Conheça o Tecido Feito a Partir de Cascas de Laranjas Descartadas

No atual clima da moda, muito voltado para a sustentabilidade, tecidos como pêlos e couro são frequentemente criticados por sua ética questionável, mas um tecido muitas vezes deixado de fora dessa conversa é a seda. A maioria das pessoas não tem ideia de onde vem esse material tão usado e valorizado, muito menos imaginam que para produzir apenas um quilo de seda são necessários 6,6 mil bichos-da-seda.

A maneira como eles morrem também é particularmente horrível: os bichos-da-seda são comumente cozidos vivos em seus casulos (a parte valiosa da história), o que faz com que esse casulo se desfaça sem causar rompimento ou dano no comprimento do fio garantindo uma fibra de maior qualidade e valor comercial.

Em práticas como “seda da paz” ou “seda ahimsa”, os bichos-da-seda são (supostamente) deixados para viver sua vida natural e os casulos são recolhidos após serem deixados para trás pela mariposa – mas o Beauty Without Cruelty, um grupo de proteção animal na Índia, encontrou bichos-da-seda machos grosseiramente descartados e muitos bichos-da-seda guardados em refrigeradores em uma fazenda de “seda da paz”. Como sempre, quando os animais são usados na produção em massa, a crueldade é garantida.

A seda, ao contrário do que se pensa, também vem com implicações ambientais consideráveis: o relatório Pulse of Fashion Industry de 2017 colocou o material como o segundo mais poluidor na análise de impacto cradle-to-gate (do berço à fibra), principalmente por conta do uso de combustível fóssil no processo, contribuição para mudanças climáticas e eutrofização (gradativa concentração de matéria orgânica acumulada nos ambientes aquáticos).

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As substituições veganas e mais amigas do meio ambiente para tecidos derivados de animais estão vindo, cada vez mais, de fontes improváveis, como o couro feito de abacaxis, maçãs e cogumelos. Outro material inovador derivado de frutas, desta vez para se mostrar como uma alternativa da seda, está pronto para se juntar a eles: a “seda” de laranja, criada pela empresa italiana Orange Fiber.

Fundada em 2014 por Adriana Santanocino e Enrica Arena após uma colaboração com a Universidade Politecnico di Milano, esta inovação material explora o potencial de um milhão de toneladas de resíduos de frutas cítricas gerados a cada ano apenas na Itália. A marca patenteou uma tecnologia que extrai a celulose das sobras que permanecem depois que as frutas são espremidas. A celulose pode ser transformada em um luxuoso tecido parecido com seda, apresentado pela primeira vez em 2014, durante o Fashion’s Night Out da Vogue em Milão.

A marca desenvolveu um tecido leve e macio que é facilmente dobrável e pode ser colorido e estampado como qualquer outro tecido. A extração de materiais acontece na Sicília, lar de uma grande indústria de laranjas. A matéria-prima é então girada em uma fábrica de fiação na Espanha antes de retornar à Itália, desta vez para Como, para ser transformada no tecido acabado.

Em 2016, a marca recebeu o Prêmio Global de Mudança da H&M e no Dia da Terra de 2017, a Orange Fiber apresentou seu novo tecido em colaboração com a Salvatore Ferragamo – a lendária marca italiana de patrimônio incorporou o material em uma variedade de designs. Em 2018, ela foi selecionada para o Plug and Play Accelerator da Fashion For Good e o tecido também foi exibido na exposição Fashioned From Nature do Victoria & Albert Museum, em Londres.

Peças da já mencionada colaboração com Salvatore Ferragamo estavam entre as peças selecionadas para serem exibidas em uma exposição que visa destacar a inovação da moda vinda da natureza e convidar a refletir sobre como as práticas e processos de moda impactam o meio ambiente. Uma consideração que acreditamos ser necessária – e que estimulará a inovação e o progresso na forma de tecidos como os criados pelas mulheres da Orange Fiber.

 

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Texto escrito por Sascha Camilli para Vilda Magazine e traduzido com autorização para o Modefica. Sascha é fundadora e editora da Vilda Magazine, é jornalista internacional de moda e especialista em Relações Públicas de ONGs e projetos sociais com uma paixão por ioga e viagens. Nasceu em Moscou e cresceu em Estocolmo, ela também morou em Los Angeles, Milão, Florença e Londres antes de chegar à sua cidade atual, Brighton, UK.

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