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A Pele e a Moda: o Que Está Por Trás Dessa Indústria?

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Quando o assunto gira em torno do uso de peles de animais na moda, a questão sempre é pintada como polêmica e controversa. Ao lermos como a mídia de moda expõe o assunto, é fácil acreditar que é um debate 50/50, ou seja, metade das pessoas apoia e metade das pessoas não apoia o uso de peles. Mas a verdade é que, na prática, não há controvérsia no pensamento sobre o assunto: o uso de pele de animais para a moda é majoritariamente reprovado pelas pessoas.

Na Inglaterra, por exemplo, 95% da população desaprova o uso de peles (fur). A criação de animais para produção de peles foi proibida no país nos anos 2000 e, apesar das tentativas por parte de alguns interessados, a lei nunca foi anulada ou revertida.

Para além da Inglaterra, a demanda das pessoas pedindo o fim do uso de peles de animais para produção de produtos de moda já fez várias marcas repensarem suas matérias-primas – de Giorgio Armani à Zara; além de ter levado outros países a criarem leis que proíbem esse tipo de criação e até mesmo venda de artigos, como São Paulo. No mundo todo, A verdade é que a única pele que está sendo significativamente comprada pelas pessoas é a falsa.
 

Por que a pele parece sempre ser tendência?

Se casacos e itens feitos com peles de animais felpudos não são, realmente, vendidos, a pergunta que fica é: por que as passarelas sempre mostram uma grande abundância de itens em peles e Karl Lagerfeld não só o faz em todos os desfiles da FENDI, como chegou a forrar o chão da passarela inteiramente de peles de animais abatidos com esse único fim?

A resposta é a quantidade de dinheiro que a indústria da pele investe para lutar contra a decadência da imagem do produto. O International Fur Trade Federation (IFTF) financia desfiles de novos designers, chegando a ‘apadrinhá-los’ durante a faculdade de moda e além. Eles distribuem casacos de pele para celebridades, dão matéria-prima para estilistas famosos e ainda fazem um enorme trabalho de relações públicas com matérias na mídia falando não só sobre o quanto usar peles está na moda, mas sobre o quanto a indústria da pele é sustentável e economicamente necessária.

[quote text=”A pele na passarela não aconteceu espontaneamente. É, duas vezes, um símbolo da desigualdade de riquezas” color=”#9a6476″ textcolor=”#1b516e”]

Em seu artigo para o The Guardian, Tansy Hoskins relembra sua entrevista com o chefe executivo da IFTF: “Alguns meses atrás, quando eu entrevistei Mark Oaten, chefe-executivo da IFTF, ele explicou que um projeto-chave do IFTF é distribuir bolsas de estudo para jovens designers. Com a pobreza e o desemprego mordendo os tornozelos dos estudantes de moda e jovens estilistas, alguns ficam entre a cruz e a espada: escolher ficar com seus princípios ou receber máquinas de costura de graça, despesas de viagem para shows e publicidade em troca de coleções que incluem pele? A pele na passarela não aconteceu espontaneamente. É, duas vezes, um símbolo da desigualdade de riquezas”.

Tamsin Blanchard aborda como a IFTF faz os jovens designers acreditarem que o uso da pele é um passaporte para o sucesso na moda de luxo e ressalta como os números que a organização divulga são falsos e mostram o desespero dessa indústria: “The International Fur Federation diz que o comércio global de peles foi avaliado em mais de £27 bilhões. Mas a realidade é, é um negócio não regulamentado, que não pode ser contabilizado e que está usando medidas desesperadas para garantir a sua sobrevivência”.
 

Ética versus ostentação.

Graças ao mercado de luxo e aos próprios esforços, a indústria da pele sobrevive. As celebridades não compram casacos de pele, mas socialites, ricos e novos ricos perpetuam esse hábito como uma forma de demonstrar poder. Em média, estima-se que 12% do mercado de pele seja responsabilidade dos Estados Unidos, enquanto mais de 60% está concentrado na Europa. Entretanto, é na Rússia e China que a indústria da pele têm apostado com mais afinco, visando os crescentes mercados de luxo locais.

