Feminismo No Prato: Questionando Opressões Em Um Hábito De Todo Dia

“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de artigos que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.

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O ato de se alimentar pode, para muitas pessoas, parecer uma simples escolha, baseada em preferências pessoais. Entretanto, esse ato envolve questões éticas e políticas, de modo que a alimentação não é neutra, mas sensível também às questões de gênero. A partir do momento no qual nossas escolhas alimentares afetam outras vidas, comer passa a ser um ato político e ético.

Assim, é preciso lembrar que o alimento que nos chega ao prato necessariamente passa pela sua produção. Contudo, ela é invisível para quem vive nos centros urbanos e mantem no imaginário galinhas e vacas felizes no pasto. Tirar da invisibilidade a exploração de humanos, animais e natureza é um primeiro passo em direção a uma sociedade justa.

Nas últimas décadas, a agricultura e a alimentação passaram por significativas transformações. A industrialização afetou diretamente os meios de produção e a própria indústria passou a dizer o que é bom ou não para as pessoas comerem, a partir dos seus interesses privados.[1] A revolução verde, na década de 1970, é um marco nesse processo, que passou a usar a lógica bélica para a produção do que deveria nos manter vivos e saudáveis, em equilíbrio com o meio ambiente.

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Hoje, as consequências dessa industrialização bélica são devastadoras: são 56 bilhões de animais mortos por ano para consumo humano, enquanto 795 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo,[2] embora já se saiba que o problema da fome não é decorrente da escassez de alimentos, mas de acesso ao alimento.[3]

Nosso cenário hoje é de exploração de animais para consumo humano, envenenamento dos alimentos por uso de pesticidas e agrotóxicos, alimentos altamente industrializados, doenças decorrentes da má alimentação, poluição do solo, da água e do ar, pessoas trabalhando em situação análoga à escravidão.

Em 2016, a Corte Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou internacionalmente o Estado brasileiro por não ter prevenido a prática de trabalho escravo moderno e o tráfico de pessoas, no caso Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil. Nas notícias que repercutiram nacionalmente, não raro líamos que os trabalhadores e as trabalhadoras da Brasil Verde tinham “vida de gado”. Era gado cuidando de gado.

Mas qual seria a relação disso tudo com o feminismo ecoanimalista? A partir do momento no qual percebemos as relações de poder na agricultura e, especialmente, que mais da metade dos alimentos no mundo são produzidos por mulheres, agricultura e alimentação tornam-se também questões feministas. Mas se essas relações de poder são exercidas também contra outras formas de vida que não humanas, ela é também uma questão ecoanimalista. Nesse caso, a expressão “vida de gado” não é inocente: pressupõe e reconhece que gado é explorado e que subjaz a mesma lógica da dominação e opressão sobre os que estão do lado de baixo do dualismo.

Subverter essa lógica é papel do veganismo. Assim, a dieta abolicionista vegana [4] é uma implicação prática da ética sensível ao cuidado. Dieta, aqui, tem o sentido grego: significa modo de viver. O feminismo ecoanimalista busca um modo de viver no qual não haja qualquer tipo de exploração humana e não humana, ou seja, que rompa com a lógica da dominação presente em todos os “ismos” – machismo, racismo, elitismo, especismo etc.

Abolir todas essas formas de dominação significa tirar do prato qualquer alimento que provenha de exploração humana ou não humana. No lugar deles, é preciso colocar no prato alimentos que sejam produzidos com respeito a todas as formas de vida. A agricultura orgânica e familiar entra em cena como protagonista nesse cenário.

O veganismo, portanto, é uma condição necessária para o feminismo ecoanimalista. Ao considerar que o vegetarianismo não é uma questão neutra em relação ao gênero, a escolha da dieta em uma cultura machista é uma forma de politizar a ética do cuidado e opor resistência à pressão dos padrões machistas.[5] A produção de ovos e leite no sistema bélico significa dor e sofrimento para fêmeas escravizadas, ou seja, são a exploração das capacidades reprodutivas das galinhas e vacas.

Ironicamente, os direitos reprodutivos são justamente centrais na pauta feminista. Portanto, é preciso romper a barreira da espécie e abolir a produção da proteína feminizada dos ovos e do leite, que transforma animais em referentes ausentes, pela mesma lógica que transforma as mulheres em objeto, em um exemplo de como especismo e machismo andam de mãos dadas. Enquanto a dieta machista – marcada pela dominação – for mantida, não haverá libertação das mulheres.[6]

Notas de rodapé:

[1] Em Neither Man nor Beast: Feminism and the Defense of Animals, Carol J. Adams denuncia a influência da indústria na construção da pirâmide alimentar nos Estados Unidos.
[2] FAO. State of Food Insecurity in the World. 2015.
[3] Leia mais em: http://justificando.cartacapital.com.br/2015/08/10/fome-de-que/ e http://justificando.cartacapital.com.br/2015/08/19/quantos-pratos-de-exploracao-voce-consome-por-dia/
[4] Expressão da filósofa Sônia T. Felipe.
[5] CURTIN, Deane. Toward an Ecological Ethic of Care, p. 76.
[6] FELIPE, Sônia T. A perspectiva ecoanimalista feminista antiespecista. In: STEVENS, Cristina; OLIVEIRA, Susane Rodrigues de; ZANELLO, Valeska. Estudos feministas e de gênero: articulações e perspectivas. Florianópolis: Mulheres, 2014, p. 52-73.