Resistência Feminista: Comunidades Agroecológicas se Organizam Para Soberania Alimentar

O relatório La Via Campesina in Action for Climate Justice, publicado em 2019 pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), traça um paralelo interessante sobre a agricultura industrial e a agroecologia: enquanto uma está no centro da crise climática[1], a outra é responsável por alimentar mais de 70% da população mundial.

O sistema de agronegócio industrial é particularmente prejudicial para mulheres e jovens: as mulheres são as primeiras a sofrer os impactos de expropriação de terras, mudanças climáticas e desastres. Já os jovens, se vêem no meio de uma competição corporativa por terra e água, o que gera grilagem, conflitos de terra e sociais. Ainda segundo o relatório, a agroecologia é um marco na soberania alimentar, pois promove justiça social e equidade. Um sistema baseado na soberania alimentar, agricultura em pequena escala e agroecologia podem reduzir as emissões de carbono pela metade nas próximas décadas.

As mulheres estão na frente dessa transformação agroecológica – nas fazendas e movimentos sociais. A agroecologia, além de promover justiça ambiental, também contribui para resolver os problemas sociais, como pobreza e fome, oferecendo autonomia para as mulheres, suas famílias e comunidades.

 

Noiva do Cordeiro

Em Minas Gerais, existe uma comunidade rural localizada na cidade de Belo Vale, a 100km de Belo Horizonte, que é conhecida por ser um espaço gerenciado por mulheres, que em conjunto e de maneira horizontal, cuidam da lavoura, dos animais e do serviço de artesanato. A Noiva do Cordeiro é formada por quase 300 pessoas, responsáveis por produzir e plantar grande parte do seu sustento.

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O segredo para que isso dê certo está na união e no amor de uma grande família que gosta de cuidar da terra e do seu espaço, a fim de viver bem, onde o maior conforto está em saber que os alimentos no prato de cada pessoa são diversos e produzidos sem veneno.

Enquanto a maioria dos homens trabalha em outros locais, cabe às mulheres os cuidados com os animais, com a costura e a lida na roça. Toda a comida vem das terras da Noiva do Cordeiro, seja o leite das vacas, usado também para fazer queijo; os 200 ovos por dia, colhido das galinhas; ou as hortaliças, o arroz, o feijão, as frutas e os legumes. “O cultivo é a nossa principal fonte de sobrevivência e da nossa qualidade de vida. Os produtos que a gente mesmo cultiva é o que dão saúde para a gente”, conta Márcia Fernandes Pereira, 40, integrante da Noiva do Cordeiro.

No momento da divisão de tarefas é levado em consideração o que cada um mais gosta de fazer, mas no final das contas, o que importa é trabalhar para o bem de todas as pessoas. Márcia, por exemplo, é cantora de uma dupla sertaneja, mas também, se precisar, trabalha na cozinha, na plantação e com a costura: “No início da pandemia, recebemos muitas encomendas de máscaras. Eu fiquei cinco meses costurando”, relata.

A pandemia fez com que o sistema de reclusão, imposto a todas as pessoas, fosse reforçado e levado extremamente a sério por quem precisava transitar na Noiva do Cordeiro. Logo que essa situação foi decretada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em março de 2020, além de fechar o local para os turistas, a comunidade criou um sistema de vigilância, isolamento e testes para não contaminar ninguém, principalmente as pessoas mais idosas. Márcia conta que essas medidas surtiram o efeito desejado e hoje, mais de um ano e meio após os primeiros meses de isolamento, ninguém da comunidade foi infectado, ou pelo menos teve sintomas do novo coronavírus.

Outra preocupação foi em relação à alimentação e fontes de renda extra que possibilitam a vida em conjunto. Pensando em uma possível crise que poderia se instaurar no país, elas decidiram parar de investir na produção da pimenta biquinho para focar na plantação de mexerica, uma opção que serve tanto para a venda quanto para o próprio consumo.

Ao todo, a Noiva do Cordeiro possui três mil pés de mexerica e na safra deste ano, até agora, foram colhidas 1200 caixas, um número bem diferente do que no ano passado, pois, segundo Márcia, a oferta deste ano está menor. “A colheita do arroz foi de 5000 kg. Ia ser melhor, mas tivemos um problema por conta da falta de chuva. Já no feijão, plantamos três tipos: carioca, rainha e preto. Desses, conseguimos uma colheita de 3500 kg”, ela explica e completa: “como o nosso foco não é o lucro e o trabalho é para todos, aqui ninguém nunca vai passar fome”.

