Algodão Orgânico no Brasil: MST, Agroecologia e Justiça Social

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Na nossa série de textos terra com t minúsculo: MST e sustentabilidade nos propomos a olhar para o passado e para o presente como forma de imaginar futuros melhores para a terra e para a Terra. Você é a pessoa convidada para ler e ir além – separamos também uma série de conteúdos extras que vão te ajudar a refletir sobre o tema, fazer as conexões e formar sua própria opinião.

 

3. Novas Narrativas Para a Produção de Algodão no Brasil

 

O Brasil é um dos maiores produtores de algodão do mundo. Segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), nos últimos anos, o país tem se mantido entre os cinco maiores produtores mundiais, junto à China, Índia, Estados Unidos e Paquistão. Se considerarmos apenas a produtividade em sequeiro [1], o país ocupa o primeiro lugar.

A safra de 2018/19, que se encerrou em junho, teve um aumento de 32,8%, com estimativa de produção de 2,66 milhões de toneladas de pluma. A produção ocupou uma área de 1.590 milhão de hectares, 35,4% maior em comparação à safra passada (Conab/2019). Assim como a soja e o milho, o algodão é uma commodity negociada na bolsa de valores. Este ano, o Brasil tornou-se o segundo maior exportador de algodão no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Aproximadamente 41% da produção exportada é destinada à China, o restante é destinado para diversos outros países como Coréia do Sul, Indonésia, Paquistão, Tailândia e Turquia (Conab/2019).

Com a pluma do algodão são produzidos, entre outras coisas e acima de tudo, tecidos. Globalmente, o algodão concentra 25% do mercado de fibras produzidas na moda, ocupando o segundo lugar atrás do poliéster [2]. No Brasil, essa porcentagem é maior, passando dos 40% na moda feminina e dos 70% na moda masculina (Abrapa/2018). Com o caroço, é possível fazer óleo de algodão, também usado para produção de biodiesel. Já com a casca do caroço alimenta-se vacas leiteiras.

 

Algodão Brasileiro e o Agronegócio

A maior parte da produção brasileira de algodão acontece num sistema de cultura rotativa, intercalando soja, milho e algodão. Pode também ser plantado num sistema de integração lavoura-pecuária, intercalando plantação de algodão com soja, milheto e pastagem [3]. No Brasil, essas produções normalmente acontecem em grandes hectares de terra. Só em Goiás, a SLC Agrícola detém 20 mil hectares de produção de soja, milho e algodão em cultura rotativa; na soma geral, a SLC Agrícola controla 460 mil hectares de terra e é umas das maiores empresas agrícolas do mundo.

 

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Uma das fazendas da SLC Agrícola vista de cima // Reprodução

 

A produção de algodão no Brasil está totalmente relacionada à agricultura patronal e à bancada ruralista. Conforme mapeou o De Olho nos Ruralistas, a Abrapa (Associação Brasileira de Produtores de Algodão) é uma das financiadoras da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) e uma das associações agrárias que comanda a campanha pela aprovação da PL 6.299/02, conhecida como PL do Veneno. Membro integrante do Instituto Pensar Agro (IPA), braço técnico e logístico da frente parlamentar, a Abrapa é uma dentre as várias associações que recebem dinheiro das produtoras de sementes, agrotóxicos e outros interassados para articular, política e culturalmente, o agro no Brasil.

O interesse da Abrapa pelos agrotóxicos se comprova com dados da própria associação. Estimados 42% de custo de produção são destinados à compra de pesticidas e fertilizantes que viabilizam a produção em monocultivos [4]. No Brasil, o algodão é a quarta cultura que mais compra agrotóxicos, ficando atrás da soja, milho e cana de açúcar. [5]. É por isso que a produção de algodão no Brasil se relaciona, também, com a saúde e doença das pessoas [6].

