Por Que Essas Empresas Gastam Milhões Para Te Convencer Que Não Existe Crise Climática

Em 2015, a assinatura do Acordo de Paris fez soar um sinal vermelho para as indústrias de petróleo e gás. Não era novidade que, até aquele ano, as empresas do setor e seus apoiadores tivessem destinado bilhões para convencer a sociedade que a crise climática era apenas uma teoria. Mas a partir deste momento, elas precisaram se posicionar publicamente sobre práticas mais verdes para um público mais atento aos gases do efeito estufa (GEEs). O plano de seguir desmentindo cientistas climáticos segue até hoje, mas as décadas de propaganda enganosa criaram não só uma massa considerada de anti-climáticos, como também ajudaram a forjar a ideia que crise climática é uma visão ideológica.

Para entender como chegamos até aqui é necessário voltar ao início da década de 80. Em 1981, Marty Hoffert, cientista consultor da petroleira Exxon – a empresa ainda não havia se fundido com a Mobil – criou um modelo que mostrava como a Terra esquentaria de forma significativa nos próximos anos. Marty foi um dos primeiros cientistas a prever que a ação humana sobre a Natureza acarretaria na crise climática. Ele chegou a informar o fato à Exxon que, na época, gastava milhões de dólares em pesquisas de inovação.

Mas as declarações públicas feitas pelo então presidente-executivo da empresa, Lee Raymond, tinham outro tom. Lee afirmava que as evidências científicas não eram conclusivas sobre se as atividades humanas tinham efeito significativo sobre o clima global. À BBC, Marty relatou que “o que eles fizeram foi imoral. Eles espalharam dúvidas sobre os perigos da mudança climática quando seus próprios pesquisadores confirmaram a gravidade da ameaça”.

O que eles fizeram foi imoral. Eles espalharam dúvidas sobre os perigos da mudança climática quando seus próprios pesquisadores confirmaram a gravidade da ameaça

O caso da Exxon é frequentemente estudado e citado por pesquisadores das mudanças climáticas. Um documento interno de 1989, posteriormente revelado, voltou a reproduzir a receita, deixando claro que, mesmo ciente dos impactos sobre o aquecimento global, a empresa preferiu seguir disseminando a dúvida entre a sociedade e mídia. Mas a Exxon não foi a única a se manter nesse movimento. No mesmo ano, 1989, empresas de energia e indústrias dependentes de combustíveis fósseis criaram o Global Climate Coalition, um grupo lobista que atuou até 2001 pressionando políticos e a mídia dos Estados Unidos contra políticas de redução de GEEs.

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Em 1991, o Edison Electric Institute, órgão que representa as empresas de energia elétrica nos Estados Unidos, criou uma campanha chamada Conselho de Informação para o Meio Ambiente, que tinha como objetivo reposicionar o aquecimento global como teoria e não fato. Eles faziam perguntas como “se o mundo está esquentando, por que Kentucky (estado americano) está ficando mais frio?”.

Propagandas lançada pelo Conselho de Informação para o Meio Ambiente: “se a Terra está ficando quente, porque o Kentucky está ficando mais frio?” e “o problema mais sério com o catastrófico aquecimento global é que ele pode não ser verdadeiro”.

Para contribuir com a disseminação da dúvida, a indústria do petróleo e gás recrutou e treinou cientistas para irem à mídia e darem sua opinião negativa sobre a crise climática. Assim, o público veria a visão de um indivíduo “neutro” e da academia. Segundo a historiadora da Universidade de Harvard, Naomi Oreskes, esses indivíduos que vão à TV são realmente cientistas, mas não são especialistas em ciências climáticas.

O professor emérito da Universidade Drexel, nos Estados Unidos, Robert Brulle, identificou que, entre 2003 e 2007, a ExxonMobil doou US$ 7,2 milhões (R$ 40,40 milhões) a 91 instituições que promoveram a negação ou minimização das mudanças climáticas. Já o American Petroleum Institute (API) doou, de 2008 a 2010, aproximadamente US$ 4 milhões (R$ 22,4 milhões). A maioria destas organizações eram think tanks de direita, aliados da indústria do petróleo, que relacionavam à crise climática com ideologia.