 

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Casaco e clutch de faux fur da Shrimps // Reprodução
 

Katherine Schafler, psiquiatra de Nova Iorque cuja clientela é bastante rica e poderosa, em uma matéria dedicada à comparação da pele versus couro no Refinery 29, lembrou: “É provocativo usar pele. Há uma parte de ostentação nisso; é uma afirmação de que você é rico”. Por outro lado, o couro é um material bastante comum e abundante; não é preciso ser rico para ter um sapato ou bolsa de couro.

Em outras palavras, Tansy Hoskins em seu livro ‘Stiched Up’ coloca: “Não é coincidência que as coisas as quais somos ensinados a desejar são símbolos de crueldade e poder da classe dominante sobre a natureza – peles de animais (furs e skins). O que é uma bolsa de pele além de um sinal de que você é rico e poderoso o suficiente para comandar e destruir a natureza? Que você pode fazer com que ‘coisas’ vivas morram para o seu prazer e estética?”.

Do ponto de vista social, é exatamente a semiótica dos itens de moda em peles de animais, felpudas ou exóticas, que distância o couro (da vaca/boi) das outras peles. O couro é desnecessário, mas a pele é frívola, escassa e reforça o poder de classes.
 

Sustentabilidade: pele verdadeira versus falsa

Em se tratando de sustentabilidade, já está mais do que provado que a produção de peles não é sustentável e tampouco é mais eco-friendly do que a produção de itens com material sintético. Para prevenir a pele morta de apodrecer, é necessário uma boa dose de tratamentos químicos que impactam no solo, ar e água, além de fragilizar a saúde dos trabalhadores. Esse tratamento também faz com que a pele deixe de ser totalmente biodegradável.

Um estudo sobre os impactos ambientais negativos relacionados à produção de produtos, realizado pelo World Bank, analisou 200 mil empresas e cobriu mais de 1.500 categorias de produtos, e chegou a conclusão que a indústria da pele está entre as cinco piores indústrias por poluição com metais tóxicos.

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Produção de peles no maior país produtor de peles, a China // Reprodução
 

Além do tratamento das peles, é imprescíndivel lembrar que 85% das peles são provenientes de animais criados em cativeiro. Em Janeiro de 2011, o CE Delft, uma organização de pesquisa e consultoria independente, levantou os impactos da produção de peles de vision – da criação dos animais à pele tratada – e chegou a conclusão que os impactos negativos chegam a ser até 28 vezes maior do que a produção de qualquer têxtil, incluindo sintéticos como acetato, poliéster e acrílico. Além do mais, apenas 10% do acrílico produzido no mundo é para a produção de itens faux fur.

Sendo assim, a pele verdadeira não ganha o duelo entre o verdadeiro e o sintético. Sua produção é problemática e poluente desde a criação dos animais até a quantidade de energia e insumos necessários para a manutenção do casaco. Todos os artigos que afirmam que a pele verdadeira é mais sustentável e ética do que as peles sintéticas não contêm fontes ou estudos, apenas opiniões do IFTF e British Fur Trade Association. Em um Google rápido, você conseguirá notar isso.

Mesmo antes dos estudos atuais que provam a desvantagem da pele, especialistas já diziam que a escolha mais sustentável se você quer um casaco de pele verdadeiro é comprar de segunda mão. Comprar um casaco de pele verdadeira novo nunca será sustentável.

[quote text=”O que é uma bolsa de pele além de um sinal de que você é rico e poderoso o suficiente para comandar e destruir a natureza?” color=”#9a6476″ textcolor=”#1b516e”]
 

A pele, a imagem e a moda

Mas muitos concordam que você ficará melhor sem casaco de pele nenhum. Isso porque, casacos de pele verdadeira (e até mesmo alguns sintéticos), mesmo usados, não deixam de reforçar os significados de poder transmitidos por eles, perpetuando o sentimento de que ter um casaco de pele é algo importante e exclusivo. Além do mais, mundo afora já há grupos que podem dar melhores fins aos casacos verdadeiros, como é o caso da Coats For Cubs, que arrecada casacos para ajudar na recuperação de animais selvagens.

