Rumo ao Ecofeminismo Queer: Sexualizando a Natureza, Naturalizando a Sexualidade

Embora muitas ecofeministas reconheçam o heterossexismo como um problema, uma investigação sistemática do potencial de cruzamento entre as teorias ecofeminista e queer ainda tem que ser feita. Ao interrogar as construções sociais do ‘natural’, os diversos usos do cristianismo como uma lógica de dominação e a retórica do colonialismo, este artigo considera aquelas intersecções teóricas e defende a importância de desenvolver um ecofeminismo queer.

Ativistas e estudiosas/os progressistas frequentemente lamentam a desunião da política de esquerda nos Estados Unidos. Muitas vezes caracterizado como um ‘pelotão de fuzilamento circular’, a esquerda ou movimento progressivo é conhecido por seus debates e hostilidades intelectuais, que serviram para polarizar muitos grupos que poderiam trabalhar em coligação: sindicalistas, ambientalistas, ativistas de direitos civis, feministas, ativistas dos direitos dos animais, ativistas de direitos indígenas e ativistas LGBT (lésbicas/gays/bissexuais/transgêneros). Entretanto, observa-se que a direita conservadora nos Estados Unidos não perdeu tempo em reconhecer as conexões entre estes diversos movimentos libertários e lançou uma campanha (mais recentemente articulada no “Contrato com a América”) para garantir a sua aniquilação coletiva. Como resultado, parece que o futuro da organização progressiva pode muito bem depender da capacidade de acadêmicas/os e ativistas reconhecerem e articularem com eficácia as suas várias bases para coalizão. Na teoria e na prática, o ecofeminismo já contribuiu muito para este esforço.

Na raiz do ecofeminismo está a compreensão de que os vários sistemas de opressão se reforçam mutuamente. Com base na visão feminista socialista de que o racismo, classismo e sexismo estão interligados, ecofeministas reconheceram semelhanças adicionais entre todas aquelas formas de opressão humana e as estruturas opressivas do especismo e naturismo. [1] Um impulso para o início do movimento ecofeminista foi a constatação de que a libertação das mulheres – o objetivo de todos os ramos do feminismo – não pode ser plenamente realizada sem a libertação da natureza; e inversamente, a libertação da natureza – tão arduamente desejada por ambientalistas – não será plenamente alcançada sem a libertação das mulheres: vínculos conceituais, simbólicos, empíricos e históricos entre as mulheres e a natureza, como são construídos na cultura ocidental, requerem que feministas e ambientalistas abordem estes esforços libertadores conjuntamente se quisermos ser bem-sucedidas/os. [2]

Até o momento, a teoria ecofeminista tem florescido explorando as conexões entre muitas questões: racismo, degradação ambiental, economia, política eleitoral, libertação animal, políticas reprodutivas, biotecnologia, biorregionalismo, espiritualidade, práticas de saúde holística, agricultura sustentável entre outras. Ativistas ecofeministas têm trabalhado em movimento por justiça ambiental, movimento verde, movimento antitóxicos, movimento de mulheres espiritualistas, movimento de libertação animal e movimento por justiça econômica. Para continuar e construir esses esforços rumo a coalizão, eu gostaria de explorar neste artigo as conexões entre o ecofeminismo e a teoria queer. [3]

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“Temos que analisar a forma como o racismo, heterossexismo, classismo, discriminação por idade e o sexismo estão todos relacionados ao naturismo”, escreve a autora ecofeminista Ellen O’Loughlin.[4] Chaia Heller elabora: “O amor pela natureza é um processo de tomada de consciência e de desaprender as ideologias do racismo, sexismo, heterossexismo e também da discriminação de pessoas por suas habilidades para que possamos deixar de reduzir a nossa ideia de natureza a uma ‘bela mãe’ escura heterossexual.”[5] Mas como Catriona Sandilands astutamente comenta, “não é suficiente simplesmente adicionar o ‘heterossexismo’ à longa lista de dominações que moldam nossas relações com a natureza, fingindo que podemos apenas ‘adicionar queers e mexer”. [6] Infelizmente é exatamente esta abordagem que tem caracterizado a teoria ecofeminista até o momento, e é esta a razão pela qual acredito que é hora de queers saírem da floresta e falarem por elas/es mesmas/os. [7]

O objetivo deste artigo é demonstrar que, para ser verdadeiramente inclusiva, qualquer teoria ecofeminista deve levar em consideração as discussões da teoria queer; similarmente, a teoria queer deve considerar os achados do ecofeminismo. Para esse fim, examinarei vários cruzamentos entre o ecofeminismo e a teoria queer, demonstrando assim que uma sociedade democrática e ecológica concebida como o objetivo do ecofeminismo será, necessariamente, uma sociedade que valorize a diversidade sexual e erótica.

