Rumo ao Ecofeminismo Queer: Erotofobia e a Colonização de Queer(s)/Natureza

A retórica e a instituição do cristianismo, juntamente com os impulsos imperialistas de Estados-Nação militarizados, têm sido usadas por quase dois mil anos para retratar a heterossexualidade, o sexismo, o racismo, o classismo e a opressão do mundo natural como divinamente ordenado. Hoje, embora as Nações ocidentais industrializadas do século XX pretendam ser amplamente seculares, os países com origens cristãs e coloniais sustentam a ideologia de uma dominação divinamente inspirada. Esta seção irá primeiro analisar como o cristianismo tem sido utilizado para autorizar a exploração das mulheres, as culturas indígenas, os animais, o mundo natural e as/os queers. Terminará examinando as práticas coloniais do século XX.

Muitas feministas e ecofeministas que examinaram as relações hierárquicas e opressivas da cultura ocidental com a natureza datam o problema da separação do homem da natureza (o precedente necessário para a hierarquia e opressão) por volta de 4.000 a.C., o período neolítico e a conquista das culturas matrifocais, agrícolas e de adoração à deusa por culturas militares nômades que adoravam um deus do sexo masculino. [1] A visão rural – de que o espírito era imanente em toda a natureza, de que a sexualidade e a reprodução eram como a fertilidade da terra e que ambos eram sagrados – foi substituída por uma cosmovisão que concebia a divindade como transcendente, separada da natureza, e com os humanos e a natureza como criações de Deus e não como partes iguais de Deus. A Deusa mulher, bissexual ou hermafrodita foi substituída por um Deus masculino heterossexual do Pai e a trindade matrifocal da Donzela, Mãe e Anciã tornou-se a trindade patriarcal do Pai, Filho e Espírito Santo. [2]

Assim, na busca das origens dos vínculos conceituais entre mulheres, natureza, pessoas não brancas e queers, juntamente com a sua opressão coletiva, muitas feministas e ecofeministas diriam que é mais importante olhar para a mudança na organização social de estruturas e valores matrifocais para patrifocais do que explorar como uma forma particular de religião patriarcal (historicamente anterior à mudança por séculos ou até milênios) autorizou a subordinação das mulheres, natureza e as suas associações.

Para outras ecofeministas, no entanto, as teorias de um passado matrifocal permanecem apenas isto – teorias antropológicas e não fatos históricos. Muito da antropologia é baseada em alguns pedaços de cerâmica quebrada, ossos dispersos e restos de construções, de maneira que algumas ecofeministas relutam em desenvolver novas teorias ecofeministas que se fundem somente nessas interpretações. Todas as ecofeministas que abordaram o tema da espiritualidade, contudo, observaram que o cristianismo tem sido usado tanto como uma autorização como um mandato para a subordinação das mulheres, natureza, pessoas não brancas, animais e queers – e é este acordo que vou tomar como ponto de partida. [3]

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O cristianismo surgiu como uma seita asceta pequena, um entre muitos cultos no Império Romano. Foi, desde o início, uma religião urbana elaborada no contexto de filosofias urbanas seculares ao invés do contexto baseado na terra, de um agriculturalismo rural. As crenças das/os primeiras/os cristãs/ãos incluíam a concepção de Adão como masculino e feminino e de Cristo como o Adão andrógino restaurado; [4] e a crítica oposição entre razão e paixão [5] com o poder da razão (logos) como a única característica distinguindo os humanos dos animais [6].

Comparando algumas dessas crenças com o contexto no qual elas/es se originaram, pode-se supor que as/os defensoras/es do cristianismo foram influenciadas/os tanto pelas crenças das culturas ancestrais baseadas na terra como pelas filosofias populares de sua época, tais como o estoicismo e o gnosticismo. Além disso, a sua capacidade de incorporar aspectos dessas outras crenças populares pode ter aumentado o seu recurso e garantido a sua sobrevivência.

