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Produção de Vegetais Perenes Como Saída para Insegurança Alimentar, Desnutrição e Crise Climática

Publicada em:
Atualizada em:
Texto
  • Juliana Aguilera
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Victória Lobo

5 min. tempo de leitura
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Apesar de pouco cultivados e conhecidos, os vegetais perenes foram apontados, em recente estudo, como culturas importantes para a mitigação da crise climática e para suprir a deficiência de nutrientes na dieta alimentar humana.

Com o benefício de crescerem o ano inteiro e sem a necessidade de serem replantados anualmente, eles podem ser uma saída para sistemas florestais mais sustentáveis, como a agrofloresta, para contrapor o aumento da insegurança alimentar, acentuado pela crise do novo coronavírus, e para a captura de carbono.

O estudo avaliou 613 espécies de vegetais e frutos usados em pratos – entre elas a alcachofra, aspargos, abacate, couve – e constatou seu alto potencial de extrair carbono da atmosfera, recuperar solos degradados e ainda possuir níveis superabundantes em mais de um nutriente. Não foram incluídas flores como astromélia e lavanda, nem frutos doces, como banana e mamão. Certas espécies perenes são adequadas para ambientes de condições climáticas adversas, como desertos e ambientes aquáticos. Apesar da diversidade de opções, o estudo também confirmou que tais culturas, em sua maioria, são cultivadas e consumidas nas suas respectivas regiões, o que não resulta em interesse econômico de expandi-las.

Os vegetais perenes são presentes, atualmente, em 6% das terras cultivadas no mundo. Segundo dados de 2019 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), dos 3,3 milhões de hectares cultivados, 1,1 milhão são apenas de azeitonas de mesa; 1,5 milhão em aspargos; 600 mil em abacate e 100 mil em alcachofras. Ou seja, uma grande parcela do total é representada por apenas quatro tipos. Apesar da biodiversidade de culturas ser essencial para a produção agroecológica e agricultura multifuncional, os pesquisadores afirmam que, globalmente, esse percentual está diminuindo, impulsionado pela agricultura intensiva e industrializada.

Para se ter dimensão desse grande celeiro monocultor, o estudo aponta que 80% da produção agrícola global vem de 17 famílias botânicas, apenas 4% do total de famílias de plantas registradas no mundo. A produção agrícola é responsável por 12,5% das emissões de gases do efeito estufa na atmosfera e, no ritmo que estamos, elas levarão nosso planeta ao colapso. Logo, é importante reconhecer a necessidade de promover a inserção de vegetais perenes no campo.

Potencial de retenção de carbono

O solo é considerado o principal reservatório temporário de carbono no ecossistema, apresentando, em média, 4,5 vezes mais carbono que a biota1 conjunto de seres vivos, flora e fauna e 3,3 vezes mais do que a atmosfera. Quando a agricultura tradicional converte ecossistemas naturais em monoculturas, a perda de carbono chega a ser superior a 60% em solos temperados e superior a 75% do estoque original em solos tropicais, emitindo, assim, o gás para a atmosfera. Uma novidade trazida pelo estudo é, justamente, uma contrapartida a essa poluição, destacando o potencial de captura de carbono das plantas perenes.

Para estimar esse percentual, os pesquisadores calcularam as taxas de sequestro de carbono por hectare, as taxas de adoção das culturas e o potencial total após a adoção de 25%, 50% e 75%. Outra variável incluída na análise foi o tipo de vegetal perene: as plantas analisadas no estudo são lenhosas, herbáceas e videiras, sendo as lenhosas – árvores, bambus, cactos, manguezais – as com maior capacidade de captura de carbono. A taxa média desse tipo é de 3,7 toneladas de carbono por hectare ao ano, enquanto herbáceas e videiras retém 0,43 toneladas.

Mesmo com dados existentes sobre vegetais perenes esparsos, os pesquisadores projetaram 12 possíveis cenários, levando em conta o espaço atual de produção vegetal global, que permanece constante em 58,2 milhões de hectares (aproximadamente o tamanho do estado de Minas Gerais, 4º maior do Brasil). Tendo, também, com base um estudo que aponta que, para fornecer nutrientes suficientes para a humanidade, essa área deve triplicar para 174,5 milhões de hectares, o estudo criou tendências para 2020-2050.

No “melhor dos casos”, no qual o aumento suba para 75%, os vegetais perenes passariam de um espaço de 3,3 milhões de hectares para 26 milhões, até 2050, e poderiam armazenar aproximadamente 280,6 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono por ano. Esse número é equivalente a cortar a carne da dieta dos americanos ou eliminar as emissões de 60 milhões de carros. “Espero colocar algumas novas safras em destaque, especialmente árvores com folhas comestíveis, como a amoreira”, afirmou o autor do estudo, Eric Toensmier, para o Civil Eats.

Uma dieta mais saudável

O subconsumo de vegetais é um problema global, apresentando desnutrição “tradicional”, principalmente no sul global, e deficiências dietéticas industriais, principalmente no norte global. O estudo estima que dois bilhões de pessoas sejam afetadas pela desnutrição tradicional e, coletivamente, tais deficiências correspondem a 7% da carga global de doenças. Algumas das principais vitaminas desse grupo – ferro, zinco, vitamina A – são encontrados em níveis elevados nos vegetais perenes.

Das espécies avaliadas pelo estudo, 154 mostraram níveis superabundantes de nutrientes, sendo 23 pontuando “superabundante” em mais de quatro nutrientes. Como explicado acima, esses níveis são mais proeminentes em plantas lenhosas com folhas comestíveis, como a amoreira. Em agosto, o IBGE divulgou a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF): 2017-2018: Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil, destacando a redução do consumo de fibra entre a população. A média em 2017-2018 foi de 15,6g/dia, sendo a média de 2008-2009 de 20,5g/dia. Ainda sim, a recomendação diária é de 25g. Encorajar comunidades a adotarem novas safras é um desafio, mas, olhar para um futuro com maior presença desses alimentos em nossos pratos é, também, pensar menores gastos com saúde – tanto para o paciente, quanto para o Estado.

Através de políticas públicas, governos podem identificar as espécies mais adequadas ao clima da sua região e direcionadas às necessidades específicas de nutrientes da população. Em uma realidade na qual o preço dos alimentos têm subido mundialmente, e repercutido no Brasil com aumento de 3,69% nos valores, olhar para formas de mitigação da fome se faz uma prioridade. Em conjunto com outras práticas, como reflorestamento, recuperação de pastagens degradadas, adoção de Sistemas Agroflorestais (SAFs), os vegetais perenes abrem espaço para policultura e biodiversidade, tornando sistemas regenerativos mais rentáveis e reduzindo o manejo intensivo do solo e uso de agrotóxicos.

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