Essas palavras têm um peso diferente se pararmos para pensar no atual momento brasileiro. De acordo com um levantamento feito por pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB), 59,4% dos domicílios no país estão em situação de insegurança alimentar, agravada pelo cenário pandêmico.

 

Comunidade Feminista Menino Chorão

Na autointitulada comunidade feminista Menino Chorão, localizada na periferia de Campo Belo, em Campinas (SP) muitas famílias perderam as suas fontes de renda nos períodos mais críticos da pandemia no Brasil. Esse problema levou agricultoras e agricultores a criarem um projeto cujo principal objetivo é garantir resiliência e autonomia alimentar para as pessoas: a Pertim. A iniciativa começou como um sistema de doação de cestas de alimentos, mas com o passar dos dias, viram a necessidade de transformar aquele espaço por meio do cultivo de vegetais e de novas opções de geração de renda para quem vive ali; e o campo seco começou a dar lugar à agrofloresta.

“Eu tinha um sonho de ter uma horta, para plantar e depois servir para todos e distribuir os alimentos igual a minha avó fazia, mas nunca tive condições de realizar esse sonho. Aqui [na Menino Chorão] eu comecei a estudar a terra, fui fazendo um estudo biológico”, conta Carmen Sousa, 51, líder da Menino Chorão, e pioneira na iniciativa do plantio local: “além do milho, tivemos mandioca, quiabo e maxixe”, completa.

Junto com a Pertim, começaram a pensar em formas e meios de expandir a horta local. Os primeiros milharais, por exemplo, serviram de inspiração também para um projeto cujo propósito era escoar os alimentos. O milho serviria não só para alimentar a comunidade, como também poderia servir de matéria-prima para outros produtos que seriam processados e vendidos para o centro, gerando renda local.

Infelizmente, essa agrofloresta foi queimada e tudo o que não deu tempo de ser consumido, foi destruído pelo fogo, em junho deste ano. Segundo Carmen, há indícios de que isso tenha acontecido por uma ação humana, mas, ainda segundo ela, não há provas suficientes para levar esse caso adiante. Agora, as pessoas da comunidade estão mobilizadas para realizar mutirões quinzenais de limpeza até a nova implementação do sistema de plantio agroflorestal. “A nossa meta como parceria dessa rede é fortalecer a Menino Chorão nesse circuito de implantação de hortas urbanas da região de Campo Belo. É um projeto de duração de 6 meses de plantio e regeneração do solo para atender a esse sistema de autosuficência”, conta Julia Gussoni, educomunicadora integrante da Pertim.

A história da Menino Chorão é atravessada por uma luta de moradia, sobrevivência e direitos desde o início da ocupação, em 2010, com base em ideais feministas até mesmo antes de Carmen ter o conhecimento do que seria isso:

“Quando eu cheguei em Campinas (em 2004) não lembro de ter ouvido falar o que era feminismo. Eu comecei a procurar o nosso direito quando a gente decidiu que seria somente nós, mulheres, que tomaríamos conta do espaço. Aí rolou que uns caras começaram a nos intimidar e nós começamos a ir para o movimento das mulheres e descobrir quais direitos nós tínhamos. Tinha muita coisa que a gente não sabia. Eu fui na marcha mundial das mulheres e ouvi falando sobre relacionamentos, estupro e violência contra mulher. Como todo final de semana tinha briga na comunidade, nós começamos a cuidar umas das outras”, relata Carmen.

Uma história curiosa é a origem do nome da comunidade. Uma das primeiras pessoas a visitar a ocupação foi o cantor Chorão, do Charlie Brown Jr. Carmen relembra: “ele disse pra gente: o que vocês estão fazendo aqui é um movimento feminista de luta por moradia, vocês são mulheres de movimento”. Com a morte do cantor e inspiradas também por outra música que relata a história de um morador de rua, elas decidiram dar esse nome ao então local de moradia, e a ocupação passou a ser conhecida assim a partir de 2013.

