Moda Que Transforma: Conheça 4 Projetos Ressocializando Detentos no Brasil

Ter um sistema prisional que falha em dar condições dignas de vida e ressocializar seus presos não é característica unicamente brasileira. Os dados sobre encarceramento em massa em países como Estados Unidos, Rússia, Índia e Venezuela revelam que o cárcere não recupera ninguém e, em alguns lugares, como nos EUA, chega ser um grande negócio, como revelou o documentário A 13ª Emenda. O relatório da Global Prison Trends 2018 aponta que, apesar da tendência global de diminuição das taxas de criminalidade, o número de pessoas encarceradas mundialmente não para de crescer.

O trio líder do ranking de maior população carcerária do mundo, a cada 100 mil habitantes, são: Estados Unidos, Rússia e Brasil. Os dados são de 2015/2016, pelo Infopen (Informações Estatísticas do Sistema Penitenciário Brasileiro) e mostram que muitos dos encarcerados sequer foram submetidos à condenação. Ainda no levantamento de 2015/2016, os países que mais tinham presos nestas condições eram: Índia, Venezuela, Arábia Saudita, Argentina, Peru, México e Brasil.

No Brasil, o número de vagas no sistema prisional brasileiro diminuiu frente ao crescimento da população encarcerada. No primeiro semestre de 2016, foram registrados 3 mil vagas a menos e 28 mil presos a mais. Trazendo para uma realidade mais palpável: em média, há dois presos para cada vaga nos presídios brasileiros e nove de dez vivem em unidades superlotadas. O perfil, na sua maioria, é de homens negros, entre 18 e 29 anos, com fundamental incompleto e presos por crimes ligados ao tráfico de drogas ou roubos e furtos.

 

1.200 pessoas saem do sistema prisional por mês e nem 10% delas conseguem se reinserir no mercado de trabalho. Outro dado apresentado pelo projeto é que 70% dos crimes cometidos na cidade de São Paulo são realizados por ex-detentos.

 

É focando neste grupo de esquecidos e marginalizados – pelo Estado e pela sociedade –  que projetos de moda têm ressocializado homens e mulheres em diversas penitenciárias ao redor do país. Enquanto uma completa reforma no sistema prisional não chega, algumas pessoas têm consigo encontrar novos caminhos dentro das confecções, criando uma outra narrativa para essa indústria. Os números e histórias por trás das oficinas de costura são extremamente positivos. Em São Paulo, a Pano Social nasceu com responsabilidade social e ambiental. O projeto promove a ressocialização de ex-detentos empregando-os na sua rede de produção e customização de roupas, uniformes e acessórios.

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Segundo a empresa, 1.200 pessoas saem do sistema prisional por mês e nem 10% delas conseguem se reinserir no mercado de trabalho. Outro dado apresentado pelo projeto é que 70% dos crimes cometidos na cidade de São Paulo são realizados por ex-detentos. A empresa entra em contato com os egressos através de instituições, como a Funap (Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel), a Secretária de Administração Penitenciária (SAP), o Afroreagge e também pelas redes sociais.

Natacha Barros, co-fundadora da Pano Social, recebeu o prêmio Beth Lobo, de direitos humanos, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo no começo do ano por sua atuação profissional e na sociedade.

 


 

Elas roubam pela fome e pelos filhos

Quando falamos de encarceramento em massa, o foco midiático mais comum recai sobre os homens, mas a quantidade de mulheres que foram presas nas últimas décadas também segue o crescente dos números já apresentados aqui. Segundo a Conectas, organização social de direitos humanos, entre 2000 e 2016, houve um aumento de 455% na população carcerária feminina. Em sua maioria, elas entram para o tráfico de drogas para tentar escapar da fome e trazer sustento para a família. O perfil mais comum é de mães jovens, solteiras, pobres, com baixo nível de renda e educação.

Roberta Negrini, criadora da marca Joaquina Brasil, se deparou com essas mulheres em condições de vulnerabilidade social após decidir deixar o trabalho de executiva e abrir sua própria empresa. Quando começou a entender o gap existente entre o valor final de uma peça na loja e o valor de sua produção, Roberta se deparou com os altos índices de desperdícios da indústria da moda e com cenário desumano no qual a mão de obra feminina é submetida.

“Eu consegui articular com algumas tecelagens para comprar os tecidos que seriam incinerados por terem defeitos e falhas. Depois cheguei no momento que precisava pensar como produzir. Acabei indo ao Brás, um local óbvio para quem está em São Paulo. Me deparei com uma cena horrível: uma oficina com quarenta, cinquenta bolivianos, com crianças amarradas nos pés das máquinas. Eu tinha acabado de ter filho e sai dali falando que não queria entrar nesse mercado”, afirma.

