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A Moda Feita À Mão: O Que Isso Realmente Quer Dizer?

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  • Marina Colerato
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3 min. tempo de leitura
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Chegou a vez de colocar mais um termo tão usado pela turma da moda em perspectiva. Nós já falamos de como o "comércio justo" vem sendo distorcido para servir interesses próprios e o mesmo está acontecendo com o "feito à mão". Nos últimos dois anos foi possível observar uma explosão do adjetivo entre marcas de moda que estavam em busca de atingir um público alinhado com uma nova demanda gerada pelo entendimento do consumo consciente. O que parece, no entanto, é que todo mundo se esqueceu de algo realmente importante: todas as peças de roupas e calçados são feitas à mão.

O real conceito do termo ‘feito à mão’ vem da alta costura francesa em que as peças são todas adornadas, montadas e costuradas à mão, praticamente sem auxílio de máquinas. Como explica o FFW, “algumas peças podem chegar a até 1000 horas de trabalho e, Lady Amanda Harlech, colaboradora antiga de Galliano e veterana da Couture (trabalhou 18 anos na Chanel), conta que um terno da marca é feito por duas pessoas trabalhando o dia inteiro por duas semanas”.

Na produção de moda casual, seja ela em baixa, média ou alta escala, nenhuma roupa ou item de moda é ‘feito à mão’ dentro dos conceitos da alta costura, porém todas as peças de roupas ou acessórios de moda passam, inevitavelmente, por um processo onde mãos e pessoas são totalmente necessárias: a montagem e costura. Sendo assim, quando você ler por aí marcas de moda falando que suas peças são ‘feitas à mão’ vale investigar e questionar melhor o processo. Talvez o que a marca queira dizer é que seu processo é artesanal ou que um processo que já foi quase totalmente automatizado, como a estamparia, seja nesse caso manual.

Diferente da produção de industrializados como um pote de margarina ou requeijão, onde máquinas fazem praticamente todo o trabalho sem a necessidade de habilidades humanas por trás, não há possibilidade de uma peça de roupa chegar às lojas sem envolver o manuseio de máquinas de costura – mesmo as industriais (que convenhamos, são parecidíssimas com as amadoras de décadas atrás) e mãos de trabalhadores.

Atualmente, uma linha de produção automatizada já faz quase tudo de maneira dinâmica, rápida e com o auxílio de máquinas: o processo de fiação, tecelagem, estamparia, bordados, uma parte do processo de modelagem e o corte já foram maquinizados. Porém, depois das partes da peça cortadas, chegou a hora das mãos humanas entrarem em ação. A montagem e costura foram alguns dos poucos processos que não foram automatizados na indústria da moda (e é onde, frequentemente, há problemas relacionados às condições de trabalho). Pense num tênis da Adidas, uma empresa rica e altamente tecnológica: são necessários 200 par de mãos para confeccionar um de seus tênis [1].

Seja uma peça de uma rede de fast-fashion, seja uma peça feita pela costureira do bairro, seja uma peça feita por uma marca pequena, todas elas só conseguiram ficar prontas graças a um processo quase manual e com pessoas envolvidas. Isso sem contar que a automatização dos outros processos, por conta de custos, só pode ser aderida por grandes empresas, então todos os outros processos acabam sendo igualmente manuais em confecções e marcas de médio e pequeno porte.

Já sabe, da próxima vez que você ler por ai o termo “feito à mão”, e se não for uma das 20 marcas de alta costura ou se a marca não deixar claro quais os processos ela está se referindo ser um diferencial “feito à mão”, questione. Todas as mãos por trás de todas as peças e acessórios de moda precisam e devem ser valorizadas.

Notas de rodapé:

[1] Leslie T. Chang, As Garotas da Fábrica (2008) – pág. 93

Imagem Capa: Reprodução

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