As primeiras perspectivas do cristianismo sobre o sexo e o erótico também se adequavam ao temperamento da época. O cristianismo surgiu numa época de crescente militarização do Estado Romano. Esta foi precedida por uma “onda de ascetismo sombrio”. [7] Para os filósofos epicuristas e estoicos do período, o sexo e outros prazeres eróticos eram vistos como distrações da vida contemplativa. A moral estoica estendeu a castidade como um ideal com as relações heterossexuais permitidas apenas para a procriação dentro do casamento; outros escritores gregos e romanos também sustentavam que a procriação era o único motivo legítimo para o coito. [8]

De acordo com David Greemberg, “para ser como os anjos era preciso ser espiritual; ser carnal, não espiritual. O sexo era a essência da carnalidade, portanto, a antítese da espiritualidade”. [9] Durante os dois primeiros séculos do cristianismo, bispos e teólogos exigiam o celibato de todos os cristãos, mas depois se retrataram (possivelmente por medo de alienar potenciais convertidos) e permitiram um comportamento sexual limitado dentro do casamento com o único propósito da procriação. [10]

Do século II ao século IV d.C., as lideranças das igrejas deram mais atenção ao tema do sexo e o rejeitaram mais veemente do que os autores do Novo Testamento. [11] Assim, seria incorreto afirmar que o cristianismo opunha-se à sexualidade per si; mas sim, que o cristianismo era contra todos os atos sexuais que não tinha por propósito a procriação. [12] O que distinguia o cristianismo dos muitos outros cultos ascéticos do seu tempo era a gravidade do seu ascetismo, a sua completa intolerância às outras religiões, e o elevado grau de organização entre seus seguidores. [13]

A hierarquia – a estrutura organizacional e a crença religiosa que caracterizam o cristianismo – pode também ter contribuído para a sua sobrevivência, pois esta crença se enquadrava bem entre os romanos, que elogiavam “as virtudes do autossacrifício em nome do Estado, a obediência a autoridade hierárquica e a suspeita do prazer e do sexo”. [14] Como Elizabeth Dodson Gray observou, dois relatos da criação da Gênesis têm sido utilizados no cristianismo para legitimar tanto a hierarquia humano/não humano (a dominação humana sobre a natureza, tal como descrito na Gênesis 1) como o antropocentrismo (o homem como centro da criação, como descrito na Gênesis 2). Gray nos faz lembrar, além disso, que a hierarquia em si mesma significa a santa ordem. [15]

Seu trabalho mostra que, originalmente, o cristianismo interpretava todas as escalas sociais e econômicas como reflexo de uma ordem sagrada, como o apóstolo Paulo explicou: “Vamos todos obedecer às autoridades que estão sobre ele, pois não há autoridade exceto por Deus e toda a autoridade que existe é estabelecida por Deus”. [16] A simetria conceitual entre o cristianismo e o Estado Romano tornou possível que o cristianismo se difundisse gradualmente ao longo do exército romano, onde incorporou elementos adicionais de uma religião que estava se afirmando (mitraísmo). Finalmente, sob o comando do Imperador Constantino, “a cruz foi adotada como um símbolo militar e colocada em escudos e bandeiras”.[17]

No século IV d.C., o Império Romano tornou-se o Sacro Império Romano, e a união da Igreja e o Estado, representando o reino da vontade de Deus na Terra, foi selada. A inferioridade e subordinação das mulheres, animais, corpo, natureza, erótico e todas as suas associações foi proclamada por lei, decretada pela religião e incansavelmente executada. Do século IV ao XVII, todas/os aquelas/es percebidas/os como “natureza” foram perseguidos por uma série de violentas ofensivas: a Inquisição, as Cruzadas, a queima das bruxas e as “viagens de descoberta”.