O primeiro argumento que liga o ecofeminismo e a teoria queer é baseado na observação de que a desvalorização do erótico da cultura ocidental dominante é paralela à desvalorização das mulheres e da natureza; com efeito, essas desvalorizações se reforçam mutuamente. Esta observação pode ser extraída das críticas ecofeministas que descrevem os dualismos normativos, o pensamento de valorização hierárquica e a lógica de dominação que juntos caracterizam o quadro ideológico da cultura ocidental. Como Karen Warren explica, os dualismos de valor são formas de organizar conceitualmente o mundo em termos binários distintos, onde cada lado do dualismo é “visto como exclusivo (e não inclusivo) e de oposição (ao invés de complementar) e onde um valor maior ou superioridade é atribuído a um disjunto (ou lado do dualismo) em relação ao outro”. [8]

Uma sociedade democrática e ecológica concebida como o objetivo do ecofeminismo será, necessariamente, uma sociedade que valorize a diversidade sexual e erótica.

A crítica de filosofia ocidental, de 1993, de Val Plumwood, reúne os aspectos mais salientes destas e de outras críticas ecofeministas, ao que ela chama de “modelo mestre”, a identidade do que está no cerne da cultura ocidental e que tem iniciado, perpetuado e se beneficiado da alienação e da dominação da cultura ocidental sobre a natureza. A identidade do mestre, segundo Plumwood, cria e depende de uma “estrutura dualizada de outridade e negação”. [9]

Elementos-chave desta estrutura são os seguintes conjuntos de pares de dualismos: [10]

· Cultura/Natureza;
· Razão/Natureza;
· Masculino/Feminino;
· Mente/Corpo (natureza);
· Mestre/Escravo;
· Razão/Matéria (fisicalidade);
· Racionalidade/Animalidade (natureza);
· Razão/Emoção (natureza);
· Mente, Espírito/Natureza;
· Liberdade/Necessidade (natureza);
· Universal/Particular;
· Humano/Natureza (não humano);
· Civilizado/Primitivo (natureza);
· Produção/Reprodução (natureza);
· Público/Privado;
· Sujeito/Objeto;
· Eu/Outro.

Plumwood não reivindica a integralidade da lista. Na argumentação que se segue, vou oferecer uma série de razões pelas quais as ecofeministas devem especificar os dualismos de ligação entre brancas(os)/não brancas(os), financeiramente empoderadas(os)/pobres, heterossexual/ queer e razão/erótico. [11]

As ecofeministas têm descoberto uma série de características sobre a estrutura de bloqueio do dualismo. Primeiro, as filósofas ecofeministas têm mostrado que a afirmação da superioridade do eu é baseada na diferença entre o eu e o outro, tal como se manifesta na posse da plena humanidade e da razão pelo eu, mas que supostamente falta ao outro. Essa suposta superioridade do eu, aliás, é usada para justificar a subordinação do outro. [12] Em seguida, ecofeministas têm trabalhado para mostrar as ligações dentro da categoria desvalorizada do outro, demonstrando como a associação das qualidades de um grupo oprimido por outro serve para reforçar a sua subordinação. Os vínculos conceituais entre mulheres e animais, mulheres e corpo, ou mulheres e natureza, por exemplo, servem para enfatizar a inferioridade dessas categorias. [13]

Mas na medida em que todas as categorias de outro compartilham estas qualidades de ser feminizada, animalizada e naturalizada, as ecofeministas socialistas rejeitaram qualquer reivindicação de primazia de uma forma de opressão sobre a outra, abraçando, ao invés disso, o entendimento de que todas as formas de opressão estão agora tão intrinsecamente ligadas que os esforços de libertação devem ser destinados a desmantelar o sistema em si. Existe uma lacuna teórica, contudo, quando vemos que aquelas poucas ecofeministas, que fazem referência ao heterossexismo em suas listas introdutórias de opressão humana, ainda não levaram o dualismo heterossexual/queer adiante para ser analisado no contexto de suas listas verticais de pares de dualismos e, consequentemente, na teoria que está sendo desenvolvida. Em alguns casos, o mesmo pode ser dito para o dualismo brancas(os)/não brancas(os).