 

Os mesmos passos da indústria do cigarro

A tática de enganar e confundir a sociedade com notícias falsas se inspira em uma outra grande indústria, que passou por crise parecida na década de 50: a indústria do cigarro. O executivo de relações públicas, John Hill, acompanhou, em 1953, uma reunião de chefes de empresas de tabaco em Nova Iorque. Na época, revistas amplamente lidas como Readers Digest e Time Life haviam publicado artigos que relacionavam tabagismo ao câncer de pulmão. Ainda segundo a BBC, John teria escrito que “os vendedores do setor estão freneticamente alarmados e o declínio dos estoques de tabaco na bolsa de valores tem causado grande preocupação”.

Propaganda da marca de cigarro Camel contra as alegações de câncer: “Nenhum caso de irritação de garganta por conta de fumar Camel!”

Ele aconselhou então que se combatesse a ciência com a ciência. E a dúvida foi instalada – ela era mais certeira do que uma afirmação falsa. A dúvida faria as pessoas pensaram de forma rápida e superficial sobre o assunto para continuarem fumando. Sob recomendação de John, as empresas criaram o “Comitê de Pesquisa da Indústria do Tabaco” para promover “opiniões científicas” que afirmassem não haver provas de que o tabagismo seria causa do câncer de pulmão.

 

Investidas recentes

Talvez todo esse esforço feito pela indústria do petróleo e gás explique a dificuldade de comunicar a urgência da crise climática atualmente. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em maio deste ano, pela empresa Pew Research Center, revelou que apenas 22% dos americanos republicanos acreditam que as mudanças climáticas são causadas pelo homem, em comparação com 72% dos democratas. Já no livro Internacionalismo ou Extinção, de Noam Chomsky, publicado em 2019, o autor cita um dado alarmante: 40% dos americanos acreditam que as mudanças climáticas são reais, mas que não devemos fazer nada porque estão relacionados a segunda vinda de Jesus.

40% dos americanos acreditam que as mudanças climáticas são reais, mas que não devemos fazer nada porque estão relacionados a segunda vinda de Jesus

Uma tendência observada por um relatório de 2019 da think tank Influence Map é o uso tático das redes sociais. Nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em 2018, empresas do setor petrolífero investiram US$ 2 milhões (R$ 11,2 milhões) em anúncios no Facebook e Instagram falando sobre os benefícios da produção de combustível fóssil. No mesmo ano, uma investigação da Unearthed com Huffpost revelou que apesar das empresas BP e Shell terem se comprometido publicamente com ações de transição para economia de baixo carbono, elas continuam envolvidas com lobistas anti-climáticos nos Estados Unidos e Austrália.

A Shell e BP possuem a segunda e quarta maior receita líquida no setor de petróleo, respectivamente. Nos Estados Unidos, ambas apoiam grupos como o Alliance of Western Energy Consumers, que lutou contra a taxação de emissões de carbono no estado do Oregon. Na Austrália, elas apoiam a Australian Petroleum Production & Exploration Association e o Business Council of Australia, dois grupos que lutam para minar as contribuições do país ao Acordo de Paris. Recentemente, o CEO da Australian Petroleum Production & Exploration Association, Andrew McConville, foi a público para “lembrar” os australianos de como a indústria do petróleo e gás é fundamental para promover o bem-estar no dia a dia da população.

A Shell também possui assento no Conselho de Recursos de Queensland, um dos estados do país insular que se manifesta como um dos principais defensores da mina de Carmichael, a maior mina de carvão mineral do mundo. Em julho deste ano, a ExxonMobil voltou ao debate climático quando Keith Ellison, procurador-geral do estado de Minnesota, processou a empresa, junto com o American Petroleum Institute e a Koch Industries, por enganar o público sobre a crise climática. O procurador alegou que “documentos internos confirmam que os réus entenderam bem os efeitos devastadores que seus produtos causariam ao clima”.