A FPA, porém, faz muito mais do que defender a flexibilização dos agrotóxicos para uso livre dos ruralistas: Em 2017, 24 dos 25 projetos de leis tramitando no Congresso que configuram ameaças aos direitos dos povos indígenas e quilombolas foram propostos pela bancada ruralista. O avanço e ameaça do agro causam conflitos, expulsão das pessoas da zona rural e pobreza como vem alertando os relatórios anuais Conflitos no Campo Brasil lançados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

24 dos 25 projetos de leis tramitando no Congresso que configuram ameaças aos direitos dos povos indígenas e quilombolas foram propostos pela bancada ruralista. O avanço e ameaça do agro causam conflitos, expulsão das pessoas da zona rural e pobreza.

Assim como acontece com outras commodities, a produção de algodão emprega pouquíssimas pessoas. Para dar conta da manutenção do espaço, as fazendas fazem uso veículos de grande porte e aviões pulverizadores cujas somas de investimento ultrapassam a casa do milhão, além de tecnologias como drones e aplicativos de gerenciamento que podem custar mais de 300 mil reais ao ano. Para otimizar a produção e reduzir gastos, o agronegócio tem investido cada vez mais no uso de máquinas. A 15ª Bahia Farm Show, considerada a maior feira de tecnologia agrícola do norte e nordeste do país e a terceira maior do país, aconteceu no final de maio e movimentou cerca de 2 bilhões de reais em volume de negócios. Enquanto isso, dados da Abrapa de 2019 apontam que o custo médio da mão de obra nestas fazendas é de 2% do total investido. [7]

No topo disso, há o desmatamento. O Cerrado, considerado a savana mais rica do mundo, é alvo constante do avanço do agronegócio e da demanda por carvão vegetal para a indústria siderúrgica. Conforme alertado no especial da Época sobre o tema, em menos de 50 anos, quase 50% da vegetação original desapareceu. E 30% da área virou pasto. Nos últimos dez anos, o Cerrado, lar de mais de 13 mil espécies de plantas, 850 de aves e 250 de mamíferos, perdeu 50.000 quilômetros quadrados, área maior que o estado do Rio de Janeiro. É a expansão da soja – e, de quebra, das culturas rotativas – que coloca maior pressão sobre a savana. O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, espalhado por 12 estados e lar de três dos principais aquíferos da América do Sul. Por esse motivo, o papel da região para equilibio das chuvas é fundamental:

A água da chuva no Cerrado penetra o solo e fica armazenada na rocha porosa. É distribuída para o Brasil inteiro: estima-se que, em diferentes proporções, o Cerrado abasteça oito das 12 regiões hidrográficas do país. A água do subsolo ainda responde por cerca de 90% da vazão dos rios do bioma. Com frequência cada vez maior, a água que deveria penetrar o solo, para alimentar aquíferos e lençóis freáticos, escorre pela superfície e se evapora. Quando a chuva vai embora, diminui a vazão dos rios que alimentam as barragens que abastecem as casas. O fenômeno é consequência de um acelerado processo de desmatamento. A falta de chuvas provocada pelo desmatamento, ironicamente, acaba prejudicando a própria agricultura.

 

O Algodão Que Resiste

Em paralelo, há uma outra narrativa tentando ser construída: a da produção do algodão orgânico e agroecológico no Brasil. Conduzida, majoritariamente, por produtores campesinos em assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e pela agricultura familiar, a produção de algodão orgânico não faz nem cócegas no algodão do agronegócio. Não existem nem dados oficiais. Segundo Gilvan Ramos, Analista de Socioeconomia da divisão de algodão da Embrapa, “os dados não são comentados porque o IBGE e a CONAB não fazem isso de forma oficial”. Não fazem porque “essa produção é muito pequena, insignificante no ponto de vista econômico ainda”.