Essa omissão é um grave erro conceitual, porque, de acordo com a teórica queer Eve Kosofsky Sedgwick, o dualismo heterossexual/queer tem afetado a cultura ocidental, “marcando de maneira indelével” [14] esses (outros) dualismos normativos. Em seu livro Epistemology of the Closet, Sedgwick considera que estes dualismos normativos (ou “oposições binárias simétricas”) realmente subsistem numa relação tácita mais instável e dinâmica, segundo a qual, em primeiro lugar, o termo B não é simétrico, mas subordinado ao termo A; mas, em segundo lugar, o termo A, ontologicamente valorizado, depende para seu significado da simultânea subjugação e exclusão do termo B; então, em terceiro lugar, a questão da prioridade entre as categorias supostamente central e supostamente marginal de cada dupla é irresoluvelmente instável, uma instabilidade causada pelo fato de o termo B ser constituído ao mesmo tempo como interno e externo ao termo A. [15]

As constatações de Sedgwick guardam ressonância com a teorização de Plumwood acerca dos postulados de ligação que conectam tais dualismos tanto ‘horizontalmente’ como ‘verticalmente’ (nos meus termos). Estes postulados de ligação incluem: [16]

1. PANO DE FUNDO: no qual o mestre conta com os serviços do outro e, simultaneamente, nega sua dependência;
2. . EXCLUSÃO RADICAL: no qual o mestre amplia as diferenças entre o eu e o outro e minimiza as qualidades compartilhadas;
3. INCORPORAÇÃO: no qual as qualidades do mestre são tomadas como padrão e o outro é definido em termos de possuir ou não aquelas qualidades;
4. INSTRUMENTALISMO: no qual o outro é construído como não tendo um fim em si mesmo e o seu único propósito é servir como recurso para o mestre;
5. HOMOGENEIZAÇÃO: no qual a classe dominada dos outros é percebida como uniformemente homogênea.

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Queers experimentam pano de fundo, exclusão radical e incorporação. Como Sedgwick argumenta, a identidade heterossexual é constituída pela negação de sua dependência da identidade homossexual/queer (pano de fundo). Em termos de exclusão radical, queers percebem que o erótico (um erótico particularmente perverso) é projetado sobre a sexualidade queer a tal ponto que esta qualidade é vista como a única característica saliente da identidade queer. Quando queers saem do armário, heterossexuais frequentemente concluem que sabem tudo o que há para saber sobre nós, uma vez que conhecem a nossa sexualidade. Em termos de incorporação, fica claro que a heterossexualidade e as suas identidades de gênero associadas são tomadas como padrão na cultura ocidental dominante e queers são definidas/os primariamente em relação àquele padrão e à nossa incapacidade de cumprimento do mesmo.

Mas o problema da opressão baseada na sexualidade não se restringe ao dualismo heterossexual/queer. Como teóricas/os queer têm mostrado, o maior problema é a erotofobia da cultura ocidental, um medo do erótico tão forte que apenas uma forma de sexualidade é abertamente permitida; em apenas uma posição; e somente no contexto de certas sanções legais, religiosas e sociais. [17] A opressão de queers pode ser descrita de forma mais precisa, então, como o produto de dois dualismos que se reforçam mutuamente: heterossexual/queer e razão/erótico.

Como Plumwood demonstrou muito habilmente, a opressão da cultura ocidental sobre a natureza pode ser rastreada, até a construção do macho humano dominante, como um eu fundamentalmente definido pela sua propriedade da razão; e a construção da razão, como definitivamente contrária à natureza e a tudo o que está associado com a natureza, incluindo as mulheres, o corpo, emoções e reprodução. [18] As feministas também argumentaram que a opressão das mulheres na cultura ocidental é caracterizada pela nossa associação com a emoção, o corpo e reprodução, e elas têm respondido a estas associações de três formas diferentes. Algumas rejeitaram essas associações e tentaram alinhar-se à esfera pública masculina da racionalidade (feministas liberais). Outras têm revertido a valorização e abraçado essas associações, enquanto desvalorizam a cultura masculina racional (feministas culturais). Em contrapartida, as ecofeministas têm defendido uma “terceira via”, uma que rejeita a estrutura do dualismo e reconhece homens e mulheres como partes iguais da cultura e da natureza. [19]

