Agrotóxicos São Racistas? Exemplos de Injustiça Ambiental no Campo e na Mesa

Cara Umbra,

Eu sei que deve haver uma ligação entre a fabricação de pesticidas e a injustiça racial, mas estou tendo problemas para rastreá-la.

Ass. Algo Parece Eticamente Desagradável para Ele

 

Querido APEDE,

Acho que seus instintos são muito bons! Se você girar a roda de desgraças ambientais – possivelmente um dos programas de auditório mais deprimentes de todos os tempos (e isso num universo que inclui The Bachelor) -, as chances de que qualquer problema no qual a seta repouse esteja conectado à injustiça racial são muito grandes. Isso porque a injustiça racial está profundamente enraizada na sociedade americana, então ela tende a desempenhar um papel na maioria dos conflitos.

Como regra geral, todo conflito ambiental tem a exploração em seu centro: alguma entidade (geralmente uma corporação, um governo ou outra entidade poderosa) lucrando sobre algum recurso natural (água, petróleo, florestas), em detrimento da comunidade que depende desse recurso.

O caso dos pesticidas, no entanto, é um pouco mais multifacetado: imagine um agricultor que está pulverizando produtos químicos, aprovados para uso pelo Governo Federal, em seus campos a fim de cultivar com mais eficiência suas safras para as pessoas em todo o país comerem. Digamos que as pessoas que estão plantando e colhendo as safras naquela fazenda comecem a ficar doentes como resultado do contato regular com esses pesticidas. Além disso, esses produtos químicos também chegam ao ar, solo e águas subterrâneas locais. Agora, as pessoas que moram perto da fazenda também estão adoecendo.

Esse cenário exato ocorreu recentemente com o Clorpirifós, um pesticida amplamente usado, com ligações comprovadas a danos cerebrais em crianças. Também foi comprovado que ele adoeceu muitos trabalhadores rurais, todos migrantes do México e da América Central e provavelmente elas não irão relatar suas doenças por medo de perder seus empregos. Depois de anos de pressão de ativistas, principalmente mulheres latinas moradoras no Vale Central da Califórnia, o estado finalmente proibiu o uso e a venda do produto químico. O Havaí movimentou-se da mesma forma. Enquanto isso, a Agência de Proteção Ambiental, ou EPA (“Environmental Protection Agency”), se recusou a banir o Clorpirifós, chegando a ponto de censurar o testemunho dos trabalhadores rurais em sua decisão (há um ano, essa recusa foi contestada por um tribunal federal – foi uma saga).

Então aqui está uma conexão de injustiça racial. Os Estados Unidos descarregam o risco ambiental de forma infame sobre as pessoas trabalhando em seus campos e cultivando seus alimentos, ao mesmo tempo que as tratam como inferiores a humanos. Os trabalhadores agrícolas dos EUA são, em sua maioria, pessoas de cor indocumentadas, e sua saúde e seus direitos não parecem importar para o governo, especialmente se estes direitos infringirem os lucros de grandes empresas químicas responsáveis por fabricar e vender estes pesticidas. Na verdade, os Estados Unidos ainda adotam muitos pesticidas que foram proibidos na União Europeia, até no Brasil e na China devido aos seus impactos ambientais e à saúde humana. Enquanto isso, as pessoas que compram esses produtos agrícolas nunca precisam realmente confrontar como ele foi parar em seu carrinho de compras. Esse sistema é a definição de injustiça.

Os defensores dos detalhes podem notar que ainda não abordei as implicações para a saúde da fabricação de pesticidas. Acalme-se! Uma avaliação geral comissionada pela EPA, em 1972, dos impactos ambientais da criação de pesticidas concluiu que “em geral, os impactos ambientais da fabricação / formulação / embalagem / marketing de pesticidas parecem ser pequenos em comparação aos resultantes do uso desses produtos pelo consumidor”. Pode-se dizer que isso é bastante prejudicial, pois os impactos ambientais do uso de pesticidas pelos consumidores estão, claramente, longe de serem insignificantes.

Comunidades não-brancas suportam o impacto imediato da produção e de outras fontes de poluição nos Estados Unidos porque tendem a estar localizadas em zonas industriais poluídas (você pode ter ouvido falar deles como “fenceline communities” [1] no jargão de nossos tempos). Isso não é uma coincidência; moradias mais baratas são direcionadas para perto de áreas contaminadas e vice-versa. Portanto, se você seguir seus instintos e rastrear a maioria dos pesticidas até o local onde foram feitos, provavelmente encontrará mais disparidades raciais em quem tende a viver nas proximidades.

A jornalista Rachel Aviv escreveu um perfil, em 2014, do renomado biólogo Tyrone Hayes, que lutou contra a Syngenta, produtora do Atrazina, um pesticida amplamente utilizado – que, aliás, a EPA de Trump defendeu firmemente. A Atrazina é um desregulador endócrino, que Hayes descobriu ter efeitos devastadores no desenvolvimento sexual dos anfíbios. Também está relacionado a vários problemas de saúde humana. A Syngenta tentou desacreditar Hayes, que é negro, alegando que ele era mentalmente instável e que seus resultados não podiam ser replicados, mas Hayes se recusou a recuar. A coisa toda realmente explodiu.

Esta citação do perfil feito por Aviv chamou a atenção para mim: “em algumas de suas palestras, Hayes alertou que as consequências do uso da Atrazina eram desproporcionalmente sentidas por pessoas não-brancas. ‘Se você é negro ou hispânico, é mais provável que more ou trabalhe em áreas onde está exposto à porcaria’, ele disse”. Não há melhor maneira de resumir a situação.

Pesticidas tóxicos (e qualquer outra ameaça à saúde humana que desproporcionalmente atinja comunidades não-brancas) não são tanto causas de injustiça racial, mas sim sintomas dela. Usados indiscriminadamente e sem regulamentação, eles são prejudiciais à nossa sociedade e sempre irão prejudicar aqueles que não têm riqueza e acesso para se protegerem.

Você está seguindo seus instintos e fazendo as perguntas certas, e isso é metade da batalha!

Curiosamente,

Umbra

Texto escrito por Eve Andrews. Artigo originalmente publicado em Grist e traduzido com autorização para o Modefica. Leia o artigo original aqui.

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