Ainda porque há diversas pessoas, projetos e instituições olhando para o potencial do algodão orgânico e, mais especificamente, algodão agroecológico, no Brasil. Os dados não-oficiais são de uma produção de 150 toneladas de pluma orgânica e naturalmente colorida na Paraíba (o também conhecido como algodão colorido da Paraíba). Já a Textile Exchange, organização global sem fins lucrativos voltada para fomentar, desenvolver e encontrar melhores fibras para a indústria têxtil, coloca o Brasil no 15º lugar do ranking entre os países produtores de algodão orgânico com volumes crescentes (atualmente, a Índia ocupa o 1º lugar com 60 mil toneladas em 2015/2016). A própria Embrapa, Instituto C&A, Textile Exchange são alguns dos nomes fomentando o aumento da produção de algodão orgânico brasileiro por meio de parcerias para ferramentalizar o pequeno agricultor.

 

As diferenças entre algodão orgânico, agroecológico e algodão colorido

Nós já explicamos a diferença entre um produto orgânico e um produto agroecológico na matéria anterior da nossa série. O algodão orgânico brasileiro tem muitas características da agroecologia. Silvio Moraes, embaixador da Textile Exchange no Brasil, ressalta que “nós temos pequenos produtores, boa parte deles trabalhando em assentamento e produzindo algodão de forma orgânica, sem o uso de agrotóxico e junto com culturas de subsistência como milho, feijão, abóbora. O algodão ali não é apenas orgânico, tem aspecto agroecológico porque está muito mais introduzido dentro da matriz cultural e ambiental daquela região, e confere segurança alimentar”.

Já o algodão colorido da Paraíba pode ou não pode ser orgânico. “O algodão colorido, embora hoje, principalmente na Paraíba, tenha uma produção expressiva do colorido orgânico, nem sempre é orgânico. Você pode ter áreas de algodão colorido convencional, com adubação química, com tudo que os agricultores convencionais costumam fazer”, explicou Pedro Jorge Lima, um dos diretores da Esplar e responsável por trabalhar com o desenvolvimento do algodão orgânico e agroecológico.

 

O algodão ali não é apenas orgânico, tem aspecto agroecológico porque está muito mais introduzido dentro da matriz cultural e ambiental daquela região, e confere segurança alimentar

 

Organizar, certificar e fortalecer a produção do algodão orgânico na Paraíba é uma das missões de Francisca Vieira, por trás da marca Natural Cotton Color. Francisca está há mais de 10 anos nesse trabalho, se articulando para promover o algodão orgânico colorido e agilizar a certificação de agricultores na origem. Ela começou o trabalho no assentamento rural Margarida Maria Alves, próximo a Campina Grande e um dos mais reconhecidos produtores de algodão orgânico no Brasil, que conta hoje com 57 famílias e cerca de 200 pessoas. “Estamos entrando em outro assentamento agora com mais de 70 famílias”, contou Francisca. Além do Margarida Alves há na Paraíba outros dois assentamentos produzindo algodão orgânico, em menor quantidade: o assentamento Zé Marcolino e Fazenda Campos.

 

Francisca Vieira, da Natural Cotton Color conversou com o Modefica sobre sua trajetória e sobre seu trabalho com o algodão orgânico no Brasil 

 

Uma dúvida frequente sobre o algodão colorido, que não se produz apenas na Paraíba, mas em vários lugares do mundo, é se ele pode ser considerado transgênico. Gilvan explica que não: “O algodão naturalmente colorido que cultivamos hoje foi resultado de cruzamentos genéticos sucessivos entre plantas de cores diversas, incluindo a cor tradicional branca. Esses cruzamentos genéticos são naturais e não são o que produz um resultado chamado de planta transgênica”. Durante muitos anos, o algodão naturalmente colorido foi usado apenas para artesanato porque ele não tinha capacidade e resistência para fiação. Foi por meio de retrocruzamentos sucessivos que o algodão colorido se tornou resistente o suficiente para ser trabalhado nas máquinas de fiação modernas.

