PET Reciclado na Moda Não É Solução Para Sustentabilidade

A ideia de transformar garrafas de plástico em tecidos não é nova. Desde os anos 90, algumas tecelagens e marcas estão tentando fazer essa onda pegar, mas só agora que o PET reciclado na moda está ganhando tração e se espalhando como alternativa sustentável ao poliéster.  Começou com a G-Star Raw e a iniciativa Raw For the Oceans, depois tivemos Nike, H&M, Adidas, Stella McCartney, Renner. E, ao que tudo indica, essa lista não deve parar de crescer. De sling para bebês a vestidos de festa, é possível encontrar uma versão de quase tudo feita com plástico reciclado.

Afinal, o que poderia ser mais legal do que transformar uma odiada garrafinha PET em uma roupa de moda descolada? Quando a iniciativa vem acoplada a um discurso de “limpeza dos mares”, como é o caso das iniciativas feitas por meio da Bionic Yarn, empreitada do cantor pop e cativante Pharrel Willians, que visa tirar plástico dos oceanos para transformá-los em produtos novos, a ação ganha ainda mais likes.

Vamos ser honestos aqui. Ninguém quer oceanos com mais plástico do que peixes, não é mesmo? Então é um alívio pensar que alguém está limpando essa sujeira para nós e, de quebra, nos entregando, em forma de produtos que nós já compraríamos de um jeito ou de outro, uma dose de “consumo consciente”. Quer dizer, eu sou tão legal que meu tênis e minha calça jeans são feitos com plástico retirado dos oceanos.

Isso não é maravilhoso?! 

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Não vou mentir; é claro que é. Se nós estreitarmos o nosso olhar para essa pequena parte do ciclo de vida desses itens, tirar plástico que estaria, em tese, poluindo o mundo e transformá-lo em produtos de moda, em tese, duráveis, é algo realmente muito interessante.

Mas quando nós olhamos mais de longe e analisamos a história toda, descobrimos que transformar lixo plástico em roupas não só é uma péssima ideia, como também é um atraso quando pensamos em soluções sistêmicas para sustentabilidade na moda. Talvez o lado mais sujo dessa história seja que as marcas de moda sabem disso, mas elas, novamente, não estão sendo honestas e estão nos vendendo gato por lebre enquando a maior parte das pessoas acredita que elas estão sendo incríveis por suas iniciativas de sustentabilidade.

 

1. Pelo jeito, vamos ter que falar de microplásticos. De novo e de novo e de novo.

Dentro do universo da sustentabilidade, há duas grandes motivações de discurso para  usar plástico reciclado no lugar do poliéster. A primeira, e mais óbvia delas, é o fato de transformar lixo em algo novo. A reciclagem, por si só, já tem um caráter positivo intrínsico a ela. O entendimento comum é que reciclar é sempre a melhor saída. Depois, entendemos que, ao reciclar, nós não estamos mais extraindo matéria-prima virgem, no caso do poliéster, de origem não-renovável, para produzir produtos novos.

Porém, no caso de tecidos de plástico reciclado, além da reciclagem ser falha (como veremos mais adiante) e demandar inserção de matéria-prima virgem para conseguir qualidade da fibra, não podemos nos esquecer dos microplásticos. Independente da estrutura do fio e da trama, tecidos de plástico soltam micropartículas no processo de lavagem. Se colocarmos água quente e uma maior fricção, por exemplo, o desprendimento de pedaços microscópicos de plástico dos fios aumenta. Esses microplásticos não são filtrados em nenhuma etapa do processo de tratamento de esgoto e acabam voltando… para os oceanos. Uma vez lá, os peixes os confundem com plânctom (alimento) e enchem seu organismo de plástico, por sua vez contaminando outras espécies que se alimentam de peixes.

Segundo o novo relatório da fundação para economia circular Ellen Macarthur, A New Textile Economy, meio milhão de tonelada de microplásticos oriundas de roupas de plástico acabam nos mares todos os anos. Essa quantidade é equivalente a 50 bilhões de garrafas de plástico. Conforme explica o relatório, “nessa tendência atual, a quantidade de microfibras de plástico entrando nos oceanos entre 2015 e 2050 pode chegar em 22 milhões de toneladas – cerca de dois terços da quantidade de fibras de plástico usadas para produzir roupas anualmente”.

Qual a vantagem em tirar plástico dos oceanos (ou de qualquer outro lugar) para transformá-lo em tecidos que liberam microplásticos impossíveis de serem filtrados, tanto na rede de esgoto, quanto nos oceanos, contaminando ainda mais a vida marinha e, consequentemente, os seres-humanos? É isso mesmo, nenhuma vantagem. Plástico retirado dos oceanos, e de qualquer outro lugar, deve virar produtos realmente duráveis e realmente recicláveis. E dai nós entramos em outra questão.

 


Campanha RAW For the Oceans de Pharrel Willians com a holandesa G-Star
 

 

2. Não existe economia circular nesse processo, existe um ciclo interrompido. 

As marcas usando plástico reciclado em suas coleções gostam de dizer que estão praticando a economia circular. Entretanto, economia circular, como o nome mesmo diz, é um ciclo fechado onde o produto reciclado ou reutilizado ou compostado vira algo de igual valor em um ciclo contínuo e initerrupto. Mas tecidos de plástico, reciclado ou não, não são reciclados no fim da sua vida. Eles acabam em aterros sanitários porque não há tecnologia de reciclagem em larga escala para produtos têxteis de pós-consumo.

Então, quando uma marca pega uma garrafa PET, por exemplo, que pode ser transformada em outra garrafa PET ou em outros produtos de plástico que poderão ser reciclados infinitamente, e transforma em um tecido cujo único fim é o aterro sanitário, ela está interrompendo o ciclo. Nessa lógica, as marcas estão produzindo mais lixo a partir do lixo de outra indústria, normalmente, a indústria de bebidas não-alcóolicas, sem achar uma solução para seu próprio lixo.