Em seu clássico A feitiçaria e a contracultura gay, Arthur Evans escreve sobre as semelhanças entre a Inquisição e a queima das bruxas, especialmente em sua busca de vítimas. Do século IV ao XIII, a Igreja foi flagelada com influências pagãs através do ressurgimento de antigas religiões tentando se combinar com alguns dos dogmas do cristianismo: gnosticismo, maniqueísmo, massalianismo, bogomilismo, catarismo, espírito livre, entre outros. De acordo com Evans, esses movimentos exibiam cinco características importantes:

1) a crença em mais de uma divindade;
2) um papel de liderança importante para as mulheres;
3) um sentido pagão de ascetismo, incluindo a autonegação e autoindulgência;
4) hostilidade para com a riqueza e o poder da Igreja;
5) uma tolerância com o sexo gay [18]

Incapaz de reprimir essas contínuas ressurgências, a Igreja declarou tais crenças heresia e ordenou a sua erradicação. A Santa Inquisição foi criada pelo Papa Gregório IX, entre 1227 e 1235, e, em 1233, uma de suas famosas encíclicas, o Vox in Rama, acusou os hereges de praticarem ritos sexuais que era “contra a razão”. [19] A Inquisição utilizava a propriedade dos réus para pagar os custos do julgamento e execução, e a caça à heresia tornou-se uma indústria importante na Idade Média. Motivações econômicas certamente explicam a perseguição de uma ordem monástica militar específica das Cruzadas, os Cavaleiros Templários.

Em 1307, o Rei Felipe da França levantou acusações de relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo contra a ordem inteira. Cinco mil de seus membros foram presos e, em poucos anos, os restantes que estavam livres foram caçados por toda a Europa, até que a ordem foi abolida. Como Evans explica, os Cavaleiros Templários tinham acumulado uma grande quantidade de riqueza e haviam se tornado os banqueiros-chefe da Idade Média: “tanto o Papa Clemente quanto o Rei Felipe tinham dívidas com eles”.[20] Neste primeiro exemplo de muitos, a Igreja pode ser vista usando a retórica antierótica e homofóbica para mascarar suas motivações econômicas e as do Estado.

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Se o Vox in Rama foi o ponto de partida para a Inquisição, o surgimento do Malleus Maleficarum, em 1486, foi certamente o divisor de águas para a queima das bruxas. Escrito por dois monges dominicanos, o “martelo das bruxas” explicitamente liga a feitiçaria com as mulheres e a “natureza inferior” das mulheres alegando que elas são “mais carnais” que os homens. [21] A prática espiritual da bruxaria era popularmente vista como implicitamente sexual: as pessoas detidas por suspeita de bruxaria eram sempre questionadas sobre suas vidas sexuais; acreditava-se que as bruxas realizavam rituais selvagens e picantes que culminavam com elas beijando o ânus do diabo ou tendo relações sexuais com o diabo. [22]

Os comportamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo e a não conformidade de gênero também foram conceitualmente ligados à bruxaria: a expressão “mulheres com mulheres” repetia-se em todos os relatórios da Inquisição acerca dos comportamentos sexuais das bruxas, na maioria mulheres. A acusação de “orgias selvagens”, com efeito, sugere que as mulheres estavam se envolvendo sexualmente umas com as outras. [23] Os homens que se envolviam em comportamentos sexuais com outros do mesmo sexo eram muitas vezes estrangulados e queimados em feixes de varas chamados de “faggots” [24], que eram amarrados e amontoados em gravetos aos pés das “bruxas”. [25]

E o primeiro exemplo notório do que hoje poderia ser chamado perseguição a transgêneros: [26] em 1431, aos 19 anos, Joana D’Arc foi queimada na fogueira como bruxa, condenada à morte pelo pecado de usar roupas masculinas.[27] Mulheres mais velhas, economicamente independentes e desprotegidas por um homem, eram especialmente vulneráveis a acusações de feitiçaria. Tal qual os condenados pela Inquisição, suas propriedades e bens eram apreendidos e utilizados para pagar os custos de suas execuções. [28] As estimativas do número de bruxas executadas variam entre 100.000 e 9.000.000; alguns dizem que cerca de 83% das pessoas executadas como bruxas eram mulheres. [29]

