1.6ºC: IPCC Revela Que a Poluição Atmosférica Mascara o Aquecimento Global

A nova publicação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), lançada recentemente, sintetiza o que muitos estudos têm demonstrado nos últimos anos: a crise climática está acontecendo agora e tende a piorar – aumentando, também, os eventos climáticos extremos. Pela primeira vez, o relatório quantifica as consequências negativas da poluição atmosférica para a crise climática: como ela mascara o aquecimento do globo. Segundo dados do relatório, aerossóis contribuíram para gerar uma média de sensação de resfriamento de 0.5ºC. Esse cenário aponta para projeções mais duras e a necessidade do comprometimento de líderes mundiais e de empresas.

O documento definido como “AR6”, Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, traz a compreensão do estado atual do clima, incluindo como ele está mudando e o papel da influência humana e os possíveis cenários futuros, medidos em uma escala de quanto conseguiremos refrear o aumento das temperaturas. Em diversos momentos, o relatório deixa claro que “é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra”. Citando mais de 14 mil referências, os especialistas utilizaram-se dessa base científica para definir afirmativas com “média confiança”, “alta confiança”, “muito provável”, “extremamente provável”.

Os dados compilados no documento de mais de três mil páginas trazem verdades difíceis de serem digeridas: a influência humana aqueceu o clima a uma taxa sem precedentes pelo menos nos últimos 2 mil anos; em 2019, a concentração atmosférica de CO2 foi maior do que em qualquer momento em pelo menos 2 milhões de anos; o oceano aqueceu mais rápido no século passado do que desde o final da última transição deglacial (cerca de 11 mil ano atrás); a cada 0.5ºC aquecido, aumentam as chances de eventos climáticos extremos acontecerem, em 2050 teremos um planeta duas vezes mais quente.

Mas uma, em especial, chama a atenção: enquanto os gases do efeito estufa (GEEs) foram responsáveis pelo aquecimento da temperatura, outros condutores humanos, principalmente os aerossóis, contribuíram com uma média de resfriamento de 0.5ºC – ou seja, 1/3 do valor total. Pela primeira vez, o painel conseguiu quantificar a ação dessa ação antropogênica. Isso significa que, na verdade, já aquecemos 1.6ºC o planeta Terra. Tal informação levanta a suposição de que a poluição atmosférica tem sido uma “aliada” contra a crise climática. Mas isso é bom?

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Do resfriamento à chuva ácida

Aerossóis são classificados como micropartículas sólidas, líquidas e gasosas suspensas no ar. Eles estão naturalmente presentes na Natureza, por meio de poeira e incêndios florestais, mas é pela ação humana – emissões de veículos, indústria, pesticidas – que eles exercem alterações no balanço da crise climática. Os aerossóis são considerados de rápida dispersão na atmosfera, mas a principal forma de removê-los é a chuva. E, aí, está um problema.

Com o aumento da temperatura, aumenta também os períodos de seca e aridez continental. Segundo o IPCC, “a temperatura global da superfície foi 1,09ºC mais alta em 2011-2020, do que em 1850-1900”. O AR6 salienta que, enquanto a presença dos aerossóis sofreu redução em latitudes médias no Hemisfério Norte, no final do século XX, essas partículas aumentam no sul da Ásia e África Oriental. O documento também aponta que as tendências globais de aerossóis carbonosos [1] permanecem mal caracterizados devido a observações limitadas.

Entre os principais aerossóis responsáveis pelo resfriamento da Terra, está o dióxido de enxofre (SO2). Em contato com superfícies úmidas, o SO2 se transforma rapidamente em trióxido de enxofre (SO3) e em ácido sulfúrico (H2SO4). O dióxido de enxofre presente na atmosfera pode originar chuva ácida que atinge corpos d’água, corrói edifícios, estruturas metálicas e condutores elétricos. A chuva ácida também causa redução de visibilidade. O IPCC afirma que essa concentração pode ser de 5 a 10 vezes mais elevado em grandes cidades onde o carvão ainda é usado para o aquecimento de moradias e no preparo de alimentos.

Esse dado chama atenção quando levamos em conta que, segundo estatísticas, entre 2016 e 2019, o crescente preço do gás levou ao aumento de quase 30% no número de famílias que usam lenha ou carvão para cozinhar. Segundo a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), o dióxido de enxofre também origina os sulfatos (SO4), um dos principais componentes das partículas inaláveis (MP10) [2].

Já um estudo publicado em 2019 na Nature Communications aponta que a poluição de Manaus aumenta em até 400% a formação de aerossóis pela Floresta Amazônica. Os pesquisadores mediram os compostos da pluma da poluição provinda da cidade, como ozônio (O3), óxidos de nitrogênio (NOx) e dióxido de enxofre (SO2). O aerossol no meio ambiente causa aumento da fotossíntese, mas, em excesso, ele atrapalha o fluxo natural da planta. O poluente mexe diretamente com a radiação solar, diminuindo a luz e dificultando a absorção de carbono pelas plantas.

Em resumo, os aerossóis, que aparentemente têm “controlado” a crise climática, não podem continuar por aqui – os prejuízos à Natureza e à sociedade são incontáveis. A tendência é que com a descarbonização dos países, a troca para veículos elétricos, e a diminuição de agrotóxicos na agricultura, a presença dos aerossóis diminua e o globo aqueça uma média de 0.5ºC. O relatório do IPCC deixa claro: ainda que façamos ações reais para desacelerar as emissões, a temperatura ainda vai subir e ainda vamos ver mais alterações climáticas acontecendo no futuro.

 

Ação Mundial Imediata

O IPCC traz como novidade nesta edição um Atlas Interativo, no qual o usuário pode simular projeções futuras de acordo com as características que deseja observar, como áreas secas e temperatura oceânica, em determinado período do ano. Uma coisa é certa: a crise climática já está afetando todas as regiões da Terra, de várias maneiras.

O que o relatório exprime, para além de dados preocupantes, como a projeção de 2ºC, que irá passar do limite de tolerância para a agricultura e saúde humana, é um pedido de ação imediata dos tomadores de decisão. “Os governos precisam se comprometer com uma ação mais dura na Assembléia Geral da ONU, oferecer apoio aos países mais pobres e melhorar seus planos climáticos”, reforça Laurence Tubiana, CEO da European Climate Foundation.

Em uma live promovida pela Agência Fapesp, a Vice-presidente do IPCC, Thelma Krug, afirmou que a organização deve lançar em fevereiro de 2022 um relatório sobre as vulnerabilidades regionais frente a esses cenários e, em março de 2022, um relatório sobre mitigações.

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