 

MST e algodão orgânico têm a ver com resiliência social e ecológica

A história da organização agrária no Brasil explica o porquê a produção de algodão orgânico se dar hoje pelas mãos do MST nas regiões de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Piauí. “O algodão orgânico existe hoje predominantemente no nordeste brasileiro, que se caracteriza por aquela região que foi de latifúndio há muito tempo. Latifúndios que estavam improdutivos e, a certa altura, foram retomados pelos movimentos de reforma agrária. A ocupação da agricultura familiar, basicamente de subsistência, acabou com o abandono da região do semi-árido nordestino”, explica Silvio.

Na verdade, o algodão é uma cultura tradicional brasileira, que já fazia parte da economia do Brasil colonial e pós-colonial, em especial no estado do Maranhão. A partir dos anos 80, a praga do bicudo praticamente dizimou as plantações de algodão na região. Os latifúndios migraram para o Cerrado e a agricultura familiar sobreviveu à base de agricultura de subsistência, mas sempre com um pé de algodão no meio, só para não perder o costume.

 

“A partir dos anos 2000, algumas ONGs começaram a trabalhar com esses agricultores, identificando nessa região uma insistência do grupo em ter seu pezinho de algodão. Pela falta de recursos e tradição familiar, essas hortas já eram cultivadas de forma orgânica. E tinha lá o algodão mocó, o algodão arbóreo, que sobreviveu ao período de quase extinção do algodão na região. O pessoal do Ceará, principalmente da Esplar, o Pedro Jorge, começou a trabalhar com os agricultores, identificar essas variedades de algodão arbóreo. Começou, a partir dali, um movimento de reintrodução do algodão na região, mas com uma forma de produção completamente diferente do que acontece no resto do Brasil” 

– Silvio Moraes

 

O algodão orgânico brasileiro traz um equilíbrio ecológico para a região e resiliência social para a comunidade local. “Você tem a questão da saúde humana, as pessoas não se contaminam diariamente com agrotóxicos. Também não contamina os animais, os rios, os açores”, reflete Adailson Santana, técnico em Agropecuária e formado em Ciência Biológica, responsável por auxiliar o pai, Sr Betinho, no Margarida Maria Alves.

Ele também ressalta a importância do algodão como fonte agregadora de renda: “O valor é compatível para o agricultor porque está sendo vendido no mercado por um preço justo. Cerca de 20% a 30% do investimento retorna em forma de lucro para quem planta”, afirma ele. Além disso, muitas culturas estão inserindo o gergelim no consórcio, um produto que tem alto valor agregado e ajuda no controle natural de pragas no cultivo do algodão.

Como grande parte da cultura do agricultor campesino é de subsistência, o algodão e o gergelim ajudam as famílias a terem dinheiro de fato. Com o desaparecimento dos benefícios do Bolsa Família em algumas regiões, o plantio do algodão não só não atrapalha o plantio dos alimentos, como também coloca dinheiro na mão do agricultor. “Em alguns lugares as pessoas chamam a colheita de fim de ano de “a rota do Natal”, porque no final do ano eles conseguem colher o algodão e da venda vem o dinheiro que eles têm para comprar os presentes e arrumar a casa para o Natal”, contou Silvio.

 

Impasses e Possibilidades Para Fortalecer o Algodão da Agricultura Campesina

MST-algodão-orgânico-CORPOInformação, tecnologia, parcerias comerciais e capacidade de negociação são fundamentais para os produtores campesinos que, muitas vezes, desconhecem a potencialidade do algodão como agregador de renda. O aumento do interesse pelo algodão orgânico por parte da indústria ajuda impulsionar ações para suprir essas necessidades e expandir a produção. Entretanto, são diversas as barreiras para o avanço do algodão orgânico no país.

