Lições Climáticas da Pandemia: Poluição do Ar Nos Obriga a Pensar em Sociedades Pós-Combustíveis Fósseis

A pandemia do novo Coronavírus escancara diversas facetas de um sistema econômico-político-social falho em escala global. Entre eles, o peso do acúmulo das emissões dos gases de efeito estufa (GEE) em cidades e regiões ao longo do globo e como estes contribuem para o aumento da letalidade da Covid-19. Um estudo realizado em 2003 sobre as vítimas da SARS constatou que pacientes de regiões com níveis moderados de poluição do ar tinham 84% mais chances de morrer do que aqueles em regiões de baixa poluição. A tendência se repete com o novo Coronavírus. Um artigo publicado por pesquisadores da Universidade de Harvard apontou que o aumento de 1 micrograma por metro cúbico de PM 2.5 [1] já é suficiente para aumentar 15% as mortes de Covid-19.

Em contrapartida, a quarentena forçou grandes atores da crise climática – as companhias aéreas e transporte terrestre, fábricas e a indústria do petróleo – a pararem e com isso, não só as nuvens de poluição sumiram do céu, mas aproximadamente 77 mil mortes por consequência da poluição do ar foram evitadas na China. Com o início da flexibilização da quarentena em diversas regiões, fica a questão: vamos ceder à pressão econômica e voltar a viver sob as normas pré-pandemia, ou vamos utilizar esse momento para repensar modelos mais sustentáveis de vida?

A poluição do ar é uma alteração climática enfrentada há mais de uma década em grandes metrópoles globais, a ponto do oxigênio em garrafa já ser um produto comercializado. Quando exploramos o assunto, percebemos como os índices de baixa qualidade do ar refletem na qualidade de vida e na economia de nações. Dados da Organização Mundial da Saúde estimam que 4,2 milhões de mortes prematuras no mundo estejam ligadas à poluição do ar, sendo as principais: doenças cardíacas, derrames, doenças pulmonares obstrutivas crônicas, câncer de pulmão e infecções respiratórias agudas em crianças.

Estes números geram um gasto médio anual de US$ 600 bilhões (R$ 3,2 trilhões) aos Estados Unidos e US$ 900 bilhões (R$ 4,9 trilhões) à China, segundo dados do Fórum Econômico Mundial. Já o Greenpeace do Sudeste Asiático e o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA) divulgaram em fevereiro um relatório sobre os impactos do uso de combustíveis fósseis na economia e saúde da população. Em 2019, a queima de gás, carvão e petróleo gerou um custo econômico de 3,3% do PIB mundial, ou US$ 2,9 trilhões (R$ 15,6 trilhões). Os combustíveis fósseis também foram responsáveis por 1,8 bilhão de dias de ausência no trabalho, 4 milhões de novos casos de asma infantil e 2 milhões de nascimentos prematuros.

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Os estudos científicos, sejam de duas décadas atrás ou dos últimos meses, são tão claros quanto água cristalina: fatores que prejudicam o funcionamento do sistema respiratório, sendo a poluição um deles, nos desarmam frente a um vírus cuja origem e comportamento ainda são desconhecidos, como o Coronavírus. Sendo assim, uma das conclusões que podemos tirar é: o alto nível de mortalidade em regiões como o norte da Itália, Nova Iorque e São Paulo está relacionado com o acúmulo excessivo de dióxido de carbono, dióxido de nitrogênio e demais gases do efeito estufa.

 

A sociedade pré-pandêmica autodestrutiva

Um estudo publicado pela Sociedade Italiana de Medicina Ambiental aponta que “o rápido aumento das taxas de contágio em áreas do norte da Itália pode estar ligado à poluição por partículas atmosféricas, atuando como transportadoras e impulsionadoras no local”. Desde o início da quarentena, em 9 de março, cidades como Milão registraram queda nos níveis de GEE, entre eles, o dióxido de nitrogênio. O quadro comparativo do nível de NO2 na região entre 2019 e 2020 lembra muito as imagens registradas pela Nasa das fortes manchas entre Wuhan e Xangai. A OMS explica que o composto químico é “um gás tóxico que causa inflamação significativa das vias aéreas” em concentrações acima do recomendado. De acordo com o Index de Poluição do Ar, a cidade tem, em sua maioria, o ar moderado.

Outro artigo publicado recentemente na revista científica Environmental Pollution reforça a contribuição da poluição nos altos índices de mortalidades no país. Intitulado “A poluição atmosférica pode ser considerada como um co-fator no nível extremamente alto de letalidade por SARS-CoV-2 no norte da Itália?”, o estudo analisou esta correlação da poluição do ar com as duas áreas mais afetadas do norte do país: Lombardia e Emilia Romagna, no qual a taxa de mortalidade foi de até 12%, enquanto em outras regiões o número foi de apenas 4,5%.

