A Indústria da Moda Brasileira e Seus Principais Desafios Para Sustentabilidade

“Apresentado

A indústria da moda brasileira é bem particular. Tendemos a pensar que a roupa que compramos aqui é produzida em outros países, principalmente países asiáticos. Porém, a verdade é que a indústria da moda brasileira é um pouco mais complexa do que isso. Os últimos dados divulgados pela Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), de 2017, totalizaram 8,9 bilhões de peças produzidas e 6,71 bilhões de peças consumidas em solo nacional, com uma porcentagem tímida de cerca de 15% de itens importados. [1] Além de sermos autossuficientes na produção de vestuário, o Brasil é hoje o 5º maior produtor têxtil e 4º maior confeccionista do mundo. [2]

Esses números são aproximados, mas ajudam a esclarecer a realidade: produzimos o que consumimos. Com exceção de alguns tipos de tecidos, que têm uma alta taxa de importação de fato, nossa moda é majoritariamente feita no Brasil. “A gente tem todos os elos da rede produtiva aqui. Desde a produção de algodão, se a gente estiver falando de uma fibra natural, até o mercado consumidor. Poucos países do mundo têm todos esses elos inseridos dentro de uma mesma região”, explica Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil). 

Porém, fazer nossa moda “dentro de casa” não significa que não temos problemas. Temos. Eles são diversos e desafiadores. A desigualdade social do país (que coloca pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica suscetíveis a trabalharem em condições degradantes), produção pulverizada, informalidade, equipamentos tecnológicos caros e um desconhecimento de como trabalhar com novas tecnologias, e dificuldade de união e articulação do setor pelos próprios desafios geográficos são alguns deles. Enxergar e entender nossas particularidades é um caminho necessário para traçar soluções efetivas. 

 

Produção fragmentada, informalidade e condições de trabalho 

Uma característica marcante da indústria da moda brasileira é que as quase 30 mil empresas responsáveis pelas confecções das peças são micro ou pequenas. Essa realidade dá margem para algumas questões não reproduzidas no exterior, como a separação das etapas produtivas. Em países asiáticos, por exemplo, é mais comum que uma peça inteira seja feita no mesmo parque fabril. Já no Brasil, a norma costuma ser o oposto disso. Uma empresa corta, a outra costura, a outra faz a lavagem do jeans, a outra estampa. 

Além da questão logística, essa fragmentação ajuda no fortalecimento do mercado informal com terceirizações e quarteirizações, dificultando a rastreabilidade da rede produtiva e compliance [3]. Quando uma grande varejista terceiriza a confecção de, digamos, 20 mil peças do mesmo modelo, muitas vezes a fábrica contratada vai repassar essa produção para outras empresas menores para dar conta do pedido. No processo de terceirização e quarteirização, o risco dessas peças irem parar em oficinas completamente informais e até mesmo em trabalho doméstico [4] é gigantesco. 

Entrar no setor de confecção da moda não é difícil, basta uma máquina de costura e um pouco de habilidade. Os perfis das trabalhadoras e trabalhadores nessas condições variam, mas há dois grupos mais vulneráveis que se destacam: mulheres em condições de trabalho doméstico espalhadas pelos mais diferentes pólos produtivos do país e imigrantes latino-americanos nos grandes centros urbanos, principalmente em São Paulo. 

Ao olharmos para toda rede produtiva, a confecção é o setor mais sensível e vulnerável. Giuliana Ortega, Diretora Executiva do Instituto C&A, comenta alguns dos riscos encontrados nesta etapa de produção. “No Brasil, ainda temos desde questões mais graves e mais urgentes, como a existência de trabalho infantil e escravo, sendo as pessoas imigrantes as maiores vítimas, até outras questões muito sérias como o trabalho doméstico, onde as trabalhadoras ficam sem os seus direitos garantidos e fazem jornadas excessivas, dentro das suas próprias residências, sem controle algum de horas trabalhadas”, explica ela. 

 

 

O desafio do mercado informal

Outra particularidade nossa é que o varejo, ou seja, a venda de roupas, não está concentrada na mão das grandes redes e grupos varejistas como acontece nos Estados Unidos e Europa. Segundo dados da ABVTEX, grandes lojas de departamento representam cerca de 25% do varejo brasileiro. A outra parcela está majoritariamente nas mãos das micro e pequenas empresas, além do mercado informal. 

Camelôs, sacoleiros, a Feira da Madrugada, em São Paulo, ou portinhas espalhadas pelo Brasil e existindo na informalidade representam ⅓ do mercado [5] da moda brasileira. São peças produzidas e vendidas sem nenhuma regulamentação. Nesses locais, muitas vezes, é onde se encontram os piores casos de trabalho forçado. Por não estarem vinculados a grandes marcas, eles costumam passar despercebidos pela sociedade.

Além disso, Lima destaca que o comércio informal abre um vácuo na concorrência entre empresas que seguem todos os regramentos legais e as que não seguem. “Muita gente vem de ônibus, compra uma quantidade grande de produtos, seja no comércio legal ou não, voltam às suas cidades para comercializar essa mercadoria de maneira completamente informal, com sonegação de imposto, sem registro dos trabalhadores envolvidos”, explica. Por sua vez, quem consome essa roupa não faz a menor ideia sobre como ela foi produzida. 

