Tucum Propõe a Mistura das Raízes Brasileiras Com a Moda Para Fortalecimento dos Povos Indígenas

“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify, iTunes ou Deezer.

 

Nesse novo episódio do Backstage, nossa editora-chefe, Marina Colerato, conversa com Amanda Santana, sócia-fundadora e diretora criativa da Tucum Brasil. Se você já pesquisou sobre moda e povos originários, é provável você já ter ouvido falar da Tucum, uma referência no assunto. Na conversa, falamos sobre a origem da loja, que hoje, além de presença física, conta com sua versão online em formato market place; o por quê a compra de objetos, roupas e pinturas de comunidades indígenas é muito mais que uma compra, e como as comunidades têm se articulado desde o início da pandemia do novo Coronavírus.


A pergunta que dá início a conversa é a tradicional “como você veio parar na moda?”. Amanda conta sobre sua trajetória no mundo da moda e da beleza e como o estalo para o início da Tucum veio de uma viagem que ela realizou junto de seu companheiro, em 2009, para a Amazônia. Ao participar de uma feira de troca de sementes do povo Krahô no Tocantins, ela descreve que o impacto estético com a cultura indígena foi “avassalador”. “Como a gente vive aqui no Brasil e não estamos sabendo disso?”, questiona, “eu ‘tô’ ali no meio da moda, convivendo com um monte de coisas, tendências, e aqui dentro do Brasil temos essa diversidade, essa beleza”.

No mesmo ano, um bazar feito na casa de sua sogra trouxe a mesma surpresa para seus amigos e conhecidos que visitaram o evento. Seu companheiro e sócio-fundador da Tucum, Fernando, explicou que quando visita aldeias, existem sempre pessoas querendo vender o artesanato local, que se transforma em fonte de renda para as famílias. Ao pesquisar sobre lojas que vendiam os produtos indígenas, Amanda notou que elas não falavam de quem os produziam, tampouco comunicavam a diversidade ali presente. “É tão mais que um produto, tem tanta coisa por trás de uma pulseira, bolsa, colar”, afirma.

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Aos poucos, a ideia da Tucum foi tomando forma e, em 2012, além de criar a conta do Instagram da empresa, Amanda também buscou um local para criar a loja física. A fundadora explica que a Tucum foi pensada de forma a estruturar uma rede, como organizações sociais, para que não ficasse concentrado em apenas um povoado. A primeira loja, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, foi aberta em 2013 e, em 2015, surgiu a loja online.

O market place, uma grande vitória da Tucum, veio em 2020. Uma das missões da empresa, Amanda explica, é contribuir pela autonomia das artesãs e suas comunidades, para que elas ocupem cada vez mais espaços. “Para gente não bastava ser uma loja que compra e vende, a gente quer que as pessoas possam comprar diretamente de artesãos e receber diretamente na sua casa um produto que foi feito em Rondônia, por exemplo”, explica.

As pessoas também têm buscado se conectar com o que é verdadeiro. Quem veste, decora sua casa com as artes indígenas, sente essa força de originalidade, resistência

 

 

Marina pergunta sobre qual a reação da sociedade com a estética dos povos originários, tendo em vista que temos referenciais europeias muito fortes. Amanda nos dá uma resposta muito positiva, a começar com a ideia de que “a percepção de moda, em geral, mudou muito”. “As pessoas, hoje em dia, estão buscando mais se identificar primeiro como pessoa para, daí, ver como vão se expressar através do vestir”, reflete, “dentro dessas buscas, as pessoas também têm buscado se conectar com o que é verdadeiro. Quem veste, decora sua casa com as artes indígenas, sente essa força de originalidade, resistência”.

 

As dificuldades e vitórias em época de pandemia

Em 2020, Amanda sentiu o aumento da presença de artesãos indígenas nas redes sociais. Ela cita situações positivas e negativas, como o maior número de jovens comprando seu primeiro celular e tendo acesso à internet nas aldeias, mas também o sinal que não chega muito bem e dificulta, até, chamadas de vídeo. Para fortalecer essas vendas no ano passado, a Tucum promoveu formações online com seis organizações, o que ajudou a preparar muitos para desenvolverem estratégias, trabalhar posicionamento e técnicas de marketing.

A empresa ganhou um fôlego, em 2020, por participar de uma aceleração da PPA (Parceiros Pela Amazônia), o que trouxe um capital que foi destinado à compra de produtos indígenas e comunicação e marketing nas redes, para fortalecer as vendas da Tucum. Amanda comemora, dizendo que a estratégia deu certo, e a empresa não só garantiu renda para diversos grupos parceiros, como também cresceu neste ano. Eles conseguiram alcançar outras aldeias fora da região Norte, como os indígenas Guaranis, em São Paulo.

Mas nem tudo são flores. Amanda explica que, por conta do agravamento da Covid-19 em Manaus e demais localidades, os povos originários têm dificuldade em sair de casa e entregar os produtos. Ela aproveita para conversar com Marina sobre o “tempo” dos artesãos indígenas, que é respeitado muito antes da Covid-19 chegar. Ele é diferente do tempo que estamos acostumados a produzir e comprar na sociedade capitalista. Amanda exemplifica sobre uma história que dividiu no Instagram da Tucum sobre uma rede que foi construída em sete meses. Para ela, a comunicação com as comunidades é sempre uma relação de equidades, de “respeitar esse tempo de ouvir”.

A co-fundadora finaliza contando sobre a Rede Origens Brasil, que reúne empresas, comunidades e instituições de apoio para valorizar as produções, trabalhar a rastreabilidade e transparência no ganho dos artesãos e no ganho das empresas. Hoje, os sete grupos que trabalham com a Tucum têm essa relação monitorada pela rede. “Eles sabem quanto a gente pagou pelo produto, temos contrato com esses grupos no qual a gente se compromete a comprar uma quantidade x de artesanado”, exemplifica. Ela também convida os compradores a buscarem o site, porque lá podem ver a origem de cada peça, e o impacto positivo que sua compra gerou na comunidade.

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