Uma delas está relacionada à questão de políticas públicas. Por mais que a agricultura familiar e campesina seja contemplada com alguns benefícios por parte do Estado, a economia nacional está bastante orientada ao agronegócio e às exportações de commodities agrícolas. Além disso, a Frente Parlamentar da Agropecuária está montada no Congresso Nacional com 257 parlamentares que têm como objetivo “defender os interesses do setor e estimular a ampliação de políticas públicas para o desenvolvimento do agronegócio nacional.” Todas as pessoas com as quais conversamos pontuaram a ausência de investimento e incentivo governamental ao algodão orgânico.

Plantar algodão de forma orgânica exige trabalho e esforço então os assentamentos precisam ganhar bem por essa produção. “O mercado é algo que nós temos que trabalhar, todos nós. Não só órgão de pesquisa, mas principalmente as pessoas interessadas nessa tecnologia [de produção orgânica] para termos dias melhores no futuro. O agricultor precisa ganhar bem”, reforçou Gilvan. A precificação foi uma iniciativa da Embrapa que começou a pedido da própria Francisca. “Em 2011 ela se dispôs a pagar um preço maior ao produtor. Foi quando nos foi solicitado a avaliação do custo de produção”. Desde então, a cada ano, é acrescentado ao preço do quilo pelo menos o valor da inflação. Foi uma maneira de estabelecer um preço justo e ter um comparativo de ano a ano. Gilvan destaca que este ano o preço final será em torno de R$ 12,08 por quilo de pluma, 100% a mais em relação ao preço de mercado do algodão convencional.

É por isso que Pedro Jorge destaca a importância dos contratos entre empresas e agricultores como forma de garantir e fomentar a produção do algodão do pequeno produtor. Ele usa como exemplo o fluxo comercial estabelecido pela marca franco-brasileira Vert: Quando chega janeiro e os agricultores e agricultoras já estão com as sementes em mãos, eles [a Vert] cuidam de firmar um contrato com base em estimativas de produção. Esse contrato prevê um adiantamento de metade do valor da pluma. A marca paga 50% no momento da colheita e, no final do ano, quando fecha o beneficiamento, a outra metade”. Os contratos de comprometimento de compra, com pagamento antecipado, geram a segurança que os campesinos precisam para investir na plantação.

 

A questão das certificações

Outro dificuldade para os pequenos agricultores é o acesso à certificação orgânica. Francisca nos contou que é muito comum o certificado ficar no nome de empresas que compram esse algodão, não do agricultor. Isso, para ela, é uma forma de manter o agricultor “preso” à empresa e o preço do kilo da pluma abaixo do justo. “A certificação tem que estar no nome do plantador e não no comprador. Porque isto é uma forma de cabresto e escravizar o agricultor”, alerta ela. “Eu não posso ter um certificado no meu CNPJ se eu não planto algodão, se nem terra eu tenho. Posso ter um certificado de transação, que prova que eu comprei”. Se o agricultor não tem o certificado no seu nome, ele fica presa aos repassadores, que ganham de 15% a 30% em cima do algodão. Foi esse modus operandi que fez o algodão orgânico minguar já que o valor antes pago não pagavam nem os custos da produção.

 

O mercado é algo que nós temos que trabalhar, todos nós. Não só órgão de pesquisa, mas principalmente as pessoas interessadas nessa tecnologia de produção orgânica para termos dias melhores no futuro. O agricultor precisa ganhar bem

 

Nesse sentido, uma saída para os assentamentos têm sido a associação via OPAC – Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade. A certificação participativa, como é conhecida, é uma forma de garantir as boas práticas do manejo orgânico sem precisar pagar os valores salgados dos certificados IBD ou Ecocert. Pedro Jorge nos explicou como funciona: “Eles são visitados depois de fazerem o preenchimento dos documentos, e fazem visitas entre eles para observar, criticar e checar se aquilo que está escrito no Plano de Manejo é o que realmente está sendo feito no campo. Feito isso, a própria organização de certificação participativa designa uma comissão constituída por agricultores de outros assentamentos ou comunidades, mas que também produzem o algodão orgânico, para que eles façam uma visita informalmente chamada de “inspeção cruzada”. A associação regional é quem emite o certificado e é credenciada pelo Ministério da Agricultura e Abastecimento.”

