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Lições Climáticas da Pandemia: Não Haverá Justiça Social Sem Justiça Ambiental

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  • Carol Bardi
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4 min. tempo de leitura
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Em outros artigos desta série, falamos sobre como há pelo menos uma década muita gente já avisava que uma pandemia com os contornos da atual era iminente.

Em 2015, Bill Gates afirmou em um TED Talk que não deveríamos temer mísseis, mas o desenvolvimento de novos vírus. Depois da epidemia de SARS, a Organização Mundial de Saúde também alertou que aquela não seria a última e que não teríamos recursos preparados para lidar com ela. Mas os avisos, as ideias e alternativas ao necroliberalismo foram ignorados e nos trouxeram a um mundo de confinamento e ansiedade sobre um futuro desconhecido. Apesar de ainda inimaginável, a história e acontecimentos recentes dão pistas de que as maiores e piores vítimas deste desastre serão, como sempre, a maioria da população pobre, negra, periférica, do sexo feminino e do Sul global.

O coronavírus deveria alarmar a população adormecida e, principalmente, os líderes políticos, sobre o fato da disrupção de habitats naturais não ser apenas uma equação simples de preservação ou extinção de plantas e animais selvagens. Surpreendentemente, contudo, as questões ambientais vêm sendo há muito menosprezadas também por grupos opostos à classe dominante global, ao sistema capitalista e seus valores neoliberais: ativistas sociais e de direitos humanos, habitando no lado esquerdo do espectro ideológico.

Para esses o pretexto de se manter alheio ao debate ambiental ainda reside na ideia de que questões ambientais compõem uma pauta secundária, por vezes elitista, e que há causas “mais nobres” e preocupações “mais urgentes” do que salvar animais “fofinhos” como coalas e pandas.

O genocídio negro pelas mãos da polícia, a fome, o direito à moradia, a derrubada do sistema capitalista: essas são bandeiras bem definidas e altamente compartimentalizadas em cada grupo, projeto, coletivo, partido. O que já passou da hora (o atraso já é de algumas décadas, na verdade) é entender, de uma vez por todas, que somos habitantes de um mundo onde nada é independente e as opressões estão intrinsecamente relacionadas. Nós não estamos na Natureza. Nós somos Natureza. Somos parte integral do ecossistema terrestre e, este, por sua vez, é parte de nós. Como o coronavírus escancara, a destruição do ambiente natural coloca a humanidade inteira em cheque. Quem sofre mais tem gênero, raça e classe definidos e um histórico extenso de opressão no sistema capitalista.

Enquanto o discurso do ambientalmente responsável – em suas várias vertentes de ativismo como questões climáticas, antiespecismo, veganismo, redução do consumo e decrescimento econômico – é rechaçado e colocado como “problemas de rico” e, por conseguinte, são pautas a serem discutidas a posteriori, as evidências e os números falam por si só. Nesta pandemia os ricos trataram de rapidamente isolar-se em ilhas, iates, hotéis de luxo e mesmo bunkers preparados para desastres. Eles viajam em seus jatos particulares, é claro.

Aos 90% da população, em especial aos mais pobres e às mulheres, restaram desemprego, luto e desmoronamento de estruturas familiares. Neste meio tempo, enquanto assistem à crise global, diversos bilionários pelo mundo tiveram aumento de até 10% em suas fortunas por conta do coronavírus, conforme o recente estudo do Institute for Policy Studies (Instituto para estudos em políticas públicas).

Apesar de ainda inimaginável, a história e acontecimentos recentes dão pistas de que as maiores e piores vítimas deste desastre serão, como sempre, a maioria da população pobre, negra, periférica, do sexo feminino e do hemisfério sul do globo.

A materialidade diária do colapso climático e ambiental segue na mesma linha: são exatamente as pessoas pobres, as mulheres e as pessoas negras os mais suscetíveis aos seus impactos. No Brasil (e no mundo), não são famílias com contas bancárias de 6, 7, 8 dígitos dentro de suas casas muradas, seus iates, casas de veraneio afastadas e com ar condicionado que estão na linha de frente dos crimes ambientais, inundações, enchentes, frio ou calor extremo e doenças infecciosas.

Os prejuízos vão continuar sobrecarregando a periferia, deixada à sua própria sorte para lidar com problemas (ou crimes) de responsabilidade, isso sim, da parcela minúscula e mais abastada do planeta. Há quem aponte, inclusive, que estas consequências são menos descaso e mais uma estratégia de extermínio de uma massa de pessoas vistas como descartáveis e indesejáveis para um sistema que cada vez mais se apoia em máquinas para se reproduzir.