Após se reencontrar com uma pessoa ligada ao Afroreggae, Roberta presenciou, no dia de abertura do projeto em São Paulo, uma senhora que implorava por emprego para conseguir a guarda dos seus filhos com o juiz. “Aquela cena me comoveu. Eu perguntei se ela sabia costurar, ela disse que não; então perguntei ‘você quer aprender?’, e ela disse ‘quero’. Respondi ‘então você está empregada’”, relata. A partir desse momento, a marca começou a se materializar. Após um ano, a Joaquina entrou na Penitenciária Feminina do Butantã, na qual, hoje, emprega vinte detentas. Elas recebem um salário mínimo, valor estipulado pela Funap, com jornada de trabalho das 8h às 16h30, com 1h hora de almoço.

 

Além desse olhar social para a produção, a Joaquina Brasil recupera tecidos e trabalha para zerar desperdício de matéria-prima no processo. 

 

Para ensinar o processo de costura de forma prática e rápida à mulher que necessita de trabalho e não possui nenhum conhecimento na costura, Roberta desenvolveu sua própria técnica. “A prática ajuda muito mais que a teoria. Uma pessoa que recém entra no núcleo vira o espelho de outra costureira. Ela fica do lado, ajuda no acabamento, limpeza da peça. Ela começa com passos simples, de máquina reta, controlar o pé e, em geral, em três meses elas já estão produzindo peças”, explica. Depois, a aprendiz começa a produzir peças, sendo a primeira uma camiseta, a segunda um vestido e a terceira uma saia.

Segundo Roberta, a estatísticas mostram que as mulheres egressas têm um índice de empregabilidade muito abaixo da média quando comparado a qualquer outra pessoa. O problema começa antes da prisão: 87% das mulheres presas nunca tiveram um emprego normal. “É um ciclo vicioso. Elas estão, geralmente, em comunidades pobres, sendo 67% negras. A maioria delas não têm nenhum índice de periculosidade, somente 0.3% delas são condenadas por crimes considerados perigosos. A maioria, e isso é quase 70%, é por tráfico de drogas”, afirma. Foi com esses dados, que a empresária entendeu a importância da carteira assinada na vida dessas mulheres.

 

A maioria delas não têm nenhum índice de periculosidade, somente 0.3% delas são condenadas por crimes considerados perigosos

 

Foi em um cenário como este que Andresa Ruiz encontrou a Joaquina Brasil. Presente na empresa há um ano e dois meses, Andresa chegou sem saber costurar e hoje ela faz parte dos testes de qualidade das peças e considera essa oportunidade como “tudo em sua vida”. “Eu cheguei sem nem saber pregar um botão, aprendi tudo aqui. Ela [Roberta] viu que meu desempenho era melhor no teste de qualidade e, hoje, eu limpo e reviso a peça. É uma responsabilidade muito grande”, afirma.

Andresa faz parte das estatísticas citadas acima: ela buscou emprego antes de encontrar a Responsa, empresa que faz a ponte entre marcas e egressos, mas sempre que o documento de antessentes criminais aparecia, era dispensada com uma falsa promessa de receber uma ligação da empresa. “É por isso que o crime está cheio de ladrão. Muitos querem mudar de vida, ter carteira registada. Você quer comer, quer vestir, tem filhos, daí volta pro crime”, reforça.

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Quando já estava na empresa, e em prisão domiciliar, a polícia quis prender Andresa de novo. Quando seu advogado, contratado pela Joaquina, mostrou sua carteira de trabalho, ela foi solta. Para Andressa, a carteira assinada serviu como uma prova que ela mudou de vida.

 

Presos que tricotam

Foi em busca de outras alternativas para sua produção que Raquell Guimarães, fundadora da marca Doiselles, entrou em uma penitenciária em Juiz de Fora, Minas Gerais. “Eu trabalhava basicamente com senhoras já aposentadas. Quem é especialista em mão de obra artesanal normalmente tem o artesanato como hobby. Eu perdia prazos, tinha problemas de padronização e entrega, porque elas não estavam todas reunidas e faziam aquilo no momento de folga delas”, relata.

Em 2009, ela pensou na penitenciária feminina de Juiz de Fora, mas, na época, o local já estava lotado. Foi então que Raquell encontrou um espaço na Penitenciária Professor Ariosvaldo de Campos Pires, em Linhares (MG). Depois de uma série de barreiras, ela conseguiu colocar o projeto, chamado Flor de Lótus, de pé. “Eu fiz a tentativa e os homens surpreenderam muito com a qualidade do trabalho”, afirma. Na época, três dias de trabalho equivaliam à um dia de remissão de pena.