O que se sabe sobre a relação entre a época das fogueiras e a colonização das Américas? Arthur Evans afirma de forma inequívoca: “a homossexualidade generalizada dos índios da América do Norte foi usada como desculpa para o seu extermínio pelos brancos cristãos invasores”.[30] Em Uma história gay americana, Jonathan Ned Katz escreve que “a cristianização dos índios americanos e a apropriação colonial do continente pela ‘civilização’ Ocidental branca incluíram a tentativa dos colonizadores de eliminar várias formas tradicionais de homossexualidade indígena – como parte de sua tentativa de destruir a cultura nativa que pudesse alimentar a resistência –, uma forma de genocídio cultural envolvendo tanto os nativos americanos como as pessoas gays”. [31]

E em seu estudo sobre o HomemMulher Zuni, Will Roscoe considera, remontando ao século XVI, inúmeros relatos sobre o “pecado” do comportamento sexual nativo – a falta de inibição, a prevalência da sodomia e a tolerância ou mesmo respeito pelas pessoas transgêneras – que alimentou o argumento dos exploradores espanhóis pela colonização dos povos indígenas e suas terras em nome do cristianismo. [32]

É interessante notar que tanto os monarcas como os exploradores sentiam a necessidade de justificar os seus desejos colonialistas por mais terra, mais riqueza e mais escravos. Para os teólogos medievais, o cristianismo herdou a mensagem de que os “frutos de qualquer conquista só poderiam ser legítimos se a guerra que eles ganharem for justa”; convenientemente, através das Cruzadas, o cristianismo desenvolveu o princípio de que a “guerra conduzida no interesse da Santa Igreja era automaticamente justa”. [33]Uma vez que a Igreja se dedicou, desde sua criação, à perseguição do erótico, pareceu adequado à justificação da colonização dos povos nativos escolher comportamentos sexuais deles como prova de seu paganismo e falta de civilidade.

A valiosa pesquisa de Katz em Uma história gay americana oferece numerosas observações das práticas sexuais indígenas que datam da época dos exploradores do século XVI. Esses registros expressam claramente as atitudes imperialistas e erotofóbicas dos exploradores. “O povo desta nação [os Choctawl] são geralmente de uma natureza brutal e grosseira”, escreveu Jean Bernard Bossu. “Eles são moralmente muito pervertidos e a maioria deles são viciados em sodomia. Estes homens corruptos […] têm cabelos compridos e usam saias curtas, como as mulheres. [34] “O pecado da sodomia prevalece mais entre eles do que em qualquer outra nação, embora eles sejam quatro mulheres para cada homem”, escreveu Pierre Liette sobre os Miamis, em 1702. [35]

O papel dos nadleeh, ou pessoas transgêneras, particularmente ofendiam as sensibilidades da Europa Ocidental.[36] Dos Iroquois, os Illinois, e outras tribos na região de Lousiana, o explorador e historiador jesuíta Pierre Franaeois Xavier de Charlevoix escreveu, em 1721: “essas pessoas efeminadas nunca se casam e abandonamse às paixões mais infames”. [37] Quando o padre jesuíta Pedro Font encontrou “alguns homens vestidos como mulheres” entre os Yumas da Califórnia, ele perguntou sobre as roupas e aprendeu que “eles eram sodomitas dedicados a práticas desonestas”. Font concluiu que “haverá muito o que fazer quando a Santa Fé e a religião cristã se estabelecer entre eles”. [38]

O missionário Francisco Palou relatou chocado que “quase todas as aldeias”, no que hoje é o sul da Califórnia, “tinham duas ou três” pessoas transgêneras, mas rezou “para que estas pessoas malditas desapareçam com o crescimento das missões. O abominável vício será eliminado na medida em que a fé da Igreja Católica e todas as outras virtudes sejam firmemente implementadas lá, para a glória de Deus e o benefício desses pobres ignorantes”.[39] Na retórica do colonialismo cristão, os europeus preenchiam a natureza selvagem com uma cultura ‘civilizada’ benevolente – e esta ‘civilidade’ incluía tomar as terras das/os indígenas, eliminar as suas práticas culturais e espirituais e estuprar e escravizar o seu povo.