Apesar dos dados e fatos confirmarem a conexão da pauta ambiental com a desigualdade abissal e injustiça contra os quais grupos de direitos humanos afirmam lutar contra, irracionalmente eles a negam, num movimento talvez não muito diferente do negacionismo científico adotado por políticos conservadores como Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Ouvir quem resiste há mais de 500 anos

Uma notável exceção é a luta ancestral indígena, dos povos da floresta e sua relação simbiótica com a Natureza. Estes resistem há séculos contra as investidas do capital e da chamada “civilização”, pagando com seu sangue, seus entes e seus filhos. Tal exceção também pode ser explicada porque estas comunidades não estão lutando por um espaço dentro do sistema, mas pelo direito de existir fora da lógica capitalista. Ao passo que o capital transforma tudo em mercadoria e propriedade privada, povos ancestrais se recusam a abrir mão de seu modo de vida comunitário, sem se curvar às flutuações dos preços das commodities na bolsa de valores.

Mais recentemente, o Movimento dos Sem Terra revisou sua base teórica e prática e abraçou, também, a agroecologia e a luta pela produção de alimentos sem venenos, em harmonia com os ciclos naturais, que há muito haviam sido abandonados com a chegada da revolução verde, da monocultura, dos agrotóxicos e transgênicos. O MST percebeu que não havia sentido em lutar por terra usando a mesma lógica que a usurpa e destrói. É preciso transcender o sistema dominante, ou a empreitada está fadada a fracassar. A atuação do MST nos mostra a coragem e a possibilidade de se mudar a postura. Mais do que isso, de que é possível incorporar uma causa urgente à sua própria sem perder o propósito.

É necessário aprender com as lutas indígena, quilombola e camponesa. A resistência e, mais do que isso, a oposição combativa a medidas prejudiciais e proposição pragmática de modelos alternativos de atuação é o que sobressai como urgente. Fazer do limão uma limonada (ou a caipirinha) é a oportunidade que se abre ou, francamente, que nos resta para o momento crítico – não apenas pela urgência de se combater o vírus atual, mas também as pandemias futuras e o colapso climático iminente.

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Uma das formas práticas de se engajar é apoiar organizações ativistas que lutam ativamente contra ações que vão na contramão da justiça ambiental e social. Fazer frente e pressionar pela derrubada da chamada MP do Desmatamento, por exemplo, é uma forma de agir. Aproximar-se de instrumentos políticos e engajamento comunitário como coletivos políticos e criar ou apoiar ações em seu bairro, como a criação de hortas comunitárias, um espaço para esportes num terreno baldio, piqueniques coletivos nos dias de sol, criar ou apoiar as associações de bairro. Ações como essa são necessárias para retomar o senso de coletividade e quebrar o paradigma de um imaginário individualista e egoísta, ao qual fomos domesticados a aceitar e que nos tem renegado a nossa própria dignidade.

Uma iniciativa recente em resposta à pandemia, que busca colocar em prática muitos desses pilares é o Mutirão do Bem Viver, organizado pela Sociedade do Bem Viver, um coletivo independente que já tem voluntários em todas as regiões do Brasil. O grupo tem retomado a importância da soberania alimentar, alimentação sem veneno e sua relação com a saúde, dignidade e felicidade, fazendo a ponte entre pessoas e comunidades vulneráveis no campo, nas florestas e nas cidades. Existem diversas formas de apoiar seu trabalho e se tornar mais uma formiguinha na construção de um novo modelo de sociedade, reconstruindo a noção de que estamos, mais do que nunca, no mesmo mar revolto.

Tal exceção também pode ser explicada porque estas comunidades não estão lutando por um espaço dentro do sistema, mas pelo direito de existir fora da lógica capitalista.

Outra ação para praticar a invenção de novos mundos é participar de movimentos da economia solidária, que buscam construir pontes reais entre indivíduos como os bancos de tempo. Ao abrir o leque de possibilidades para além do intermédio fetichizado do dinheiro, é possível visualizar com maior facilidade um horizonte em que ninguém vomite absurdos como “sem economia não há vida”.

Contudo, de fato, científica, química, física e biologicamente falando – sem natureza não há vida. Por isso, precisamos nos resignar e entender que um horizonte pós-humanista é necessário – não apenas do ponto de vista moral, mas também da autopreservação: paradoxalmente, precisamos começar a criar um futuro que leve em conta mais do que apenas a espécie humana.

A série Lições Climáticas da Pandemia foi escrita por acadêmicos, militantes e ativistas e relaciona a origem e as consequências da crise do Coranavírus com a destruição ambiental e climática em fluxo. Acesse todos os artigos da série clicando aqui
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