Lições Climáticas da Pandemia: Negacionismo e Inércia Revelam Outra Face da Necropolítica

Há uma série de artigos em diversos veículos proeminentes tentando decifrar os motivos pelos quais o Covid-19 conseguiu abalar o mundo enquanto o colapso climático, algo muito maior em escala e mais perigoso em se tratando de ameaça à vida das pessoas, não é capaz de mover uma palha para mudanças significativas em busca de mitigação, prevenção e diminuição de emissões de gases de efeito estufa. Igualmente, não faltam debates e evidências sobre a enorme capacidade do capitalismo de gerar epidemias derivadas de crescimento descontrolado somado à falta de amparo (como acesso à saúde, alimentos descentes, saneamento básico, etc) à maior parte da população global. Um debate que, inclusive, não é novo.

Embora ambas as discussões sejam cruciais, acredito estarmos num momento oportuno para ampliar um outro debate: como o negacionismo e inércia climáticos são instrumentos de ampliação da necropolítica instalada nas periferias globais. Dois motivos me fazem crer na urgência dessa conversa. O primeiro deles se relaciona com as previsões de que as mudanças climáticas – junto com a globalização, intensificação do fluxo migratório e expansão das fronteiras agrícolas – devem aumentar epidemias, pandemias e surtos como o que estamos vivendo neste exato momento e que abalam de forma mais dura as pessoas mais vulneráveis no aspecto socioeconômico da questão. Em segundo lugar estão as eleições municipais de 2020 e a necessidade de olharmos para as propostas das lideranças políticas em disputa em busca de uma agenda atuante na questão climática e seus diversos desdobramentos.

Para sustentar a argumentação do negacionismo e inércia climáticos como instrumentos de ampliação da necropolítica, primeiro, é importante salientar a qual face da conceituação de necropolítica estou recorrendo: especificamente àquela sobre a “destruição material dos corpos e populações humanos julgados como descartáveis e supérfluos”. O conceito cunhado pelo filósofo e historiador Achille Mbembe, responsável por atualizar e situar a biopolítica de Michel Foucault no mundo pós-colonial, revela a “política da morte” num capitalismo em crise estrutural. Enquanto a tecnologia avança, a produção daquilo que Karl Marx chamava de “trabalho morto”, ou força de trabalho acumulada nas máquinas, ela também cria uma massa de sujeitos que não serve mais nem aos modos de produção nem à reprodução dos modos de produção. É uma massa de pessoas inúteis e descartáveis, formada por um proletariado expropriado do trabalho, do consumo e, portanto, de qualquer função prática num mundo onde a existência se condiciona e se centra em trabalhar para consumir.

Dessa forma, saímos da produção de “trabalho vivo”, necessário para o perfeito funcionamento da expansão capitalista, que assimilou corpos e sujeitos sobre uma intensa política de dominação trancafiando-os mental e fisicamente em linhas de produção e baias de escritório; passamos pela exclusão de massas de pessoas residuais ou indomáveis, lançando-as em presídios, hospícios e periferias; e chegamos na aniquilação, por meio de mecanismos de Estado violentos, a exemplo dos assassinatos de jovens nas favelas brasileiras por parte da polícia.

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Quem morre, quem vive

Enquanto o avanço capitalista gestacionou, por meio do aumento cada vez mais significativo do trabalho morto, esse contingente de pessoas sem nenhum tipo função, que não mais servem como recurso, também criou o maior desafio já enfrentado pelos seres humanos até hoje: as mudanças climáticas severas que já estão afetando milhares de pessoas, deslocando-as de suas casas e de seus meios de sobrevivência, aprofundando a pobreza, vulnerabilidade e desigualdade face às instabilidades do ambiente natural, criando assim uma outra fonte de produção de sujeitos passíveis de aniquilação.

As mudanças climáticas e a necropolítica se tocam em pontos fundamentais. Ambas representam uma crise estrutural do sistema capitalista, ou seja, são problemas cuja solução invariavelmente exige a superação do atual modelo de produção. Ao mesmo tempo, face à instalação aparentemente permanente e instransponível do capitalismo, resta-nos fazer a gestão do caos: aniquilar a massa amorfa de sujeitos inúteis de um lado e ignorar o colapso climático de outro. É neste momento que a necropolítica e as questões climáticas deixam de ser correlatas e passam a ser complementares: frente ao colapso climático, que demanda uma série de ações para mitigação e contenção de danos, tanto o negacionismo escancarado quanto a inércia disfarçada se tornam instrumento de aniquilação desse volume humano inconveniente ao passo que os efeitos das alterações do clima ameaçam prioritariamente as pessoas não-brancas e pobres (em sua maioria, mulheres).

Temos alguns exemplos aos quais podemos recorrer para ilustrar esse contexto. Lá em 2012, um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou que o Nordeste será a região mais afetada pelas mudanças climáticas no Brasil. Como a região tem alta densidade demográfica e baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a população é menos preparada para lidar com as alterações de temperatura e mudanças no fluxo de chuvas (como maiores períodos de estiagem).

As mudanças climáticas e a necropolítica se tocam em pontos fundamentais. Ambas representam uma crise estrutural do sistema capitalista, ou seja, são problemas cuja solução invariavelmente exige a superação do atual modelo de produção

As inconstâncias, que afetarão diretamente a vida da população, serão forças importantes para estimular a migração para grandes centros urbanos, pouco preparadas para receber e garantir uma vida digna para essa população “migrante” que, como mostra a história, tende a se acomodar em periferias e favelas. Ao mesmo tempo, cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, por concentrar um grande número de habitantes, também se mostraram regiões sensíveis, principalmente por conta de deslizamentos, enchentes e alagamentos – acontecimentos já corriqueiros em bairros mais pobres, vide o caso recente na Baixada Santista que deixou 39 mortos e 41 desaparecidos. Dessa forma, a massa amorfa de seres inúteis para a reprodução do sistema ficará duplamente vulnerável com o aumento da severidade das consequências do colapso.

Se gerir o caos significa aniquilar as pessoas residuais, que agora são vistas como peso morto mais atrapalhando do que ajudando a dar continuidade no sistema, a quem interessa agir para redução e contenção de danos consequência das alterações do clima? Se o Estado e as grandes corporações são as mais preparadas para ação, por terem ferramentas como poder e dinheiro das quais lançar mão, são estes mesmos atores que ora negam ora ignoram os incontáveis alertas da ciência e não fazem qualquer coisa a respeito. Mais do que um problema, as mudanças climáticas aparecem, então, como uma forma de ampliação de uma estratégia de “limpeza social” que já está em fluxo.

O que a pandemia está escancarando não é apenas a vulnerabilidade dos seres humanos frente aos problemas que estes mesmos criaram, nem somente a tendência de governos em proteger o mercado financeiro e as corporações acima das pessoas, mas também que, caso houvesse disposição, seria possível agir rápido e de forma efetiva, conforme vem pedindo a comunidade científica há mais de 30 anos, e que não agir – e entregar as pessoas à própria sorte – é uma escolha.

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