O trabalhador que se sujeita a estas condições, muitas vezes, não possui outro modo de subsistência e passa a alimentar um comércio ilegal. “Para um camelô abrir uma banquinha, não é algo poético como ‘estou precisando, pego umas roupas para vender’. Hoje, para ocupar um espaço público não é simples, envolve muitas questões, desde segurança pública, informalidade, pirataria, até corrupção”, reforça Lima.

Uma rede produtiva pulverizada, informal e pouco fortalecida não resulta apenas num problema de ordem social. Se as pessoas não entram na conta, o meio ambiente menos ainda. Em grande parte dos casos, não há controle sobre resíduos da produção, uso de água e de químicos, muito menos qualquer possibilidade de se falar em logística reversa ou redesenho de modelo de negócio. 

 

Outros desafios: tecnologia, atuação em silos e modelo de negócio 

Saindo do âmbito da fragmentação e informalidade, há outros desafios. Um deles é uma dose de amadorismo que permeia o setor, tornando-o pouco apto para responder com agilidade às demandas do mercado. Para Christina Rangel, Consultora Técnica do Senai-CETIQT, “grande parte das empresas não sabem entender seu público e não têm nenhuma definição [desse público]. Como você vai produzir algo pra quem você nem sabe quem é?”. 

Análise de dados pode ajudar nesse processo, mas isso ainda é distante da realidade da indústria nacional e é algo que o Senai-CETIQT tem tentado trazer mais pra perto das empresas. É preciso aprender fazer uso dos recursos tecnológicos já disponíveis para entregar produtos mais assertivos. Isso diminui estoques e perdas, economizando uma boa dose de recursos naturais e financeiros. 

 

Para ocupar um espaço público não é simples, envolve muitas questões, desde segurança pública, informalidade, pirataria, até corrupção

 

Depois de produzir peças que realmente contemplem os desejos do público, o desafio é quebrar a mentalidade e atuação linear da moda.  Um desafio que não se limita ao âmbito nacional, mas à indústria da moda global. Extrair, produzir e descartar é um modelo que está deixando de fechar a conta, mas os desafios para circularidade da moda vão além da responsabilidade extendida pelo produto. “Você tem que repensar escolhas dos materiais, trocar o algodão por algodão orgânico, usar menos químicos e químicos mais seguros, usar menos água no processo, pensar num produto que, ao final do seu uso, possa voltar para o ciclo”, destaca Ortega.

Muitos desses desafios estão tentando ser superados em silos, ou seja, cada um fazendo a sua parte. Os problemas são compartilhados, mas as soluções normalmente não são. Um macroambiente alinhado com todos os conceitos da sustentabilidade depende de uma grande conexão com todos os elos da rede produtiva, indo até o varejo como salienta Fernando Pimentel, Presidente da Abit, ao afirmar que “a visão de sustentabilidade tem que ser uma visão sistêmica. Não é só um elo, são todos os elos trabalhando juntos para que as estratégias de atuação convirjam e se materializem”.

 

 

Caminhos para sustentabilidade 

Responsabilização e compartilhamento de boas práticas 

Com um mercado com particularidades tão marcantes, como podemos começar a desatar os nós? Para a ABVTEX, o caminho é fortalecer e unir o varejo, promovendo encontros mensais para discutir sobre transparência e desenvolver iniciativas comuns. São quase 30 empresas de médio e grande porte associadas e 3.723 unidades produtivas, entre fábricas e oficinas de costura, atuando para garantir boas práticas ao longo da rede produtiva. Muito desse trabalho acontece em torno do Programa ABVTEX, responsável por auditar e certificar fornecedores.

No Brasil, esses movimentos caminham juntos com a legislação. Diferente de outros países, a marca que tiver contratado fornecedores identificados com problemas de trabalho escravo em sua rede produtiva podem ser automaticamente responsabilizadas. Além disso, o artigo 149 do Código Penal Brasileiro, que trata das condições que definem trabalho escravo, é referência mundial por abranger questões de condições de trabalho, jornadas exaustivas, trabalho forçado e servidão por dívida [6], o que incentiva marcas e empresas a terem ainda mais cuidado com sua rede produtiva.  [7]

Apesar da ABVTEX estar focada no grande varejo, a ideia é que micro e pequenas empresas também se aproximem da associação, consigam conhecer práticas realizadas pelas grandes varejistas e encontrem caminhos para monitorar melhor sua rede produtiva. “O fato das empresas trocarem experiência vai fazendo com que as recém chegadas à ABVTEX, ou que já estão aqui há algum tempo, mas ainda estão no processo de desenvolvimento inferior, evoluam ao longo do tempo”, explica Lima. 