Como um desenvolvimento lógico do ecofeminismo, uma teoria ecofeminista queer iria trabalhar sobre estas análises, utilizando tanto a teoria queer como as teorias feministas a respeito da opressão do erótico. Embora o dualismo razão/erótico pareça ser um aspecto do dualismo original natureza/cultura, o dualismo heterossexual/queer é um desenvolvimento relativamente recente, pois somente no século passado os conceitos de identidade homossexual e heterossexual se desenvolveram. [20] Uma perspectiva ecofeminista queer diria que os dualismos razão/erótico e heterossexual/queer já se tornaram parte da identidade do mestre e que o desmantelamento desses dualismos é parte integrante do projeto do ecofeminismo.

A opressão da cultura ocidental sobre a natureza pode ser rastreada, até a construção do macho humano dominante, como um eu fundamentalmente definido pela sua propriedade da razão; e a construção da razão, como definitivamente contrária à natureza e a tudo o que está associado com a natureza, incluindo as mulheres, o corpo, emoções e reprodução.

Trazer esses dualismos para a lista de dualismos eu/ outro e natureza/cultura oferecida por Plumwood é um passo em direção ao ecofeminismo queer. Com essa perspectiva complementar, ecofeministas poderiam achar muito produtivo explorar as associações ‘verticais’ de cada lado dos dualismos: associações entre razão e heterossexualidade, por exemplo, ou entre razão e ser branca/o, tal como definido em oposição às emoções e às pessoas não brancas; ou as associações entre mulheres, pessoas não brancas, animais e o erótico. A partir de uma perspectiva ecofeminista queer, então, podemos examinar as formas como queers são feminizadas/os, animalizadas/os, erotizadas/os e naturalizadas/os em uma cultura que desvaloriza as mulheres, os animais, a natureza e a sexualidade. Podemos também analisar a forma como as pessoas não brancas são feminizadas, animalizadas, erotizadas e naturalizadas. Finalmente, podemos analisar como a natureza é feminizada, erotizada e mesmo queerizada.

O ponto crítico a ser lembrado é que cada um dos grupos de identidade oprimida, cada característica do outro é visto como “mais perto da natureza” nos dualismos e ideologia da cultura ocidental. No entanto, as sexualidades queer são frequentemente desvalorizadas por serem “contra a natureza”. Contradições como esta não são de interesse para o mestre, embora tais contradições tenham sido de grande interesse para as/os teóricas/os feministas e queer, as/os quais têm argumentado que são justamente estas contradições que caracterizam as estruturas opressoras .[21]

Antes de iniciar a discussão sobre as sexualidades queer como ‘mais perto da natureza’ e ‘crimes contra a natureza’, é crucial reconhecer que a própria sexualidade é um fenômeno socialmente construído, que varia na definição de um contexto histórico e social para outro. Como as/os estudiosas/os da história queer têm demonstrado, não existia o conceito de uma identidade homossexual na cultura ocidental antes do século XIX. [22] Até então, as pessoas falavam (ou não falavam) de atos homossexuais, desvio e sodomia como ações individuais e isoladas; as pessoas que praticavam aqueles atos eram, entretanto, sempre tidas como “normais” (a palavra “heterossexual” não era corrente). Tais atos homossexuais eram castigados como excessos pecaminosos, transgressões morais de injunções bíblicas.