Assim, elas podem pregar sobre sustentabilidade sem realmente se mexer para encontrar soluções reais para os 60 caminhões de têxteis sendo despejados em aterros sanitários a cada minuto ao mesmo tempo que não fazem nem cócegas na quantidade exorbitante de plástico descartado por meio das empresas de refrigerantes. É por isso que o PET reciclado na moda é um caminho bastante controverso para a economia circular.

Como o relatório do Greenpeace sobre o tema, Fashion at the Crossroads, alerta: “Na melhor das hipóteses, projetos como esse devem ser vistos como uma ferramenta de comunicação para
conscientizar o público sobre a poluição por plástico dos oceanos, mas eles não podem ser considerados um passo sério para a circularidade”.

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3. A zona de conforto impossibilita soluções reais. 

Não só usar plástico reciclado na moda não é uma solução, como também é um impecilho para encontrar soluções por criar uma zona de conforto para as indústrias e também para as pessoas. Quando as marcas usam plástico reciclado de outras indústrias, elas normalmente ignoram a questão dos microplásticos, não investem na produção de fibras que podem realmente gerar um impacto positivo, não cuidam do próprio lixo e passam longe de pensar novos modelos de negócio que, entre outras coisas, busquem reduzir volume e aumentar a vida útil dos produtos.

Elas também criam a impressão de solucionar um problema que não é delas e que elas não conseguem realmente solucionar: o descaso da indústria de alimentos para com as suas embalagens. As maiores empresas de refrigerante, sozinhas, produzem cerca de 500 bilhões de garrafas PET por ano. Se nem as próprias empresas conseguem dar conta de reciclar esse lixo, é insano pensar que a moda vai dar.

As marcas estão produzindo mais lixo a partir do lixo de outra indústria, normalmente, a indústria de bebidas não-alcóolicas, sem achar uma solução para seu próprio lixo.

No topo de tudo isso, o uso do plástico reciclado cresce da mesma forma que a demanda por plástico virgem aumenta e a quantidade de plástico descartado também. Então, a pergunta que fica é: será que esse plástico reciclado é mesmo de pós-consumo? E qual é o sentido de usar PET reciclado na moda se ele é incampaz de impactar positivamente as estatísticas de produção e descarte de plástico? Cerca de 322 milhões de toneladas de plástico foram produzidos em 2015 e esse número deve dobrar em 2025.

 

Mas quais são os caminhos então?

Não há nenhuma possibilidade de zerar o uso de fibras sintetisadas na moda e, por isso, é importante uma conversa aberta e sincera sobre esses materiais. Usar plástico reciclado deve ser uma solução para itens que realmente precisam ser produzidos com plástico, como é o caso de roupas esportivas, acessórios e produtos com elastano. Entretanto, esse plástico reciclado deve ser de origem da própria indústria, não só para promover um ciclo realmente fechado como também dar conta do poliéster, nylon, elastano e poliamiada descartados.

Os tecidos também precisam ser pensandos e construídos sem necessidade de mistura com outras fibras, principalmente virgens, para evitar a criação de monstros híbridos, além de terem um olhar atento e tecnologia aplicada para minimizar o despreendimento de microplásticos na hora da lavagem e/ou serem feitos para não lavar ou lavar muito pouco, como é o caso de bolsas e sapatos.

Na foto acima, vestido da H&M feito com plástico dos oceanos. Uma das criações da Conscious Collection, iniciativa de sustentabilidade da varejista sueca.

Para isso, as empresas precisam incentivar tecnologias e pesquisas, além de criar iniciativas de logística reversa para garantir não só que essa roupa de plástico reciclado não acabe em um aterro sanitário ou em ambientes naturais, como também para garantir a economia circular do seu próprio negócio: não dependendo do lixo alheio, não criando um ciclo interrompido e sem precisar recorrer ao plástico virgem para produzir novos produtos. Parece difícil, mas não é impossível. Marcas como Patagônia e Houdini já estão fazendo isso.

Olhar para outros materiais, como Lyocell®, algodão orgânico, incentivar o uso de fibras como cânhamo e linho, também são soluções inteligentes e necessárias – principalmente se pensarmos não só em questões de sustentabilidade em processos produtivos e ciclo de vida dos produtos, como também conforto dos usuários.

 

O calcanhar de Aquiles está na lógica, não nos produtos e processos.

Eu passo grande parte das minhas aulas, consultorias e palestras olhando para a lógica do sistema produtivo ao invés de unicamente para processos e produtos. É claro, podemos minimizar danos e até mesmo ver soluções realmente interessantes para sustentabilidade ao tentarmos tratar parte de um processo ou de um produto. Entretanto, o grande problema está na lógica de produção extrair – vender – descartar que se mantém refém de um sistema de crescimento contínuo.

Transformar plástico descartado em roupas pode gerar um grande buzz, mas só quando endereçarmos o elefante na sala, ou seja, o atual modelo de negócio da moda (vender cada vez mais) é que vamos conseguir criar caminhos realmente inovadores para sustentabilidade. Algumas marcas já estão fazendo isso há anos e de forma bem sucedida, como é o caso da já mencionada Patagonia ou a sueca Filippa K, isso sem mencionar empreitadas menores que oferecem desde garantia vitalícia até logística reversa e reciclagem infinita.

Se nós não empurrarmos e nos contentarmos com pouco, a indústria continuará na sua zona de conforto e os oceanos continuarão abarrotados de plástico. Roupas de plástico reciclado não salvarão a moda e nem o planeta. Pessoas e empresas dispostas e abertas para transformação genuína sim.

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