Um exemplo concreto do papel que a erotofobia teve na autorização da colonização pode ser útil. Em seu livro Os maiores irmãos, Alan Ereira relata sobre os Kogi, que viviam bem no fundo das montanhas da Sierra Nevada colombiana, e que podem ser “os últimos sobreviventes de uma civilização avançada da América pré-conquistada”. [40]Em 1498, a terra em torno do que é hoje a cidade colombiana de Santa Marta foi descoberta pelos espanhóis em busca de ouro, e, em 12 de junho de 1514, um galeão espanhol chegou e começou o processo de colonização. Esse processo envolvia a leitura de um decreto que declarava a nova servidão dos indígenas ao rei Ferdinando e ao Deus cristão, na língua espanhola e caribenha, embora os povos nativos não falassem nenhuma delas. O conquistador espanhol Pedrarias Davila concluiu a sua proclamação com a advertência de que, se o povo indígena não se submetesse a essa regra,

Eu vos garanto que com a ajuda de Deus me voltarei furiosamente contra vocês, proclamarei guerra contra vocês em todos os lugares e de todas as formas que eu puder, e vou sujeitá-los ao julgo e à obediência da Igreja e de suas altezas, tomarei seu povo e suas mulheres e as suas crianças e os farei escravos, e, como tal, vou vendê-los e colocá-los conforme os mais altos comandos: levarei seus produtos e farei a vocês todos os tipos de males e danos que puder, assim como a vassalos que não obedecem e que não querem receber o seu senhor, resistem a ele ou o contrariam. E declaro que as mortes e os danos que decorrem disto serão culpa de vocês, e não de suas altezas, nem minha, nem dos colegas que estão comigo aqui. [41]

A invasão espanhola procedeu de acordo com isso. Como observa Ereira, o gênero e a sexualidade desempenharam um papel proeminente na retórica e na justificação da conquista colonial. “Os espanhóis não podiam suportar as relações entre os sexos dos índios”, ele escreve. “Era tão fundamentalmente diferente deles que parecia um ultraje. Os homens não dominavam as mulheres.[42] Os espanhóis ficaram horrorizados, aliás, pela aceitação dos comportamentos homossexuais e as identidades transgêneras: “Foi um medo interior, um medo de sua própria natureza. E assim eles partiram para eliminar a sodomia entre os índios”. [43]

Depois de quase um século de escravidão colonial e zelo missionário, a Espanha concluiu o seu ataque mais cruel contra a população indígena em 1599. O governador de Santa Marta reuniu todos os chefes nativos da base das Sierras e disse-lhes que iria pôr fim aos seus “ímpios pecados”. [44]A população nativa planejou uma revolta, mas notícias sobre seus planos vazaram para a Espanha através de dois de seus missionários e os espanhóis foram preparados. Durante três meses, a Espanha realizou o seu próprio plano de tortura e genocídio contra os povos indígenas. Quando tudo acabou, o governador declarou:

E se qualquer outro índio for encontrado comentando ou praticando o pecado perverso e antinatural da sodomia, ele será condenado de maneira que, no momento e lugar que eu especificar, deva ser garroteado na forma habitual e em seguida ele deve ser queimado vivo e totalmente consumido em pó, para que não tenha memória e para que os índios compreendam que esta punição deverá ser alargada a todos os que cometem esse crime. [45]

Aquelas pessoas que “desejavam viver” eram obrigadas a pagar uma multa de “pacificação” no valor de mil e quinhentas libras de ouro.[46] O desvio de papel de gênero e a aceitação da presença de práticas eróticas não heterossexuais tornou-se a justificativa retórica para o genocídio e o colonialismo.