A mudança de visão do comportamento homossexual como um pecado para vê-lo como ‘um crime contra a natureza’ começou no século XVII. Já em 1642, os ministros das colônias americanas começam a se referir às “luxúrias antinaturais de homens com homens, ou mulheres com mulheres”, “atos antinaturais” e “atos contra a natureza”. [23] “Após a Revolução Americana”, no entanto, “a frase ‘crimes contra a natureza’ apareceu cada vez mais nos estatutos, afirmando que os atos de sodomia ofendiam uma ordem natural e não a vontade de Deus”. [24] A distinção natural/artificial tinha a ver com a procriação, mas mesmo os atos ‘naturais’ que tendiam à procriação poderiam ser maculados pela luxúria e, portanto, não estavam isentos do pecado. Todavia, a luxúria que levava à procriação era preferível à luxúria “antinatural”. [25] Finalmente, uma terceira mudança na definição da homossexualidade ocorreu no final do século XIX. Através dos trabalhos de sexólogos tais como Havelock Ellis, Magnus Hirschfeld e Richard von Krafft-Ebing, a inversão sexual tornou-se uma identidade reconhecível e passou-se a acreditar que as origens da inversão sexual estavam na psicologia do indivíduo. A palavra heterossexual apareceu pela primeira vez nos textos médicos americanos em 1890, [26] mas na imprensa popular só apareceu depois de 1926. [27]

Hoje, quase trinta anos depois da rebelião de Stonewall, que lançou o movimento de libertação gay, a definição de identidades queer ainda está evoluindo. O termo “homossexual” foi alterado para “gay”, e “gay” para “gay e lésbica”; bissexuais tornaram-se mais visíveis; e, mais recentemente, a libertação transexual têm também reconfigurado a comunidade queer. Essas alterações levaram muitas organizações a substituir “gay e lésbica” por “gay/lésbica/bissexual/transexual” ou simplesmente “queer” em sua autodefinição. O reconhecimento de diferentes identidades e práticas sexuais tem inspirado uma releitura não só da história hétero ou da história queer, mas da história da própria sexualidade. Com base nesses desenvolvimentos históricos, as/os teóricas/os queer têm determinado que as sexualidades queer (tanto práticas como identidades) têm sido vistas como transgressivas em pelo menos três categorias: como atos contra a moralidade bíblica, contra a natureza ou contra a psicologia. Assim, as sexualidades queer têm sido vistas como um problema moral, um problema fisiológico ou um problema psicológico. [28] Embora todos os três argumentos sejam utilizados contra todas as variedades de sexualidades queer, hoje, o argumento de ‘crimes contra a natureza’ destaca-se como tendo o maior interesse imediato para as ecofeministas.

As/os teóricas/os queer que exploram a dicotomia natural/antinatural identificam que ‘natural’ está invariavelmente associado à ‘procriação’. A equação de ‘natural’ com ‘procriação’ deve ser familiar a todas as feministas, pois é justamente esta reivindicação que tem sido utilizada em várias tentativas de manipular as mulheres de volta à maternidade compulsória e à chamada esfera das mulheres. De uma perspectiva histórica, a equação que identifica a ‘verdadeira natureza’ das mulheres com a maternidade tem sido usada para oprimir as mulheres, assim como a equação da sexualidade com a procriação tem sido usada para oprimir as mulheres e as/os queers. A acusação de que as sexualidades queer são ‘contra a natureza’ e, portanto, moralmente, fisiologicamente e psicologicamente depravadas e desvalorizadas parece dar a entender que a natureza é valorizada – mas como as ecofeministas têm demonstrado, não é esse o caso. Na cultura ocidental, exatamente o contrário é verdadeiro: a natureza é tão desvalorizada quanto as/os queers. Aqui novamente há uma das muitas contradições que caracterizam a ideologia dominante. Por um lado, de uma perspectiva queer, aprendemos que a cultura dominante caracteriza as/os queers como transgredindo a ordem natural, o que implica que a natureza é valorizada e deve ser obedecida. Por outro lado, a partir de uma perspectiva ecofeminista, aprendemos que a cultura ocidental construiu a natureza como uma força que deve ser dominada para que a cultura prevaleça. Ao juntarmos essas duas perspectivas, podemos perceber que, na verdade, essa tal ‘natureza’ que queers são instadas/os a cumprir não é outra coisa senão o paradigma dominante da heterossexualidade – uma identidade e uma prática que são em si mesmas construções culturais, como feministas e teóricas/os queer já nos mostraram.[29]

Existem muitas falhas na afirmação de que as sexualidades queer são ‘antinaturais’. A primeira entre elas é que tal afirmação não reflete a variedade de práticas sexuais encontradas em outras espécies. O comportamento homossexual feminino foi encontrado em frangos, perus, camaleões e vacas, enquanto o comportamento homossexual masculino tem sido observado em moscas de frutas, lagartos, touros, golfinhos, botos e macacos. [30] Uma análise do comportamento social de insetos revela que a fêmea de escorpião mata o macho após o acasalamento, a aranha viúva negra devora o macho após o acasalamento e o louva-a-deus fêmea pode comer o macho enquanto copula. Alguns animais são hermafroditas (caracóis, minhocas), enquanto outras espécies são inteiramente fêmeas (alguns tipos de carpa). O comportamento de cópula também varia ao longo das diferentes espécies de mamíferos.