O processo de produção manual do tricô possibilita que cada pessoa crie uma peça do começo ao fim.

Em cada peça, Raquell afirma ver nitidamente o empenho deles: “é uma oportunidade que eles agarram com muito comprometimento. Muitas vezes eles criam um design que vem com a combinação de cores que eles desejam, alguns são mais neutros, outros mais expansivos, gostam de pontos mais largos – o que demonstra uma personalidade mais aberta”, explica. Em 2014, em parceria com a Iódice, os tricôs foram para a passarela do São Paulo Fashion Week.

Para Raquell, esse trabalho manual representa o início de uma reconstrução, sem interferência de máquinas. “No design, eles têm a liberdade de criar. Quando a produção é em escala, daí eles têm que seguir um padrão. Mas a gente tem histórias lindas de pontos que eles criaram, tem clientes que falam que conseguem sentir a energia positiva da peça”, afirma.

Atualmente, o projeto dentro do presídio está paralisado. Os nove sentenciados que começaram a trabalhar com Raquell já estão quase todos fora das grades. A estilista decidiu fazer um trabalho de continuidade, para empregar os egressos. “Não adiantava eu ter um projeto lá dentro e quando o preso sai, não tem oportunidade de emprego. Porque ninguém dá emprego, ainda mais nessa crise, para quem tem antecedentes criminais”, explica.

 

Muitos querem mudar de vida, ter carteira registada. Você quer comer, quer vestir, tem filhos, daí volta pro crime

 

O contrato com o Estado foi cancelado e hoje alguns ex-encarcerados ainda trabalham com ela enquanto outros juntaram o dinheiro do trabalho com o tricô para seguir outros planos como mudar de cidade ou comprar uma moto para trabalhar com entregas.

 

Pessoas que fazem a diferença

Quando as aulas de artes manuais como tricô, crochê e bordado da Novelaria foram destaques do jornal O Estado de São Paulo, Lica Isak foi procurada pela pastoral carcerária da penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos, SP. Eles tinham o interesse de criar um projeto de costura no local e foi assim que, em 2015, o projeto Ponto Firme, comandando pelo estilista Gustavo Silvestre, nasceu.

“Quando eu fui procurar quem desse aulas e falava que era no presídio masculino, ninguém quis ir. O Gustavo tinha aprendido fazer crochê na Novelaria e acabamos ficando amigos. Um dia, contei para ele a história e ele super se interessou. No começo, não tínhamos patrocínio, a Novelaria que dava agulha, livros, fios. Foi assim por dois anos”, relata. Lica explica que o processo de criação da metodologia foi feito pensando no ambiente no qual estariam. O crochê foi escolhido ante ao tricô, porque era uma agulha só, não tão longa e menos pontuda.

 

Alunos do Ponto Firme assistem ao desfile na penitenciária Adriano Marray. O desfile foi posteriormente apresentado na SPFW46

 

A entrada na penitenciária com agulhas, tesoura, computadores e livros aconteceu de forma mais simples graças às intenções de quem estava lá dentro, em especial, de um juiz. “Ele se chama João Junior e foi a peça fundamental nesse processo. É sempre uma pessoa dentro que faz toda a diferença, porque as regras, tudo é complicado quando se fala em presídio”, afirma. Com as “portas abertas” para essa nova oportunidade de ressocialização, o projeto Ponto Firme já atendeu mais de 150 alunos. “Esse presídio já tem uma característica diferente no lado cultural. Eles têm aula de teatro, de música. É um pessoal com cabeça bem aberta”, reforça.

No início, as aulas aconteciam uma vez por semana, com direito a certificado, e concediam um dia de remissão de pena a cada 12h de aula. Com o aumento do interesse, passaram para duas vezes na semana. Em 2018, o Ponto Firme trouxe uma coleção para as passarelas do SPFW, que permitiu que 20 encarcerados contassem sobre suas dores, frustrações e alegrias por meio das cores, formas e músicas presentes no desfile. Lica deixou o projeto, mas o Ponto Firme segue e marcou presença novamente na primeira edição de 2019 da semana de moda paulista.

“Tem uma estatística muito importante: entre dez presos que fazem um programa de recapacitação, nove não voltam para o crime. É um bem enorme para a sociedade. E era visível a autoconfiança que eles ganham, a autoestima, para poder se expressar”, finaliza Lica.

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