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O Resgate Do Tingimento Natural E O Que Você Precisa Saber Sobre Ele

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No último dia 23, eu tive a chance de fazer um curso que namorava há tempos: tingimento com índigo natural no Atelier Etno Botânica. Eu me tornei fã de índigo há algum tempo, entendendo um pouco da sua história e do seu poder, conhecendo mais sobre a influência do índigo no Japão e aprendendo identificar técnicas manuais como shibori e boro.

Foi mágico quando tive a oportunidade de finalmente colocar as mãos nas anileiras e também entender mais não só sobre o índigo, mas também sobre o tingimento natural. Para quem trabalha com moda, entrar em contato com o universo do tingimento natural é muito importante principalmente para desmistificar questões como tingimento natural em escala, gama de cores disponíveis e muito mais.

A maior parte dos tingimentos têxteis hoje é feita com corantes sintéticos. O primeiro corante sintético entrou no mercado em 1905 a partir da síntese química do anil (índigo). O tingimento com índigo é uma prática milenar e suspeita-se que começou a ser usada em 2400AC. Entre 1800 a 1900 a Índia foi a maior responsável por plantar anileiras e produzir o índigo natural a partir das cerca de 50 espécies de Indigofera.

Na época da criação do anil artificial, muitas famílias dependiam do índigo para viver e sua inserção bruta no mercado, a preços muito mais baixos, causou uma grande crise interna no país. Na apostila do curso há a informação de que hoje são produzidas cerca de 17 mil toneladas do anil sintético por ano para tingir principalmente nosso queridinho jeans. Estima-se que atualmente 91% do corante usado no tingimento de jeans venha da China e 9% da Alemanha.

Depois do índigo, nasceram vários outros corantes artificiais que logo ganharam o mercado principalmente por serem mais baratos e mais fáceis de produzir do que os corantes naturais. Apesar do interesse crescente pelos tingimentos naturais por questões de sustentabilidade e resgate de práticas milenares, quase a totalidade dos artigos têxteis produzidos hoje são coloridos artificialmente.

 

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Uma das técnicas tradicionais do tingimento com índigo é o shibori que resulta em padronagens de acordo com a amarração feita antes do tingimento // Imagem: Reprodução
 

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Homens trabalham na produção de índigo vegetal e tingimento têxtil na Índia // Imagem: Reprodução Industry For All Nations
 

O Tingimento Natural No Brasil E No Mundo

Segundo Leka Oliveira, uma das mentes por trás do Atelier Etno Botânico junto com Eber Lopes, criadora do Studio InBlue Brazil e também a professora desse curso que tive oportunidade de fazer, uma das questões que impedem o tingimento natural de avançar no mercado interno é o total desconhecimento do consumidor. Para ela, a impressão que as pessoas têm é que o tingimento natural não tem qualidade e durabilidade. E isso é um mito. Se pensarmos que foram encontradas múmias envoltas em panos tingidos com índigo natural na Era de Bronze, percebemos que durabilidade não é um problema.

Também é um mito acreditar que o tingimento natural só resulta em tons claros e pastelados. Roxos vibrantes, amarelos neons, vermelhos profundos, pretos e azuis fechados, por exemplo, são cores totalmente possíveis no universo do tingimento natural. Basta conhecimento e prática para entender quais matérias-primas vão resultar nas cores desejadas. (No nosso Instagram, fizemos um clique mostrando várias possibilidades de cores que vimos lá na sede do Atelier, dá uma olhada aqui ou na página do Facebook do Atelier).

Outra questão é que parece que o tingimento natural não é capaz de escalar. Mas a verdade é que há como tingir naturalmente de maneira industrial, do mesmo modo que é possível tingir naturalmente, em grande escala, de maneira artesanal. Sendo assim, tingir naturalmente não é algo possível apenas para marcas muito pequenas. No Brasil, existem algumas marcas que produzem em média e grande escala tingindo com corantes naturais em lavanderias têxteis por meio dos serviços da Etno Botânica.

