Superexpostas: Mulheres São Mais Impactadas Pela Poluição Por Plástico

As toxinas contidas nos plásticos têm efeitos diferentes em homens e mulheres, tanto no local de trabalho quanto na vida cotidiana. Isso se deve em parte à biologia – as diferenças no tamanho do corpo e na proporção de tecido adiposo – mas também tem relação com os papéis de gênero atribuídos às mulheres.

Os corpos das mulheres contêm mais gordura que os dos homens e, portanto, acumulam mais produtos químicos solúveis em óleo, como plastificantes de ftalato. O corpo feminino é especialmente sensível a toxinas durante diferentes fases da vida, como puberdade, gravidez, lactação e menopausa.

Durante a gravidez, isso pode ter sérias consequências para o feto. Produtos químicos que funcionam de maneira similar aos hormônios – conhecidos como desreguladores endócrinos – são problemáticos. Como a placenta não é uma barreira segura, esses compostos podem influenciar todas as fases do desenvolvimento do útero que são controladas por hormônios. Isso pode levar a malformações nos recém-nascidos, bem como doenças que aparecem muito mais tarde na vida. Além disso, parece ser possível que eles afetem a fertilidade e a qualidade do esperma. Os desreguladores endócrinos também podem contribuir para a obesidade, diabetes, doenças neurológicas, início prematuro da puberdade e malformações congênitas, como criptorquidismo (ausência de um ou ambos os testículos no saco escrotal) e hipospádias (malformação da uretra masculina). Um número crescente de crianças nasce exposta a substâncias nocivas.

As mulheres entram em contato com os perigos dos plásticos em muitos lugares diferentes. Cerca de 30% dos trabalhadores da indústria de plásticos em todo o mundo são mulheres. Para que itens de plástico baratos possam ser produzidos em massa para o mercado global, as mulheres nos países em desenvolvimento são comumente empregadas em complexos de produção industrial com baixos salários, muitas vezes em condições perigosas e sem roupas de proteção. Um estudo canadense descobriu que mulheres que lidam com plásticos na indústria automobilística têm cinco vezes mais chances de desenvolver câncer de mama.

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No mercado dos produtos de higiene feminina, o plástico é amplamente utilizado. O uso de absorventes descartáveis facilitou a vida das mulheres em relação à praticidade, higiene e discrição. Em torno da menstruação ainda há muitos estigmas e mitos, muitas vezes por ser considerada um processo sujo. O absorvente descartável facilitou o modo como as mulheres lidam com a menstruação no dia a dia.

No entanto, o aumento de uso de absorventes agravou o problema da produção de lixo. Uma mulher produz cerca de 150kg de lixo em aproximadamente 40 anos de menstruação. A maior parte desses produtos descartáveis acaba em aterros sanitários, em fontes de água, no mar e em sistemas de esgoto. Os absorventes descartáveis contém substâncias químicas que podem causar alergias, irritações, intoxicações e doenças. Além disso, no Brasil eles costumam ser perfumados para disfarçar o mau cheiro que surge com o contato do sangue com os produtos químicos presentes no absorvente. O que causa o mau cheiro provém do próprio absorvente, e não o sangue em si.

 

A produção de um absorvente moderno não é possível sem o uso de matérias-primas fósseis e plásticos. Créditos: PLASTIC ATLAS | Appenzeller/Hecher/Sack CC-BY-4.0

Um absorvente custa em média R$ 0,60 a unidade, preço que se torna inacessível para muitas meninas e mulheres. Devido à falta de acesso a produtos de higiene baratos, uma menina pode faltar até cinco dias por mês à escola. Porém, vale destacar que já existem algumas alternativas reutilizáveis que podem diminuir consideravelmente o problema do lixo, o desconforto e são mais baratas. Entre as opções destacam-se: o copinho coletor, calcinhas com absorção integrada e absorventes externos reutilizáveis. Todas essas opções são laváveis, seguras e reutilizáveis por anos, além de serem mais econômicas a longo prazo.

Os cosméticos também podem ser uma fonte de substâncias nocivas. Um quarto de todas as mulheres nos países industriais ocidentais usa até 15 produtos diferentes todos os dias. Esses geralmente contêm até 100 produtos químicos, alguns dos quais prejudiciais à saúde. Muitos cosméticos contêm microplásticos, que podem passar através da placenta para o feto.

Por último, um fator importante é que as mulheres ainda são frequentemente responsáveis pelas tarefas domésticas ou trabalham como faxineiras. Os produtos de limpeza também contêm microplásticos e substâncias nocivas, como surfactantes e solventes. A escolha mais cuidadosa de produtos e o uso de materiais ecológicos ou agentes convencionais, como sabão neutro e ácido cítrico, podem reduzir o peso imposto sobre a humanidade e o meio ambiente. Porém, essas escolhas dos consumidores não isentam os produtores da responsabilidade de substituir ingredientes e matérias-primas prejudiciais.

Uma mulher que usa produtos descartáveis para menstruação entra em contato com plásticos perigosos por quase quatro décadas. Créditos: Thiago Venturotti/ CC-BY-4.0

Quando os resíduos são exportados para países em desenvolvimento, os aterros sanitários tornam-se importantes fontes de renda para os pobres. Milhões de catadores em todo o mundo, geralmente mulheres e crianças dos setores mais vulneráveis da sociedade, vão catar nesses locais em busca de plásticos recicláveis e lixo elétrico. Muitas vezes, a única fonte de renda familiar vem desses locais altamente tóxicos. Para obter cobre valioso, os cabos revestidos de PVC são queimados. A fumaça contém dioxinas altamente tóxicas que são prejudiciais à reprodução, danificam o feto e podem causar câncer. São principalmente as mulheres que queimam lixo doméstico nos quintais ou que separam o lixo tóxico.

O conhecimento sobre os perigos impostos pelos plásticos foi propagado de maneira desigual pelo mundo. As mulheres são um grupo-alvo importante nos esforços para desencadear uma mudança fundamental nas atitudes e práticas cotidianas, bem como na exigência de ação política. As mulheres geralmente são mais sensíveis a vários perigos do que os homens e estão menos dispostas a colocar as pessoas e o planeta em risco. Isso é verdade tanto quando as mulheres desempenham papéis de empreendedoras quanto como consumidoras e chefes de família. Há evidências consideráveis de que elas agem de maneira mais ambientalmente responsável do que os homens.

Iniciativas que visam reduzir o consumo de plástico e proteger as pessoas e o meio ambiente dos poluentes são frequentemente iniciadas por mulheres. Elas merecem um lugar equitativo na política, nos negócios, nas famílias e nas comunidades, para que possam dar uma contribuição ainda maior à criação de uma sociedade e um meio ambiente livres de toxinas e plásticos.

Trecho extraído do capítulo Gênero do Atlas do Plástico, produzido pela Fundação Heinrich Böll e reproduzido para com Modefica com licença de Creative Commons.

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