Mulheres Negras Decidem é o Projeto que Resgata o Ativismo Feminino Negro na Política

A pauta racial percorreu 2020, com ações como o movimento #VidasNegrasImportam, e chega agora mais forte nas candidaturas negras nas eleições municipais. Apoiadas em ícones como Marielle Franco, Talíria Petrone e Lélia Gonzales, muitas mulheres negras foram à luta, pela primeira vez, por uma cadeira na Câmara Municipal de suas cidades. Apesar do crescimento das candidaturas negras ser de 2% frente a 2016, e estar concentrado nas regiões Sudeste e Sul, o número ainda é o maior da história e esse fato nos dá forças para acreditar que entraremos em 2021 com uma política municipal um pouco mais diversa e mais voltada às minorias.

As diversas opressões e formas de violência contra a população negra pode ser relacionada a falta de representantes nas instâncias políticas de nível municipal, estadual e federal. Apesar de as mulheres negras representarem 28% da população brasileira, as mulheres brasileiras são apenas 5% das vereadoras em todo o país.

Para fortalecer a presença de mulheres negras ativistas na política, o Mulheres Negras Decidem atua por meio de formação política, reposicionamento de temas na agenda pública e pesquisas centradas em dados. Criado em 2018, o projeto acredita que as mulheres negras oferecem “um repertório político estrutural, criativo, singular e fundamental no fortalecimento de uma democracia tão fragilizada como a brasileira”.

O MND precisou repensar alternativas para seguir sua agenda em 2020, tendo em vista que eventos presenciais não seriam possíveis, mas fizeram desse limão uma limonada: as atividades online atingiram mais mulheres do que o previsto nos eventos presenciais. Para entender como o grupo tem se movimentado, dado suporte a outras lideranças negras para as eleições municipais, e a importância da presença das mulheres negras na política brasileira, conversamos com Juliana Marques, uma das idealizadoras do projeto.

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Modefica: 2020 não só é um ano importante por conta das eleições municipais, mas também está sendo um ano atípico devido à pandemia do novo coronavírus. Como vocês se organizaram para manter a agenda da Mulheres Negras Decidem frente a estas dificuldades como o distanciamento social?

Juliana Marques: para 2020 havíamos previsto replicação do ciclo de formação que fizemos no Rio de Janeiro e em São Paulo em 2018. O programado era estar em Salvador, Minas Gerais e Recife. Os encontros seriam presenciais e, mais que replicar a formação, o objetivo era aproximar outras mulheres para serem articuladoras nessas cidades.

Tivemos que adaptar para o contexto online, o que reduziu parte da experiência que pensamos, mas que ao mesmo tempo ampliou o nosso alcance. Nas formações que aconteceram nesse formato tivemos mulheres de mais de 16 estados presentes, enriquecendo muito a troca.

Essa virada não foi imediata. Algumas de nós, nos primeiros meses da pandemia, estávamos mais voltadas à resposta para o cenário de crise nas nossas esferas profissionais, pessoais e também do ativismo para além do Movimento Mulheres Negras Decidem.

Isso na verdade nos ajudou a idealizar parte da pesquisa Mulheres Negras Decidem Para Onde Vamos em parceria com o Instituto Marielle Franco. A pesquisa inédita foi feita com 245 mulheres negras por todo o Brasil, com o principal objetivo de acionar mulheres negras ativistas comprometidas com debate de gênero e raça no país. O relatório reforça o lugar de mulheres negras não apenas como potenciais beneficiárias dos programas emergenciais, e sim como suas possíveis idealizadoras e implementadoras nesse contexto e em contextos futuros.

 

Conta pra gente um pouco da troca que aconteceu no 1º Encontro Nacional de candidaturas negras.

O Encontro era um desdobramento da ação de mapeamento nacional de pré-candidatos negros do coletivo Enegrecer a Política, projeto fruto de movimentos sociais e organizações da sociedade civil para elaborar e difundir dados sobre a ocupação de negros e negras na política. O projeto contou com a construção do Bigu Comunicativismo, Blogueiras Negras, Coletivo de Mulheres Negras Maria-Maria, Fórum Marielles, Mulheres Negras Decidem, Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas e Observatório Feminista do Nordeste.

Contou com a participação de candidaturas, ativistas e acadêmicos negros e tinha como objetivo potencializar votos em candidaturas negras nas Eleições 2020 a partir do compartilhamento de estratégias para superação das barreiras que afastam negros da política.

Foi um importante espaço de divulgação de candidaturas negras comprometidas com a luta antirracista, feminista e de direitos humanos, em um contexto onde sabemos que, justamente, candidaturas brancas é que têm maior projeção devido à concentração de recursos.

Teve como barreira de maior participação o fato de ter acontecido já no período de campanha eleitoral, ou seja, muitos candidatos precisavam privilegiar suas agendas e não puderam participar na troca on-line.

 

Qual a importância do fortalecimento da presença de mulheres negras no contexto político atual?

Mulheres negras são mais de 28% da população, menos de 2% na câmara federal e apenas 5% nas câmaras municipais, por exemplo. Se considerarmos uma democracia como fortalecida aquela que tem todos os setores da sociedade representados, não podemos deixar de achar absurda essa discrepância. Precisamos ter mais mulheres negras na política para que pautas defendidas por esse grupo possam ser apresentadas e aprovadas em projetos de lei.

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Como a articulação de base dos diversos movimentos de mulheres negras pode colaborar para a criação de uma sociedade mais justa pós-covid-19?

Muitas mobilizações feitas por mulheres negras em resposta à crise sanitária buscou diálogo com instâncias governamentais, existiu a clareza de que as ações de solidariedade não eram suficientes, que respostas com maior alcance só poderiam vir destas instâncias e isso não deixou de ser compartilhado com as bases.

Nesse momento de eleições essa clareza é resgatada imediatamente, ou seja, a necessidade de escolher candidaturas mais comprometidas com a redução de desigualdades e que reconhecem a importância do SUS, por exemplo, fica reforçada.

Além disso, muitas mulheres negras que estão se lançando como candidatas em 2020 possuem na origem da sua militância atuações coletivas, retomando a proximidade que o cidadão precisa ter com a política para além do período de campanha.

 

O Relatório Para Onde Vamos conversou com 245 mulheres negras nas 5 regiões do país. Qual dado (ou quais dados) mais surpreendeu vocês?

A quantidade de mulheres que afirmou atuar diretamente em alguma ação de combate à COVID-19 e seus impactos ganha destaque, foram 62%. Considerando esse contexto de eleições, importante apontar também a atuação de ativistas em campanhas políticas: 35% das mulheres acessadas disseram já ter participado de forma voluntária ou remunerada de alguma campanha.

Mas, sem dúvidas, a resposta da maioria para a pergunta aberta “Para Onde Vamos?”: precisamos que as mulheres negras estejam em posições que possam realmente afetar a mudança, ou seja, ocupar a política!

 

O que podemos esperar do livro Sobre a Imaginação Política das Mulheres Negras?

O livro vai reunir colaborações de mulheres negras referência em diversas temáticas e ainda textos inéditos sobre o contexto de criação de projetos de lei e articulação política, e os avanços que representaram na garantia de direitos da população brasileira.

 

Qual o próximo passo para as Mulheres Negras Decidem?

Além do livro sobre a Imaginação Política das Mulheres Negras, seguimos no fortalecimento da presença do Movimento em outros estados. Vamos também sistematizar a contribuição das eleições de 2020 no avanço da representação de mulheres negras pelo Brasil nas câmaras e prefeituras.

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