O Que é e Como é Calculado o Dia de Sobrecarga da Terra

No último 29 de julho, o planeta Terra atingiu o esgotamento dos seus recursos naturais, três dias mais cedo do que o registrado em 2018. Isso significa que, a partir desta data, estamos usando mais recursos naturais do que a Terra consegue renovar ao longo do ano. Serão 148 dias no “vermelho”. Essa medição é feita pela Global Footprint Network, uma ONG de pesquisa criada em 2003 com o objetivo de medir e gerenciar os recursos naturais utilizados pela humanidade e acabar com a sobrecarga da Terra. O índice possui dados desde 1970, o primeiro ano que o déficit de recursos naturais foi registrado. A data, em 2019, bateu recorde: é a primeira vez que chegamos a este limite em julho. O ônus ambiental acontece por diversos fatores, uso de água, minérios, petróleo e solo entre os principais deles. 

Atualmente, para dar conta de todos recursos utilizados no ano, seriam necessárias 1.75 Terras. Quem rouba a maior fatia desse consumo é o carbono, responsável por 60% da pegada ecológica mundial [1]. A conta para descobrir a data da sobrecarga da Terra é feita da seguinte forma: divide-se a biocapacidade do planeta [2] pela pegada ecológica mundial e multiplica-se esse valor por 365, o número de dias em um ano (em anos bissestos, multiplica-se por 366).  Ou seja: a biocapacidade do planeta dividida pela pegada ecológica da humanidade vezes 365 é igual ao dia no qual o consumo dos recursos naturais da Terra ultrapassa sua capacidade de renavação anual. É importante ressaltar, porém, que os dados podem ser conservadores, tendo em vista  que a edição de 2019 utiliza dados de uso de recursos de 2016, uma vez que eles são reportados às Nações Unidas com algum atraso. 

 

O Consumo Mundial

Para calcular a pegada ecológica e biocapacidade de um país utiliza-se dados da Organização das Nações Unidas (ONU), bem como da Agência Internacional de Energia. São usadas também dados suplementares publicados em revistas científicas. Países com mais de um milhão de habitantes geralmente possuem um conjunto de dados mais completos e confiáveis. Dos analisados na pesquisa, 150 entram neste caso. A pegada ecológica é encontrada ao rastrear quanto da área biologicamente produtiva é necessária para atender a todas as demandas competitivas da população. Essas demandas incluem: espaço para o cultivo de alimentos, produção de fibras, regeneração de madeira, absorção de emissões de dióxido de carbono da queima de combustíveis fósseis e acomodação de infraestrutura. 

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O consumo de um país é calculado adicionando importações e subtraindo as exportações de sua produção nacional. A pegada ecológica utiliza os rendimentos de produtos primários (de terras agrícolas, florestas, pastagens e pescarias) para calcular a área necessária para suportar uma determinada atividade. As commodities também têm um peso nessa conta, pois carregam consigo uma quantidade de terra e área marítima bioprodutivas necessárias para produzi-las e sequestrar os resíduos associados. Já a biocapacidade é medida calculando a quantidade de área terrestre e marinha biologicamente produtiva disponível para fornecer os recursos que uma população consome e para absorver seus resíduos, dadas as práticas atuais de tecnologia e gestão. Os países diferem na produtividade de seus ecossistemas e isso se reflete nas contas. Quanto menos recursos naturais disponíveis, mais complicado será o resultado da sua pegada ecológica.

O índice analisa os dados de 187 países cujas médias de consumo são maiores do que 1.63 gha [3]. Do total analisado, 136 países apresentaram déficit de biocapacidade, enquanto os 51 restantes receberam o sinal verde de reserva. O Brasil (ainda) está entre eles, ocupando a 12ª posição desse ranking, com 6.00 gha de reserva por habitante. Esse valor é resultado da subtração da média global de biocapacidade por pessoa menos a pegada ecológica do país, no nosso caso, 2,8 gha. A data do Brasil é 31 de julho, poucos dias depois da média mundial. O Top 5 países com maior déficit de biocapacidade são: Qatar (-13,5 gha), Luxemburgo (-13.5 gha), Emirados Árabes (-8.4 gha), Kuwait (-7.9 gha) e Estados Unidos (-4.9 gha).

 

Impactos Diários

A Global Footprint Network analisa cinco setores que geram maior impacto e sobrecarregam a Terra: 


Cidades

As cidades serão peças fundamentais para um futuro sustentável. Segundo a ONG, até 2050, 70% a 80% de toda as pessoas do mundo viverão nas áreas urbanas.  Por isso, o planejamento urbano inteligente e as estratégias de desenvolvimento são fundamentais para garantir que haja recursos naturais suficientes. Os exemplos dados pela entidade são edifícios energeticamente eficientes, zoneamento integrado, cidades compactas e transporte público efetivo. 