Não eram apenas as práticas transgêneras e a sodomia que perturbavam os colonizadores; mesmo as práticas heterossexuais sem as restrições impostas pelo cristianismo foram questionadas. Entre os Hopi do Sudoeste, por exemplo, aqueles que haviam sido convertidos ao cristianismo foram proibidos de participar da tradicional dança da serpente, por que lá “o travestismo masculino, adultério e bestialidade podiam ser observados publicamente”.[47] Os missionário opunham-se às práticas heterossexuais dos índios de Pueblo, chamando-as de “bestiais” porque, “como os animais, a mulher se coloca publicamente de quatro”. [48]

O que ficou conhecido como “a posição missionária” foi defendida pelo teólogo espanhol do século XVII Tomás Sanches, no seu sacramento De sancto matrimond, como a “forma natural de relação sexual […] O homem deve estar em cima e a mulher embaixo. Porque essa forma é mais adequada para o derrame da semente masculina, para a sua recepção no vaso feminino”.[49] Sánchez comparou o falo a um arado e a mulher à terra; a posição missionária seria a mais propícia à procriação e, portanto, mais ‘natural’. Em contrapartida, a posição mulier supra virum (mulher sobre o homem) era “absolutamente contrária à ordem da natureza”. [50]

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Apelos à natureza têm sido muitas vezes utilizados para justificar as normas sociais em detrimento das mulheres, natureza, queers e pessoas não brancas. A gama de ataques à sexualidade é a razão pela qual denomino a perspectiva do colonizador de erotofóbica ao invés de simplesmente homofóbica. Esta erotofobia colonial permaneceu intacta através da chegada dos peregrinos, a criação dos Estados Unidos e as ondas de expansão que se seguiram para o Oeste. No século XX, as narrativas de colonialismo e exploração continuam a ostentar o selo de erotofobia, como revelam as críticas feministas.

Em seu estudo sobre raça e gênero na política internacional, Cynthia Enloe encontra importantes ligações entre as concepções de nacionalismo e de masculinidade. Nos discursos colonialistas dos séculos XIX e XX, os países subordinados são feminizados, os homens subordinados são emasculados e as mulheres colonizadas são, frequentemente, retratadas como objetos sexuais pelos homens estrangeiros. Um escritor descreveu o colonialismo como a condição na qual as mulheres de um homem são “transformadas em forragens para os postais imperialistas. Tornar-se um nacionalista exige que se use o estrangeiro e que se abuse de suas mulheres”. [51]

Em seus estudos sobre as expedições polares dos EUA, Lisa Bloom considera que “as explorações simbolicamente aprovaram a própria batalha dos homens para se tornarem homens”, e as narrativas registradas pelos exploradores mostram “a identidade nacional estadunidense como sendo essencialmente aquela de um homem branco”. [52] Os textos de Enloe e Bloom reimprimem as imagens dos cartõespostais coloniais populares de mulheres indígenas nuas ou parcialmente vestidas reclinadas sobre o terreno naquilo que Bloom chama de “a pose da odalisca”.[53]

Como os colonizadores de três ou quatro séculos passados, os exploradores e imperialistas dos séculos XIX e XX usaram o erotismo percebido dos povos indígenas como justificativa para a sua colonização. Servindo como base para todas as explorações imperialistas, o nacionalismo colonial oferece uma definição de identidade que é estruturalmente semelhante à identidade mestre. Enloe define uma nação como “um conjunto de pessoas que passaram a acreditar que foram moldadas por um passado comum e que se destinam a partilhar um futuro comum. Essa crença é geralmente alimentada por uma linguagem comum e um senso de alteridade dos grupos em torno deles”. [54]

O nacionalismo é, portanto, “um conjunto de ideias que aguçam as distinções entre “nós” e “elas/es”. É, aliás, uma ferramenta para explicar como foram criadas as desigualdades entre “nós” e “eles”.[55] Da mesma forma, os editores de Nacionalismo e sexualidades explicam que “a identidade nacional é determinada não com base em suas próprias propriedades intrínsecas, mas em função daquilo que (provavelmente) não é”.[56] Inevitavelmente “moldada em relação àquilo ao qual se opõe”, uma identidade nacional que depende de tais diferenças está “para sempre assombrada pelos [seus] vários outros definidores”. [57]

Olhando para essas definições de nacionalismo a partir de uma perspectiva ecofeminista, fica evidente que a identidade nacional tem uma semelhança estrutural com o modelo do mestre definido por Plumwood. A identidade nacional participa de duas das cinco operações que caracterizam a identidade mestre – exclusão radical e incorporação. O nacionalismo colonial, no entanto, depende de todas as cinco operações do modelo do mestre, incluindo os postulados do pano de fundo, instrumentalismo e homogeneização.