 

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O processo de tingimento com índigo vegetal é feito com no mínimo quatro imersões na preparação. Quanto mais imersões, mais forte o tom de azul // Imagem: Cortesia Atelier Etno Botânica

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Lenços tingidos com índigo usando a técnica shibori // Imagem: Cortesia Atelier Etno Botânica

Entretanto, do lado da produção, o tingimento natural precisa de dedicação e não é tão simples: exige contato com agricultores, paciência de entender e esperar a safra, além do desenvolvimento de outros produtos auxiliares para o tingimento que substituem químicos nocivos como o hidrossulfito de sódio.

Para quem está de fora, fica difícil imaginar que para alguns gramas de corante natural índigo em pó é preciso vários kilos de folhas das anileiras. E o mesmo acontece com todos os corantes, é necessário uma quantidade significativa de matéria-prima vegetal para produções dos corantes em pó ou pasta. “Não dá pra tingir com as cascas da cebola do seu jantar”, brincou Leka ao falar sobre quantidade. No Brasil, o Atelier Etno Botânica é o único responsável por desenvolver todo essa pesquisa e trabalho, e também por fazer a primeira grande plantação de Indigofera no país.

Fora daqui, alguns projetos também encontraram no índigo e nos corantes naturais uma maneira de gerar transformação social e ambiental por meio da agricultura como é o caso da Stony Creek Color, uma iniciativa americana comandada por Sarah Bellos. A empreitada surgiu com a vontade de ampliar o alcance do tingimento vegetal e substituir as versões químicas de baixo preço e alto impacto ambiental. Bellos focou no denim, com uma plantação de índigo no Tennessee e se unindo à maior tecelagem americana de jeans, a Cone Denim.

Com alguns projetos sociais e ambientais no portfólio, a Industry Of All Nations desenvolveu o Clean Clothes Project, na Índia, para desenvolvimento de peças com algodão orgânico e tingimento natural. A empresa foi fundada em 2010 com o compromisso de repensar métodos de produção e levar a manufatura para perto da onde seus materiais são originários.

 

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Sarah Bellos na fazenda da Stony Creek no Tennessee // Reprodução

 


Vídeo da produção da IOAN na Índia // Reprodução
 
 

Além de ser um QG especialista em tingimento natural de têxteis e também fornecedor de algodão orgânico, o Etno Botânica produz e vende tintas para pintura artísticas e tintas de parede. Para quem tem uma pequena marca e quer colocar a mão na massa tingindo as próprias peças, lá também é possível encontrar kits com todos os produtos necessários para fazer você mesmo, além de oferecer diversos cursos como esse que eles me deram a oportunidade de fazer.

Para quem trabalha com peças usadas ou faz upcycling, o tingimento natural com índigo pode ser um grande aliado também. Peças manchadas e desbotadas de fibras naturais, animais e artificiais podem ser facilmente retingidas sem prejudicar a peça, ganhando uma nova cara e uma nova vida já que o índigo tem capacidade de cobrir qualquer cor. Outro lado bom é que todos os resíduos podem ser descartados tranquilamente no esgoto comum, pois não são nada nocivos para o meio ambiente.

Como uma fascinada pelo universo do índigo e entusiasta de pensar em novas maneiras de fazer moda, eu poderia passar horas dissertando sobre isso por aqui. Mas a dica que eu dou é que, para quem tiver oportunidade, coloque a mão na massa e se permita um dia imersa nesse universo.

Além do Atelier Etno Botânica, outra conhecedora de tingimentos naturais, Marina Stuginski também dá cursos pontuais na loja da Flávia Aranha e a Escola de Botânica conta com o workshop “Extração de pigmentos vegetais: Tingindo tecidos”. Para o ano que vem, a Leka nos antecipou que o Etno Botânica lançará vivências de mais de um dia para passarmos mais tempo imersas no mundo do tingimento vegetal. Estamos já esperando ansiosamente.

 

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Para quem quiser saber mais, os livros (em inglês): Natural Dyes for Textiles; e Indigo: Egyptian Mummies to Blue Jeans
 

Imagem Capa: Stony Creek Colors // Reprodução

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