Alguns pares se tornam companheiros por toda a vida (chacais), alguns são promíscuos (zebras, a maioria das baleias, chimpanzés). Em algumas espécies, machos e fêmeas viajam juntos em rebanhos, hordas ou grupos (bois almiscarados, lobos, leões); em outros, grupos familiares são a unidade básica (coiotes, gibões); em outros, machos e fêmeas gastam a maior parte do seu tempo em grupos do mesmo sexo e reúnem-se apenas para o acasalamento (hipopótamos); em outros ainda, todos são solitários que buscam os membros de sua espécie para fins de procriação (pandas).[31]

A equação que iguala o comportamento sexual ‘natural’ com a finalidade reprodutiva é conclusivamente refutada, tanto pela evidência dos comportamentos para o mesmo sexo quanto pelas observações de atividade sexual durante a gravidez, que foram identificadas entre chimpanzés, gorilas, macacos rhezus, macacos carecas, macacos japoneses e o mico-leão-dourado.[32] Em seu estudo sobre bonobos (chipanzé pigmeu), uma espécie que, juntamente com o chimpanzé, é o parente mais próximo do Homo sapiens, Franz de Waal [33]observou que o comportamento sexual servia para uma variedade de funções reprodutivas e não reprodutivas. Com efeito, a pesquisa sobre o comportamento sexual de primatas não humanos indica que os primatas não humanos “[se] engajam em atividade sexual muito mais do que eles precisam do ponto de vista reprodutivo e, portanto, muito de sua sexualidade é não reprodutiva”.[34] Como Jane Curry concluiu, “se olharmos para a natureza como modelo para o comportamento humano somos obrigados – não somos? – a valorizar a tolerância e o pluralismo. [35] Isso, no entanto, é a segunda falha da afirmação de que as sexualidades queer são ‘antinaturais’: as normas para uma espécie não podem ser derivadas de condutas e normas observadas em outras espécies.

Ao tentar ‘naturalizar’ a sexualidade, o discurso dominante da cultura ocidental constrói as sexualidades queer como ‘antinaturais’ e, portanto, subordinadas. Como escreve Jeffrey Weeks em Contra a natureza, “apelos à natureza, às reivindicações do que é natural estão entre as mais potentes afirmações que podemos fazer. Eles nos colocam num mundo de aparente fixidez e verdade. E parece nos dizer o que e quem somos e para onde estamos indo. Parece nos dizer a verdade”.[36] Argumentos de ‘natureza’, como filósofas feministas da ciência têm repetidamente defendido, são frequentemente usados para justificar as normas sociais, em vez de descobrir algo novo sobre a natureza.[37] As tentativas de naturalizar uma forma de sexualidade têm a função de tentar encerrar a investigação sobre a diversidade sexual e práticas sexuais e de ganhar o controle do discurso sobre a sexualidade. Tais tentativas são manifestações da homofobia e erotofobia da cultura ocidental.

Voltando à lista de dualismos que as ecofeministas têm demonstrado para caracterizar a cultura ocidental e examinar como as qualidades são distribuídas, ao longo de cada lado das disjunções, para reforçar a superioridade (ou seja, a associação de cultura, homens e razão) ou subordinação (a associação entre natureza, mulheres e o erótico) da disjunção, podemos ver que a erotização da natureza enfatiza a sua subordinação. A partir de uma perspectiva ecofeminista queer, então, fica claro que a libertação das mulheres exige a libertação da natureza, do erótico e das/os queers. As conexões conceituais entre a opressão das mulheres, natureza e queers torna esta necessidade particularmente clara.

Artigo escrito por Greta Claire Gaard, originalmente publicado como “Toward a Queer
Ecofeminism”, Hypatia, v. 12, n.1, 1997. p. 114-137. Traduzido pela Revista Estudos Feministas, 1, 2011. Republicado no Modefica sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. Leia a segunda parte clicando aqui

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