O estudo foi realizado por dois pesquisadores em saúde da Universidade de Siena, na Itália, e um cientista ambiental, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. O resultado do estudo mostra que, sem desconsiderar fatores importantes como a faixa etária da população afetada, a poluição prejudica a primeira linha de defesa das vias aéreas superiores e indivíduos que vivem em áreas com altos níveis de poluentes são mais propensos a desenvolver condições respiratórias crônicas. Posteriormente, um sistema imunológico fraco e desregulado pode levar a síndrome do desconforto respiratório agudo e, eventualmente, à morte.

Por outro lado, temos um estudo realizado nos Estados Unidos e publicado na Environmental Health Perspectives em 2016, sobre a relação da presença de áreas verdes próximas a residências e seu impacto na qualidade de vida de mulheres. O artigo aponta que ambientes verdes contribuem com a redução de 12% na taxa de mortalidade. Áreas com espaços naturais podem melhorar as exposições ambientais adversas, como, por exemplo, a poluição do ar, ruídos e calor extremo e contribuir para o engajamento social, atividades físicas e a redução de estresse. A metodologia usou dados do Nurses’ Health Study [2] e levou em conta fatores de risco como idade, etnia, tabagismo, condição socioeconômica e região habitada.

Com essa equação já explicada, fica o questionamento: e agora? Não é possível voltar no tempo, reverter a dependência de combustíveis fósseis para amenizar o impacto da poluição do ar nas condições dos infectados pela Covid-19. Se nos resta apenas o presente, qual caminho seguir? Em entrevista ao Guardian, o professor de poluição do ar da Universidade de Leicester, na Inglaterra, Paul Monks afirma que “estamos agora, inadvertidamente, conduzindo o experimento de maior escala já visto”, ao se referir à experiência de imaginar um futuro com economia de baixo carbono. O professor afirmou que, sem desonrar as perdas humanas, o momento pode nos ajudar a visualizar o que pode ser alcançado em um futuro mais limpo.

Outra reflexão nos leva a perceber que, por muito tempo, líderes mundiais afirmaram que não podiam acabar com o uso de combustíveis fósseis. Praticamente da noite para o dia, vimos que diminuir drasticamente nosso uso de carvão e petróleo é, na verdade, possível. É claro, não desconsideramos que a transição brusca e obrigatória maximiza a vulnerabilidade de populações mais vulneráveis, diminui o poder econômico de muitas famílias e joga muitas pessoas para abaixo da linha da pobreza. Mas a atenção nas movimentações governamentais é essencial no momento e nos prova onde estão os impasses para transicionarmos de forma saudável para modelos econômicos mais sustentáveis.

Por exemplo, o Fed (Sistema de Bancos Centrais Americano), injetou US$ 1,5 trilhões (R$ 8 trilhões) no mercado de empréstimos para estabilizar investidos e bancos em março, sendo que na crise econômica de 2008, o socorro financeiro foi de US$ 4 trilhões (R$ 21 trilhões) num período de 2 anos e meio. Quando vejo líderes mundiais falando que não existem recursos para pesquisas e transição para modelos mais sustentáveis, eu sempre penso que sim, eles existem, só estão sendo destinados a outros interesses.

 

O futuro deve ser horizontal

Especialistas calculam que a pausa de quatro meses das indústrias em Wuhan podem resultar na queda de 1% das emissões de GEE da China neste ano. Os níveis de dióxido de nitrogênio no leste e centro do país caíram em até 30%, segundo dados da Nasa. A projeção é que a quarentena e a desaceleração da economia gerem uma redução nas emissões globais este ano, mas esse valor também dependerá das medidas que os governos tomarão para reaquecer suas economias. Após a crise de 2008 e 2009, as emissões de carbono aumentaram em 5% como resultado das ações de estímulo para impulsionar o uso de combustíveis fósseis. Estudiosos temem que, se a pandemia persistir por muito tempo, qualquer estímulo seja priorizado, independente do impacto que ele cause sobre o meio ambiente.

Por hora, já vimos alguma movimentação do tipo. Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) está enfraquecendo a regulamentação dos padrões de ar limpo, de forma a dar um estímulo à indústria. Já na África do Sul, a Coalizão Life After Coal (“Vida pós-carvão”) denunciou que o enfraquecimento dos padrões de poluição do ar permitidos causará, aproximadamente, 3.300 mortes prematuras. Estas medidas corroboram com a afirmação de Mike Davis, historiador e escritor do livro O monstro bate à nossa porta, cujo conteúdo retrata a ameaça da gripe aviária em 2005, que “as pandemias são um exemplo perfeito do tipo de crise à qual o capitalismo global é particularmente vulnerável e que a mentalidade capitalista não pode resolver”.

