando na água (15%). Quando polímeros sintéticos atingem o fundo do mar, eles podem limitar as trocas gasosas, interferindo na operação do ecossistema. Já se transportados para outros locais, podem proliferar espécies não-nativas, como bactérias e alguns tipos de algas e invertebrados. Em contato com a vida animal, podem resultar em sufocamento, estrangulamento, redução de atividade alimentar e afogamento.

 

O fotógrafo e cineasta Chris Jordan fotografou alguns entre centenas de albatrozes filhotes encontrados mortos por conta da ingestão de plástico na Ilha Midway, localizada ao norte do Oceano Pacífico.

 

Em relação à alimentação, os plásticos podem causar sensação de saciedade, irritação e lesões nas partes internas do trato digestivo dos seres marinhos, podendo, também, impactar na reprodução. As partículas minúsculas ingeridas podem deslocar-se para os sistemas circulatórios do animal. Embora as consequências tóxicas de materiais sintéticos na vida marinha permaneçam parcialmente desconhecidas, alguns dados já alertam para os impactos que esses materiais podem causar. A exposição a grânulos de polietileno virgem e pellets [1] coletados na praia causaram efeitos tóxicos em ouriços-do-mar, aumentando o desenvolvimento embrionário anômalo nesses animais. Já outro estudo aponta que peixes alimentados com fragmentos de polietileno contaminados ou virgens apresentaram estresse hepático, morte celular e, nos piores casos, tumores.

 

Excesso de Microplásticos versus Ausência de Informações

Quando se trata do potencial de poluentes tóxicos, o microplástico apresenta uma ameaça ainda sem proporções conhecidas, tendo em vista que falta uma padronização de conceitos, como tamanho e origem. O que se sabe é que eles são difíceis de detectar e sua área de contato (superfície, área e volume) com o meio ambiente é superior a de plásticos maiores, havendo, portanto, um impacto mais direto sobre os organismos marinhos. O termo “microplástico” é trabalhado na comunidade científica desde os anos 90, mas até hoje não existe um consenso geral sobre os valores adotados para defini-lo, criando uma variação de conclusões em estudos e dificultando a comparação dos mesmos. [2]

No caso das fibras têxteis, por exemplo, as seções transversais, geralmente, não ultrapassam alguns micrômetros, enquanto seu comprimento começa na escala milimétrica. Considerar a maior dimensão ou o diâmetro seria crucial neste caso, porque eles levam a diferentes estimativas da abundância de microplásticos no meio marinho. Outra divergência se apresenta na definição da origem do detrito, que pode ser considerada primária ou secundária. Ao definir que um microplástico é de origem primária significa dizer que ele foi produzido em dimensões mínimas para uso direto ou como precursor de outros produtos, geralmente de origem manufaturada. Um exemplo são os microplásticos encontrados em produtos cosméticos como sabonetes e esfoliantes. Já se for de origem secundária, ele é formado no meio marinho como resultado da degradação de peças maiores como sacolas plásticas que vão esfarelando.

 

Quando polímeros sintéticos atingem o fundo do mar, eles podem limitar as trocas gasosas, interferindo na operação do ecossistema. Já se transportados para outros locais, podem proliferar espécies não-nativas, como bactérias e alguns tipos de algas e invertebrados. Em contato com a vida animal, podem resultar em sufocamento, estrangulamento, redução de atividade alimentar e afogamento.

 

Em relação a presença destes plásticos no meio aquático, os estudos já reconhecem, com algum consenso, que detritos maiores, com potencial de degradação, superam o peso de massa de detritos menores. Mas, segundo diversos autores, o microplástico ainda representa uma maior abundância numérica. Assim sendo, a hierarquia de tamanhos mais comuns de plástico encontrados nos ecossistemas marinhos seria: microplástico > pedaços grandes > pedaços pequenos. Quando estudadas as fontes de emissão de plásticos em geral, incluindo microplásticos, elas são, em sua grande maioria, provenientes de isopores, embalagens, sacos, produtos de higiene pessoal e limpeza e produtos abrasivos para fins específicos, como produtos para limpeza de superfícies externas em aviões ou navios, por exemplo [3]

Apesar da comunidade científica já reconhecer que a produção, uso e descarte destes produtos são contribuintes para a poluição ambiental, as estimativas robustas em relação a quantidade absoluta e diferenças regionais das origens dos microplásticos se mantêm desconhecidas. Estas definições seguem sendo importantes para mapear as causas e nortear mudanças políticas e sociais concisas para refrear os impactos antropogênicos no meio natural.

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Pouco entendidas no meio estudado, as fibras sintéticas são um subgrupo do microplástico cuja poluição tem se destacado na mídia e comunidade científica. Na segunda parte, exploramos o que o hábito de lavar roupa e o consumo destas peças têm a ver com os impactos das fibras no meio marinho.

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