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São Paulo: Solução Para Enchentes e Mudanças Climáticas Só Acontecerá no Coletivo

Publicada em:
Atualizada em:
Texto
  • Juliana Aguilera
Imagens

Victória Lobo

7 min. tempo de leitura
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Uma característica muito conhecida de São Paulo é seu crescimento desordenado. Sabemos que, por conta dele, torna-se mais complexo pensar em água acessível para todos, tratamento de esgoto, recolhimento de lixo úmido e reciclável. O crescimento sem planejamento, o desmatamento, a impermeabilização do solo, as ilhas de calor e outros efeitos da crise climática resultam nas recorrentes chuvas fortes - ou enxurradas - que atingem a cidade anualmente. Porém, o que poucos sabem é que, na verdade, os problemas com enchentes na cidade remontam às decisões dos últimos dois séculos e só haverá real transformação quando a comunidade for integrada no processo de tomada de decisões das políticas municipais.

Somente em 2020, as chuvas fortes em São Paulo marcaram o fevereiro mais chuvoso na cidade, desde 1983. Isso significou o recorde de acumulado de chuvas em 24 horas, em 77 anos e metade do esperado de chuva para todo o mês em três horas, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A enxurrada resultou em 132 pontos de alagamentos, congestionamento, quedas de árvores, energia e danos na rede aérea da linha 11-Coral da CPTM entre as estações Tatuapé e Itaquera.

Já em outubro, especialmente a Zona Norte, foi afetada novamente pelas chuvas, resultando em imagens de carros arrastados e empilhados no bairro Imirim. Ao fim do 2º dia, a cidade acumulava lentidão de 216 km e danos dos mais diversos – de ruas e praças intransitáveis à queda da parede de um hospital. Thomaz Garcia, meteorologista do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (GRE-SP), explica que os temporais nos meses de primavera e verão são comuns e que são “chuvas resultantes da grande disponibilidade de umidade e calor na atmosfera, que provocam um grande volume acumulado em um curto espaço de tempo, e que podem vir acompanhadas de fortes rajadas de vento, descargas elétricas e eventual queda de granizo”.

Para conter e diminuir os danos das chuvas, a SIURB (Secretaria de Infraestrutura Urbana em Obras) informou ao Modefica que a atual gestão entregou, desde 2017, oito novos piscinões e um pôlder e que, até o final de 2020, estarão em funcionamento mais três piscinões. A SIURB também destacou as obras de canalização feitas nos córregos da cidade, além de outras sete frentes de obras de canalização que somarão 6,2 mil metros de intervenções (quase 2 Avenidas Paulistas e ⅓).

Se o poder público busca mitigar os danos causados pelas chuvas fortes, e o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas não só reconhece a incidência destes fenômenos, mas também os prevê, onde estamos errando? Quais são os fios soltos que permitem que, todo ano, sem exceção, pessoas percam casas, móveis, carros, vidas em meio às enxurradas? Para entender as causas, é necessário se aprofundar nos alicerces de São Paulo e entender, primeiramente, onde a cidade se localiza.

São Paulo está entre duas serras, a Serra do Mar e a Serra da Cantareira. Ambas tendem a “guardar” as nuvens, também conhecidas como rios voadores. Quando chove na serra, essa água tende a escorrer para o pé – no caso da Serra da Cantareira, sua primeira elevação fica nos bairros da Zona Norte – como Brasilândia e Vila Maria Alta. As nascentes de córregos que estão no pé da montanha, como o Carandiru e Bananal, também recebem uma alta quantidade de água em pouco tempo. Este é um dos componentes principais das enchentes recorrentes na cidade, segundo Alexandre Delijaicov, professor do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

É necessário também reconhecer que São Paulo está sobre a bacia hidrográfica do Alto Tietê. O rio Tietê, com seus principais afluentes – o rio Pinheiros, o rio Aricanduva e o rio Tamanduateí – são rios de planície sedimentares, que têm o leito menor 1parte de menor vazão do rio meândrico 2 caracteriza-se como meandro uma curva acentuada de um rio, no qual as águas dos rios ocupam durante o período de seca. Já o leito maior 3 caracterizando-se também como a área de ocupação da água em época de cheia tem uma largura média de 1 km. Em 1870, com a construção da São Paulo Railway, o Brasil ganhou seu primeiro vale industrial. Esse ritmo mercantilista da virada do século XIX para o século XX trouxe as indústrias automobilísticas para a Mooca, as refinarias e o modelo rodoviarista para São Paulo.

Tudo foi construído sob os rios. Alexandre sinaliza que o leito maior do rio Tietê se encontra em bairros como a Vila Maria, Vila Guilherme, Freguesia do Ó, Pari, São Miguel Paulista, Lapa, Barra Funda. “Nós invadimos, loteamos e vendemos aquele leito maior. Nós inviabilizamos tudo”, reitera. Com a ocupação da cidade, o desmatamento e crescimento desenfreado, esses rios foram sendo encobertos por concreto, confinando um espaço originalmente de 1 km em 70 m, no caso do rio Tietê.