Energia

A descarbonização da economia não é apenas a melhor oportunidade para enfrentar as mudanças climáticas, mas também para melhorar o equilíbrio entre a nossa pegada ecológica e os recursos naturais renováveis ​​do planeta. Mais de 150 anos atrás, a pegada de carbono da humanidade estava próxima de zero. Para cumprir o compromisso do Acordo Climático de Paris, de 2015, a pegada de carbono precisa, até 2050, ser reduzida e chegar próximo ao zero novamente. 

Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas consideram que os gases do efeito estufa – todos convertidos para CO² – precisam estar abaixo de 450 ppm [4] para alcançar a meta do acordo. Em 2017, esse valor chegou a 493 ppm –  sendo 410 ppm somente de CO² – , segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), a agência climática do governo dos EUA. Pesquisadores da Global Footprint Network e da Schneider Electric estimaram que se adaptações e instalações existentes fossem postas em prática, com as tecnologias já existentes, a data da sobrecarga do planeta seria reduzida em 21 dias, sem qualquer perda de conforto humano ou produtividade econômica. A ONG também afirma que se reduzirmos em 50% o carbono da pegada ecológica mundial, diminuiríamos 93 dias, ou mais de três meses. Isso significa também que, ao invés de 1.7 Terras, precisaríamos de 1.2 Terras.

 

Comida

Demanda por alimentos representa 26% da pegada ecológica global. Ao abordar a suficiência alimentar, desnutrição e fome, meta nº 2 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, da ONU, é importante destacar duas questões: a insuficiência de recursos na produção de alimentos e o desperdício de comida. A primeira está relacionada a agropecuária, responsável pela poluição das águas, uso intensivo do solo, além de uma das grandes causadoras das emissão dos gases que fomentam as mudanças climáticas. Tendo em vista essa condição, já existe uma movimentação global para repensar consumo da carne; o governo chinês, por exemplo, está comprometido em reduzir o consumo de carne em 50% até 2030. Isso reduziria a pegada ecológica do país em mais de 210 milhões de hectares globais – ou 3 dias a menos na data da sobrecarga. A Global Footprint Network estima que, se reduzirmos o consumo global de carne em 50% e substituirmos essas calorias por uma dieta mais balanceada, diminuiríamos 15 dias da data da sobrecarga da Terra. Somente as emissões de metano representam dez dias. 

Já o desperdício de comida também traz números impressionantes: cerca de um terço de todos os alimentos produzidos no mundo para consumo humano são jogados fora. Os dados são da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e apontam que o valor do desperdício equivale a 1,3 bilhão de toneladas por ano, tendo uma média aproximada entre países de alta e baixa renda. Isso corresponde a 9% da pegada ecológica mundial. Somente nos Estados Unidos, estima-se que 40% dos alimentos sejam desperdiçados. O valor se equipara à pegada ecológica do Peru e da Suécia combinadas. 

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Dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apontam que os supermercados brasileiros perderam R$ 7,11 bilhões em faturamento por conta de alimentos descartados em 2016. Segundo a FAO, quase metade do que é colhido é jogado fora. Os produtos mais desperdiçados são frutas, hortaliças, raízes e tubérculos, e se contar apenas os cereais, o desperdício é de 30%. 

 

Planeta

Solo fértil, água e ar limpos são necessários para fornecer a comida e a saúde física que precisamos para prosperar. Ecossistemas naturais vibrantes como oceanos e florestas são indispensáveis ​​para regular o clima e absorver as emissões de carbono. É importante ressaltar que essa manutenção do sistema implica diretamente em fatores psicológicos do ser humano. Segundo a Global Footprint Network,  somente o reflorestamento de florestas tropicais e manguezais tem triplo benefício: aumenta a biodiversidade, sequestra o dióxido de carbono e atua como barreiras contra inundações durante furacões para áreas urbanas costeiras nos trópicos e subtrópicos. Já a agricultura regenerativa enriquece o solo, aumenta a biodiversidade e a saúde das bacias hidrográficas, enquanto captura dióxido de carbono no solo. 

 

População

Igualdade de gênero também participa em peso na contagem da pegada ecológica mundial. O empoderamento de mulheres e meninas resulta em planejamento familiar seguro, acessível e eficaz, estabilizando o crescente populacional em áreas periféricas. Capacitar mulheres também é fortalecer a sustentabilidade. Quando são respeitadas como parceiras iguais no lar, no trabalho e na comunidade, criam resultados sociais melhores para suas famílias, incluindo conquistas de saúde e educação. Teríamos 30 dias a mais, até 2050, se todas as famílias do mundo tivesse um filho a menos. 

 

Como agir? 

A Global Footprint Network não só analisa o que causa a sobrecarga da Terra, como também elabora ações em uma plataforma de soluções, a Move the Date. A campanha tem como objetivo estimular as pessoas a se sentirem aptas a mudar seus hábitos diários para outros mais saudáveis. A ONG estima que se conseguirmos diminuir cinco dias por ano até 2050, nós poderemos fechar os doze meses sem saldo negativo. Você também pode conferir e postar sua solução para problemas sociais e ambientais neste mapa mundi compartilhado.  E se quiser saber qual seria a data da sobrecarga da Terra se todos no planeta consumissem como você, a ONG também criou o teste da pegada ecológica

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