 

O capitalismo verde é uma falácia

Algumas empresas optam por falas mais brandas e planos de mitigação dos impactos sobre o meio ambiente. Mas tais planos, como a geoengenharia [1], servem apenas às relações públicas. O clima, por meio de tempestades, desgelo, enchentes e secas, deixa claro que a saída fácil e cômoda para o capitalismo não é a resposta correta. As empresas petroleiras estão cientes disso desde a década de 80, mas ainda sim insistem em percorrer o caminho contrário. É o que vemos acontecer no Ártico: em junho deste ano, 20 mil toneladas de óleo diesel vazaram no extremo norte da Rússia, na cidade de Norilsk, por conta do degelo do permafrost – camada de água congelada que fica abaixo do solo ártico.

O vazamento aconteceu porque um tanque perdeu sustentação por conta da instabilidade do solo. Esse é apenas um exemplo de situações que ocorrem na região. No Ártico pertencente ao Alasca, as petroleiras tomaram uma decisão frente ao fato indiscutível o agravamento da crise climática: elas decidiram investir em tecnologias que esfriassem o permafrost, para continuarem seu business as usual. É claro que a “solução” das petroleiras deixam de fora os impactos no modo de vida e economia de residentes indígenas da região e da biosfera.

O Governo Trump tem sancionado projetos de arrendamento de milhões de hectares no Alasca – inclusive em um pedaço conhecido como refúgio nacional da vida selvagem do Ártico. A Reserva Nacional de Petróleo do Alasca é uma região do tamanho do estado de Indiana, cuja fauna e flora são os meios de sobrevivência dos moradores locais. O arrendamento chega até o Lago Teshekpu que, junto com os pântanos próximos, é considerado um dos habitats mais importantes para os animais do Ártico.

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Os pássaros que vivem no lago vêm dos sete continentes. Ou seja, essas empresas estão investindo milhões para se safar por mais alguns anos, enquanto vêem residentes indígenas e o meio ambiente ao seu redor sofrerem com as mudanças de temperatura.

 

A chance para um sistema mais equitativo

Podemos pensar nos próximos passos de forma positiva. A jornalista e ativista canadense Naomi Klein propõe que olhemos as soluções para a crise climática como uma “esperança de construir um sistema econômico mais estável e equitativo, que fortaleça e transforme a esfera pública, promova o trabalho e controle radicalmente a ganância empresarial”. Não podemos enxergar as mudanças climáticas como uma questão a ser somada à lista de preocupações, como contas a pagar. Essas mudanças têm que ser um despertar civilizacional, uma nova maneira de partilhar o planeta e conviver em harmonia com a Natureza.

No seu livro Tudo Pode Mudar, Klein aponta que podemos encontrar nas negociações internacionais das últimas décadas dois processos paralelos: a derrota do processo climático e a vitória do processo de neoliberalização. Assim como descrito por diversos exemplos aqui, ela afirma que o fundamentalismo de mercado tem sabotado a resposta coletiva às alterações climáticas e a veneração da busca de lucro infiltram na nossa sociedade e alma. Para sanar isso, precisamos “ultrapassar bloqueios ideológicos”. Sua fala soa como um chamado, em especial, para os brasileiros, que convivem com um Estado pautado em ideologia conservadora, não é?

A autora também reforça que é necessário derrubar os mitos da era do mercado livre, no qual se acredita que serviços privados são superiores aos do setor público. “As comunidades deveriam receber poderes para definir os métodos que melhor funcionam para elas. A descentralização do poder e a ação climática bem sucedida andam de mãos dadas”, afirma. Em sua fala, ela também explica a importância de se pensar e agir além do modelo econômico extrativista, que se baseia na dominação e violência e reproduz um pensamento imperialista de superioridade de povos e culturas. Por fim, Klein sentencia: “a solução não é consertar nosso mundo, mas sim consertamos a nós próprios”.

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