A Revolucionária que Alertou Para a Destruição Ambiental e o Ressurgimento da Extrema Direita

Seu “pedido” é construído na areia. Amanhã a revolução “se levantará novamente, colidindo com suas armas” e, para seu horror, proclamará com trombetas resplandecentes: eu fui, eu sou, eu serei!

As últimas palavras escritas pela revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo ainda ressoam cem anos depois da sua morte. Assassinada por paramilitares de direita em 15 de janeiro de 1919, seu falecimento em Berlim prenunciou a brutalidade das duas décadas seguintes. A Revolução Alemã pela qual ela lutou foi reprimida no caótico resultado da Primeira Guerra Mundial. Mas o legado de Luxemburgo morreu com isso? 

A influência colossal de Luxemburgo sobre a esquerda ainda é comemorada na Alemanha e em todo o mundo. Sua convicção de que o socialismo democrático poderia florescer estava enraizada em sua análise meticulosa de como o capitalismo funcionava. Ela estava convencida de que a brutalidade era uma característica inevitável do capitalismo. Através de sua necessidade de novos recursos e território, Luxemburgo acreditava que o capitalismo terminaria em colapso e miséria.

Como suas últimas palavras sugerem, ela viu a incerteza da sua época como uma oportunidade para criar um mundo mais justo. Com a ascensão de homens fortes da direita, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, e a atual crise das mudanças climáticas, devemos prestar atenção às suas palavras hoje.

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Luxemburgo nasceu em 5 de março de 1871 em Zamość, uma cidade na Polônia ocupada pela Rússia. Seus pais sabiam desde seus primeiros anos que sua displasia congênita do quadril não a impedia de buscar a paixão pela justiça. Ela estudou filosofia e economia e, em 1898, recebeu um doutorado em direito pela Universidade de Zurique, na Suíça, onde também foi exilada e se escondeu da polícia russa. Sua tese traçou o desenvolvimento industrial da Polônia, desde as guerras napoleônicas até os últimos anos do Império Russo.

A revolucionária escreveu constantemente, incluindo cartas apaixonantes a amigos íntimos e para as colegas feministas Clara Zetkin e Luisa Kautsky. Com suas correspondências, ela lutou contra a solidão de suas várias prisões entre 1904 e 1906 e durante a Primeira Guerra Mundial. Ela questionou tudo – desafiando Karl Marx, algumas de suas teorias e seus camaradas homens que se aproveitavam da guerra, monarquia, burocracia e imperialismo em benefício próprio. Preferiu se estruturar dentro do movimento trabalhista do que na política partidária e se opôs à classe política que votou pela guerra em 1914, vendo a escolha como uma traição ao internacionalismo e ao interesse comum dos trabalhadores em todo o mundo.

 

Lições para o mundo moderno

Qual é a contribuição de Luxemburgo para nossa compreensão do mundo hoje? Ameaçado pela destruição ambiental, a violência contra as mulheres, a desigualdade bruta, o trabalho inseguro e explorador e a ascensão da extrema direita, seu diagnóstico do capitalismo global é talvez mais relevante do que nunca. Para ela, a expansão econômica e a consequente devastação do meio ambiente não são um defeito do capitalismo global, mas uma característica inerente de um sistema destrutivo. Em “A Acumulação do Capital”, ela explica que, por definição, o capital precisava conquistar, absorver e destruir economias e territórios não capitalistas para sobreviver.

Esse argumento fica evidente na recente decisão do novo presidente de extrema direita do Brasil, Bolsonaro, de “integrar a região amazônica à economia brasileira”. Isso expandiria a autoridade e o alcance de poderosas corporações do agronegócio na floresta amazônica – ameaçando os direitos e a subsistência dos povos indígenas e dos ecossistemas com os quais suas vidas estão entrelaçadas.

 

A expansão econômica e a consequente devastação do meio ambiente não são um defeito do capitalismo global, mas uma característica inerente de um sistema destrutivo.

 

Luxemburgo criticou Karl Marx por não ter prestado atenção suficiente a essas contradições externas no crescimento econômico. Uma revolução socialista era, para Luxemburgo, a única maneira de impedir a vida não-capitalista de afundar no capitalismo. Ela ensinou que a guerra, o colonialismo e a extração insustentável da natureza são produtos do capitalismo global. O resultado é a perda de riqueza natural insubstituível e pessoas lutando por comida, água e abrigo no mundo em desenvolvimento. Luxemburgo também criticou o crescimento econômico baseado na especulação financeira e na lucratividade dos mercados acionários globais. Ela argumentou que tal modelo é propenso a crises, como a de 2008 demonstrou, o que cria desemprego e precariedade de trabalho que não podem ser facilmente resolvidos.

A economia perde a capacidade de dar emprego a todos os adultos com capacidade de trabalhar. Muitos dos contemporâneos de Luxemburgo, como Eduard Bernstein, confiaram que o crédito aliviaria as tendências do capitalismo em relação às crises. No entanto, em Reforma ou Revolução”, Luxemburgo argumentou que o crédito só podia adiar e até mesmo intensificar a crise. As crises econômicas que resultam dessa maneira permitem que a extrema direita provoque a divisão dentro das comunidades ao transformar a insegurança econômica generalizada em uma vara para golpear refugiados e imigrantes.

Então, podemos salvar a Terra da expansão global do capital e do fascismo que emerge nela? O centésimo aniversário do assassinato de Luxemburgo deve nos fazer refletir sobre sua previsão. Como a própria revolucionária acreditava, a escolha é “socialismo ou barbárie“.

 

A biografia de Rosa Luxemburgo tem uma versão em português trazida ao Brasil pela Boitempo. Compre aqui. 

Texto escrito por Ana Cecilia Dinerstein. Artigo originalmente publicando em The Conversation e traduzido para o Modefica sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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