 

A visão de sustentabilidade tem que ser uma visão sistêmica. Não é só um elo, são todos os elos trabalhando juntos para que as estratégias de atuação convirjam e se materializem

 

Na Abit, na prática, o conhecimento é transmitido em ações como workshops, seminários, congressos e ações de campo. Com consórcios que reúnem empresas para um objetivo comum, a associação tem trabalhado em diversas frentes. Uma delas é a redução substancial do consumo de água de toda a rede produtiva do denim, tanto no setor têxtil quanto o de lavanderia e beneficiamento. Outra frente é a gestão de resíduos sólidos. Segundo o presidente da associação, por meio de uma espécie de consórcio com uma empresa parceira, a entidade viabilizou a uma série de marcas e confecções de menor porte a gestão dos seus resíduos sólidos.

A associação também aposta no encadeamento produtivo, ou seja, as empresas de maior porte levando conhecimento às suas empresas fornecedoras ou clientes de menor porte. “A Abit tem como missão fundamental levar o conhecimento, as estratégias, os movimentos, atualizar propostas e soluções junto às empresas e junto ao poder público, que é também um ator fundamental para que essas políticas tenham sucesso”, reforça Pimentel.

 

Transparência

Olhando para além das atuações das entidades de classe, há diversas outras iniciativas pipocando por aí. O Índice de Transparência, do Instituto Fashion Revolution Brasil, por exemplo, busca aumentar a divulgação pública sobre as relações de fornecimento das empresas, bem como de suas políticas, compromissos sociais e ambientais, objetivos, metas, desempenho e progresso em relação a gestão de sua rede de fornecedores. O índice também ajuda a colocar a moda sustentável em pauta e pressionar marcas. Lançado pelo movimento Fashion Revolution global, chegou ao Brasil como uma versão nacional, ambas apoiadas pelo Instituto C&A. “Seguimos com uma parceria com o Fashion Revolution esse ano, inclusive não só apoiando o índice de 2019, mas também apoiando o estabelecimento do Fashion Revolution no Brasil como instituição”, contou Giuliana. 

A atuação para transparência, principalmente quando falamos das empresas micro e pequenas, que são a maioria no Brasil, ganha escala quando tecnologias, como o blockchain, vão se tornando cada vez mais acessíveis. No Brasil, o Instituto Alinha, cujo foco de atuação são as confecções, é o primeiro a garantir rastreabilidade por meio dessa tecnologia. “Promover a visibilidade de costureiras e costureiros, mostrando quem fez cada etapa e qual foi a remuneração e prazo negociados, assim como garantir melhores condições de trabalho, são grandes passos para transformar a rede produtiva da moda já que um dos maiores problemas enfrentados por essas oficinas é fazer com que sua precificação justa seja respeitada, de forma que as pessoas não precisem trabalhar muito mais por muito menos”, explica Dariele Santos, fundadora da Alinha. 

 

União e fortalecimento dos elos mais fracos 

Não é porque o Brasil tem suas particularidades que as soluções para os problemas que acontecem em outros países não podem e não devem ser adaptadas para nossa realidade, como mostra o próprio Índice de Transparência. Pelo contrário, Giuliana Ortega conta sobre a experiência do Instituto C&A na Índia, onde um projeto está fomentando a articulação de um coletivo de organizações para trabalharem juntas no combate ao trabalho escravo numa determinada região. “Trouxemos essa inspiração e trabalho da Índia. Estamos agora para aprovar um projeto que vai ter essas características e vai olhar aqui para a cidade de São Paulo”, adianta ela. 

Por aqui, nós também temos um enorme potencial de desenvolvimento e fortalecimento das comunidades produtoras de algodão orgânico, por exemplo. Um trabalho que o próprio Instituto C&A vem fortalecendo por meio de parceiros no campo como a Esplar e a Diaconia. Fortalecer a agricultura familiar campesina e fomentar a produção do algodão orgânico e/ou agroecológico garante não só matéria-prima sustentável, mas bem estar para quem vive no campo.

No âmbito de inovação e tecnologia, Giuliana ressalta o trabalho do Fashion for Good, de Amsterdã, cujo principal objetivo é “acelerar novos modelos de negócio e iniciativas que estão tentando sair do nicho e ganhar escala, nessa linha de testar um novo modelo, testar uma nova tecnologia, testar uma nova matéria prima”, conta a diretora. Esse projeto é aberto para organizações/empresas/startups brasileiras participarem. No momento, o Instituto C&A está mapeando as inovações aqui no Brasil para aproximar iniciativas. 

Deu pra notar que as complexidades e os desafios são muitos. Mas, exatamente por isso, as soluções são múltiplas. Resumimos o cenário da indústria da moda nacional e seguimos com o objetivo de pontuar as particularidades brasileiras para encontrarmos soluções específicas para os nossos problemas. Nas próximas pautas, mostraremos iniciativas inspiradoras que estão olhando para todas essas questões e promovendo uma moda mais justa e sustentável.

 

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Instituto C&A e Modefica se uniram para uma série de pautas que mostram o que está acontecendo no Brasil no âmbito de inovação, tecnologia e colaboração na indústria da moda. Convidamos nossas leitoras e leitores a refletirem sobre os desafios, conhecer e chegar junto às soluções. Não perca as próximas publicações, se inscreva na nossa newsletter. Acompanhe as iniciativas também pelo @instituto_cea

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