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Cultura e Natureza: 3 Leituras Que Colocam Essa Dicotomia em Xeque

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  • Fabiane Secches
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Victória Lobo

2 min. tempo de leitura

A cultura ocidental divide tudo em categorias dicotômicas: humanidade em oposição a animalidade, corpo em oposição a mente, cultura em oposição a natureza, civilização em oposição a barbárie, nós em oposição a eles, que passam a ocupar a categoria de outros.

Mas algumas pessoas apontam, há séculos, que essa divisão está na raiz de muitos problemas. De Michel de Montaigne a Jacques Derrida, na filosofia; de Claude Lévi-Strauss a Eduardo Viveiros de Castro, na antropologia; de Machado de Assis a Toni Morrison na literatura; de Charles Darwin a Sigmund Freud em outros campos de conhecimento, felizmente são muitos os nomes de grandes pensadores que contribuíram e contribuem para embaralhar essa equação.

Ao longo dos próximos meses, vamos fazer uma lista com sugestões de leituras para 2021 que desestabilizam essa visão restrita de mundo, insuficiente e problemática, e propõe uma nova mentalidade que oriente a nossa forma de vida. Integração no lugar de cisão, porosidade e mistura no lugar de rigidez e divisão, coexistência no lugar de exclusão.

Esse é, portanto, apenas o início de uma longa lista, que faço planos de continuar nas minhas próximas colunas, incluindo Angela Davis, Anna Tsing, Débora Danowski, Donna Haraway, Gersem Baniwa, Jonathan Safran Foer, Maria Aparecida Vilaça, Maria Esther Maciel, Naomi Wolf, Yuval Harari, além dos nomes já citados acima — e mais.

Vamos lá?

1) Outras naturezas, outras culturas, de Philippe Descola, editora 34, coleção Fábula, tradução de Cecília Ciscato.

No final da década de 1970, o antropólogo Philippe Descola, orientando de Claude Lévi-Strauss, esteve na Amazônia equatoriana (fronteira do Equador com o Peru), onde viveu junto com o povo achuar. Esse livro reúne parte das reflexões de Descola a partir dessa experiência, partindo de uma breve conferência realizada na França, em 2007, em que ele fala sobre o problemático dualismo cultura e natureza e sobre as muitas confusões que essa distinção tem gerado. Escolhi o livro para abrir essa lista porque me parece uma boa leitura de introdução a um tema fundamental para pensar sobre as raízes da profunda crise que vivemos.

“A maior parte dos objetos que nos rodeiam, incluindo nós mesmos, encontram-se nesta situação intermediária: são naturais e culturais ao mesmo tempo”, diz ele. Um pouco adiante, conta que o povo achuar desconhece distinções “entre os humanos e os não humanos, entre o que pertence à natureza e o que pertence à cultura”. A partir desse tensionamento, vai apresentando outras formas de pensamento e de vida, lembrando que a perspectiva ocidental é apenas mais uma entre muitas. Para ele, a antropologia “oferece o testemunho das múltiplas soluções encontradas para o problema da existência comum. Uma vez que todas essas soluções foram imaginadas por pessoas, não é proibido pensar que nós também podemos imaginar formas novas, quem sabe até melhores, de viver juntos”.

2) A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, editora Companhia das Letras, tradução de Beatriz Perrone-Moisés.

O livro traz o relato de Davi Kopenawa, grande xamã yanomami e pensador brasileiro, recentemente eleito como membro da Academia Brasileira de Ciências. A obra é considerada, ao mesmo tempo, um testemunho autobiográfico, um manifesto xamânico e um clamor contra a destruição da floresta Amazônica, que, infelizmente, só se intensificou desde que foi publicada, há dez anos. Numa das epígrafes, retirada de um texto de Lévi-Strauss, lembra que não são as pessoas indígenas que estão ameaçadas pela “cobiça de ouro” e pelas epidemias introduzidas pelas pessoas brancas, mas toda a humanidade: “Todos serão arrastados pela mesma catástrofe, a não ser que se compreenda que o respeito pelo outro é a condição de sobrevivência de cada um”. É inquietante reler essas linhas em plena pandemia de COVID-19, no meio de uma crise socioambiental de escala mundial. Mas, por isso mesmo, a leitura se torna ainda mais urgente. A queda do céu é um livro que não envelheceu nem um dia, só se tornou mais relevante.

No prefácio, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro escreve que estamos diante de uma obra que é “um acontecimento científico incontestável, que levará, suspeito, alguns anos para ser devidamente assimilado pela comunidade antropológica. Mas espero que seus leitores saibam identificar de imediato o acontecimento político e espiritual muito mais amplo, e de muito grave significação, que ele representa. Chegou a hora, em suma; temos a obrigação de levar absolutamente a sério o que dizem os índios pela voz de Davi Kopenawa — os índios e todos os demais povos ‘menores’ do planeta, as minorias extranacionais que ainda resistem à total dissolução pelo liquidificador modernizante do Ocidente”.

3) Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak, editora Companhia das Letras.

O líder indígena Ailton Krenak nasceu na região do Rio Doce, em 1953, local profundamente afetado pela atividade mineradora. Publicado em 2019, esse livro parte de duas palestras e uma entrevista com esse que é também um dos principais pensadores brasileiros da atualidade, para retomar a questão que, para ele, está na origem do desastre socioambiental da nossa era, que alguns cientistas chamam de Antropoceno: a ideia de humanidade como algo que é separado da natureza, de uma “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”.

Com uma linguagem acessível e menos de cem páginas, é uma leitura possível de ser feita por leitores com diferentes experiências, sem dificuldades. Muitas das ideias apresentadas nos outros livros dessa lista reaparecem aqui, num novo arranjo de palavras e ideias, como se Krenak nos convocasse a continuar a conversa da qual Descola, Kopenawa e Albert estão participando, e da qual não podemos mais nos omitir.

“A ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade de formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para todo mundo”, diz Krenak, que cita o pensador português Boaventura de Sousa Santos para defender a ideia de que “a ecologia dos saberes deveria também integrar nossa experiência cotidiana, inspirar nossas escolhas sobre o lugar em que queremos viver, nossa experiência como comunidade”. Krenak também menciona o agricultor e político José Mujica, ex-presidente do Uruguai, e o seu alerta de que a cultura ocidental tem transformado as pessoas em consumidores, não em cidadãos.

Também de Krenak, temos o livro A vida não é útil, publicado em 2020, na pandemia. Uma ótima reflexão para esse começo de ano, que também é sempre uma oportunidade de recomeço.

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