Segundo Carmen, as pessoas da Menino Chorão aguardam o título de posse do espaço dado pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (COHAB – SP). O órgão já esteve lá medindo o terreno: “a terra é nossa e ninguém pode mexer com nós”, afirma. “Hoje a gente tem as hortaliças em geral, beterraba, cenoura, brócolis, repolho, alho-poró e outros temperos, banana verde, hibisco, quiabo… Estamos esperando a época de chuvas para retomar a plantação. Em setembro começa o preparo do solo e a montagem do sistema de irrigação. Em outubro começam os plantios também de árvores frutíferas, também pensando em renda para a comunidade: acerola, manga, goiaba, abacate, limão, maxixe…” complementa Bianca Riet Villanova; jornalista, agricultora e parte da equipe da Pertim.

Quilombo Engenho da Ponte

A relação entre a comida e o cuidado com o outro está presente nos laços que unem as pessoas que vivem no Quilombo Engenho da Ponte a outras comunidades que também fazem parte da região do recôncavo baiano. Quarenta e oito famílias vivem no Quilombo onde há prática da agroecologia, por meio de uma agricultura diversa – laranja, limão, feijão, abóbora, batata, andu e cana – e da pesca artesanal.

“A gente tem o mel puro de abelha, tem a feitura do azeite de dendê… É tudo desse campo. Aqui a gente pratica uma agricultura que nem toda agroecologia dita de academia consegue dar conta. Nós queremos preservar a identidade e o pertencimento ancestral”, conta Mara Base, 44, ativista e liderança da Comunidade Quilombola Engenho da Ponte.

Com a criação da Associação Comunitária do Quilombo Engenho da Ponte, Mara percebeu a necessidade de criar uma espaço feminino a fim de acabar com o silenciamento e a exclusão das mulheres na comunidade. Segundo Mara, que é mulher preta feminista, o coletivo de mulheres já atua em outras cidades ao redor e, inclusive, na capital. Além de servir de suporte, juntas, elas trocam e repassam conhecimento entre todas. “Esse cuidado de uma com a outra, a agroecologia, a economia solidária e o feminismo são um só. Eu venho de uma linhagem de mulheres que já faziam isso, cuidava da terra e do mar, minha avó era parteira e rezadeira”, lembra.

A pandemia intensificou o desejo de produzir um alimento com cuidado e livre de contaminações e depois de algumas rodas de conversa entre mulheres negras, surgiu a ideia de criar uma horta agroecológica como uma opção sustentável de complementação de renda, além de uma forma de resistência. “Dando forma ao nosso grito dos excluídos, juntamos quinze amigos, cada um doou cinquenta reais e compramos produções agroecológicas para fazer doações com foco em mulheres e mães solo, dentro do recôncavo”, relata Mara.

Essa ação aconteceu no dia sete de setembro de 2021 na Comunidade Engenho da Cruz e há planos de que seja realizada uma vez por mês.”A gente colocou barracas de feira com jiló, maxixe, abóbora, limão, carimã, quiabo… A gente fez uma roda de conversa com quase 70 pessoas falando da importância do campo e de plantar com qualidade, falamos da relação com a comida e que ter comida é um ato de resistência, de luta”, descreve e complementa: “a gente entende que tá dando conta de duas lacunas históricas: valorizar esse produto que precisa ir pra mesa do povo, e do outro lado, neste período de fome, que chegue comida na mesa dos nossos”.

Essas trocas contribuem para o fortalecimento dos laços cooperativos entre os quilombolas, que já têm o costume e a tradição de trocar alimentos colhidos e produzidos entre si. “A gente também faz troca, tipo, se aqui tiver farinha e azeite, trocamos, de forma justa, por outras coisas dentro das comunidades quilombolas”, explica Mara.

A Engenho da Ponte também se mantém por meio da solidariedade de alguns amigos e dos mutirões da comunidade, como o do beneficiamento do azeite de dendê. Agora, por meio do projeto Bahia Produtiva, há planos para ampliar esse beneficiamento. Além disso, estão em busca de editais que fomentem a produção da horta agroecológica e também de uma farmácia viva. Afinal, repassar os conhecimentos encontrados nas plantas também é um modo de manter uma tradição viva. “A gente precisa pegar essa juventude para passar essas coisas. Não dá pra gente ser o guardião do segredo”, finaliza Mara.

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