 

Ausência de tecnologia e evasão rural

O trabalho no campo não é romântico, pelo contrário, é um trabalho braçal onde o corpo carrega todo o fardo. Enquanto o agro tem todas as tecnologias possíveis, o agricultor campesino não tem nenhuma. “Não tem sido investido nada em tecnologia e em melhorias nas condições de trabalho do pequeno agricultor. A tecnologia desenvolvida vai toda para o Cerrado brasileiro”, pontua Silvio. “Há uma porção de agricultores familiares produzindo algodão orgânico, que não tem nenhuma tecnologia desenvolvida para eles, nenhuma colheitadeira, uma pequena máquina portátil que ajude a fazer a captação do algodão”.

Tirando alguns assentamentos maiores e já muito bem estabelecidos, no geral, o trabalho acontece com ausência até dos maquinários mais simples que ajudariam, e muito, o trabalho no dia a dia. Silvio também levanta o debate que questiona a serviço de que (e de quem) está o desenvolvimento tecnológico: “O pessoal da tecnologia tradicional só pensa em veneno, em semente transgênica, mas por que não produzir uma variedade que seja um pouco mais resistente? Tem uma série de tecnologias mais brandas que poderiam ser introduzidas e que fomentaria essa produção”.

Essa falta de suporte e o excesso do trabalho braçal afasta os mais jovens, que se mudam do campo para a cidade em busca de outros trabalhos. A ausência de pessoas se torna, portanto, uma outra dificuldade. “A escassez de mão-de-obra, principalmente a familiar, é grande. As migrações atraem a juventude para os centros urbanos. Não é fácil o pessoal ficar na agricultura, é uma minoria”, explica Pedro Jorge. No ano passado, a maior parte dos agricultores e agriculturas trabalhando com a Esplar tinham mais de 50 anos (56%).

Para Flávia Aranha, por trás da marca homônima, trabalhando com algodão orgânico há uma década, esse desafio se volta para a política: “É preciso implementar tecnologias, socioambientais que já existem no Brasil, como agroecologia, agroflorestas, voltando ao conhecimento ancestral, mas com inovação. Os institutos federais, que foram fundados pensando nisso, e tinham entre seus objetivos atrair os jovens de volta ao campo, com uma revalorização do trabalho rural junto com inovação e tecnologia, estão totalmente desmazelados e sem verba”.

 

BCI: O trunfo “sustentável” do agro

Colheita automatizada em um das fazendas da SLC Agrícola em Goiás // Foto: Marina Colerato

Se as dificuldades para produção do algodão orgânico já não são poucas, o algodão “sustentável” do agro chegou para muvucar um pouco mais o meio de campo. “A publicidade foi tão boa, do algodão sustentável, que muita gente acaba achando ele o máximo. E, daí, de algum jeito, quando a gente acha isso o máximo, o que acontece? A gente míngua o caminho que estava se fortalecendo [do algodão orgânico]”, lamenta Flávia. Ela está falando especificamente do algodão certificado Better Cotton Initiative e da campanha Sou de Algodão, da Abrapa.

O Better Cotton Initiative (BCI) é uma iniciativa global para garantir boas práticas no cultivo do algodão, que teve como principal ponto de partida os escândalos envolvendo trabalho infantil nas lavouras, além do consumo descontrolado de água e agrotóxico na produção de algodão global. A iniciativa começou em 2005 e encontrou no agronegócio brasileiro um campo fértil para o desenvolvimento das práticas mandatórias para a certificação por meio do programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR). Como afirma a Abrapa, o Brasil se destaca como o maior fornecedor mundial de algodão certificado BCI: cerca de 30% do volume total de algodão BCI produzido em todos os continentes é plantado aqui.

