Mães Solo e a Moda: Mulheres Encontram na Costura Autônoma Rota de Sobrevivência

A indústria têxtil e de confecção brasileira é formada por cerca de 1,5 milhão de trabalhadoras e trabalhadores formais, dos quais cerca de 75% são mulheres segundo as últimas estimativas da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção). Mas estes números estão longe de representar toda a realidade. As costureiras autônomas, espalhadas em pequenos ateliês de reparo ou dentro das suas casas, normalmente são subretratadas quando falamos de moda e não figuram nas estatísticas, mas elas também fazem parte deste emaranhado complexo.

Dada a pulverização, informalidade e até mesmo falta de interesse no tema, é difícil achar dados precisos sobre elas. Uma pesquisa acadêmica de 2015, centrada nas costureiras autônomas de Ribeirão Preto (SP), identificou que a maior parte destas mulheres têm entre 40 a 49 anos (37,5%) e entre 30 a 39 anos (32,2%), não possuem ensino superior, são mães e não têm companheiros(as) no lar. Outra pesquisa, focando na região de Santa Helena (PR), notou o mesmo perfil entre as costureiras a domicílio: mães solo, com baixa escolaridade e acima dos 40 anos.

Historicamente, a costura se desenvolveu como parte do trabalho doméstico e da reprodução social lançada como responsabilidade das mulheres desde o surgimento do capitalismo. Dessa forma, o contingente de mulheres na costura se explica pela história do desenvolvimento socioeconômico. Mas, não só. No Brasil há 1,1 milhão de famílias compostas por mães solo (IBGE, 2015) [1], que precisam se dividir entre o trabalho remunerado e o cuidado da casa e dos filhos.

A costura a domicílio, hoje, se tornou uma saída para o desemprego ou uma forma de complemento de renda para sustento da família, além de garantir a possibilidade de atender a demanda dos afazeres do lar e encaixar o trabalho na rotina diária de cuidado com as crianças.

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Foi assim que Helenita Pereira de Souza, 68 anos e residente de Osasco (SP), criou seus dois filhos, costurando profissionalmente em empresas e fazendo trabalhos como costureira independente em casa. “Por conta da necessidade, vi na costura uma possibilidade de ganhar dinheiro”, explica Helenita, “trabalhei como babá na casa de uma mulher e ela costurava. Passei a observar como ela fazia e fui treinando em casa. Aos poucos fui me profissionalizando”.

A costura também entrou da mesma forma na vida de Luciana Vilmara da Silva, 43 anos, moradora de Santo André (SP) e mãe de quatro filhos. “Minha avó me ensinou na infância um pouco de tudo: costura, crochê, tricô, bordado e pintura em tecido. Comecei no crochê como forma de cuidar dos meus filhos e ganhar um dinheiro extra”, relata. Luciana e Helenita descobriram, pela necessidade e pela costura, um talento e uma profissão.

Como a ocupação não requer obrigatoriamente uma formação, e muitas vezes a prática é aprendida dentro da família, onde uma mulher ensina o ofício para outras, a confecção é uma porta de entrada “simples” para o mercado de trabalho. Este é o motivo pelo qual muitas mulheres se tornam costureiras e, também, o motivo pelo qual a costura está entre as profissões de maior precariedade e as mulheres que costuram hoje, com raras exceções, não querem esse futuro para as próprias filhas [2]. As costureiras autônomas não têm um horário fixo de trabalho, nem um regime com carteira assinada, não são sindicalizadas e uma grande porcentagem apresenta problemas psicológicos pela carga excessiva de trabalho, isolamento e precariedade do ambiente de trabalho.
 

As costureiras e a moda

Noemi Lourenço, 31 anos, Barueri (SP), conta que por ser mãe solo, a costura foi sua principal fonte de renda e sustento para a criação de seus dois filhos. “Atualmente trabalho apenas com consertos, mas antigamente fazia todo tipo de roupas, principalmente para os meus filhos, amava criar peças para eles”, relembra. Para ela, o ofício aprendido com sua mãe foi a alternativa mais assertiva: não precisava de uma formação e poderia trabalhar por conta própria com um retorno financeiro mais rápido.

Se, por um lado, a moda entra na vida de muitas mães solo através da costura como uma forma de prover o sustento dos filhos, por outro, há quem enxergue um caminho para concretizar o sonho de fazer parte deste mercado. Áquila Priscila Sanches, 29 anos, São Bernardo do Campo (SP), tem quatro filhos e conta que não lembra exatamente quando começou a costurar profissionalmente, mas desde pequena inventava roupas para as bonecas e sonhava em ser estilista. “Iniciei aulas de costura na adolescência e hoje é minha principal renda”, explica Áquila.

Independente se por escolha ou imposição da ausência de outras possibilidades, a costura foi protagonista na vida destas mulheres e na criação dos seus filhos. “Por ser mãe solo e tendo a costura como única fonte de renda, foi assim que consegui dar sustento para eles” relata Noemi. Áquila conseguiu realizar o sonho de ter o próprio ateliê e mais tempo com os filhos: “com a criação do meu ateliê, pude ter uma fonte de renda e estar em casa acompanhando o desenvolvimento deles”.

Para Helenita a costura autônoma proporcionou uma mudança na sua vida. “Com o trabalho de costureira, juntei dinheiro e mudei de estado, entrei numa empresa grande de costura em São Paulo”, explica, “me tornei piloteira [3] e ia nas oficinas supervisionar e orientar o trabalho das costureiras. Passei a ganhar mais, consequentemente a dar uma vida melhor para os meus filhos, embora muito batalhada”.

Apesar de fazerem parte, de uma forma ou de outra, da rede produtiva da moda, muitas costureiras não se enxergam neste lugar e definem “moda” de uma forma muito pessoal. Para Áquila é sobre expressar pelas vestimentas o seu modo de ser. Para Luciana, a moda é a maneira de vestir individualmente, se sentindo bem e confortável. Já Noemi enxerga a moda como uma forma de terapia: “me sinto muito bem quando crio algo ou quando faço minhas peças e vejo que ficou do jeitinho que imaginei, é muito gratificante”. Helenita endossa: “moda ajuda a pessoa a se sentir bonita”.

Quando questionadas sobre se considerarem estilistas, nenhuma das mulheres entrevistadas se definiram como tal. Mesmo com criações próprias, desenvolvidas do zero a partir de ideias originais, todas se consideram apenas costureiras. Isto abre uma reflexão sobre a elitização do termo, da profissão e do mercado, tão fundamentado no trabalho feminino, mas representado e valorizado pela sua faceta masculina.

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Matéria escrita por Grace Santos como parte da nossa iniciativa Seja Uma Autora, responsável por fomentar e ampliar a diversidade de vozes, pautas e pontos de vista no Modefica.
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