Inclusive, pela questão da imagem, quando o assunto são casacos sintéticos, cada vez mais designers se afastam da ideia de uma pele ‘real’ e criam cores, padronagens e texturas que escapam do tradicional e fazem questão de transmitir que a pele sintética é muito mais divertida, além de ser usada como uma afirmação contra o ‘the real deal’.

A marca inglesa Shrimps é um desses casos. Com peças que chegam a custar mais de mil dólares, a ideia é criar casacos irreverentes e de ótima qualidade, daqueles para guardar a vida toda. A Unreal Fur também é destaque quando o assunto é brincar com texturas e cores.

Outra estilista que prova como o sintético também é luxuoso é Stella McCartney, bastante conhecida por questões éticas por trás da produção dos seus produtos. No ano passado, a estilista lançou a coleção/campanha Fur-Free Fur indo contra qualquer ideia de que itens sintéticos são de ‘pior qualidade’ ou não podem ser luxuosos, suprindo uma demanda de suas clientes.

 

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Casaco Fur-Free Fur da Stella McCartney // Reprodução
 

Recentemente em um vídeo para Dazed e em uma entrevista para o The Telegraph, em celebração aos seus 40 anos, McCartney lembrou que para uma indústria como a moda, que se esforça tanto para ser moderna e até mesmo vanguardista, é bastante ultrapassado continuar usando matérias-primas e técnicas tão cruéis e poluentes de décadas atrás sem qualquer necessidade.

“Há um monte de designers que são muito fodX-s* quando se trata de usar pele”, disse ela ao The Telegraph. “Se é errado fazer pele, em seguida, eles vão fazê-lo. Mas uma vez que existem apenas cerca de três de nós que não fazem pele, eles não estão sendo muito punk”.

A verdade é que para um determinado círculo social, usar peles de animais pode ser considerado algo a se admirar e transmitir prestígio. Mas, na verdade, cada vez mais, o que o uso da pele verdadeira passa a transmitir é uma imagem de falta de respeito e ética para com os animais e para com as pessoas, já que a desigualdade social e a ostentação está sendo cada vez mais questionada e menos aceita mundo afora.
 

O eterno debate: couro versus outras peles

Defensores da pele verdadeira costumam afirmar que não há diferença entra a produção de couro e a produção de peles. Se desconsiderarmos todas as nuances desse debate, essa afirmação é correta. A produção de vacas e bois para o abate ou produção de laticínios é um show de horror, assim como a produção de peles. A maneira como esses couros são curtidos também.

Quem iguala peles e couro também costuma usar o argumento de que o mercado de couros é viável por si só e produzir animais só para o couro é financeiramente viável para os produtores de gado. Isso também é verdade. Sendo assim, em comparação direta, couro e outras peles são igualmente problemáticos em questões éticas e ambientais. Por todas essas afirmativas, Stella McCartney também abriu mão do couro em suas coleções, por exemplo.

Entretanto, é bastante importante trazer a realidade atual para o debate, e não suposições: a abundância do couro é proveniente do excesso de produção da indústria alimentícia. Não há como falar de couro da vaca/boi, sem analisarmos a alimentação no Brasil e no mundo. É definitivamente mais fácil abrir mão da pele do que se tornar vegan, de fato, mas é uma falsa simetria comparar a indústria das peles exóticas com a do couro de vaca. Ambas são problemáticas, mas o questionamento e as possíveis soluções são diferentes em tamanho e complexidade, e é importante ter isso em mente se quisermos realmente propor novas ideias para um mundo livre de exploração animal.

Então, dá próxima vez que você ver peles nas passarelas sendo postas como tendência ou pessoas discutindo o quanto a produção de peles é essencial e sustentável, ou até mesmo como peles e couros são iguais então ‘vamos usar ambos’, não se engane: bastante dinheiro e um jogo de interesses estão ali criando essa falsa ilusão para nós.

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