Em toda a documentação dos descobridores e exploradores, os povos indígenas são construídos como semelhantes aos animais: eles são vistos como excessivamente sexuais e seus comportamentos sexuais são descritos como pecaminosos e animalescos. As mulheres indígenas são erotizadas, enquanto os homens são feminizados – e todas essas associações são utilizadas para autorizar a colonização.

A característica da identidade masculina que Enloe e Bloom parecem ignorar e que Plumwood não explicita é a sexualidade. Aqui, novamente, as teorias feministas e ecofeministas não vão longe sem uma perspectiva queer. Como Gayle Rubin observou, “o feminismo é a teoria da opressão de gênero. Para assumir automaticamente que isto faz dela a teoria da opressão sexual é não fazer a distinção entre gênero, por um lado, e o desejo erótico, por outro”. [58]

A teórica queer Eve Sedgwick argumenta que gênero e sexualidade são “inextricáveis […] na medida em que cada um só pode ser expresso em termos do outro […] na cultura Ocidental do século XX o gênero e a sexualidade representam dois eixos analíticos que podem ser produtivamente imaginados como sendo tão distintos um do outro como, por exemplo, gênero e classe ou classe e raça”. [59]

A partir de uma perspectiva ecofeminista queer, então, fica evidente que as noções de sexualidade estão implícitas na categoria de gênero. Simplificando, a masculinidade do colonizador e a identidade mestre do Plumwood não são nem homossexuais, bissexuais ou transgêneras. A heterossexualidade – e um certo tipo de heterossexualidade, assim como uma heterossexualidade restrita a certos parâmetros – está implícita nas conceituações tanto de masculinidade dominante como no modelo mestre de Plumwood.

Nos exemplos anteriores, o discurso do nacionalismo colonialista contém concepções específicas não só de raça e gênero, mas também de sexualidade. O nativo feminizado não é simplesmente erotizado, mas também queerizado e animalizado, de forma que qualquer comportamento sexual que esteja fora dos limites rígidos da heterossexualidade compulsória torna-se estranho e subumano.

A colonização torna-se um ato de autoafirmação da identidade nacionalista e uma definição sobre e contra os outros – a cultura sobre e contra a natureza, o masculino sobre e contra o feminino, a razão acima e contra o erótico. O ‘impulso’ metafórico do colonialismo tem sido descrito como a violação dos povos indígenas e da natureza porque existe uma similaridade estrutural – não experiencial – entre as duas operações, embora a colonização regularmente inclua o estupro.

As ecofeministas ocidentais têm repetidamente argumentado contra a feminização da natureza em metáforas como “mãe natureza” por causa da subordinação implícita nestas construções de gênero, dado o contexto da cultura patriarcal ocidental. Elizabeth Dodson Gray pode ser a primeira escritora ecofeminista a desafiar a “tirania da norma do homem, branco e heterossexual”, em seu livro O paraíso verde perdido, quando ela mostra como a metáfora da “mãe natureza” conduz à subordinação. Na cultura patriarcal Ocidental, explica Gray, a masculinidade é definida não apenas como a independência, mas como “não dependente”.

O processo de socializar garotos em homens envolve negar a dependência da mãe; a dependência é, então, transferida para a esposa. A masculinidade superior é preservada pela construção social da “esposa” como “submissa […] economicamente impotente e em muitas outras maneiras […] inferior e não ameaçadora para o seu homem. Em suma, uma mulher deve estar abaixo de seu homem, não acima”. [60]Segundo Gray, a mesma transferência está trabalhando no relacionamento da cultura Ocidental com a natureza.