Em entrevista ao Guardian, ele reforça: “em um mundo totalmente racional, você pode assumir que uma pandemia internacional levaria a um maior internacionalismo. Estaríamos aumentando a produção de suprimentos essenciais básicos – kits de teste, máscaras, respiradores – não apenas para nosso próprio uso, mas também para os países mais pobres. Porque é tudo uma batalha. Mas não é necessariamente um mundo racional”. A irracionalidade capitalista permite, por exemplo, mais poluição mesmo num cenário cheio de evidências que esta torna as pessoas mais suscetíveis à morte.

No livro O amanhã não está à Venda, Ailton Krenak sintetiza o descompasso: “governos burros acham que a economia não pode parar. Mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. Dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação. Coisa de gente que acha que a vida é baseada em meritocracia e luta por poder. Não podemos pagar o preço que estamos pagando e seguir insistindo nos erros”.

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Pandemias escancaram as falhas sociais, basta prestar atenção. Foi por estas linhas que a Gripe Espanhola de 1918 estimulou diversos países europeus e o Brasil a criarem serviços nacionais de saúde. No Brasil, a pandemia do início do século também levou à tentativa (ainda em fluxo) de universalizar o saneamento básico. Agora, na pandemia do fim do século, algumas ações positivas – e mitigatórias – já estão acontecendo. Em Bogotá, na Colômbia, a prefeita Claudia Lopez abriu 76 quilômetros de novas ciclovias para reduzir multidão nos transporte públicos e amenizar a ameaça tripla da má qualidade do ar, doenças respiratórias sazonais e a pandemia. Já a prefeitura de Amsterdã, na Holanda, irá implantar em suas diretrizes a Teoria da Rosquinha [3], criada e descrita por Kate Raworth no livro Economia Donut.

Especialistas da Agência Europeia do Meio Ambiente afirmam que a atual redução da poluição do ar pode tornar as pessoas mais conscientes dos impactos das atividades humanas e mais dispostas a adotarem medidas para melhorar a qualidade do ar depois da crise. Mas eles também alertam que resolver esta questão a longo prazo significa criar políticas ambiciosas e investimentos prospectivos. “Devemos lembrar que a política ambiental geralmente pode impulsionar a inovação e a criação de empregos, em vez de dificultá-los”, acrescenta Alberto González Ortiz, especialista em qualidade do ar da agência.

Pode haver uma certa felicidade em ver níveis de GEE caindo em até 40% em cidades tumultuadas e poluídas com as notícias de céu límpido aparecendo em regiões conhecidas pelas nuvens de poluição. Mas a verdade é que essa pausa é, antes de mais nada, temporária, a depender do nosso atual sistema econômico, e representa bem menos do que acreditamos. Segundo o Carbon Brief, as emissões de CO2 devem cair, mundialmente, 5,5%, enquanto o Acordo de Paris exige cortes de 7,6% anual, até 2030. “Não deveríamos ter que esperar uma pandemia perigosa para experimentar um ar mais limpo”, afirma Margherita Tolotto, diretora de políticas do Gabinete Europeu de Meio Ambiente, para o Euobserver, “é importante que já planejemos um futuro além desta crise. Não podemos nos dar ao luxo de voltar aos negócios como de costume”.

As correlações entre poluição do ar e mortes escancaram outra fragilidade da crise climática e mais uma faceta da urgência de desenharmos sociedades pós-combustíveis fósseis. Podemos partir do princípio que se mostra necessário descapitalizar a definição de humanos. Não somos apenas úteis quando produzimos para o capital, seja por meio do trabalho ou do consumo. Somos úteis quando buscamos, em conjunto, soluções para a comunidade. Certamente, o que a Covid-19 nos ensina é que é preciso encurtar distâncias e fortalecer a produção local, principalmente de itens extremamente necessários e diminuir a pegada de carbono da produção destes.

 

Não somos apenas úteis quando produzimos para o capital, seja por meio do trabalho ou do consumo. Somos úteis quando buscamos, em conjunto, soluções para a comunidade

 

Também revela que algumas ostentações não podem ser toleráveis, como cruzeiros em navios gigantescos e viagens de avião para reuniões empresariais que poderiam ser feitas via internet, e que podemos muito bem nos adaptar para trabalhar mais perto das nossas casas, evitando locomoções intensivas e extenuantes. Mais importante, talvez, seja o fato de que a pandemia não deixa dúvidas sobre quais trabalhos são, realmente, essenciais: os de cuidado e serviços, normalmente rejeitados e mal remunerados, que contribuem pouco para a emissão dos GEE e são essenciais para pensarmos sociedades pós-combustíveis fósseis.

Utilizemos a tecnologia disponível em nossas mãos, e busquemos insumos, novos estudos, para criar outras. Nos juntemos em uma roda de especialistas para debater como fortalecer comunidades – sendo elas grupos, cidades ou até mesmo bairros. A começar com pequenas ações, que mitigam dramas diários, como hortas urbanas, e prossigamos com mudanças mais bruscas, políticas públicas que tragam base para novas formas de trabalho, não-predatórias, de vivência em sociedade e com a Natureza.

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