A ausência de água e árvores intensifica o superaquecimento de superfícies e edificações – Alexandre exemplifica com a ilha de calor característica da Mooca, por conta da falta de vegetação e dos galpões industriais. “A ilha de calor gera o fenômeno das pancadas de chuvas repentinas e isoladas”, explica, “isso é muito característico em São Paulo. Inunda tudo na Zona Norte, no rio Cabuçu de cima, no Cabuçu de baixo, e na Zona Sul pode ser que tenha sol”.

Assim sendo, quando o período de chuva se inicia, a Natureza segue seu curso, independente do ser humano e, como diz o documentário Entre Rios, se não tiver espaço para a água, ela toma o que for necessário. Fica claro, então, que apenas a construção de piscinões não é uma solução para as chuvas fortes anuais que se abatem na cidade.

 

A descentralização de poder como solução

A curto prazo, uma medida para diminuir o efeito das ilhas de calor, que potencializam as chuvas fortes na cidade, é a construção de áreas verdes. Além de trazer inúmeros benefícios ambientais e sociais, as áreas verdes também colaboram com a permeabilidade do solo – outro grande problema de São Paulo. As zonas verdes também podem ser promovidas pelo poder público através de políticas públicas, incentivando a iniciativa privada a criar tais áreas em troca de redução de impostos ou outros benefícios.

Piscinões e polders são saídas comuns feitas pela administração pública, mas Alexandre não vê muita eficiência na construção dos mesmos. O piscinão, segundo ele, gasta muita energia e dinheiro para ser limpo e é “um erro em cima de um erro”. O professor descreve a construção das estruturas como uma “espécie de UTI nível 3 para Covid-19” e reforça que, independente de ser arquiteto, engenheiro, brasileiro ou não, da iniciativa pública ou privada, a solução não é simples, porque “São Paulo é um desastre anunciado”.

Chegamos ao momento da grande pergunta: não tem solução, então? Sim, ela existe, mas é preciso pensar de outra forma, um outro modelo, a começar com a descentralização do poder. Alexandre afirma que o “fenômeno metropolitano é uma prova concreta da injustiça social”. Ele exemplifica, indo mais a fundo, apontando que, enquanto o Brasil tem apenas 5.570 municípios, a França, que possui o tamanho de Minas Gerais, tem 36.658 cidades. E o que isso tem a ver com enchentes em São Paulo?

A ligação se faz clara quando pensamos em coletivo. “A metropolização é uma prova concreta que nós não conseguimos nos organizar coletivamente”, afirma, “São Paulo tem quase 22 milhões de habitantes, 8 macrorregiões, 32 subprefeituras e 96 distritos – cada um dos distritos tem 120 mil habitantes, é gigantesco”. Se houver um trabalho em conjunto de técnicos da prefeitura, engenheiros e arquitetos e a comunidade, pode-se pensar em soluções a nível de sub-distritos, o que equivale ao tamanho de uma microbacia.

Alexandre chama isso de cooperativismo social e economia solidária e aponta que esta seria uma forma mais inteligente de resolver as questões de inundações sazonais. Tais ações coletivas poderiam resultar em, por exemplo, um movimento que já acontece em alguns bairros da cidade: o de construir mais um pavimento na casa, abandonando o térreo, onde a água costuma entrar. Essa é uma prática feita pelos moradores do Jardim Helena, no distrito de São Miguel Paulista. Alexandre visita o local com seus estudantes, para que eles absorvam a realidade e sabedoria popular daqueles que aprenderam com a dor.

Ele explica que, normalmente, no térreo são deixados objetos leves de subir, como cadeira de plástico, e no primeiro andar são deixados os de maior valor e peso, como geladeira, fogão e máquina de lavar roupa. “As pessoas estão cansadas de perder seus bens, então, na primeira oportunidade, se a casa for térrea, elas fazem uma segunda laje”, explica. Na região, a água da chuva, misturada com esgoto, chega ao nível da cintura e pode demorar até dois meses para abaixar.

O agravamento da crise climática deve ser centro de discussão para políticas públicas para o agora e o futuro. No balanço de chuvas em novembro do Instituto Nacional de Meteorologia, o mês foi o primeiro a apresentar padrão normal desde janeiro. O documento salienta: “o padrão de chuva mensal, desde então, vem apresentando desvios com alternância de sinal: ora chuva acima, ora chuva abaixo da climatologia”. Sabemos que o agravamento das chuvas e enchentes contempla outros fatores além das ilhas de calor, o desmatamento, aquecimento do solo e impermeabilidade, como a La Niña, por exemplo, evento que está previsto para o verão 2021. Mas é fundamental que o poder público atue sobre os fatores que ele pode conter, como os citados anteriormente. Já entramos no período de chuva de primavera e verão e, esperamos, que os eventos do início de 2020 não se repitam em 2021.

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