As fazendas aprovadas pelo programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e licenciadas pelo protocolo Better Cotton Initiative (BCI) contabilizaram, em 2016/2017, 78% do total de pluma produzida no Brasil e 73% da área plantada de fibra – correspondendo a 682 mil hectares e 1,19 milhão de toneladas de pluma [8]. O objetivo é cobrir toda a área de plantação de caráter patronal, chegando em 98%. Não é uma missão muito complicada porque implementar as regras necessárias garante 15% maior produtividade quando comparados à média nacional.

Em linhas bem gerais, os principais princípios e critérios que orientam a certificação Better Cotton Initiative são:

  • Minimizar o impacto prejudicial do uso de agrotóxicos
  • Promover a administração da água
  • Cuidar da saúde do solo
  • Aumentar a biodiversidade e usar a terra de maneira responsável
  • Cuidar e preservar a qualidade das fibras
  • Promover trabalho decente
  • Operar um sistema de gestão eficaz

Se em 2014 o Brasil se tornou um benchmark do BCI, é agora que a Abrapa se sente confiante para publicizar o algodão do agro como sustentável. A iniciativa Sou de Algodão foi criada com o objetivo de aumentar a produção de roupas de algodão na moda feminina num momento onde as pessoas estão sensíveis ao “sustentável” e o plástico, incluindo o poliéster, nunca foi tão rejeitado. Por meio da iniciativa, a Abrapa está financiando diversas pessoas, marcas e iniciativas que conversam com a sustentabilidade na moda para se posicionar, estratégicamente, como opção sustentável.

Se em 2014 o Brasil se tornou um benchmark do BCI, é agora que a Abrapa se sente confiante para publicizar o algodão do agro como sustentável. A iniciativa Sou de Algodão foi criada com o objetivo de aumentar a produção de roupas de algodão na moda feminina num momento onde as pessoas estão sensíveis ao “sustentável” e o plástico, incluindo o poliéster, nunca foi tão rejeitado.

“As corporações assumiram o discurso de que agora basta que o sistema produtivo seja “sustentável”… Mas o algodão classificado como BCI utiliza agrotóxicos e adubos químico-sintéticos na sua produção”, alerta Gilvan. O BCI também não controla o uso de sementes transgênicas, ficando a cargo do produtor utilizar ou não essas sementes. “É claro que eu acho que é melhor alguma coisa do que nada, mas não dá pra gente ficar satisfeito com um algodão que continua com volumes absurdos de agrotóxicos, que é pautado pela monocultura, que é produtivo na entressafra da soja – uma cultura ligada ao desmatamento e a todos os impactos ambientais e sociais negativos que a gente já está cansado de saber”, reforça Flávia.

 

“Eu poderia comprar da Índia, mas eu compro o algodão orgânico do Brasil porque, usando ele na minha roupa, eu estou fomentando a agricultura familiar, eu estou fomentando o MST, eu estou fomentando o pensamento sobre distribuição de terra. Tem vários significados concretos nessa escolha. É muito importante que os consumidores, os estilistas e toda a rede da moda tenham conhecimento para realmente avaliar se está tudo bem mesmo com esse algodão sustentável”

– Flavia Aranha

 

No Brasil, a distribuição da terra tem muitos simbolismos, mas aterrissa materialmente na desigualdade social e no desbalanço de poder refletidos em uma bancada no congresso muito bem organizada e à serviço de si própria, passando por cima do bem estar da maior parte da população com o único objetivo de acumular cada vez mais terra, renda e poder. É por isso que para muitas pessoas, o discurso “sustentável” da Abrapa e do Sou de Algodão pega mal, ao mesmo tempo que confunde as pessoas que acham que o algodão sustentável, como a associação tem vendido, é igual algodão sem veneno e, no limite, algodão orgânico.