Os homens têm feito com a Mãe Natureza este mesmo flipflop de dominação/submissão. Por meio de suas tecnologias, eles têm trabalhado constantemente, e por gerações, para transformar uma dependência psicologicamente intolerável baseada numa poderosa e caprichosa “Mãe Natureza” em uma dependência suave e aceitável baseada na “esposa” subserviente e não ameaçadora. [61] Esta “necessidade de estar acima” e dominar permeiam as atitudes masculinas para com a natureza.[62]

Como afirmei anteriormente, quando a natureza é feminizada e, assim, erotizada, e a cultura é masculinizada, a relação natureza-cultura torna-se uma das formas de heterossexualidade compulsória. [63] A colonização pode ser vista, dessa forma, como uma relação de heterossexualidade compulsória em que o erótico queer dos povos não ocidentalizados, suas culturas e suas terras são subjugadas na posição missionária – com o conquistador “em cima”. [64]

Rumo ao ecofeminismo queer

Eventos importantes da história do Ocidente revelam as bases para um ecofeminismo queer. Mais do que em qualquer outro período, os séculos XVI e XVII esclarecem as ligações conceituais entre a opressão das mulheres, do erótico e da natureza. Como tão bem demonstrado por Carolyn Merchant [65], Susan Griffin[66] e Evelyn Fox Keller[67], em um sistema patriarcal que concebe a natureza como feminina, existe uma clara e necessária conexão entre o desenvolvimento da ciência como o controle racional de um mundo natural caótico e a perseguição às mulheres como algo inerentemente irracional, erótico e, portanto, sendo elas criaturas do mal.

Essas conexões têm fornecido as bases conceituais das teorias ecofeministas. As bases para um ecofeminismo queer, nesse sentido, são estabelecidas através da restauração e interrogação de outros aspectos desse período histórico: de que as mulheres acusadas de bruxaria foram acusadas não só pelo seu gênero, mas pelas suas sexualidades e práticas eróticas percebidas; de que estas mulheres eram frequentemente queimadas com os homens que faziam sexo com outros homens; de que a conquista colonial dos povos indígenas nas Américas foi autorizada, em parte, com base nos comportamentos sexuais dos indígenas.

Estou argumentando que uma leitura cuidadosa desses vários movimentos de dominação – a perseguição das mulheres por meio da queima às bruxas, da natureza pela ciência e dos povos indígenas pelo colonialismo –, que atingiu um pico durante o mesmo período histórico na Europa Ocidental, levará às raízes de uma ideologia na qual o erótico, as sexualidades queer, as mulheres, as pessoas não brancas e a natureza estão todos conceitualmente interligados.

Hoje, todas/os aquelas/es associadas/os à natureza e ao erótico continuam a experimentar o impacto de séculos de colonização da cultura ocidental, em nossos próprios corpos e em nossas vidas diárias, rejeitando que a colonização exige envolver o erótico em toda a sua diversidade e a formação de coalizões para a criação de uma cultura democrática e ecológica baseada em nossa libertação compartilhada.

Para criar esta cultura, temos que combinar as ideias das teorias queer e ecofeministas. Como as feministas têm discutido por muito tempo, a saída desse sistema endêmico de violência exige a libertação do erótico – não em algum esquema liberal fácil que possa autorizar o aumento do acesso à pornografia infantil ou encontros sexuais – mas por meio de uma verdadeira transformação das concepções ocidentais do erótico como fundamentalmente oposto à razão, à cultura, à humanidade e à masculinidade.

Uma perspectiva ecofeminista queer argumentaria que a libertação do erótico exige reconceituar os seres humanos como igualmente participantes na cultura e na natureza, capazes de explorar o erotismo da razão e a racionalidade única do erótico. As ecofeministas devem se preocupar com a libertação queer, assim como as/os queers devem estar preocupadas/os com a libertação das mulheres e da natureza; as nossas opressões paralelas têm se originado de nossas associações percebidas. É tempo de construir a nossa libertação conjunta através de coligações mais concretas.

 

Artigo escrito por Greta Claire Gaard, originalmente publicado como “Toward a Queer
Ecofeminism”, Hypatia, v. 12, n.1, 1997. p. 114-137. Traduzido pela Revista Estudos Feministas, 1, 2011. Republicado no Modefica sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. Leia a primeira parte do texto clicando aqui

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