 

Algodão Orgânico e Produtividade

O questionamento final, no entanto, reside na produtividade do algodão de base agroecológica nos assentamentos e nas pequenas propriedades. “No dia que o MST entrar de cabeça na produção do algodão agroecológico, com certificação orgânica, eles com certeza terão um mercado franco. A demanda mundial para o algodão orgânico certificado é enorme e não há produção”, explica Pedro Jorge. É preciso, então, que os campesinos recebam o suporte necessário, que as negociações sejam contratualizadas e que se pague um preço justo por essa produção.

Mas isso deve acontecer antes que o agronegócio enxergue no algodão orgânico uma oportunidade de abocanhar um mercado crescente. Como alerta Gilvan, “ganha mercado quem for mais esperto e melhor planejado para o jogo competitivo atual. Como também se pode perder rapidamente os mercados em que você atuava, se, principalmente, surgirem concorrentes mais organizados e mais preparados”. Para ele, é possível produzir muito mais algodão orgânico no Brasil do que é produzido, sem monocultivos. “Será preciso sistemas produtivos diversificados, agroecológicos, aproveitando-se o que se tem ainda de mão de obra nos assentamentos rurais, e incorporando paulatinamente o que se for criando de novas máquinas, de pequeno porte, que se ajustem ao sistema ecológico”.

Quando perguntamos para Adailson se ele vê essa expansão, ele é rápido em afirmar que “com certeza. A visão é grande, o assentamento recebe muitas visitas, do país, de outros estados, e de outros países”. Ele é orgulhoso em dizer que o Margarida Alves recebe pessoas de outros países e está despertando interesse do mundo todo.

Se dividir essa terra em muitas pessoas, a gente consegue ter um algodão livre de veneno, que vai regenerar o solo, gerar renda e que é uma alternativa possível

Isso significa que marcas interessadas no algodão orgânico têm um grande papel a cumprir. Para Flávia, o primeiro passo é questionar sua real motivação e entender como você pode somar: “Por que eu quero orgânico? Qual o sentido do orgânico pra mim? O primeiro passo é estudar o que te motiva a ir por esse caminho, quais são os impactos desejados e como isso reflete no teu caminho de marca e no teu propósito”. Depois, é necessário mapear o que está sendo feito. “Viajar, se possível, conhecer esse assentamentos. Entender qual é a perspectiva e necessidades dos agricultores, como você se encaixa nesse meio do caminho”, indica ela.

Falar de reforma agrária em tempos onde se tramita um projeto de lei para mudar a função social da terra com objetivo de dificultar a atuação do MST e promover ainda mais concentração de renda é sonhar, mas Flávia se permite: “se dividir essa terra em muitas pessoas, a gente consegue ter um algodão livre de veneno, que vai regenerar o solo, gerar renda e que é uma alternativa possível, desde que a gente tire essa perspectiva de concentração. Ele dialoga com o tipo de sociedade que queremos viver, não só na questão ambiental, mas na social também”.

 

Trabalharam nesta matéria Juliana Aguilera e Marina Colerato. Durante 9 meses, ouvimos e conversamos com pessoas de interesse, aprendemos sobre a formação agrária no Brasil, pesquisamos o agronegócio e o contexto da produção do algodão brasileiro, visitamos a fazendo modelo da Better Cotton Initiative em Goiás e trocamos sobre o assunto com diversas pessoas. Não haveria espaço suficiente para estender o debate por aqui, mas montamos um pdf com alguns outros materiais que complementam, não de forma a esgotar o assunto, outros insumos não citados que serviram de base para o conteúdo deste especial.

 

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Nos primeiros textos da série terra com t minúsculo: MST e sustentabilidade nós falamos sobre o porquê o MST incomoda tanta gente e as outras possibilidades de cultivo e manejo da terra, como agroecologia e agrofloresta, utilizadas pelos trabalhadores rurais nos assentamentos. Nos próximos textos, falaremos sobre as mulheres do movimento que estão unindo a luta pela terra com o movimento da libertação das mulheres. Assine nossa newsletter e não perca.

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